Revisitando a questão da prática diária

O primeiríssimo texto que eu publiquei aqui n’O Zigurate se chama “Dicas para uma prática diária” – aliás, foi quando nem havia O Zigurate ainda, mas apenas o meu antigo perfil no Medium, que eu fiz em março de 2020, meses antes de criar este site no WordPress em agosto do mesmo ano. Quando eu escrevi esse texto, a minha intenção era oferecer algumas dicas para ajudar a estruturar uma prática mágico-espiritual de rotina, pensando a partir do repertório que eu tinha na época e tendo em mente a questão do quanto março de 2020 inaugurou um período macabro para todos nós. Hoje eu gostaria de revisitar esse texto para comentar, repensar e elaborar melhor, com um pouco mais de nuance, algumas coisas que eu falei nessa época.

Eu podia simplesmente voltar lá e mexer no texto (e eu de fato fiz alguns acréscimos em setembro de 2021), mas, como tantos anos se passaram e eu me tornei praticamente outra pessoa nesse processo, com todo um outro universo de referências, mexer no texto seria para reescrevê-lo do zero e eu prefiro optar pela preservação, nem que seja para eu olhar para trás e pensar “ó aí ó, a bobeira do jovem”. Dito isso, vamos lá.

Hermes Trismegisto, em ilustração do Viridarium Chymicum (1624) de Daniel Stolcius von Stolcenberg. Foi a imagem que eu usei para ilustrar o post original.

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Nosso primeiro tema para discussão são as questões apresentadas na abertura do texto e que explicam o motivo de uma prática de rotina mágica ser necessária e recomendável. Jason Miller comenta como “toda vocação que valha alguma coisa tem um conjunto de habilidades que deve ser aprendido, desenvolvido e mantido”, como eu citei. A magia é a mesma coisa. As práticas de rotina têm a função de manter afiadas as habilidades desenvolvidas e ampliar essas capacidades. Eu sempre faço uma analogia com o corpo físico, que também precisa ser nutrido e exercitado. Porém, embora a minha opinião não tenha mudado de lá para cá, a autocrítica aqui é que essa é uma analogia, não uma explicação. Então, vamos lá explicar as coisas direito agora.

Quando falamos dos planos sutis, estamos falando de “energias”1, o termo normalmente usado para descrever as substâncias que ocupam esses planos e que têm um respaldo na literatura esotérica pelo fato de que energeia era realmente o termo usado nos textos do Corpus Hermeticum, com esse sentido mesmo de algum tipo de força mágica ou cósmica2. O conceito, conforme observamos em diversas obras, é o de que o mundo material é apenas a ponta do iceberg das coisas e que o que observamos nele é a culminação de processos que ocorrem nos planos sutis, as camadas da realidade que os sentidos físicos não acessam normalmente. Quando a gente vem para esta vida, as forças responsáveis por esse processo moldam para nós, a partir dessas energias, uma série de corpos que são usados para que a consciência possa navegar cada um desses planos. Indo pela divisão teosófica simplificada3, temos um corpo mental para explorar o plano mental, que é a camada da realidade que se ocupa de informações e leis básicas do universo, um corpo astral para explorar o plano astral ou emocional, que é o mundo das formas, um corpo etérico para explorar o plano etérico e, por fim, um corpo físico para explorar o plano físico.

