Lilith? Deusa mesopotâmica? Primeira mulher de Adão?

A resposta simples para essas duas perguntas é: não.

Mas… e?

Não. Nunca foi. A primeira ela nunca foi mesmo, a segunda só como piada. Sem chance.

Bom, agora que eu tirei isso do peito, vamos à resposta mais séria e detalhada, voltando para alguns milênios antes de Cristo.

A pintura de Michelangelo retratando a expulsão do paraíso no teto da Capela Sistina.

Os povos sumérios e semíticos falantes de acadiano tinham uma cacetada de deuses, e a gente conhece muitos deles, especialmente um núcleo central de nomes mais importantes como Anu, Ea, Shamash, Sîn, Ishtar, Nabû, Ninurta, Adad, Nergal, etc., um assunto de que tratarei em breve com mais atenção. Eles eram celebrados em estátuas, relevos, hinos e textos mitológicos, registrados em tabuletas de argila, muitas das quais sobrevivem até hoje e foram catalogadas, transcritas e traduzidas. Os mesopotâmicos também tinham uma vasta literatura sobre demônios e outros espíritos malignos, especialmente preocupada com os métodos para se livrar deles, como eu já comentei anteriormente. Complicando a visão posterior, abraâmica, dos deuses pagãos como demônios¹, a própria religião mesopotâmica tinha essa distinção entre as duas categorias: os deuses recebiam culto e oferendas, hinos eram cantados a eles, buscava-se sempre mantê-los contentes e seu poder era invocado justamente para expulsar os espíritos demoníacos que, por sua vez, causavam doenças, talvez como retribuição pelo fato de não terem espaço no cosmos, condenados à condição de perpétuos outsiders. Um desses espíritos eram o que alguns identificam como liliths, chamados em sumério e acadiano de lilu, lilitu e ardat-lili.

O que exatamente essas criaturas faziam é um pouco obscuro: por vezes são responsáveis pela morte de crianças ou de mães durante o parto, assim como as lamashtu. Por vezes são íncubos e súcubos que visitam suas vítimas durante o sono para sugar sua vitalidade com sonhos eróticos. M. J. Geller, comentando o Manual do Exorcista, as define, meio jocosamente, como “sexy ghosts”, ao passo que Wiggermann a inclui junto com as lamashtu como os demônios sexualmente frustrados que respondem a Pazuzu. Hutter, no livro de Karel van der Toorn, Dictionary of Deities and Demons from the Bible, glosa que sua sexualidade é sempre caracterizada como anormal e ela é incapaz de gerar filhos, seu leite materno sendo venenoso.

A lilitu tem papel importante no mito sumério de Inana e a árvore huluppu,que também comento melhor no texto sobre o panteão mesopotâmico. Quando a deusa (Inana, no caso, era uma deusa de divindade bem reconhecida) replanta a tal árvore, arrancada por uma tempestade, ela precisa lidar com três pragas que a infestam: uma serpente nas raízes, um pássaro monstruoso, o Anzu, nos galhos, e uma lilitu no tronco — ou, melhor dizendo, uma kisikil-lila, traduzida como phantom maid no texto em inglês, “donzela fantasma”. Antes de qualquer conclusão sobre a participação de uma lilitu nesse mito, é preciso saber um fato importante sobre a escrita cuneiforme.

O cuneiforme tem esse nome porque era escrito usando um stilus em forma de cunha sobre a argila. Os caracteres sumérios oscilam entre o logograma (imagens representando conceitos) e o fonograma (imagens representando os sons de sílabas). O repertório sumério conta mais de 1000 caracteres, que depois foram reduzidos pelos babilônios, que usavam 88 como um silabário e mais alguns logogramas por praticidade. Um tipo de caractere importante é o chamado determinativo. O determinativo não era pronunciado: sua função era demarcar a categoria existencial do que quer que viesse depois. Um certo determinativo (NA), por exemplo, é utilizado sempre que aparece uma pedra, outro (Ú) aparece antes de nomes de plantas, outro (E) determina casas e construções, e assim por diante. Um dos mais importantes é o DINGIR ou DIĜIR, que é usado para indicar que o nome que vem depois é o nome de uma divindade. Via de regra, os nomes dos deuses sempre vêm com um DIĜIR antes, representado na transcrição do texto sumério no Electronic Text Corpus of Sumerian Literature como um pequeno d sobrescrito. Isso também acontece com nomes de reis divinizados.

