Se você tem algum contato com magia ou com o esoterismo ocidental, já deve ter ouvido falar do Santo ou Sagrado Anjo Guardião (SAG). Entre todas as confusões de manuscritos, inovações promovidas pelo Crowley e questões de práticas semelhantes, esse acaba sendo um assunto meio complicado, com muitos meandros. Por isso, aproveitando a deixa do último texto, sobre a conexão com o Divino, no texto de hoje decidi abordar os seguintes assuntos: o que é esse ser espiritual, qual a sua importância para a prática e quais as fontes bibliográficas para esse trabalho. De quebra, vamos expandir um pouco mais a discussão para tratar de outros seres que não são exatamente a mesma coisa, mas desempenham um papel parecido. Sem mais delongas, vamos lá, então.
O Abramelin
Começando pelo começo: o termo aparece em um grimório conhecido como O Livro de Abramelin, uma obra que sobrevive em três versões – uma em alemão, de 1608, outra em francês do século XVIII e outra em italiano, do século XVII. Já vamos falar um pouco mais dessas edições, mas basicamente a alemã é mais antiga e considerada mais fidedigna, mas só foi traduzida para o inglês em 1995, editada por Georg Dehn e traduzida por Steven Guth. A versão do manuscrito francês é a mais conhecida, porque serviu de base para a famosa tradução de Samuel Mathers em 1897, sob o título The Book of the Sacred Magic of Abramelin the Mage. Já o manuscrito italiano só foi descoberto mais recentemente, em 2009.
O Abramelin é um livrinho fascinante. Seu autor se identifica como Abraão (Abraham), filho de Simão, filho de Judá, também chamado Abraham de Worms, escrevendo o volume em 1458 para benefício de seu filho Lamech, a fim de que ele possa “ver, reconhecer e fazer uso das maravilhas de Deus”. Para dar uma graça, esses ensinamentos são incluídos dentro de uma narrativa, na qual Abraham descreve suas viagens que o levam ao Egito, onde ele encontra o titular mago Abramelin (livro 1, cap. 4). E é com Abramelin que Abraham aprende a invocar o tal do Sagrado Anjo Guardião antes de voltar para Worms. Ao longo dos quatro livros desta obra (três, na versão francesa), a gente é instruído quanto aos procedimentos necessários para isso – famosamente, a operação envolve um período de isolamento (de 6 a 18 meses), passado entre preces e purificações, ao término do qual o contato é estabelecido e o magista obtém, com isso, a autoridade para dominar uma multidão de seres supostamente demoníacos, num ritual que conclui o trabalho e possibilita que ele faça uso de uma série de quadradinhos mágicos, talimãs de provável inspiração árabe1, que realizam vários tipos de milagres. Os talismãs são incluídos no volume, mas são inúteis sem esse trabalho prévio.

Em resumo, o que o Abramelin promete é um tipo de iniciação no que Abraham chama de “magia sagrada”. Lá pelas tantas (livro 3, cap. 1), ele discorre sobre os tipos de magia, distinguindo as artes sagradas da “feitiçaria” que, diz ele, não parte de Deus, nem de sua Sabedoria, por isso não apenas seus resultados são limitados como também é o tipo de coisa faz o feiticeiro ser tentado pelo diabo. A magia verdadeira, por outro lado, seria a magia sagrada usada por todos os patriarcas bíblicos, de Noé até Abraão, Esaú e Jacó, Moisés, os profetas (ele cita por nome Josué, David, Salomão e Elias) e Jesus de Nazaré com seus apóstolos. Até aí, claro, não temos nada de muita novidade em termos de discurso esotérico, especialmente para quem já tem alguma familiaridade com livros cabalísticos.
O quanto o Abramelin é legitimamente cabalístico, no entanto, é disputado. A princípio, parece ser mais um caso de uma obra desse cristianismo místico judaicizado que é tão popular no meio esotérico, mas Dehn identifica o autor como o rabbi Yaakov Moelin, o MaHaRil (1365 – 1427). Outros pesquisadores, no entanto, também questionam e problematizam essa atribuição. Enfim, não vou entrar nesses detalhes, mas é importante saber que existe essa questão. Para mais informações, eu recomendo conferir os vídeos do Dr. Sledge sobre o assunto que eu vou linkar mais abaixo.
