Tirando tarô antes de um ritual

Vamos supor a seguinte situação: você tem lá as suas práticas, mas esbarrou, talvez por via de um livro ou um post da internet (talvez aqui mesmo n’O Zigurate), em algum ritual que é meio fora do que você faz, mas que lhe parece interessante. Você não sabe se a energia daquela entidade vai casar com o que você já pratica, por exemplo, ou mesmo se você tem a força necessária para dar conta desse trabalho… pode ser que seja exigente demais. Nada impede que você vá lá, na cara e na coragem, mas a gente fica um pouco mais confiante se tiver alguém dizendo que “sim, pode fazer que não vai dar problema não”, como quando uma entidade no terreiro receita um banho ou outra coisa. É nessas horas que os oráculos se revelam como ferramentas especialmente úteis para praticantes de magia.

O assunto rende pano para manga, porque, de um lado, há quem não faça nada sem consultar o tarô antes; de outro, temos os magistas mais ferrenhos, que compreendem que, se a magia é uma manifestação da sua vontade, parar para perguntar antes para o tarô, de modo que parece que está pedindo permissão, meio que dá uma tolhida nisso. E, bem, eu entendo as duas posições. Fazer as coisas sem perguntar antes é, claro, muito mais divertido e, mesmo que você faça merda, vale o aprendizado (pelo menos até certo ponto). No entanto, quando a gente fica mais velho, a tendência é ficarmos mais cautelosos… especialmente se pretendemos ensinar as nossas técnicas para outras pessoas — você não quer se sentir culpado porque repassou uma técnica que parece funcionar para você e aí ela explode na cara de outra pessoa. Ou então há também a situação de estarmos desenvolvendo práticas experimentais. Nesses casos, é sempre válido recorrer aos oráculos (o tarô aqui no caso) para reunir informações, que é, aliás, a sua grande função, segundo figuras como Jason Miller.

Tire tarô: não seja este mago

Só que muitas vezes, ao ver exemplos online de tiragens com esse propósito, ainda ficamos presos dentro de uma lógica meio binária que se resume ao “faço ou não faço?”. Mesmo que a tiragem não seja das mais simplórias de sim/não, com frequência é isso que se extrai desse processo. Por exemplo, se fizermos uma tiragem de “qual vai ser o resultado?” — que não é um sim/não —, e tirarmos 1 carta (muito básico), 2 cartas (um arcano maior e um menor, por exemplo) ou 3 cartas (talvez uma principal e duas de nuance), mesmo assim ainda estamos dentro de uma lógica um tanto binária, procurando cartas positivas que possam nos encorajar a seguir em frente… e ficando desanimados se sai um combo Torre + 10 de espadas + 3 de espadas.

Foi por isso que eu procurei elaborar uma tiragem com um pouco mais de nuance, que não tire nossa capacidade de agência e que possibilite entender o que é preciso ajustar, se houver algum problema que impeça o ritual. Não sei se mais alguém já chegou a um formato parecido… entendo que não deve ser nada de muito original e imagino que o conceito já deva ter ocorrido para outras pessoas (eu mesmo tive como inspiração o trabalho da Josephine McCarthy com o tarô), mas pessoalmente nunca vi esse método ser ensinado assim.

A aparência lembra um Templo de Afrodite e o princípio é até semelhante, ao tratar da coisa em níveis, com a diferença de que as duas colunas representam as forças a favor (direita) e contra (esquerda). Fora a carta no centro, que é o resumo do jogo, as três fileiras horizontais cobrem três níveis da realidade: inferior (físico), intermediário (energético) e superior (espiritual). É claro que essa divisão tríplice, que é a mesma que encontramos em Agrippa, é sim um tanto arbitrária: poderíamos usar apenas dois níveis (visível e invisível) ou cobrir todo o espectro de dimensões de que trata o sistema teosófico (físico, etérico, astral, mental inferior e superior, espiritual, búdico, etc), mas acho que trabalhar com três níveis nos dá um equilíbrio bom em termos de oferecer informações o suficiente sem sufocar demais.