Agora, no texto de Wiggermann alguns demônios ocasionalmente surgem com um diĝir antes, e Christopher Hays comenta que esse mesmo determinativo aparece às vezes antes do nome de fantasmas etemmu, os mortos que acabam se tornando parte dos poderes perigosos do mundo invisível. Talvez nesses casos o determinativo seja um indicador de poder, porém é um fenômeno mais raro e não ocorre nesse único mito em que lilitu/kisikil-lila aparece, ao passo que sempre ocorre com deuses de culto bem estabelecido. Pode conferir no texto transcrito da tabuleta.

Em certo grau, as liliths têm alguma conexão com a deusa Inana, por conta da questão da sexualidade não convencional e os problemas apresentados pelo mito da árvore huluppu. Essa conexão também é ressaltada pela confusão feita quando uma placa de terracota mesopotâmica em alto relevo chamada de Relevo de Burney ou Rainha da Noite foi descoberta na década de 1930 e alguns estudiosos acreditaram que pudesse representar uma lilitu. Muita água rolou na assiriologia desde então, e os estudiosos passaram para a hipótese mais plausível de que fosse uma representação de Ishtar, com base em evidências simbólicas textuais², ou talvez Ereshkigal (uma hipótese ainda estranha, pois seria a única representação da deusa do submundo).

O Relevo de Burney ou A Rainha da Noite

Numa leitura muito criativa, como a feita por Johanna Stuckey, seria possível compreender essa classe de demônios como emanações inferiores de Ishtar, mais ou menos como sua sombra ou “casca qlifótica”, para usar um termo cabalístico, na medida em que a destruição da árvore cósmica do mito, que ela descreve em seu artigo, pode ecoar o outro desastre que desequilibra a Árvore da Vida judaica. Este é um fenômeno que eu já comentei no meu texto sobre demônios para explicar o elo entre Astarte, a deusa cananeia da fertilidade, e Astaroth, um dos 72 demônios da Goetia. Mas não significa, nem de longe, uma relação de identificação³ e, mesmo reconhecendo essa possibilidade de associação, ela se baseia em termos muitíssimo tênues.

Em resumo: Lilith ou as lilitu nunca foram cultuadas na Mesopotâmia, nem havia qualquer noção delas como sendo qualquer coisa que não um tipo de encosto sexual. Alguém que diga que ela era uma deusa antiga da região seguramente não tem a menor ideia do que está dizendo.

Uma piada rabínica

A partir daí as preocupações com esses seres se espalharam para Israel, a ponto de haver uma única menção na Bíblia (mas não onde você imagina), num versículo de Isaías (34:14) onde o termo aparece no plural hebraico liloth. Nesse trecho o profeta prevê a completa destruição de Edom, de modo que apenas bestas habitarão os escombros, incluindo hienas e abutres e liloth. A questão é que é polêmico se Isaías aqui utiliza os termos num sentido sobrenatural ou não — a tradução do Mechon-mamre vai por essa lógica, e alude a “sátiros” e “monstros noturnos”, enquanto a King James e a Almeida ficam num meio de caminho, falando em sátiros com “animais noturnos” e “corujas”. A Septuaginta, a tradução da Bíblia para o grego koiné, verte o termo como onokentauros (um tipo de centauro com corpo de jumento) e São Jerônimo, que fez a tradução oficial para o latim, a Vulgata, a entende como o mesmo que a lâmia — um demônio feminino popular do imaginário greco-romano. A magia folclórica judaica produziu várias técnicas para espantar e aprisionar liloth, incluindo amuletos e tigelas mágicas que eram enterradas embaixo das casas (o Haaretz tem um artigo bem interessante sobre o assunto, com a participação de especialistas e ilustrações). As preocupações com essa criatura chegaram inclusive ao Talmude, onde aparece como um demônio com asas e cabelo comprido, filha de Ahriman (a figura satânica do zoroastrismo, que se opõe a Ahura Mazda), que atormenta homens que dormem sozinhos (Erub. 100b; Nid. 24b; B. Bat 73a; Shab. 151b).

