Ishtar, deusa do sexo e da guerra (mas muito mais do que só isso)

No calendário judaico, que é lunissolar e começa mais ou menos em março/abril, hoje é o dia 18 de Elul, o 6º mês do ano. Acontece que a inspiração para o calendário judaico foi o babilônico, tendo sido adotado durante o período do Exílio, no século VI a.C.1, e Elul equivale a um mês com um nome muito parecido em acadiano: Ulūlu. E o que tem de especial neste mês? Bem, cada mês era dedicado a um deus, e Ulūlu, que passa a maior parte do seu tempo com o Sol no signo de Virgem, pertence à deusa Ishtar. Eu já falei um pouco dela no meu texto sobre os deuses mesopotâmicos, mas temos agora a ocasião perfeita para dedicarmos mais algumas palavras para falar daquela que é talvez a divindade mais fascinante de todo o panteão.

Ela é uma deusa muito difícil de descrever. O nome Ishtar é semítico, derivado de ‘attar, que é a origem da deusa cananeia Astarte também, e aparece nos textos em acadiano —  o idioma, parente do hebraico, falado na Babilônia, na Assíria e em outros territórios da Mesopotâmia, tendo adquirido o estatuto de língua franca até ser desbancado pelo aramaico e pelo grego. Seu nome em sumério, a língua dos povos do sul da Mesopotâmia que se misturaram com os semitas vindos do noroeste, era Inana (ou Inanna), cuja origem é misteriosa e pode ter se originado de uma contração para “Senhora do Céu” (nin-an-ak) ou “Senhora das Tamareiras” (nin-ana-ak). Seu culto é atestado em Uruk, a cidade onde encontramos seu templo original, desde 3200 a.C. O que é fascinante sobre o culto de Inana/Ishtar é que não se trata de uma divindade local que foi traduzida em outros termos por uma cultura estrangeira, mas houve uma verdadeira fusão de cultos a partir desse contato cultural, que provavelmente foi responsável por conceder-lhe os atributos intrigantes pelos quais é conhecida.


Arte da deusa Ishtar, de autoria da artista francesa Marie Roura, baseada no Relevo de Burney, também conhecido como Rainha da Noite.

Quais os domínios de Ishtar? Tzvi Abusch, um dos expoentes da pesquisa em assiriologia, no verbete sobre a deusa no Dictionary of Deities and Demons in the Bible, editado por Karel van der Toorn, resume-os assim:

A deusa Inana/Ishtar parece exibir uma variedade de traços e qualidades (talvez inconsistentes) maior do que a maioria das outras divindades e exerce uma grande variedade de papéis. Ela é uma deusa do amor sexual e possui fortes poderes de atração sexual. No culto de fertilidade, ela recebe oferendas de alimentos e parecer ser o nume do armazém comunitário. Além disso, Inana/Ishtar é uma deusa das chuvas, que, como outros deuses atmosféricos, é também uma deusa guerreira e personifica a linha de batalha. Ela é ainda a padroeira das prostitutas e outras mulheres independentes, bem como a deusa da manhã e da tarde (Vênus).

Um deusa do sexo e da guerra, regente do planeta Vênus (chamado dilbat em acadiano), ela forma uma tríade com seu pai, Nana/Sîn, deus da lua, e seu irmão Utu/Shamash, o deus do sol. Os símbolos dos três deuses, a estrela de oito pontas, o chifre da crescente lunar e o disco solar, respectivamente, com frequência aparecem juntos em relevos e documentos antigos. Nos kudurru, pedras decoradas com símbolos divinos utilizadas para demarcar território e contendo contratos de propriedade (basicamente imagine se a escritura da sua casa fosse uma pedra de 50 quilos), a tríade Ishtar-Sîn-Shamash com frequência aparece no topo. Sobre essa relação com os outros deuses astrais, a Dra. Simone Dupla, em sua tese sobre o culto à deusa, diz o seguinte, citando o arqueólogo Louis-Joseph Delaporte:

