Uma introdução prática à geomancia

Eu já falei da geomancia no meu texto sobre oráculos, mas na época só tive tempo de oferecer uma visão bem geral e não expliquei como é que se brinca disso. Por esse motivo, imagino que já tenha passado da hora de darmos uma olhadinha em como a coisa funciona. Não temos muito geomantes por aí, então é sempre bom espalhar a palavra. Parece meio complicado a princípio, mas eu juro que, com um pouquinho de paciência e atenção, fica bem fácil.

Mais uma vez, eu enfatizo a importância da leitura das obras do John Michael Greer e do blog Digital Ambler, do Sam Block, autores que eu vou citar extensamente ao longo deste texto. Foi com os livros do Greer que eu aprendi como a geomancia funciona e pude começar, mas os textos do Sam Block, sempre muito detalhados, foram cruciais para me guiar na hora de realmente pôr a mão na massa.

Trata-se de uma forma bastante antiga de adivinhação, surgindo no mundo árabe medieval, depois sendo levada à Europa, onde foi adaptada e se tornou extremamente popular. O pseudepigráfico quarto livro da Filosofia Oculta de Agrippa toca no assunto, mas outro nome importante é o de Robert Fludd (1574–1637), médico inglês e ocultista. Abstrata e matemática, essa arte divinatória acabou perdendo espaço para o tarô e outras técnicas cartomânticas — tanto que a maioria do público leigo sabe o que é o tarô, mas provavelmente vai pensar que é alguma coisa de RPG se lhes falarem de geomancia. Onde ela manteve sua importância foi entre o pessoal da Golden Dawn, com sua obsessão em estudar tudo que fosse de magia renascentista, e da Thelema, por herança. Infelizmente, como acontecia com frequência, muito do material da GD não era dos melhores, então não dá para confiar muito neles (o que acaba deixando ainda mais escasso um material que já não é muito abundante). 

Mas, enfim, chega de história e vamos à prática.


O Adão Geomântico, figura de um manuscrito árabe medieval. Imagem aqui retirada do blog Digital Ambler, do grande Sam Block.

Mentira, tem um pouco de história ainda. Como todos os oráculos mais sistemáticos, a geomancia depende de um vocabulário fixo de símbolos. O tarô tem 78, o I-Ching tem 64, as runas têm 24 — e a geomancia, 16. Porém, com a geomancia acontece que você nunca faz uma tiragem de uma figura só e existe a possibilidade de as figuras se repetirem: o método é fixo, cria-se sempre quatro figuras aleatoriamente e a interação entre elas, na ordem em que aparecem, cria o restante do jogo, chamado de carta geomântica. Fazendo as contas (16 x 16 x 16 x 16), chega-se ao número de 65.536 cartas possíveis. Dá para responder muita coisa assim.

O método clássico é o seguinte: o geomante vai para um lugar onde tenha terra ou areia (daí a origem do nome em grego, adivinhação pela terra, e em árabe, ilm al-raml, “ciência da areia”), pega um graveto e entra em transe. A teoria por trás da ação do transe é um pouco complexa, como explica Robert Fludd, neste artigo de C. H. Josten, pois Fludd entendia que as faculdades humanas inferiores (isto é, conscientes) eram três, sensus (os sentidos), imaginatio (a imaginação) e ratio (a razão) que seriam como os cavalos, uma carruagem e seu piloto, respectivamente, em serviço de um rei, cujos desígnios o piloto, que não passa de um servo, desconhece. Este rei é a mens humana, da qual nós não temos consciência, e que, por sua vez, é um reflexo da mens divina e, por isso, capaz de realizar as mesmas coisas, em menor escala. O transe simplesmente alinha todos esses elementos inferiores aos superiores, o que permite que eles se manifestem, mais ou menos como um telégrafo, com o braço batendo com o graveto no chão.

O geomante clássico faz 16 linhas com essas marcas no chão, sem contar quantas marcas está fazendo em cada linha (outro aspecto importante do transe). A partir dessas 16 linhas, serão geradas 4 figuras, de modo que cada linha corresponde a uma parte da figura, sua cabeça (fogo), ombros (ar), ventre (água) ou pernas (terra). Depois disso, passada essa parte mais ritual, literalmente inspirada, ele vai contar quantas marcas foram feitas em cada linha. Se a primeira linha tiver um número ímpar de marcas, a primeira linha da primeira figura a ser criada é uma linha ativa e desenhada com um pontinho. Se o número for par, então será uma linha passiva, com dois pontinhos (ou um risco em algumas representações). As quatro primeiras linhas formam a primeira figura, e assim por diante.