OK, beleza, mas e a história da primeira mulher de Adão? Está na Bíblia, né? No Talmude?

Não!

A suspeita de que Adão teve uma ex-mulher (que eu não consigo deixar de achar hilária… afinal, ele foi o primeiro homem e já era divorciado) se insinua pela justaposição entre as duas histórias da criação em Gênesis 1 e 2. Não vou entrar a fundo nas questões por trás dessa estrutura, porque é uma digressão longa sobre as hipóteses de redação do Antigo Testamento, mas o fato é o seguinte: existe sim um texto em que Lilith é a primeira mulher de Adão e que foge, porque se recusa a ficar por baixo na hora do sexo. Mas é um texto cômico.

O nome desse livro é Alfabeto de Ben Sirá, composto entre os séculos VIII e XI, que conta as loucas aventuras do filho do profeta Jeremias, que nasce já falante e com dentes, e a história de Lilith é uma das que ele conta ao rei Nabucodonosor: nela, Lilith é a primeira mulher de Adão, que se revolta por não querer ficar por baixo na hora do sexo, então, quando começa a briga do casal, ela usa o nome divino e sai voando. Adão reclama, e Deus manda três anjos atrás dela para buscá-la, que oferecem um acordo: ela pode voltar se quiser, senão deve concordar que cem de seus filhos demoníacos morram a cada dia. Ela vai pela segunda opção e se torna um demônio causador de doenças em crianças. A única proteção contra ela é a oferecida pelos três anjos Snvi, Snsvi e Smnglof, cujos nomes devem ser inscritos em amuletos deixados nos berços de recém-nascidos para protegê-los, o que deveria ser uma prática comum na época.

Porém, esse mesmo livro também conta a história de como o rei Salomão depilou a virilha da rainha de Sabá (que aparentemente era muito peluda), de como Noé amaldiçoa o corvo “a copular pela boca” (tal era a crença dos antigos) porque ele insinua que Noé queria comer sua mulher e Ben Sirá ainda ajuda Nabucodonosor a resolver o problema de sua filha, que soltava mil peidos por hora.

Eu não estou brincando. É esse o conteúdo mesmo. É esse o nível. E é maravilhoso.

Por conta de seu estilo, que imita um gênero popular de literatura rabínica, o agadá, porém num registro muito mais chulo, e suas muitas referências, entende-se que o Alfabeto muito provavelmente era um texto composto por rabinos durante o período medieval, talvez como um divertimento para circular entre eruditos, no mesmo molde daqueles desenhos pornográficos que os monges copistas gostavam de desenhar nas margens dos textos. Esse tipo de material é raro, mas não é sem precedentes: nesse mesmo gênero poderíamos incluir o Sefer Toledot Yeshu, uma polêmica contra os cristãos. Esse livrinho transforma Jesus num charlatão e feiticeiro, que realiza seus “milagres” por ter roubado o nome divino do Tabernáculo e é vencido quando um rabino urina ou ejacula nele, deixando-o ritualmente impuro, o que faz com que sua magia falhe.