Posições: 1 e 2, nível superior, forças a favor e contra, respectivamente; 3 e 4, nível intermediário, forças a favor e contra; 5 e 6, nível mundano, forças a favor e contra; 7: resumo do jogo.

A lógica é que: em tudo que a gente faz, existem forças a favor e forças contra. Quando fazemos algo simples como andar na rua, por exemplo, temos ao nosso favor a força e resistência do nosso próprio corpo, os músculos e ossos, e a resistência do ar como uma força oposta — o que é particularmente destacado quando tentamos andar no meio de uma tempestade, e pior ainda se estivermos com um guarda-chuva aberto. O próprio chão pode ser uma força contra ou a favor, pois não pode ser liso demais (do contrário, a gente escorrega), mas se for muito acidentado também fica difícil o deslocamento. E por aí vai. A mesma coisa se aplica na magia, e cabe a nós identificar e pesar o que ajuda e o que atrapalha. Assim, mesmo em situações não ideais, podemos pensar se o que pretendemos fazer continua sendo ou não viável.

Seguindo então com as posições das cartas, começando debaixo para cima: no nível inferior (posições 5 e 6), temos as questões de uma ordem mais mundana. Isso inclui a sua preparação, a qualidade dos seus materiais e o seu estado físico e emocional. Imagine que você queira fazer um certo ritual, e aí você tire O Mago aqui na posição a favor. O Mago trata, entre outras questões, de habilidade e domínio, ele é o mestre dos elementos representados na sua mesa. Tê-lo como uma força a favor no nível mundano indica que você tem o domínio necessário das técnicas do ritual, o que é muito importante quando estamos tratando de práticas complexas. Por outro lado, se esse mesmo arcano sai como uma força contrária, aí temos a situação oposta: você acha que domina as técnicas, mas está só enganando a si mesmo… e talvez a outras pessoas (e, bem, o papel de enganador, ilusionista, também é associado ao Mago, Le Bateleur no Tarô de Marselha, que se traduz como malabarista, saltimbanco).

Agora, veja bem, isso por si não é um resultado proibitivo: não significa simplesmente “não, não faça o ritual, desista de vez, seu lixo”, mas sim que existe uma área em que é preciso melhorar. Se você seguir praticando e melhorar as suas habilidades, então é possível realizar esse ritual com sucesso no futuro. Além do mais, mesmo com esse problema, pode ser que haja outras influências positivas que acabem compensando essa fraqueza; ainda há outras cartas na leitura.

Já no nível intermediário (o equivalente ao mundo celestial em Agrippa, posições 3 e 4 no diagrama), entram uma série de fatores um pouco mais complexos. Para continuar com o exemplo do Mago: além de ser um arcano que remete à questão das habilidades do praticante, o Mago incorpora a máxima hermética de que “o que está em cima é como o que está embaixo” e representa, já no próprio gesto encenado na carta, esse papel de ponte entre os mundos superior e inferior. No positivo, você ganha aí um biscoito por conseguir fazer isso muito bem e derivar, portanto, uma grande autoridade espiritual para comandar as forças com que deseja trabalhar; no negativo, bem, talvez haja algum tipo de bloqueio. Em termos de chakras, por exemplo, um dos mais cruciais para essa questão da ponte é o da garganta, e uma garganta congestionada ou enfraquecida por falta de energia e/ou excesso de sujeira dificulta o fluxo de força vital, já que não dá para a energia vivificante dos chakras inferiores subir, nem a energia divina dos superiores descer. É possível que o problema seja algo nesse sentido.