Ainda está ruim de visualizar? Deixa eu demonstrar aqui com uma ilustração numa planilha:


A magia do Excel. Cada asterisco é como se fosse uma marca na terra ou na areia e as colunas seguintes explicitam a sua interpretação.

Sobre a constituição das figuras, eu cito o que disse no texto anterior:

O vocabulário da geomancia consiste em 16 figuras de composição binária, representadas por pontinhos, de modo que cada figura tem entre 4 e 8 pontinhos divididos em 4 linhas. A primeira linha representa o elemento fogo, a segunda ar, a terceira água e a quarta terra. Se uma figura tiver um elemento em sua forma ativa, então ele é representado por um pontinho só; se passiva, por dois pontinhos. Assim, por exemplo, a figura laetitia (literalmente “alegria”) tem apenas o elemento fogo ativo e todo o resto passivo (um pontinho na linha de cima, seguido de dois pontos abaixo e mais dois abaixo e mais dois abaixo); tristitia (“tristeza”) tem apenas terra ativa e o resto passivo; acquisitio (“aquisição”) tem ar e terra ativos, e por aí vai. Apenas via (“caminho”), uma figura de mudança rápida, tem todos os elementos ativos, enquanto populus (“povo”), uma figura de estabilidade por inércia, tem todos eles passivos.

É crucial que todo geomante domine o vocabulário dessas figuras. Mas, como elas não são muitas, vamos ver um pouco sobre cada uma delas agora, de forma bastante resumida:

  • populus (“povo”) —  noturna, estável e par, ligada à Lua, tem todos os elementos passivos, simboliza uma multidão e, por consequência, a estabilidade por inércia, manutenção de status quo;
  • laetitia (“alegria”) —  noturna, móvel e ímpar, ligada a Júpiter, tem apenas o fogo ativo, é uma figura positiva, que representa a alegria e celebração, porém passageira;
  • rubeus (“vermelho”) — noturna, móvel e ímpar, ligada a Marte, tem apenar o ar ativo, é uma figura maligna, simbolizando paixões descontroladas e sexualidade destrutiva;
  • fortuna minor — noturna, móvel e par, ligada ao Sol, tem fogo e ar ativos, é uma figura positiva, simbolizando sucesso, porém dependendo mais dos outros do que de si mesmo;
  • albus (“branco”) — diurna, estável e ímpar, ligada a Mercúrio, tem apenas a água ativa, é uma figura positiva, mas fraca, simbolizando paz, reflexão e meditação;
  • amissio (“perda”) — noturna, móvel e par, ligada a Vênus, tem fogo e água ativos, é uma figura negativa, exceto quando perder algo seria desejável (no caso de doenças, tipo, perder a doença, e no amor1);
  • conjunctio (“conjunção”) — noturna, móvel e par, ligada a Mercúrio, tem ar e água ativos, é uma figura neutra, representando apenas uma reunião de fatores;
  • cauda draconis (“cauda do dragão”) — noturna, móvel e ímpar, ligada ao nodo sul da Lua, tem apenas terra passiva, é uma figura muito negativa, simbolizando fins;
  • tristitia (“tristeza”) — noturna, estável e ímpar, ligada a Saturno, tem apenas terra ativa, é uma figura geralmente negativa, representando melancolia, mas também ocultação (de segredos, por exemplo) e o estabelecimento de bases sólidas;
  • carcer (“prisão”) —  diurna, estável e par, ligada a Saturno, tem fogo e terra ativos, tende a ser uma figura negativa, podendo simbolizar estabilidade, mas geralmente se refere à sua tradução mesmo, prisão, a perda de liberdade e incapacidade de sair de uma situação;
  • acquisitio (“aquisição”) —  diurna, estável e par, ligada a Júpiter, tem terra e ar ativos, extremamente positiva, sobretudo em questões de dinheiro, pois representa ganhos;
  • puer (“menino”) — diurna, móvel e ímpar, ligada a Marte, tem apenas a água passiva, simboliza o tradicionalmente masculino (a geomancia tem origens antigas, vale lembrar, então algum essencialismo de gênero nas fontes é esperado) e tudo que tem a ver com isso, como vigor, competitividade e conflitos, sendo positiva ou negativa dependendo do contexto;
  • fortuna major — diurna, estável e par, ligada ao Sol, tem terra e água ativos, simboliza o sucesso puro e simples, fruto dos próprios esforços e talentos, extremamente positiva;
  • puella (“menina”) — diurna, estável e ímpar, ligada a Vênus, tem apenas o ar passivo, simboliza o tradicionalmente feminino e tudo que tem a ver com isso, como harmonia, prazer e fertilidade;
  • caput draconis (“cabeça do dragão”) — diurna, estável e par,  ligada ao nodo norte da Lua, tem apenas o fogo passivo, simbolizando começos;
  • via — diurna, móvel e par, ligada à Lua, tem todos os elementos ativos e pode ser positiva ou negativa dependendo do contexto, mas sempre representa instabilidade e mudança, às vezes de forma caótica.