Apesar de o Alfabeto ter o mesmo peso místico e teológico que um episódio de South Park, as pessoas se empolgaram com essa história de primeira mulher de Adão e, quando viu, o mito já estava disseminado. Quem quiser ler em primeira mão, eu recomendo o volume Rabbinic Fantasies: Imaginative Narratives from Classical Hebrew Literature, de David Stern e Mark Jay Mirsky, que inclui este livro e muitos outros textos interessantes em tradução para o inglês.

Lilith faz outras aparições ainda no imaginário judaico medieval. No Midrash Abkir uma lilith chamada Piznai atormenta Adão, pois, traumatizado pelo assassinato cometido por seu filho Caim, ele havia se separado de Eva e dormido sozinho durante várias noites. Então esse monstro o visita, o seduz e gera multidões de demônios com seu sêmen. No Tratado da Emanação Sinistra, um texto cabalístico do século XIII, de autoria de Isaac Cohen, Lilith e Satã (sob o nome Samael) formam um par sexual inseparável, um espelhando o outro e os dois formando a paródia demoníaca de Adão e Eva. No Zohar uma imagem parecida emerge, mas nele Lilith é a perversão da Shekinah, a presença de Deus tipicamente entendida como a dimensão feminina do divino. Lilith e Samael se veem associados à serpente que seduziu Eva e causou a Queda e, em alguns relatos, Lilith também seria a Rainha de Sabá, que teria feito Salomão cair em idolatria. E assim por diante.


Lilith, de John Collier

Na Renascença, quando a Europa começa a entrar em contato com material cabalístico, geralmente ignorado ou desconhecido durante o medievo, essas noções todas acabam vindo junto e povoando o imaginário coletivo. Não por acaso, Michelangelo, que teve contato com Cabala provavelmente enquanto residiu com os Medici entre 1490–1492 (fonte, p. 405), parece ter se inspirado nessas tradições ao pintar a expulsão do paraíso no teto da Capela Sistina, na imagem mais acima. A serpente aparece igualmente como uma mulher na pintura Adão e Eva do maneirista Cornelis van Haarlem, de 1592. Conforme cresce a fascinação europeia com misticismo e também com questões tabu — o que, tudo junto, se traduz numa obsessão com o satanismo, de Byron e Baudelaire a J. K. Huysmans — , Lilith também ganha mais espaço, como na outra pintura famosa Lilith (1887), do pré-rafaelita John Collier, ao lado, onde ela também aparece ligada à figura da serpente. Outro pré-rafaelita, Dante Gabriel Rossetti faz uma representação mais sutil da figura em seu retrato Lady Lilith (1866–1872).

Lilith faz uma pontinha na cena da Walpurgisnacht, o grande Sabá das bruxas da primeira parte do Fausto, de Goethe, que rendeu outra pintura ainda, de Richard Westall, em 1831. E, no começo do século XX, o astrólogo Walter Gorn Old, conhecido como Sepharial, propôs a ideia de que a Terra teria uma segunda Lua invisível, chamada Lilith ou, para usar o nome completo, Black Moon Lilith. Apesar de essa hipótese ter sido logo descreditada, o nome permaneceu na astrologia e passou a ser usado para se referir a uma projeção matemática representando a direção do apogeu da Lua. No mapa astral, geralmente ela descreve o lado sinistro do feminino, com conexões com remorsos e arrependimentos, cicatrizes, traumas e desejos culposos (fonte).

A Lilith das bruxas e ocultistas

Agora, pensando na questão da prática mágica, isso tudo não quer dizer que, em tese, não haja valor em trabalhar com Lilith — apesar que, como com qualquer entidade mais trevosa, é importante prosseguir com muito cuidado e ter certeza antes se você quer entrar nessa. Hutt diz o seguinte no livro de van der Toorn, encerrando o verbete sobre Lilith:

Tais lendas se espalharam até a Idade Média. Na crença popular, Lilith se tornou não apenas a avó do diabo ou o próprio diabo, mas também a arquimãe da bruxaria e das bruxas.