Mas há outras questões incluídas nesse ponto ainda, nos reinos intermediários. Aqui entra a sua afinidade (ou falta de) com os seres com os quais pretende trabalhar — dentre os possíveis problemas, pode ser que, por algum motivo, não bata o santo entre você e um espírito envolvido no ritual. E, bem acontece. Todo mundo que trabalha com Goécia, para dar um exemplo extremo, sempre relata que tem um ou ou espírito com quem eles se dão superbem… e um ou outro que você não chega nem perto. Ou pode ser que alguma outra influência celeste esteja ajudando ou atrapalhando (convém, por exemplo, olhar o mapa astral do ritual aí). Ou ainda pode ser o caso (uma possibilidade bem provável) de precisar realizar uma limpeza mais profunda em você e no seu espaço – talvez o ritual precise, inclusive, de um pequeno período de jejum antes ou algo do tipo. Arcanos como O Julgamento, A Temperança, O Diabo (você certamente não quer ver O Diabo no negativo aqui…) podem ser indicadores dessa necessidade.

Por fim, o último nível, espiritual (posições 1 e 2), trata de várias questões, incluindo de sua conexão com o divino, de karma e de se a prática é ou não justificada (se é um desejo alinhado à sua vontade superior ou se é apenas algo do ego). Do modo como eu entendo, O Mago aqui trata da sua conexão com o seu Eu-Superior, dando esse sinal verde no positivo, tipo “vai lá, filho, é isso mesmo que você tem que fazer”, ou indicando, no negativo, um desejo destrutivo de controle cujas ambições estão além daquilo de que você dá conta. Esta fileira é a primeira que eu olho, porque um arcano maior aqui na posição positiva, mesmo sozinho, já precisaria de algo muito tenso no negativo para desautorizar o ritual, ao passo que um arcano maior na posição negativa muitas vezes por si só já é o suficiente para fazer a gente repensar as coisas. É nessa posição que as questões são, senão incontornáveis, pelo menos bem mais complicadas de resolver, ao passo que nos níveis intermediário e inferior, os problemas são mais contingentes.

E, ah, a última carta, no centro (posição 7), serve para simbolizar a situação, como um resumo do jogo. Ela não tem grandes poderes de barrar ou autorizar o que você está fazendo (exceto em situações de cartas muito cagadas, imagino), mas serve para você entender a ideia geral.

O tarô alquímico de Theofanus Abba, da Czech Hermetics.

Você vai reparar que eu estou falando apenas em termos de arcanos maiores. Para essa tiragem, o método inclui misturar os maiores e menores (o chamado “método americano”), porque a primeiríssima coisa que a gente olha vai ser se há arcanos maiores na tiragem e onde eles se encontram. Do modo como eu entendo o tarô, os arcanos maiores são cartas de grande potência, representando esses arquétipos superabrangentes, os elementos dos quais se constitui o próprio cosmos (não por acaso, existe essa associação com as correspondências de elementos, planetas e signos), ao passo que os menores são situações mais específicas. A gente nunca vai ter uma situação ideal, é parte da sina de estar encarnado, por isso sempre vai ter alguma coisa pesando contra… mas faz toda a diferença se essa força contra é um simples e alegre 3 de copas ou um Diabo.

(Eu pensei nesse exemplo meio aleatoriamente, mas me parece bem claro que as duas possibilidades podem dizer respeito a excessos, né? Num nível mundano, seria a diferença entre uma sugestão, tipo, “seria bom maneirar um pouco na farra” e “bem, o seu vício está atrapalhando as coisas”).

O mais provável é que tenha, pelo menos, um arcano maior no seu jogo, que vai dizer qual é a sua principal força ou fraqueza dentro do que você pretende fazer. Se saírem arcanos maiores apenas em posições positivas, ótimo, pode se sentir confiante para ir em frente (e eu gosto especialmente dos arcanos com figuras angelicais como Os Amantes, A Temperança e O Julgamento), apesar que, ainda assim, é importante, claro, conferir o sentido desses arcanos na posição em que saíram. Depois, conferir os arcanos menores nas posições contra, porque embora não desautorizem o ritual, há ali uma dica de coisas a se pensar a fim de evitar problemas no futuro. Por exemplo, no nível inferior, se sai O Mago como positivo, mas um rei de paus no negativo, temos aí um indício de que, sim, você tem a habilidade para fazer o que deseja fazer, mas vale a pena ficar meio de olho ainda assim na húbris e arrogância para não se achar fodão demais.