As 16 figuras geomânticas

Este resumo é criminosamente breve, mas serve para ter uma ideia inicial e não ficar perdido quando eu falar os nomes das figuras. O que eu gosto na geomancia é a sua qualidade analítica, de modo que você consegue entender as figuras de maneira modular, não monolítica, mas pela interação dos seus componentes. Assim, por mais que às vezes o formato da figura possa indicar o seu sentido (carcer realmente é uma prisão fechada, e via, uma estrada), o que costuma acontecer é que essa decomposição que fornece a chave para sua interpretação. Laetitia pertence a Júpiter, pois Júpiter é o planeta, na astrologia e na magia astrológica, chamado de Grande Benéfico. A própria palavra “jovial” quer dizer tanto “de Júpiter (Jove)” quanto alegre. Mas também é uma figura do elemento fogo em estado puro. O fogo, como se sabe, é o elemento ligado à vontade, é o primeiro passo na manifestação das coisas, mas assim, puro, sem mais nada, ele se dissipa, o que é representado pelo caráter transitório de laetitia.

A outra figura de Júpiter, acquisitio, combina ar e terra, dois elementos ligados à prosperidade (ar como fluxo de capital, terra como posses materiais) e por isso é muito positiva para esse tipo de questão. Agora, as figuras também têm opostos, e o oposto do ganho é a perda, amissio, em que o fogo de laetitia se combina com seu elemento contrário, água, de modo que um acaba extinguindo o outro. Já puer, como descrito por Greer, é como se fosse um cavaleiro das lendas medievais, marcial e dotado de vontade (fogo), argúcia (ar) e constância (terra), em busca do cálice (água, emoções) e sua imagem pode aludir a uma espada (mas também a um pênis). Tristitia, oposto de laetitia, tem apenas a terra ativa, daí que tenha a ver com criar bases e manter coisas ocultas, enterradas, e sua associação à melancolia é clássica, sendo a bile negra o humor da medicina tradicional grega atribuído ao elemento terra, o que também combina com sua correspondência astrológica, Saturno, o planeta melancólico por excelência. E por aí vai. Dá para ficar horas fazendo essas associações.

Outro aspecto importante é que as figuras podem ser compreendidas por categorias como par e ímpar, diurna e noturna, estável e móvel. Eu marquei na descrição quais são diurnas e quais são noturnas, o que significa que sua associação aos planetas se refere aos planetas em movimento direto (diurno) ou retrógrado (noturno), que geralmente vai ter efeitos menos desejáveis. A distinção entre figuras estáveis e móveis se traduz na permanência da situação descrita e também tem aplicações que veremos mais adiante.

Para saber quais figuras são pares e quais são ímpares é só somar o total de pontos em cada, de 8 (populus) a 4 (via). A distinção é que figuras pares tendem a representar situações objetivas, enquanto figuras ímpares são mais subjetivas. Laetitia e tristitia, por exemplo, são ambas figuras de 7 pontos (6 dos 3 elementos passivos + 1 elemento ativo), logo apontam para estados de espírito, óbvio, alegria e tristeza. Já amissio e acquisitio têm 6 pontos cada, porque perder e ganhar coisas, como dinheiro, são fatos incontornáveis — uma situação pode ser alegre ou triste dependendo do ponto de vista, mas ninguém (a não ser o lunático do Paulo Guedes) diria que você ter perdido 100 reais na verdade significa que você ganhou 100 reais. Essas características não são sempre relevantes, dependendo da pergunta do consulente, mas têm aplicações importantes para casos específicos, que veremos mais adiante.