Num primeiro nível, os corpos precisam ser alimentados. Já falamos disso anteriormente: nutrientes, como proteínas, carboidratos etc alimentam o corpo físico; os pranas (energia vital) do sol, do solo e do ar alimentam o corpo etérico4; sentimentos alimentam o corpo astral; conhecimento alimenta o corpo mental; e a energia divina de preces, devoções e da contemplação do Sagrado e do Numinoso alimenta o nosso corpo espiritual. Sem esse alimento, portanto, os corpos definham. Um corpo físico sem nutrientes se torna subnutrido e fraco, mal consegue sustentar a pessoa e fica suscetível a doenças. O corpo etérico é muito próximo do físico e vai padecer se o físico estiver subnutrido e/ou doente também, mas é possível ter um corpo físico bem nutrido, porém deficiente em energia vital, se a pessoa morar num lugar onde há pouca luz solar, onde a terra é infértil e a qualidade do ar, pobre. Nesses casos, a pessoa tende a apresentar um aspecto doente e falta de vitalidade mesmo que seus exames médicos estejam relativamente saudáveis. Mas os outros corpos sofrem também. O corpo astral de alguém que não recebe amor, nem experiências emocionais de outra ordem (artística, por exemplo) se torna debilitado e a pessoa se vê relegada a uma existência cinzenta. O corpo mental de quem não tem curiosidade e não busca ser desafiado intelectualmente, nem aprender coisas deixa a pessoa intelectualmente limitada.

Já o caso da energia espiritual é curioso, porque, em grandes quantidades, ela pode alimentar todos os outros corpos abaixo (em casos excepcionais, pode inclusive alimentar o corpo físico) e a sua falta não é percebida de imediato. Como eu falei no texto sobre os corpos sutis, quando ausente, essa é uma fome que é sentida de forma mais difusa, como uma falta de sentido na vida ou um vazio que a pessoa nem sabe o que é. Quem mexe com magia, no entanto, pode esbarrar nesse problema em termos bastante concretos: a prática indiscriminada de feitiços e “práticas de manifestação” sem uma rotina de conexão com o Divino rapidamente esgota essa reserva e deixa a pessoa estagnada e sem força para realizar mais nada.

Aqui estamos tratando ainda apenas do primeiro nível. Num segundo nível, depois de os corpos estarem devidamente nutridos, vem a questão do seu desenvolvimento. Ninguém pega músculo passando fome, afinal, para manter a analogia. E esse desenvolvimento pode ser mais específico ou generalizado.

Corpo energético: auras e chakras (fonte)

Pensando em termos de chakras, que são os centros de energia distribuídos ao longo de nosso corpo sutil, esse desenvolvimento pode ser específico ao realizarmos atividades associadas a esses chakras. Quem trabalha com o corpo físico, como atletas e dançarinos, tende a fortalecer especialmente os seus chakras da parte de baixo do corpo, como o básico, o sexual e o umbilical. Quem tem trabalhos mais mentais tende a fortalecer os chakras da parte de cima, como o ajna e a garganta. Quem tem algum treinamento com Pranic Healing consegue facilmente averiguar essas informações avaliando com as mãos os chakras das pessoas. Mas é importante frisar que, embora as atividades de um dado chakra o fortaleçam, se essas atividades forem praticadas em excesso, elas chegam ao efeito oposto e levam à sua exaustão.

Já o desenvolvimento generalizado ocorre com as devidas práticas esotéricas. Isso é o que, no taoísmo, é chamado de cultivação, autocultivo ou xiūshēn. Há um elemento filosófico aí, de cultivo no sentido dos valores taoístas e sua aplicação no cotidiano, mas também práticas que buscam cuidar da energia vital (qi) do indivíduo. Tanto o taoísmo chinês (e disciplinas derivadas) quanto o Tantra no subcontinente indiano vão se preocupar com as devidas técnicas energéticas para limpar e fortalecer os principais componentes dos corpos sutis, que são os canais (meridianos ou nadis), os chakras e a aura. O modo como isso se dá detalhadamente vai, claro, variar conforme a técnica exata.