Agora, a questão é quando saem arcanos maiores nas posições negativas. No nível espiritual, para mim, é um não muito sério, que me faz repensar a questão toda. Uma Sacerdotisa no espiritual negativo indica para mim uma falta de conexão espiritual, o que seria muito grave num ritual teúrgico, e uma Justiça implica consequências bem sérias caso você leve o projeto a cabo. Nessas situações, vale muito a pena ler um texto do Sam Block intitulado “When God Says No” a fim de entender os limites do que dá para fazer com magia… agora nos outros níveis, você vai ter, na verdade, as dicas para reformular tudo a fim de chegar a um formato melhor sem precisar necessariamente desistir da empreitada toda. Dependendo do caso, pode valer a pena tirar mais cartas para pedir conselhos.

Uma tiragem em que não saia nenhum arcano maior indica não haver nenhuma grande força contra ou a favor… o que não é bem bom, porque pode sinalizar um resultado fraco, mas também não vai ser nenhum desastre. Em todo caso, convém conferir se há a presença de alguns arcanos menores com mais peso como cartas de corte (exceto valetes, que são mais fracos), ases e 10s. Da forma como eu entendo, um ás no positivo é bastante encorajador, ao passo que também não é das maiores obstruções como negativo. Um 10 de espadas, no entanto, mesmo no positivo, não é das cartas mais legais de se tirar. E, de novo, vale pedir um conselho para ver como dá para atrair mais influências positivas.

Por fim, eu não acho que esta tiragem deva ser feita antes de qualquer ritual que você pretenda realizar. Não sou neurótico nesse nível. Ao trabalhar com forças já conhecidas e práticas de rotina, não precisa nutrir essa ansiedade toda, tipo, “ai meu Deus, será que eu posso fazer esse ritual que eu sempre faço?”. Essa tiragem é especialmente indicada antes de se fazer um trabalho maior, com entidades novas ou por métodos desconhecidos, e antes de começar a se envolver com algo que vai exigir um maior comprometimento ou que vai envolver mais pessoas. Por exemplo, quando conduzi a Meditação de Conexão Espiritual com os assinantes do nosso canal no Telegram, um trabalho feito com o auxílio das divindades babilônicas, eu fiquei com receio se podia fazer isso e se o procedimento estava de fato tão bem construído quanto eu imaginava… mas minhas dúvidas foram sanadas quando a tiragem feita se revelou extremamente encorajadora (Julgamento no espiritual positivo, A Força no mundano positivo, nenhum arcano maior no negativo… a maioria ases, na verdade). E, de fato, o resultado foi bastante positivo, segundo os relatos. A gravação dessa meditação, aliás, ainda pode ser adquirida para ser usada, por um valor simbólico, preenchendo-se este formulário.

Enfim, para encerrar, reitero que a ideia aqui é fornecer as ferramentas para promover a autonomia do praticante. Entre a adesão ferrenha e dogmática à tradição, sem chance de desviar um ai que seja, sob risco de tudo dar errado, e a absoluta porralouquice do foda-se-tudo-eu-faço-o-que-eu-quero, existe todo um espectro de possibilidades, e o tarô é maravilhoso para se navegar esse espaço.

2 comentários Adicione o seu

  1. Victor Habib disse:

    Adriano, quando vai rolar um curso de tarot? Nesse eu me inscrevo na hora!

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    1. fraterabstru disse:

      Agradeço o incentivo, Victor! Mas eu não tenho cacife para dar um curso de tarô (talvez de magia com o tarô…). O que eu recomendo muito é o curso do Ricardo Baratela, que é um puta tarólogo.

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