Assim, Delaporte, já no início do século XX, a colocava na segunda tríade divina, junto com Utu e Nanna, os regentes do dia e da noite, o que atesta desde sempre sua presença no firmamento, mas ao contrário da lua que sai apenas no ocaso e do sol que aparece a cada alvorada, Inanna transita entre os dois casos e absorve poderes de outras deidades. Ao longo dos milênios, sua influência e acúmulo de poderes tornaram outras divindades pálidas representações em contraponto dessa divindade completa, e o vocabulário se expande em referência às formas de se referir a cada uma de suas funções.

A mulher livre e uma deusa liminar, que transita por todos os espaços, uma constante na sua representação é o seu papel como figura ambiciosa, que não se contenta com um domínio apenas… e, não por acaso, ao longo dos séculos, ela absorve os poderes de outras divindades a ponto de que o nome ishtar em textos posteriores se torna um termo genérico para “deusa”. Uma prece mágica ao deus Ea, por exemplo, diz: atmeya litib eli ili u ishtari  — ”que minha voz (atmeya) seja agradável (litib) ao meu deus (ili) e à minha deusa (ishtari)”. Essa representação emerge igualmente nos mitos, como eu já discuti anteriormente no meu texto sobre divindades mesopotâmicas: em “Enki e a Ordem do Mundo”, ela embebeda o deus da sabedoria para roubar os me, os artefatos que representam atributos da civilização, após sentir que tinha sido negligenciada na sua distribuição, e na “Descida de Inana ao Submundo”, o motivo pelo qual ela se volta ao domínio de sua irmã, Ereshkigal, o mundo dos mortos, parece ser a ambição de tê-lo sob seu controle e sentar no seu trono.

O que surpreende na figura da deusa é que há certas pressuposições quanto aos seus domínios que até fazem sentido para quem chega sem conhecer o contexto mais amplo da religião mesopotâmica, mas, quando você vai ver, não são nem um pouco verdadeiras. Por exemplo, de uma divindade de Vênus, somos levados a princípio a esperar o gosto pela harmonia e uma disposição amável, mais sedutora do que belicosa2. Astrologicamente, afinal, Vênus é o planeta desse tipo de coisa e rege os signos de Touro, com seu amor ao luxo e ao prazer, e Libra, o mais sociável do zodíaco, ficando debilitada em Áries e Escorpião, os signos regidos por Marte. No entanto, o planeta Vênus tem uma natureza dúplice  —  tanto que os gregos tinham nomes diferentes para ele como a estrela da manhã (heosphoros) e a estrela da tarde (phosphorus), aparentemente sem terem percebido a princípio que era tudo o mesmo corpo celeste —  que aqui se traduz no fato de que Ishtar é uma deusa que transita pelos dois sexos: ela geralmente é entendida como uma mulher, mas às vezes é também um homem barbado e guerreiro. 

E aí temos o fato de que ela é uma deusa sexual, ligada à fertilidade: na versão, posterior, em acadiano, do poema sumério da sua descida ao Submundo, menciona-se que, quando ela morre e fica presa lá, toda atividade sexual no mundo cessa, e o touro não monta mais a vaca, nem o cavalo monta a égua, nem o marido e a esposa trocam carícias, e assim por diante. Como aponta Simone, os hinos também falam dela em termos como “provedora da abundância dos campos e animais” e a cidade de seu patronato é descrita como “a região dos pomares”, o que reforça essa noção de deusa da fertilidade, que é como Sir James Frazer, por exemplo, a compreendeu. Mas essa é outra qualidade enganosa: com muita frequência a gente associa a fertilidade com maternidade, entendendo as deusas que têm esse domínio como deusas-mãe. No entanto, esse é um aspecto difícil de atribuir a Inana/Ishtar: não que seja impossível encontrar material em que ela seja descrita em termos maternais (sempre vai existir esse ou aquele texto mais marginal e esquisitão que não se encaixa nas prescrições), mas é raríssimo. Em vez disso, ela é sempre a mulher jovem, ligada a grupos de mulheres solteiras e ao sexo não apenas para reprodução, mas também pelo prazer, motivo pelo qual é a deusa também das prostitutas, por vezes inclusive caracterizando-se como uma. Mesmo em seu papel como esposa — ela é casada a outra figura de fertilidade, o deus da vegetação Dumuzid, também conhecido como Du’uzu e Tammuz, que rege o quarto mês do ano, referente ao período do Sol em Câncer — , ela tem vários amantes, como o rei de Uruk bem lembra quando ela o cobiça no Épico de Gilgamesh, apontando com desdém para o destino infeliz daqueles que se deitaram com ela.