Assim, faz todo o sentido para quem vem de uma linhagem mais próxima da sabática, onde o diabo, Lúcifer ou Bode do Sabá tem um papel importante, trabalhar com Lilith… para alguém da Wicca, porém, já é mais complicado⁴.

Thomas Karlsson, membro ilustre da ordem sueca Dragon Rouge, no rastro do trabalho qlifótico delineado por Levi e Kenneth Grant, em seu influente Qabalah, Qliphot e Magia Goética, insere Lilith num duplo papel: primeiro, como a própria versão sombria da sefirah de Malkut, ou seja, é o “anti-mundo em que consiste nosso cosmo mundano, Malkut”, seu ventre representando a terra como sepultura, a entrada ao submundo e ponto de partida do “magista sombrio”. Karlsson ensina um tipo de mantra para contatá-la e iniciar essa jornada pela árvore invertida, que deve ser repetido treze vezes no meio do mato na completa escuridão. Em segundo lugar, ela é a demônia que governa Gamaliel, a qlifa de Yesod, sombra da anima mundi, a alma do mundo e reino dos sonhos, representando “a esfera da sexualidade proibida”.

Asenath Mason, outra expoente do rolê draconiano, é a organizadora de toda uma antologia de textos escritos por praticantes de magia, chamada Lilith: Dark Feminine Archetype. No texto introdutório, em que repassa a sua história, ela demonstra que a entende, mais do que tudo, como um tipo de arquétipo, que nada mais é que uma abstração que fornece algo como um mapa para a criação de personalidades complexas, mas unidas por um mesmo princípio. E esse arquétipo lilitiano é o da mulher perigosa, de sexualidade desviante, “devoradora de homens”, a perpétua femme fatale que é essencialmente qlifótica na medida em que essa personificação só pode surgir a partir de uma repressão histórica da mulher e da sua sexualidade — as qlifot, vale lembrar, nada mais são do que o subproduto da criação e a origem do mal, porque, no processo de trazer as coisas à luz, certas outras coisas acabaram deixadas na escuridão. Daí que Lilith, no século XX, tenha sido reabilitada como um tipo de ícone feminista — como lembra Rebeca Lesses, houve uma revista judaica feminista chamada Lilith, publicada em 1976, cujo título foi inspirado pela sua narrativa como primeira mulher de Adão. Como eu argumentei nos meus textos sobre demônios, a relativização moderna do mal e sua identificação com a opressão sistêmica abriram margem para essa reabilitação do demoníaco no imaginário ocidental… e faz sentido que isso se manifeste na dimensão mágico-religiosa também.

Não deixa de ser curioso como a piada dos rabinos do Alfabeto de Ben Sirá saiu pela culatra. O próprio contexto em que a ideia de demanda de igualdade da primeira mulher de Adão pareceu ridícula o suficiente para virar uma piada nesse livro é qlifótico, na medida em que a luz da busca pelo divino que sempre fez parte da religião judaica, desde o Primeiro Templo até as explorações cabalísticas, e sua obsessão com pureza acabaram gerando essa sombra que é a marginalização sexual⁵. Como diz Karlsson: “Por meio de sua condenação, Lilith passou a uma existência sombria e se tornou uma existência qlifótica”. E assim a fama de Lilith cresceu a ponto de ter saído de controle e escapado do espaço onde emerge originalmente.

Nesse sentido, como um arquétipo derivado dessas muitas representações diabólicas, que vão desde os monstros mesopotâmicos à esposa de Samael, e que vem sido trabalhado por vários grupos de magistas ao longo do último século, especialmente ligados à chamada “mão esquerda”, talvez seja possível descrever Lilith como uma deusa, dependendo da sua definição do que é um deus. Em todo caso, se assumirmos essa postura, algumas coisas são inegáveis:

  • Trata-se de uma deusa moderna, assim como as entidades do Cthulhu mythos lovecraftiano ou Baphomet (cuja origem, bem menos nobre, deriva de um erro de leitura do nome Maomé), sem culto até o século XX, mas que são o foco de muitas práticas mágicas contemporâneas ainda assim;
  • Trata-se de uma deusa que, se não for simultaneamente um demônio, tem pelo menos claros elos com o demoníaco (comparável nisso talvez a Pazuzu);
  • Trata-se de uma deusa ctônica, abissal e selvagem, ligada ao qlifótico.