Por exemplo, uma prática tântrica bem conhecida é o nyasa (do sânscrito para “colocar”) que consiste em tocar certas partes do corpo com mantras e visualizações. Uma forma de nyasa bem conhecida entre instrutores de yoga do ocidente usa os mantras dos elementos para colocar essas energias nos chakras, com terra (mantra LAM) no chakra básico, água (mantra VAM) no sexual ou umbilical, fogo (RAM) no plexo solar, ar (YAM) no cardíaco, e éter (HAM) na garganta5. Existem outras formas de nyasa, que distribuem as sílabas sagradas do sânscrito6 ou mantras de deidades também, mas vamos nos concentrar no exemplo dos elementos primeiro. Nesse caso o que a técnica faz, sob o viés dos corpos sutis, é aplicar essa energia diretamente nos centros energéticos para desenvolvê-los: a energia é inserida e usada, mas uma parte será absorvida de forma permanente, fortalecendo o chakra a longo prazo. Segundo o modelo dos elementos, essas energias de fogo, ar, água, terra fazem parte dos nossos corpos sutis, por isso faz sentido a aplicação da energia elemental direto. Porém, se usássemos, digamos, apenas a energia de fogo nos chakras do corpo inteiro, o sistema ficaria sobrecarregado com a energia do fogo, o que causaria um desequilíbrio e deixaria a pessoa doente.

É lógico, portanto, que se opte por usar as energias de todos os quatro elementos, e que essas energias sejam distribuídas conforme uma dada lógica do que se entende como a sua compatibilidade com os centros energéticos. O arranjo citado é uma das opções, embora não seja a única. Na magia da Golden Dawn, essa técnica chegou na forma do Pilar Médio, em que a energia elemental é incluída junto com um mapeamento da Árvore da Vida cabalística no corpo conforme os nomes divinos hebraicos. Nesse sistema, coloca-se terra nos pés, água no chakra sexual, fogo no plexo solar e ar na garganta. Num exercício semelhante elaborado por Jason Miller, o elemento do fogo e do ar ficam no mesmo lugar, mas a terra vai para o períneo, ocupando ali a posição do sexual e básico, e ele coloca a água no cardíaco, com a ideia alquímica de que o fogo do plexo aquece a água do coração para subir o ar como vapor. Existem várias possibilidades e cada uma delas vai ter um efeito geral dependendo de como essa distribuição for feita – por isso é preciso cuidado e o uso de uma distribuição amalucada pode facilmente causar um desequilíbrio. No mais, embora cada técnica vá fazer algo específico àquela técnica, há um efeito geral de fortalecimento que pode ser observado. Essas práticas são o que eu chamei no texto de energizações.

A configuração dos elementos no exercício de Jason Miller e uma ilustração do Pilar Médio feita por Echols.

Por fim, sobre o assunto, preciso comentar um exercício que eu mesmo ensinei aqui. Em “Exercícios com as vogais planetárias” eu passei para vocês um ritual de envolver-se com as sete esferas, que depois foi citado de novo em “Uma rotina de práticas herméticas”. Essa energização é diferente do modelo anterior, porque enfatiza a aura em vez dos chakras. O que ele faz é mapear o indivíduo no centro da cosmologia hermética com as sete esferas planetárias clássicas. Isso é um empoderamento, porque esse processo sintoniza a pessoa com essa estrutura cósmica, e situá-la no centro é colocar todo o maquinário celeste para rodar em torno dela, mas o ritual também cerca a pessoa com a energia dos planetas como as camadas de uma cebola. A ideia é que uma parte dessa energia será absorvida pela aura para expandi-la e fortalecê-la com as repetições do exercício (assim como ocorre com a energia aplicada aos chakras), mas é possível absorvê-la internamente também por meio da prática da respiração pelos poros. O motivo de eu optar por ensinar uma energização com ênfase na aura em vez de os chakras é porque assim eu deixo em aberto a questão da distribuição dos elementos pelo corpo, com essa margem para que as pessoas possam escolher qual arranjo elas preferem. É possível combiná-la com uma energização de base elemental nos chakras ou então com uma energização que assente deidades no corpo da pessoa (porém isso, claro, tem que ser feito com muito cuidado. Não vou ensinar nada do tipo, porque não é algo de se aprender na internet).