Ao mesmo tempo ainda, Ishtar, assim como seu marido, é uma deusa que morre e ressuscita, uma característica que estudiosos do século XIX e ocultistas tendem a enquadrar sob a categoria das dimensões solares3. Nisso, ela está na companhia de Osíris, Dioniso e Cristo. O conceito da dying-and-rising deity é uma noção introduzida nas discussões de mitologia comparada, de novo, por Frazer e também elaborada por Jung, mas a universalidade defendida pelo autor (como costuma ocorrer nesse campo, as pessoas ficam emocionadas demais) foi contestada e entende-se que se trata de um fenômeno restrito ao Oriente Próximo. A deusa morre em sua descida ao Submundo, ao sentar-se nua no trono de sua irmã, tendo sido despida de seus poderes ao passar por cada um dos sete portões infernais, mas é ressuscitada por sua cortesã Ninshubur, que segue as instruções que ela lhe dá ao partir, indo consultar-se com Enki, que, por sua vez, envia a água e a erva da vida a ela, levada por duas criaturas geradas a partir da terra embaixo de suas unhas. 

A descida e o retorno do mundo dos mortos são um motivo recorrente das religiões de mistério, como se observa em Elêusis, dedicado a Deméter e sua filha Perséfone, e também nos mistérios dionisíacos, órficos e mitraicos. A morte, a dissolução definitiva da consciência, é o limite final da vida humana, ao mesmo tempo temida e inevitável, e conquistá-la é o grande desafio para místicos de diversas correntes. Faz sentido, portanto, que também a iniciação do adepto se dê quase sempre em termos de morte e ressurreição: nesses rituais, a pessoa que você era antes deixa de existir, e você renasce como um iniciado. Nesse sentido, os mitos de morte e renascimento de Inana são tão antigos quanto os de Osíris — logo, por essa lógica, ela não deixa de ser também uma forma de padroeira de todos os iniciados e todas as iniciações.

Pois. No começo deste texto, poderíamos dizer que Ishtar é simplesmente a deusa do sexo e da guerra. Agora, com toda essa bagagem, começa a ficar difícil de resumir suas características. Abusch também repara nisso e, assim, a descreve nos seguintes termos:

Nos textos literários mesopotâmicos, Inana/Ishtar tem uma personalidade coerente e verossímil, ainda que complexa. Inana/Ishtar é uma mulher jovem, independente e voluntariosa das classes superiores. Ela é o produto de um mundo urbano e tem uma associação íntima a cidades, mais do que a funções cósmicas. Ela parece estar em constante movimento, talvez por conta de sua associação com os corpos celestes e mulheres livres; em todo caso, seu movimento expressa e amplifica uma qualidade de descontentamento e inquietude que a caracterizam. Inana/Ishtar muitas vezes aparece como um ser sexualmente atraente, mas permanece insatisfeita e é constantemente “injuriada”, belicosa e contenciosa. Ela tem tendências à raiva e à fúria e “perturba o céu e a terra” (somos tentados a falar em termos de “feridas psíquicas” de infância). Seus papéis (como esposa, mãe, etc.) não são concretizados plenamente: ela se comporta como se fosse incompleta. No entanto, às vezes há perdas reais: seu marido, por exemplo, sofre uma morte prematura. Mas, enquanto a morte de Tammuz reflete o ciclo da fertilidade e é enfatizado compreensivelmente em seu culto e mitos relacionados, essa perda permanece um fato determinante na formação de sua personalidade, mesmo quando sua personalidade e história estão livres do contexto de fertilidade. Ishtar nos lembra Gilgamesh, um indivíduo poderoso, de grande energia, que sempre permanece insatisfeito com o papel ou quinhão que lhe é dado e o tempo todo é levado a ir além. Os dois parecem ser as contrapartes masculina e feminina um do outro.