Uma outra característica divertida das figuras geomânticas é a interação entre elas, na medida em que podem ser somadas. Por exemplo, vamos somar laetitia e acquisitio (abaixo). Na primeira linha temos 1 e 2 pontos, respectivamente, o que dá 3. Na segunda, 2 e 1, o que dá 3 de novo. Na terceira, 2 e 2, o que dá 4. E, por fim, 2+1=3 de novo. Agora vemos quais linhas têm a soma par ou ímpar: ímpar, ímpar, par, ímpar. A figura resultante seria puer, portanto.

É curioso como duas figuras de Júpiter podem gerar uma de Marte, e Sam Block tem um texto dedicado a refletir sobre essas interações. A soma de figuras é uma técnica básica crucial para gerar a carta geomântica e precisa ser dominada antes de se tentar qualquer leitura a sério. E, falando nisso, vamos a ela, então!

Gerando a carta

Tudo começa com a geração aleatória de quatro figuras. Certo. O mais importante, antes de qualquer coisa, é determinar como essas figuras serão geradas. Sim, existe um método clássico, mas não é obrigatório segui-lo. É possível adaptá-lo construindo uma caixa de madeira e enchendo de areia (só tome cuidado com gatos) ou ainda usando papel e caneta. Mas há outras possibilidades: moedas, cartas e dados de RPG, por exemplo — os dados de 4, 6, 8 e 20 lados são sólidos platônicos referentes aos elementos do fogo, terra, ar e água, respectivamente, e você pode gerar figuras com muita rapidez com eles, pois é só jogar e observar se os números que saem são pares ou ímpares. Como comenta Sam Block, até mesmo contar os pontinhos em batatas já foi usado como método geomântico. Esse é um aspecto divertido desse oráculo, que ele é independente da ferramenta utilizada. Durante um tempo eu utilizei um pêndulo, com sucesso, mas não recomendo, pois é lento2. Hoje, sou adepto dos dados.

Se você tem alguma experiência com meditação, você vai conseguir entrar num transe leve com facilidade. Agora pegue lá o que quer que você for usar para gerar as figuras, mais lápis e papel para gerar a carta toda, e mãos à obra. Eu recomendo utilizar um ritual preliminar e uma prece breve antes para ajudar a firmar a conexão, então entrar em transe e gerar as quatro primeiras figuras. Elas são chamadas de matres ou mães e são elas as responsáveis por criar o restante da carta. Lembre-se de que, sendo um método árabe, a geomancia inscreve as figuras no brasão da direita para a esquerda.


Exemplo de um brasão geomântico tirado do frontispício do Tractatus Primi, com as mães rubeus, via, fortuna major e puella.

E, ah, tem uma coisa ainda! Há duas figuras que não são aceitáveis como a primeira mãe: cauda draconis e rubeus (como se vê na imagem acima!). Então, se a sua tiragem começar com elas, você até pode continuar e ler mesmo assim, mas entende-se que é meio inútil. Para a Golden Dawn, seria porque é um sinal maligno e a carta deve ser destruída. Sam Block tem uma perspectiva menos catastrófica e comenta que muitas vezes esse tipo de resultado sinaliza apenas que o consulente já se decidiu antes e está apenas desperdiçando o tempo do geomante, mas também pode ser sinal de que tem “boi na linha”, por assim dizer. Por via das dúvidas, nesses casos vale a pena fazer um banimento depois e tentar de novo no dia seguinte.

O próximo passo agora é criar as filhas (filiae). O método é simples: para criar a primeira filha, olhe todas as linhas de fogo das quatro mães. Se a primeira mãe tem fogo ativo (um ponto na primeira linha), a primeira filha terá fogo ativo também; se passivo, mesma coisa. Se a segunda mãe tem fogo ativo, a primeira filha terá ar (a segunda linha) ativo, e a mesma coisa se passivo, e assim por diante. Para a segunda filha, olha-se as linhas de ar, água para a terceira e terra para a última. Quem entende de planilhas vai reconhecer esse processo como um de transposição, em que a disposição de dados em linhas são rearranjados em colunas. E assim toda a primeira fileira do brasão já está preenchida!