Depois, o elefante na sala. Na época em que “Dicas para uma prática diária” foi escrito, eu falei em termos de banimentos e energizações, com essas palavras, porque eu ainda seguia muito influenciado pelo modelo da Golden Dawn, com os seus rituais do Banimento menor do Pentagrama e Pilar Médio. Hoje, eu prefiro falar em práticas de limpeza, em tons mais genéricos. Os rituais ditos de “banimento”, como o próprio RmP e equivalentes, ainda são úteis para quem adere religiosamente aos sistemas aos quais eles se inserem. Então se você trabalha com a magia da GD ou com magia thelêmica, é interessante praticar o RmP e o Rubi-Estrela. Se você tem uma prática mais freestyle, porém, há outras opções que são, inclusive, mais eficazes. E, não, ficar inventando rituais de banimento nos moldes do RmP dentro de outras egrégoras que não têm nada a ver com a GD é uma bobagem tremenda. O dito Ritual Gnóstico do Pentagrama, que muita gente gosta porque é um RmP sem os incômodos elementos abraâmicos, é uma técnica elaboradíssima para perder seu tempo. Nada disso chega perto sequer do nível de limpeza que você alcança com a varredura geral, para a aura, e a varredura localizada para os chakras, que são as técnicas que a gente aprende a fazer no nível básico de Pranic Healing.

Mantenho a minha recomendação, porém, dos mantras budistas ou do mantra hermético PSINOTHER para quem tem interesse nesse tipo de prática – a questão é que a eficácia do mantra vai depender também da sua força energética e alinhamento com a egrégora em questão. Para iniciantes e perdidos, a melhor coisa mesmo, a mais simples, é o banho de sal fino (link aqui) e a Meditação da Luz Violeta7 para a limpeza etérica e emocional dos chakras e de um pouco da aura. Para limpar os canais de energia, as recomendações são exercícios físicos, o hábito de banho frio esfregando bem a pele com uma bucha vegetal, como consta em Franz Bardon, e as práticas de respiração nadi shodhana pranayama (além da abstenção do consumo de alimentos densos como carne de porco).

E então chegamos no tema da devoção. Em termos abstratos, a devoção é o amor pelo divino. Simples assim. Esotericamente, a tendência é assimilarmos as características daquilo que contemplamos e adoramos, por isso a devoção, realizada com a devida consciência, é também uma forma de divinização. No bhakti yoga, que é a forma de yoga que busca a realização da alma pela devoção, entende-se que o divino em abstrato pode ser difícil demais de ser apreendido pelas nossas limitações humanas, por isso há o recurso à adoração de uma deidade específica que se apresenta de forma humanizada, que é o que chamam de Ishtadevata, a deidade a quem o devoto escolhe se dedicar. Existe uma hipótese acadêmica, embora ainda seja meio polêmica, de que o sufismo foi fortemente influenciado por – ou talvez mesmo se originado a partir de – uma absorção desses conceitos dentro do quadro religioso islâmico, no contexto da presença muçulmana no norte da Índia lá pelo ano 1000 – e o sufismo, de fato, vai ter lá suas ressonâncias com o bhakti yoga, na medida em que tem que tem em seu cerne o amor por Allah e a devoção ao ponto da dissolução do ego do devoto no divino. Essa é uma relação muito poderosa e mesmo para quem não pretende se tornar um sufi ou um bhakta eu recomendo demais a leitura desse tipo de literatura, porque é uma coisa belíssima.

No entanto, o caminho da devoção não é para todo mundo. Se você sente essa inclinação, eu acho válido que você a siga e veja se vale a pena investir em cultuar essa ou aquela deidade, mas seria idiotice forçar a barra se essa não é a sua praia só porque é uma coisa que eu recomendei. A questão, porém, é que todo mundo precisa encontrar a sua forma de conexão com o divino, como já falei em textos mais recentes. E aí essa é uma jornada interior que cabe a cada um, que inclui todo o processo de introspecção e pesquisa. No texto sobre a prática de conexão espiritual, eu recomendei procurar uma prece que entre em ressonância com você, o que pode envolver uma deidade específica e sua mitologia, sim, mas pode também tratar do divino de forma mais abstrata e envolver as egrégoras místicas de alguma outra forma. O importante é que essa prece seja poderosa, benéfica e mexa com você, a nível emocional, de modo que recitá-la e contemplá-la seja um prazer e não uma coisa que você faz por obrigação. Essa prática vai abrir e desenvolver a sua coroa para permitir receber energia divina.