A figura que aparece sob o nome de Inana ou Ishtar possui um número de características nitidamente delineadas. A deusa parece até mesmo exibir traços contraditórios ou conflitantes. Ela parece abranger opostos polares: ela é morte e vida, homem e mulher, ela é uma mulher que não exerce papel de cuidadora, nem tem um parceiro permanente, uma mulher sexual que é belicosa e se glorifica na agressão, na destruição, etc. Ela é glorificada, mas assustadora, exaltada, mas também intimidadora.

Essa descrição é impressionante. Abusch continua, na sequência, e se refere a ela como “aquela que recebe os mortos e é a mãe dos vivos. Ishtar dá e tira o poder e a força vital”. Ela é a própria representação e encarnação do poder, mas, mais do que isso  —  e aqui entra a minha interpretação  pessoal — , ela é a vontade de poder, em termos nietzschianos, ou o desejo, como compreendido por Deleuze e Guattari: não o poder que toma, mas o poder que cria4. É o desejo ou vontade, não como falta (como o conceito é compreendido por alguns psicanalistas), mas como força motriz. Em termos de natureza, poderíamos pensar na força que anima a semente, por exemplo, no que ela brota do solo e move o broto rumo ao sol e que, entre os animais, transborda na força avassaladora do desejo sexual, que perpetua a vida. Simultaneamente, essa mesma força, quando vai de encontro a obstáculos, gera o conflito, a guerra, que também é um de seus domínios. Daí que os símbolos ligados a Ishtar, como o leão, sejam esses símbolos de vitalidade e poder. Como ela se glorifica em um dos hinos (na tradução da Simone):

Eu sou Ishtar, deusa do entardecer. Eu sou Ishtar, deusa das manhãs! Sou Ishtar, que abre e fecha as portas dos céus, o brilho dos céus reflete minha glória; eu apaziguo os céus, acalmo a terra, para minha glória; sou a que brilha nos céus resplandecentes, cujo nome é brilhante no mundo habitado, para minha glória. Para minha glória, sou proclamada Rainha dos céus tanto acima como abaixo. Para minha glória subjugo as montanhas, eu sou o cume das montanhas.

Ishtar e o ocultismo

Naturalmente, uma deusa que concentra em si tantos atributos, tanto poder, e que tem relações com um dos grandes interesses do ocultismo contemporâneo, pelo menos a partir do século XVIII, de Zizendorf, Swedenborg e William Blake a Maria de Naglowska e Aleister Crowley, que é a magia sexual, é de se esperar que Ishtar tenha atraído a atenção de magistas desde a redescoberta arqueológica do mundo da antiga Mesopotâmia. No entanto, com frequência as abordagens nas indicações para trabalho com ela são meio equivocadas. Vamos a um exemplo.