Karlsson faz uma distinção importante entre os magistas do “esoterismo da luz” e os do “esoterismo das trevas”:

A iniciação qlifótica é draconiana num duplo sentido: Draconiano geralmente quer dizer “duro” ou “severo”, o que é um sinônimo adequado também do caminho Draconiano. É duro, mas leva a mundos de beleza singular. A descrição do caminho como Draconiano também indica sua direção: o esoterismo da luz leva a uma união com os deuses masculinos da luz, como Iavé ou Marduk. O esoterismo das trevas, por outro lado, leva às entidades primordiais, os dragões como Leviatã, Tehom ou Tiamat, que existiam desde muito antes dos deuses da luz e que existem num infinito além da luz divina.

Assim sendo, alguém que deseje trabalhar com uma entidade como Lilith deve se preparar e ter a capacidade de segurar o rojão. Não vai ser como trabalhar com qualquer outra divindade celestial, “da luz”, que envolve meditações tranquilas que trazem aquela paz e sossego típicas da abertura do chakra da coroa, mas é um convite a forças incrivelmente selvagens, destrutivas e incontroláveis, que vão virar você e sua vida do avesso. Com frequência, faz-se uma comparação com a fase de nigredo, o primeiro estágio alquímico em que tudo que não presta passa por um processo de putrefação… o que, é claro, é tudo menos agradável.


Ilustração alquímica representando Nigredo ou Putrefação.

Qualquer pessoa que a caracterize como qualquer outra coisa que não isso, que minimize estas características e a entenda apenas como uma deusa do empoderamento feminino e sexualidade forte ou é mal intencionada ou simplesmente não sabe o que está fazendo. É perigosíssimo dar ouvidos a essa conversa. Descrevê-la como deusa mesopotâmica ou como a força da qual deusas bem estabelecidas como Inana seriam emanações é tão absurdo e sem fundamento que beira o ofensivo — experimenta virar para alguém do Candomblé e dizer que Oxum nada mais que é uma emanação de Astaroth pra tu ver.

Eu não digo nada disso com o intento de “invalidar” as crenças ou práticas mágico-religiosas alheias, mas rola muita desinformação por aí nas redes sociais e, bem, se você toma decisões sobre a sua espiritualidade com base nos delírios de estranhos da internet, recomendo que repense o que você está fazendo. OK, é irônico falar isso sendo também um estranho da internet, mas eu não sou um adolescente recém-saído do ensino médio e faço questão de apontar que vocês não precisam acreditar no que eu digo, pois cito constantemente minhas fontes. Se as pesquisas sérias indicam a ausência de qualquer noção da divindade de Lilith na Antiguidade (e o ridículo de sua representação como primeira mulher de Adão) e praticantes mais experientes do rolê draconiano apontam para sua natureza trevosa, é preciso muito mais do que mera UPG (unverified personal gnosis) de um neófito para ir contra isso.

“Ah, mas a própria Lilith me falou que…”