Certo, temos oito figuras agora, quatro mães e quatro filhas. O próximo passo é gerar as sobrinhas (nepotes). É aqui que entra a técnica da soma de figuras que vimos há pouco. A 1ª e a 2ª mãe somadas formam a 1ª sobrinha, a 3ª e 4ª mãe formam a 2ª sobrinha, a 1ª e 2ª filha formam a 3ª sobrinha e a 3ª e 4ª filha formam a última. Isso preenche a segunda linha do brasão: agora faltam só as figuras da corte.

Somando-se a 1ª e 2ª sobrinha, tem-se a testemunha da direita. Somando-se a 3ª e 4ª sobrinha, tem-se a testemunha da esquerda. E somando-se as duas testemunhas obtém-se o juiz. Isso completa o brasão, com 15 figuras, mas às vezes também é interessante gerar uma 16ª figura, chamada de sentença ou reconciliadora, somando-se o juiz com a 1ª mãe.

As figuras de corte dão a visão geral da situação e são a primeira coisa que você olha. A testemunha da direita representa o consulente, o que ele traz para a questão e também o passado, já a da esquerda fala da questão em si e representa o futuro. E o juiz é a síntese da carta, o presente, e fala da relação entre o consulente e a questão. Essas figuras são as primeiras que a gente olha, pois permitem entender, de cara, se o prognóstico é positivo ou negativo. Em The Art of Practice of Geomancy, John Michael Greer dá alguns exemplos para ilustrar. Em um deles, uma mulher está envolvida com um homem casado e quer saber se tem futuro, se o cara realmente vai largar a esposa para ficar com ela (clássica essa, né) e as figuras que saem são puella na direita, albus na esquerda e carcer como juiz. A figura venusiana de puella representa a consulente com todas as emoções e ideias românticas que ela traz à relação, mas carcer como juiz é extremamente negativo: o seu caso não vai sair disso, nada vai mudar e as promessas do homem são vazias. Albus, no futuro, sugere que a consulente deve refletir bem sobre a própria vida a fim de se entender melhor (afinal, por que ela está com um homem casado? O que ela quer dessa relação? E assim por diante).

Outra técnica importante é a chamada via puncti, o caminho dos pontos. Olhe a linha do fogo do juiz e compare com as das testemunhas. Se uma das duas testemunhas tiver uma linha igual, então olhe para as duas sobrinhas que geraram a testemunha. E assim por diante. A figura onde você for parar explica as origens da questão (às vezes há mais de uma origem e ela pode se espalhar pelo brasão todo!). Se a via puncti não puder ser formada, então não há nada de mais profundo aí: o que se tem é o que se vê mesmo.

As casas astrológicas

É muito cômodo que, tirando as figuras da corte, nós tenhamos chegado a 12 figuras, né? E, sim, há uma equivalência às 12 casas astrológicas. A carta geomântica pode ser representada como brasão, como vimos acima, mas as figuras também podem ser distribuídas na forma de um mapa astral medieval, assim:


A distribuição das 12 casas da geomancia, imagem retirada do blog da Llewellyn.3

Cada casa aqui tem um significado, mais ou menos equivalente ao significado das casas na astrologia clássica. São eles:

  • 1: representa o/a consulente;
  • 2: dinheiro e propriedade móvel, lucro, renda, investimentos, posses pessoais, roubos, exceto imóveis (4) e especulação (5);
  • 3: irmãos, vizinhos, cercanias, jornadas curtas, educação básica, conselho, notícias e boatos;
  • 4: terreno, agricultura, construção, cidades, mudança de casa, coisas subterrâneas, lugares antigos, idade avançada, o pai, o fim de qualquer questão;
  • 5: colheitas bianuais, fertilidade, gravidez, filhos, sexualidade, festas e entretenimentos, comida e bebida, roupas, água, pescaria e chuva, cartas e livros;
  • 6: empregados, prestadores de serviço, magos contratados, animais domésticos (exceto animais de carga), doenças e ferimentos;
  • 7: relações intensas, maridos e esposas, amor e casamento, parcerias, acordos e tratados, conflitos e competições, ladrões e inimigos conhecidos, caça e localização de coisas, médicos
  • 8: morte, espíritos, assassinato, magia praticada pelo consulente, pessoas desaparecidas, dinheiro e propriedade emprestados;
  • 9: jornadas externas e internas, religião e espiritualidade, educação superior, artes, interpretação de sonhos, filosofia oculta e adivinhação;
  • 10: carreira, reputação, lugar na sociedade, política, meteorologia, tratamento médico;
  • 11: amigos, sócios, promessas, fontes de ajuda, esperanças e desejos, colheitas anuais, perguntas que o consulente não quer revelar;
  • 12: restrições e limitações, dívidas do consulente, prisão, coisas secretas, inimigos desconhecidos, trabalho feito pelos outros, animais de carga e selvagens.