Se você pegar qualquer livro mais abrangente sobre magia astrológica5, você vai encontrar uns tabelões que distribuem os nomes de deuses de vários panteões aos planetas associados a eles. Até aí tudo bem, Ishtar realmente é a deusa que rege Vênus, mas tem uma pegadinha: esses livros costumam operar segundo uma lógica estabelecida pela tradição esotérica ocidental, com frequência inspirada pelo sistema de Cabala hermética da Golden Dawn. Nesse sistema, Vênus, o planeta cujo número é 7, como se observa em Agrippa, cai sob a esfera da 7ª sefirah, Netzach… e, com isso, vem toda uma lapada de correspondências, como, além do número 7, a cor verde, o nome divino YHWH Tzabaoth, os domínios típicos de Vênus (amor, amizade, harmonia), etc. E, assim, não é que não dê para invocar Ishtar para ter ajuda nessa área (como regente de Vênus, afinal, energias e espíritos venusianos respondem a ela), mas essas correspondências para o trabalho com ela acabam sendo meio furadas. O número dela é 15 e não 7 e em nenhum ponto aparece o verde como sua cor, e por aí vai. Peter Carroll, em seu texto famoso sobre as cores da magia, em que ele destila a associação entre cada cor e cada propósito mágico a partir da lógica da magia planetária, inclui Inana/Ishtar como uma das divindades associadas à “magia verde”, ligada ao amor e à amizade, o que, OK, pode ser, mas de novo, vale lembrar que não é só isso. Carroll também a inclui no texto sobre magia vermelha, a magia da guerra, o que faz muito sentido e, bem, se você for parar para pensar, ela também poderia ser incluída na magia roxa, do sexo (uma atribuição bem óbvia), na magia “negra”, da morte, e por aí vai. Nesse sentido, as sugestões de Carroll de divindades para cada cor de magia acabam sendo inúteis, porque quase todas as cores da magia caem sob a sua esfera de influência.

A sua atribuição a Netzach, feita pelo viés astrológico, é problemática também e deriva mais de um processo de telefone sem fio do que de uma compreensão profunda de conhecimentos cabalísticos e de religião mesopotâmica. É mais ou menos como ter um texto em português, então traduzi-lo para o árabe e depois para o inglês… as coisas acabam se perdendo no meio do caminho. O pesquisador finlandês Simo Parpola, num artigo de 1993 chamado “The Assyrian Tree of Life”, cria uma versão mesopotâmica para a Árvore da Vida cabalística atribuindo os deuses mesopotâmicos às sefiroth, que ele especula que pudesse ser a origem desse conceito na Cabala, com base em argumentos como a ubiquidade do motivo artístico da Árvore da Vida nos relevos assírios e babilônicos. É uma proposição audaciosa e que não encontra muitos apoiadores na academia, mas ela se baseia numa lógica cabalística e numerológica muito bem fundamentada, por mais que lhe falta respaldo histórico, e que oferece uma outra possibilidade para a deusa: a sefirah de Tiffereth, a Beleza, no centro da Árvore. Diz o autor:

A posição da Beleza no meio da Árvore faz com ela seja “o foco central que reúne e reconcilia o fluxo de vários caminhos que passam por sua junção” (Halevi, Way of Kabbalah, p. 31); no Sefer Yetzirah, diz-se que as Sefirot são “amarradas com coesão no meio”, como se o autor tivesse a Árvore assíria com seu nodo central diante dos seus olhos. Um diagrama em Poncé, Kabbalah, p. 104, traz a legenda “A Beleza como a portadora de todos os poderes” e representa a Árvore Sefirótica na forma de uma estrela de oito pontas, com Tiferet como sua fonte de luz. Isto, é claro, lembra de imediato a estrela de oito pontas atestada como símbolo de Ishtar desde o final do segundo milênio a.C. (cf. Seidl, RIA, vol. 3, pp. 484 f.; Reade, “Shikaft-i Gulgul”, pp. 37 f.).

A compreensão de Ishtar como uma deusa do amor e da beleza (literalmente o sentido da palavra tiffereth) e sua descrição como “aquela que ama toda a humanidade” (sendo Rahamim, “compaixão”, um outro nome para essa sefirah), como argumenta Parpola, também corroboram para a inserirmos nessa posição — ao que eu somo ainda a dimensão iniciática de sua condição como uma deusa de morte e renascimento, que, como dito, os ocultistas tendem a associar à esfera solar e por isso a inserir em Tiffereth.