O motivo pelo qual o Abramelin e o Sagrado Anjo Guardião se tornaram um assunto popular entre ocultistas dos século XIX-XXI volta, como sempre, à dupla de Samuel Mathers, um dos fundadores da Ordem da Golden Dawn, e Aleister Crowley, ex-membro da ordem e posteriormente fundador da Thelema. Como dito, Mathers traduziu o Abramelin para o inglês em 1897, e temos registros de que Crowley tentou a operação algumas vezes. A primeira vez foi em 1900 em seu casarão em Boleskine, na Escócia, às margens do lago Ness. Porém, ele foi interrompido e teve que correr de lá para socorrer Mathers, em Paris, durante o período de desintegração da ordem original da Golden Dawn. Ele tenta de novo em 1903, mas de novo interrompe o processo, desta vez para se casar com sua primeira esposa, Rose Kelly. Ele (supostamente) obtém sucesso nesse contato na terceira tentativa, em 1906, na China.
Existe uma certa confusão no que diz respeito aos trabalhos de Crowley com o seu Sagrado Anjo Guardião e a canalização do Livro da Lei, que aconteceu em 1904, no Cairo (o homem viajava). Como se sabe, a inteligência que ditou o Livro da Lei a Crowley se apresentou pelo nome Aiwass, mensageiro de Hoor-paar-kraat, que seria uma forma de Hórus. Eu entendo que posteriormente Crowley viria a identificá-lo como o seu próprio Sagrado Anjo Guardião. Não sei se em algum momento esse entendimento muda ou se é uma coisa de fato meio confusa nos escritos dele. Em todo caso, não pretendo entrar nessa digressão, porque também é algo que vai longe. Mas o que é um Sagrado Anjo Guardião, no fim das contas?
Em termos meramente operacionais, ele é quem possibilita a magia prática contida no Abramelin. Mas é claro que é bem mais do que isso. Diz Abraham, “logo o teu Anjo Guardião passará a ficar a teu lado em segredo e colocará sugestões em teu coração a respeito de como deves organizar a tua vida e como seguir tudo que está escrito neste livro” (livro 3, cap. 2). Ou seja, existe um aspecto de orientação aí, o Sagrado Anjo Guardião é um tipo de guia – ou, melhor dizendo, não apenas um guia, mas O Guia. Cito Darren Scriven, no seu artigo que inaugura o volume Holy Guardian Angel, uma coletânea de ensaios de ocultistas diversos sobre o assunto, organizado por Michael Cecchetelli: “o Sagrado Anjo Guardião é o espírito que nos guia na direção de Deus em desenvolver nossa natureza espiritual”. É, como vocês podem ver, uma tarefa das mais nobres.
Em termos mais funcionais, entende-se que o SAG vai se manifestar durante a operação – que, como dito, exige um período de isolamento. Cada pessoa tem o seu próprio SAG e uma das coisas que ele vai fazer ao longo do trabalho é revelar o seu nome. É importante frisar que o nome do SAG não vai ser o de nenhum anjo já conhecido: o seu SAG não vai ser Miguel ou Rafael, nem os anjos do Shem HaMephorash2 ou algo assim, mas um nome inteiramente próprio. É possível também que ele ofereça mais de um nome em momentos distintos.3
No mais, para explicar melhor a natureza desse ser, eu vou citar também Lon Milo Duquette, que diz o seguinte no capítulo 8 de The Magick of Thelema:
O Livro da Magia Sagrada de Abra-Melin, o Mago postula que todo indivíduo tem um Sagrado Anjo Guardião; um Ser espiritual que é único a cada um de nós. Este Ser, cuja natureza verdadeira só pode ser explicada pelo próprio, é mais do que uma projeção do Si-mesmo aperfeiçoado. De fato, até termos nos unido a esse Ser, sequer possuímos o “equipamento” necessário para compreender sua natureza.