Meu alecrim dourado, a primeira coisa que você deve saber sobre comunicação com espíritos é que não dá para acreditar irrefletidamente em tudo que você ouve num desses contatos. Daí que vem o unverified em unverified personal gnosis. Não é que eles mintam (apesar de que eu não confio em magista inexperiente que pode muito bem estar entrando em contato com um obsessor ou zombeteiro em vez de qualquer outra entidade), mas muita coisa pode ser metafórica ou apenas derivada do subconsciente do magista, de acordo com a qualidade do sinal, por assim dizer. Quanto melhor for o contato, o que envolve variáveis como a experiência, mediunidade e prática do magista e a proveniência do espírito, mais confiáveis tendem a ser as informações, mas é sempre importante que elas sejam testadas⁶. No mais, é fato que deve haver alguma consonância entre a realidade espiritual e a realidade mundana, do contrário você perde qualquer direito de rir de fanáticos como os criacionistas que acreditam que a terra tem só 6 mil anos, com base na interpretação literal da Bíblia, ou do fiasco que foi a investigação daquele delegado de Novo Hamburgo que teve a suposta revelação divina de que um caso de assassinato era ligado a um ritual satânico.

Se você se interessa por luciferianismo e o “Caminho da Mão Esquerda”, se você sente uma forte atração por tudo que Lilith representa e tem a disposição para passar pelo processo violento de transformação que a entrada em sua esfera qlifótica acarreta, então procure os livros de Karlsson e Mason e boa sorte. Se você só está atrás de uma divindade que represente uma mulher poderosa e sexualmente ativa e desinibida ou uma deusa mãe, há muitas outras opções mais indicadas que, não, não são aspectos dela nem podem ser reduzidas como uma mesma figura.

[1] Essa visão faz parte sim do judaísmo e do cristianismo historicamente, mas vale lembrar que quem sofre com isso hoje não são os neopagãos, mas as religiões de matriz africana. Com muita frequência os cristãos aparecem como o grande bicho-papão dos discursos de bruxaria (“ai porque eles demonizaram os deuses, eles queimaram as bruxas, eles apagaram o feminino”) e justamente porque esse é um discurso fácil que ele é cansativo e muitas vezes só disfarça preguiça intelectual.

[2] O leão que aparece na imagem era o símbolo mais conhecido da deusa; o bastão e anel em suas mãos também aparecem no poema da sua Descida ao Submundo; e a coroa que ela veste, um símbolo do deus maior Anu, é utilizada apenas por deuses importantes e seres celestiais como os lamassu.

[3] Eu já vi alegações de gente do Twitter de que a verdade seria o oposto, que Inana/Ishtar seria uma manifestação de uma entidade que hoje é cultuada sob o nome Lilith, com base em… porra nenhuma, a pessoa simplesmente solta essa bomba sem nenhuma referência e vários outros jovens espalham sem refletir. Tal leitura representa o maior exemplo que eu já vi de se colocar a carroça na frente dos bois.

[4] Como comenta Fredrik Gregorius em sua contribuição ao volume The Devil’s Party, com o capítulo sobre Bruxaria Luciferiana, Lilith tem um papel importante na obra de Chumbley, o grande nome da bruxaria do Cultus Sabbati. Ela também é proeminente nos livros de Michael Ford, que colapsa a figura de Lilith com a Hécate e Diana greco-latinas e a Babalon thelêmica, fazendo uma grande salada trevosa. Não por acaso, Gregorius comenta que Ford frequentemente é criticado por outros luciferianos, mas sua obra permanece bastante popular.

[5] Ao mesmo tempo, precisamos relativizar a questão também. O judaísmo é patriarcal, certo, tem muitas coisas que incomodam (como a noção de a menstruação ser ritualmente impura) e o judaísmo ultra-ortodoxo hoje realmente parece muito opressor no tocante a gênero, mas a caricatura que os ocultistas, especialmente os mais interessados em magia sexual, bruxaria e Thelema, têm feito do judaísmo é injusta, sobretudo sob um olhar histórico e em comparação com o que as nações cristãs faziam ao mesmo tempo. Alguns sites podem ser lidos sobre o assunto para explicar melhor.

[6] O Nick Farrell tem um texto recente muito bom em seu blog (mas, como muitos textos lá, com uma necessidade urgente de revisão) sobre como testar o que dizem os espíritos.

(Este texto foi publicado originalmente no Medium em 25 de junho de 2020)

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