No mais, há também quem já a tenha associado à figura thelêmica de Babalon. O nome, que lembra o inglês Babylon, remete à palavra BABALOND, do enoquiano, que significa “prostituta”, e sua iconografia a representa segundo as descrições da Mãe das Abominações do livro do Apocalipse. Como se lê na Thelemapedia, que cita as visões de Crowley, ela representa o ideal místico, a comunhão com o todo, aguardando o iniciado do outro lado da Travessia do Abismo, a etapa final da ascensão pela Árvore da Vida, que culmina em obter o título de Mestre do Templo. Peter Grey, em The Red Goddess, um livro dedicado inteiramente à discussão de Babalon, comenta as suas possíveis raízes sumérias no seguinte parágrafo:

Ishtar era a Deusa da cidade da Babilônia e tanto o seu culto quanto o de todas as deusas do Amor a ela associadas eram horrivelmente imorais para os israelitas em exílio. O que piora ainda mais as coisas é que Inana, na forma de Astarte, era a Deusa preferida em Israel. Ela era tanto uma estrangeira quanto uma rival familiar para a hegemonia de Iavé. Se acreditarmos na teoria conspiratória de Jeremias, então Inana/Astarte foi a responsável pela queda da primeira Jerusalém. Que melhor modo, pois, para São João promover a ideia de uma Nova Jerusalém do que matar a ameaça perene dessa belíssima Deusa? Que inimigo mais perigoso havia à sua mensagem de que “Deus é amor” do que uma tradição baseada na união explícita e erótica com o Divino?


Babalon, representada no Tarô de Thoth no arcano 11, equivalente à Força, mas rebatizado como A Luxúria

Pesado. E ele continua, aprofundando-se nas comparações ao longo das páginas seguintes. Eu não sei o quanto esse livro do Peter Grey é levado a sério nas comunidades ocultistas, especialmente entre thelemitas, e eu tenho um pé atrás com algumas simplificações históricas que se nota que ele faz (a seção sobre Lilith tem algumas coisas especialmente duvidosas, apesar de eu concordar com a conclusão a que ele chega), mas vale a provocação, entreter a ideia de que Babalon poderia ser uma nova roupagem, por assim dizer, adaptada para o novo éon, dessa antiga e poderosa divindade.

Dicas para possíveis devotos

Eu espero que este texto tenha dado uma noção de como podemos entender Inana/Ishtar de uma forma um pouco mais aprofundada do que apenas a descrição de uma deusa do sexo e da guerra. Para quem se interessou e considera a possibilidade de incluí-la nas suas devoções, seguem algumas indicações de leitura. Em breve, eu devo dizer algumas palavrinhas mais específicas sobre o assunto da invocação, mas antes ter boas fontes como referência é crucial.

Eu recomendo imensamente que se leia os textos literários sumérios e babilônicos que cobrem os seus principais mitos, como A Descida de Inana ao Submundo, Inana e a Árvore Huluppu, Enki e a Ordem do Mundo e, claro, O Épico de Gilgamesh. Os vários poemas e hinos dedicados à deusa (incluindo os que representam louvores mistos a ela e a Dumuzid, celebrando sua união sexual) são também importantíssimos, sobretudo A Exaltação de Inana, escrito pela princesa Enheduana, e o hino do rei Ammi-Ditana, que governou a Babilônia no segundo milênio a.C. De leitura complementar, sugiro o Dictionary of Deities and Demons in the Bible, de van der Toorn, o Reading Akkadian Hymns and Prayers do Alan Lenzi, e, claro, em português, a tese da Simone Dupla, Imaginário e Devoção no Culto à Deusa Mesopotâmica Inanna/Ishtar (2112-1600). Evite o Necronomicon ou qualquer obra que confunda a deusa com Lilith (já falamos sobre isso antes, inclusive).