A partir daí já é possível fazer interpretações mais detalhadas. Por exemplo, Greer ensina uma técnica para discernir se uma notícia é real ou falsa. A casa que rege esse tipo coisa é a casa 3, então uma vez gerado o mapa, nós olhamos lá. Se a figura nessa casa for estável, a notícia é provavelmente real. Se for uma figura móvel, ela é falsa. Se for via ou populus, ela até tem um fundo de verdade, mas foi distorcida no caminho. No mapa de exemplo dado acima, temos fortuna major ali, que é estável, então se fosse uma pergunta sobre uma notícia, ela seria verdadeira. Um método semelhante é aplicável também para se discernir um sonho “real”, i.e. um sonho significativo, com mensagens importantes, de um sonho “falso”, mero ruído do inconsciente, observando-se a casa 9, que é ligada a esse tipo de coisa. No exemplo, temos acquisitio, que também é uma figura estável, então, se fosse essa a pergunta, seria sim um sonho “real”.

Agora vamos supor que o seu consulente chegue a você querendo saber de assuntos do coração, como sempre acontece com todo oraculista. Primeiro a gente olha a figura da casa 1, que diz respeito à pessoa em questão, depois vamos ver ou a casa 5 ou a casa 7. A casa 7 fala de amor e casamentos, então é mais adequada para casos sérios… a 5 é a da diversão, por isso é relevante para falar de flertes e sexo casual (uma distinção importante!). E aí vamos ver se há alguma relação entre as duas casas, por meio de uma técnica de leitura chamada de “perfeição”, que é, inclusive, o que permite responder a perguntas de sim/não.

Para saber se há perfeição, primeiro você olha para a casa 1, que é a casa que representa o consulente, e então você olha para a casa em que cai a pergunta. Existem quatro tipos de perfeição, a saber:

  • Ocupação: nesse caso a mesma figura da casa 1 aparece na casa relevante. Se a pessoa pergunta: “eu vou me casar com fulano?” e sai um amissio, por exemplo, na casa 1 e na casa 7, temos aí um sim claríssimo.
  • Conjunção: a figura do consulente aparece uma casa antes ou uma casa depois da casa relevante (6 e 8, no caso de uma pergunta da casa 7) ou vice-versa. É um “sim” um pouco mais fraco, pois exige um pouco de trabalho do consulente.
  • Mutação: a figura do consulente e da questão se repetem, uma colada à outra, em outra parte do mapa, não nas próprias casas. É um “sim” que aponta para caminhos inesperados.
  • Translação4: uma terceira figura aparece colada na casa do consulente (seja na casa 2, depois, ou 12, antes) e colada na casa da questão relevante. Significa que uma outra pessoa fará a conexão.

(O mapa usado lá em cima como exemplo não apresenta nenhum tipo de perfeição.)

A lógica da perfeição é a seguinte: a casa 1 sempre representa o consulente, ao passo que a casa relevante para a questão representa a realidade contemplada. Se lá cai uma figura positiva, ótimo, que legal, então essa situação seria muito boa. Porém, se não houver nenhuma conexão entre o consulente e essa realidade, ela não vai se concretizar… vai permanecer sendo positiva apenas na imaginação. Mas há modos através dos quais as duas realidades podem interagir e isso determina a sua possibilidade de manifestação. Mais sobre isso pode ser lido, de novo, no blog do Sam.