Como dito acima, a energia divina tem o diferencial de poder nutrir todos os corpos e é um elemento importante também do seu desenvolvimento dos corpos sutis. Sim, se você trabalhar as funções de um dado chakra específico, ele vai se tornar maior e mais poderoso, se você ancorar as várias energias os seus corpos sutis vão se desenvolver, mas se não tiver uma boa descida de energia divina para isso, a coisa toda se torna muito mais lenta. Quanto mais energia divina for ancorada pela combinação de preces e meditação, mais rápido será o processo. Mas aí voltamos à questão da limpeza, porque para isso ocorrer, precisamos de técnicas de limpeza eficazes. Sem uma boa limpeza para tirar as energias sujas e estagnadas, os sentimentos e pensamentos que nos prendem a ciclos obsessivos e nos impedem de olhar além do nosso umbigo, a gente não consegue acessar a energia divina.

Arte apontando para o sistema de 7 chakras e 3 nadis, com suas deidades para a prática de nyasa (foi a imagem que eu usei para ilustrar o texto sobre chakras. Infelizmente ainda não achei sua autoria).

Então é por isso que eu recomendo essa sequência para a prática diária: técnicas de limpeza (primeiro no seu espaço e depois no seu próprio campo) para tirar os obstáculos, a energização para dar força e estimular o corpo energético para crescer, a devoção para fazer descer a energia divina e a meditação para ancorá-la. Por fim, é importante aterrar também para voltar ao normal. Se você for analisar a Meditação dos Corações Gêmeos, vai observar nela também alguns desses processos de forma mais explícita. Há outras coisas ocorrendo também, incluindo uma invocação no começo que acessa a egrégora da escola8, de onde vem toda a ajuda para que a operação inteira transcorra corretamente, a geração de karma positivo pela bênção da Terra e outros processos importantes que são preciosos demais para eu dissecar publicamente. Nesse sentido, a Meditação dos Corações Gêmeos é uma prática espiritual e energética completa. Praticá-la com regularidade, além de todos os outros benefícios (tranquilidade e paz de espírito, maior capacidade de lidar com as tretas da vida etc) vai desenvolver de forma segura e significativa o seu corpo de energia.

Beleza, mas e aí, quais as vantagens de fazer esse desenvolvimento? Não é algo para se fazer por ego ou por tédio, tem que ter um propósito. Como falamos, nutrir os nossos corpos deve ser nossa primeira prioridade, porque sem nutrição eles definham e a vida se torna inviável. A partir daí, desenvolver os corpos sutis para além da sua nutrição básica traz consigo toda uma série de benefícios. O primeiro deles é a proteção: uma aura forte, na qual foi ancorada bastante energia divina, é capaz de repelir as energias destrutivas por uma questão de pura incompatibilidade (semelhante atrai semelhante, afinal). Em contrapartida, com um sistema energético fraco a pessoa fica doente só de olharem feio para ela e precisa fazer descarrego sempre, porque é um ímã de kiumba e espíritos destrutivos no geral. Para pessoas normais, que não mexem com nada mais esotérico, a proteção de uma aura forte já oferece muita qualidade de vida porque vai barrar ali 90% dos ataques psíquicos comuns. Para quem é magista, é impensável fazer qualquer coisa sem ter essa proteção de base, porque a magia é justamente explorar o mundo invisível, e não dá para fazer isso com o equivalente espiritual de uma imunidade comprometida. Eu falo da perspectiva de quem trabalha com quebra de demanda: sem o desenvolvimento do sistema energético, eu não poderia colocar a mão nas buchas que eu pego, porque ia sobrar para mim.