Como dito, o principal símbolo de Inana/Ishtar é a estrela de oito pontas, seu número místico é 15 e seus hinos, como o de Ammi-Ditana, podem ser usados ritualmente. Como oferendas, os deuses babilônicos, via de regra, recebiam incenso, mel, farinha e cerveja. Ela é a deusa com quem eu mais tenho experiência devocional, por assim dizer, pois foi a primeira divindade que me chamou a atenção, que entrou em ressonância comigo. Foi com esse mesmo ânimo devocional que eu já me via traduzindo alguns dos poemas sumérios em sua homenagem, anos atrás, antes mesmo de oficializar esse trabalho com rituais e oferendas de fato. Não seria exagero dizer que ela é a força principal por trás das imensas mudanças, externas e principalmente internas, pelas quais eu passei desde que comecei a cultuá-la (de fato uma experiência de morte e renascimento). Não posso dizer o que esperar de um trabalho com a deusa, pois cada pessoa vai ter uma experiência diferente que pode não se parecer em nada com a minha, mas digo o que não esperar: como eu insisto sempre, não espere encontrar a mesma figura dos mitos e narrativas literárias. Essas figuras são humanas demais, com todas as paixões e fraquezas que nós temos, e suas relações conturbadas não são um reflexo real da relação que o místico estabelece com a divindade. Ao mesmo tempo, os mitos e a literatura podem ser úteis para estabelecer justamente essa ressonância emocional que abre o caminho para a devoção.

[1] Você pode conferir os meses do calendário judaico e sua equivalência com o ocidental no site Chabad.org. A lista dos meses babilônicos consta na Wikipedia. Quanto ao calendário usado antes do Exílio, sabe-se o nome de alguns meses, como Aviv, o primeiro mês da primavera, mas quase nada dele sobreviveu.

[2] Tem uma cena na Ilíada em que Afrodite, a deusa venérea por excelência, defende seu filho Eneias e acaba ferida por Diomedes, o que causa toda uma comoção do tipo “você não tinha nem que estar aqui, linda” — afinal, a guerra não é lugar para a deusa da beleza. Porém, vale lembrar mais uma vez que se trata de um caso literário e uma das formas de Afrodite era representada armada, conhecida pelo epíteto Afrodite Areia, então mesmo aí a coisa é mais complexa do que a gente tende a pensar.

[3] O filólogo alemão Max Mueller, por exemplo, promoveu no século XIX a hipótese do mito solar, segundo a qual todos os mitos eram derivados de interpretações da jornada do sol pelo céu ao longo do ano, de acordo com cada região. Essa hipótese foi refutada no século XX, mas não sem antes se tornar imensamente popular. Na magia da Golden Dawn, a correlação entre Tiffereth, o Sol, Osíris e Cristo e a morte e ressurreição da divindade pode ser observada nas fórmulas do Ritual do Hexagrama.

[4] Nietzsche cunha a expressão vontade de poder ou vontade de potência em seu livro de 1883, Assim Falou Zaratustra, mas eu gosto especialmente da explicação de Deleuze em Nietzsche e a Filosofia e, de maneira mais acessível, no terceiro ensaio, sobre o filósofo, em Pure Immanence: Essays on a Life. Sobre o conceito de desejo, vide O Anti-Édipo, de Deleuze e Guattari.

[5] Um bom exemplo de um livro desses (e uma leitura muito recomendada para os interessados no assunto) é o Planetary Magick: the Heart of Western Magick, de Melita Dennings e Osborne Phillips, da ordem Aurum Solis. É engraçado que os autores incluem Ishtar duas vezes aqui, na seção onde apresenta deuses ligados aos planetas, como uma deusa venusiana e como uma deusa… saturnina??

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