Ao mesmo tempo, é importante ter em mente que a perfeição responde apenas ao sim/não. Se vai ser positivo ou negativo, depende das figuras envolvidas. No exemplo dado da pergunta sobre casamento, uma perfeição via ocupação com dois amissio é um caso perfeito, pois diz “sim, com certeza, e ambos estarão apaixonadíssimos”. Agora, se eu faço uma pergunta de carreira, como “eu vou conseguir um emprego até o fim do ano?”, rola perfeição, mas cai lá um rubeus na casa 10, então a resposta é sim… mas tem muito potencial para ser horrível (importante também consultar as figuras da corte para entender melhor, pois fornecem as nuances necessárias para entender a situação, um método de leitura não exclui o outro).

E é isso! Parabéns, você já sabe como começar a brincar de geomante! Como dito, uma grande vantagem desse oráculo é que ele apresenta um método único e é perfeito para quem tem uma mentalidade mais analítica e menos associativa, intuitiva ou poética (em comparação com o tarô, por exemplo). Ainda assim praticar bastante é importante para se conseguir chegar no ponto de enxergar as coisas com clareza nesse monte de pontinhos. As aproximações e distanciamentos em relação ao tarô são muito interessantes: a geomancia oferece mais dificuldades para entender o método do que qualquer coisa, ao passo que o método do tarô é mais livre e qualquer iniciante pode já fazer uma tiragem simples de três cartas. O vocabulário geomântico, em contrapartida, é mais fácil de decorar, pois inclui menos figuras, ao passo que o tarô trabalha com 78 arcanos e pode demorar meses até você conseguir decorá-los. É comum termos leitores de tarô que são intuitivos e se orientam pelas imagens, o que dificilmente acontece na geomancia. Porém, ambos os oráculos são difíceis para dominar e exigem prática, prática e prática.

Umas últimas técnicas

Por fim, é interessante que a geomancia fornece meios para identificar o tempo também até certo evento se concretizar. Para isso, é necessário contar todos os pontinhos de todas as figuras, incluindo as da corte (exceto a 16ª, a sentença). Então esse valor é comparado a 96. Se o número for 96 certinho, tudo vai acontecer no tempo esperado. Se a contagem for menor que 96, será mais rápido que o esperado, e aí a rapidez em si depende do valor da diferença. Por consequência, um total muito maior que 96 indica uma longa demora.

Mas há duas outras coisas que se pode fazer com a soma ainda. Somando apenas os pontos do mapa, sem a corte, é possível chegar à Parte da Fortuna e ao Índice (ou Parte do Espírito, como chama Sam Block). Para a Fortuna, você conta o total de pontos, divide por 12 e observa quanto sobra: o número que sobrar é a casa onde a Parte da Fortuna cai (0 é tratado como a casa 12). Essa casa indica de onde é possível esperar boa sorte em relação à questão perguntada. Quanto ao Índice, o método é semelhante, mas você conta apenas os pontos dos elementos ativos, ímpares, das 12 casas. Ele revela o xis da questão, o fator oculto. Se ambos caírem na casa 6, temos uma questão que está inteiramente na mão do consulente; se caírem na 12, então ele está numa situação 100% passiva.

E, bem, é óbvio que existem mais coisas que são importantes para um geomante mais avançado, como as diferenças das triplicidades, as relações de trígonos, quadraturas e sextis (análogas à do mapa astral), os outros caminhos dos pontos, a técnica de rotação do mapa, etc., e existem aplicações avançadas como técnicas para previsão do tempo, mas com o que foi dado já é possível qualquer um começar a fazer suas tiragens.

* * *

[1] A ideia, no pensamento da geomancia, é mais ou menos algo na linha de que, quando amamos, nós nos perdemos na outra pessoa. A presença forte de amissio numa tiragem amorosa costuma ser muito positiva.

[2] Para cada elemento, eu perguntava se era ativo, caso o pêndulo fosse para frente e para trás, ou passivo, se fosse para os lados. Funciona e serviu para treinar bem o pêndulo, mas eu acabava não tirando geomancia com muita frequência porque dava preguiça.

[3] Aos meus amigos astrólogos eu devo pedir desculpas por usar uma imagem, que eu peguei pronta por comodidade, que associa as casas astrológicas aos signos. Essa relação é uma aberração conceitual de uma certa escola norte-americana de astrologia e mais confunde as coisas do que ilumina.

[4] Em inglês é translation, o que pode ser traduzido como “tradução”, mas eu pensei no sentido de translado mesmo. Porém, tradução etimologicamente também vem daí (trans + ducere, levar de um lado a outro), então fica elas por elas.

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