No mais, esse desenvolvimento fornece um maior grau de estabilidade emocional, se conduzido corretamente9, a capacidade para fazer as coisas que você tem que fazer (e algumas dessas técnicas podem inclusive fornecer o que eu chamo de “doping energético”10, se necessário) e o poder para meditações avançadas, magia de manifestação, trabalhos de cura e até mesmo a resistência para segurar uma incorporação e lidar com as rebarbas energéticas depois11. Ou seja, se você oferece qualquer tipo de trabalho esotérico – não precisa ser o mesmo tipo de limpeza de fossa em que eu me meto, pode ser atendendo com oráculos ou terapias holísticas – não tem como contornar isso… a não ser que você queira adoecer e possivelmente perder sua sanidade mental.

De vez em quando é importante voltarmos para a base das nossas práticas e olharmos para elas com o viés da experiência. Foi o que eu quis fazer neste texto. O “Dicas para uma prática diária” original serviu ao propósito que ele teve naquele momento, que era incentivar as pessoas a terem uma prática mágico-espiritual de rotina, numa época em que elas estavam precisando e muitas tinham o tempo e a disposição para isso (todo mundo experimentou alguma coisa estranha na pandemia, né? Quantas pessoas não inventaram de fazer pão caseiro). Mas, relendo-o hoje e pensando no que eu recomendaria para a leitura dos meus alunos, ele soa superficial demais em retrospecto e demonstra algumas preocupações meio bestas. Revisitando-o como fiz neste texto, espero ter sanado essas questões e oferecido um guia mais completo para ajudar a orientar esse que é um processo tão importante na vida espiritual de cada um.

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  1. Importante frisar que energia nesse contexto não é a mesma coisa que a energia enquanto terminologia física que é mensurada em joules etc etc. Sem burrice, por favor. ↩︎
  2. Sobre isso, ver os comentários de Brian Copenhaver, o pesquisador e tradutor da edição em inglês. ↩︎
  3. Eu digo simplificada, porque, além do que o que eu chamo resumidamente de “corpo espiritual” os teosofistas incluem os planos ditos causal, búdico, átmico etc. E aí são graus de abstração elevados demais para esta conversa. ↩︎
  4. Mais sobre isso em Ciência da Cura Prânica, do Mestre Choa Kok Sui. ↩︎
  5. Também há o uso de mantras da garganta para cima, no ajna e na coroa, mas aí eles tendem a aparecer sem necessariamente uma conexão direta com os elementos, como o mantra OM. ↩︎
  6. No Sepher Yetzirah Magic, David Rankine oferece esse tipo de técnica adaptada para o contexto da Cabala judaica, declaradamente com essa intenção de fortalecimento do corpo sutil. ↩︎
  7. Uma gravação dessa meditação, conduzida pela Maíra, está disponível em nosso canal no Telegram. ↩︎
  8. Se você orienta o seu trabalho por alguma egrégora bem estabelecida, começar com uma invocação é importante. Pode observar que a rotina hermética que eu publiquei também começa invocando. ↩︎
  9. Esse trabalho precisa ser conduzido também com os processos de mudança interna, do contrário as características ruins da nossa personalidade podem acabar amplificadas. ↩︎
  10. O que eu chamo de “doping energético” é recorrer a essas técnicas para dar um gás a mais quando a gente precisa trabalhar, estudar, esse tipo de coisa. Não se deve abusar disso, no entanto, porque se passar do ponto, o burnout pode até ser adiado, mas vem com tudo mesmo assim. ↩︎
  11. Quem frequenta terreiro sabe que a incorporação é uma atividade que exige muito dos nossos corpos, ainda mais dependendo do tipo de entidade que vem, e o período de preceito antes da gira é recomendado, inclusive, como uma forma de diminuir a porrada. Eu já vi gente em redes sociais comentando que chega a ficar dias baqueada. Nesses casos, fica patente a necessidade de fortalecimento energético. E um domínio de práticas de limpeza também poupa muito trabalho para os guias. ↩︎

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