Na linguagem do cabalista, nós somos a letra Heh final (5) do Tetragrama, e o Sagrado Anjo Guardião é o Vav (6). O SAG é o Príncipe que desperta a Princesa adormecida. Uma vez realizada essa união, tanto nós quanto nosso Anjo nos transformamos num Ser espiritual superior que é capaz de dominar de verdade as forças desequilibradas dos mundos inferiores. Só então nos tornamos elegíveis para receber orientação espiritual pessoal da única fonte confiável no universo… nós mesmos. (p. 135)
Eu pessoalmente não sou thelemita, nem gosto muito de Crowley, mas acaba sendo meio impossível não falar do homem e sua religião ao tratar desse assunto, porque Crowley colocou o contato com o SAG como uma parte integral do caminho espiritual do thelemita, como parte do processo para entender a sua Verdadeira Vontade. O termo mais específico é Knowledge and Conversation of the Holy Guardian Angel (K&C of HGA) , ou Conhecimento e Conversação de seu Santo Anjo Guardião, em português. E o método pelo qual esse objetivo é conquistado entre thelemitas costuma ser, não por meio do Abramelin clássico em si – que é extremamente inconveniente – mas por um ritual chamado Liber Samekh. Agora eu preciso falar desse trabalho.
Voltemos aos Papiros Mágicos Gregos. Um dos rituais mais famosos lá é a Estela de Jeu ou Ritual do Acéfalo (PGM V. 96–172, conhecido em inglês pelos nomes Headless Ritual ou Bornless Ritual. Trata-se de um ritual antigo de exorcismo que invoca essa figura misteriosa chamada de Akephalos, o Deus Sem Cabeça, como parte de um trabalho de exorcismo a fim para expulsar espíritos malignos. Crowley e Mathers incluíram uma tradução desse ritual, sob o título “Bornless Ritual”, como uma prática preliminar em sua edição da Goetia, publicada em 1904. Essa inclusão, ainda que um tanto bagunçada, faz um certo sentido, pois o autor da Clavicula Salomonis Regis pressupõe que o magista seja um padre e exorcista, e o “Bornless” seria uma forma de se tornar um exorcista, ainda que temporariamente – no mais, em suas raízes, a magia salomônica bebe fundo da corrente dos PGM, embora isso não transpareça na versão final.
No entanto, num desenvolvimento que eu pessoalmente não consigo explicar, Crowley e outros passaram a adotar esse ritual como uma forma de obter contato com o SAG. Sam Block/polyphanes interpreta esse movimento do seguinte forma:
O ritual original chama o Akephalos primeiro para exorcizar um demônio de alguém, mas conforme o ritual culmina rumo à sua conclusão, o magista sai de uma simples invocação de Akephalos para falar como Akephalos, tornando-se a entidade divina em si. Por conta dessa mudança interessante de perspectiva, esse ritual foi adaptado por Crowley, de um ritual de exorcismo externo para um de autoexorcismo, purificando a própria forma para que a presença divina de Akephalos possa melhor habitar o corpo, permitindo assumir a forma, o poder e a presença de Deus ou de um de seus mensageiros ou avatares; essa foi a inovação que permite que esse ritual seja usado para a empreitada moderna inspirada no Abramelin de buscar o contato do praticante com o seu próprio agathodaimon ou Sagrado Anjo Guardião.
Crowley depois viria a reescrevê-lo sob um viés mais explicitamente thelêmico, que é no que consiste o Liber Samekh, um dos principais rituais do repertório thelêmico. Vocês podem acessar uma tradução desse ritual para o português neste link aqui. Vários outros ocultistas oferecem versões próprias também, traduções com pequenas alterações em relação ao texto grego: temos, por exemplo, uma versão do Bornless no tijolo preto de Regardie com os rituais da Golden Dawn, uma versão em The Sorcerer’s Secrets/Real Sorcery do Jason Miller e uma versão no site do Sam Block mesmo, o Digital Ambler, da página da qual eu peguei a citação acima, que inclusive oferece os diferentes refrões para diferentes funções, seja para exorcismo e limpeza ou comunhão com o SAG.

Quanto a mim, eu tenho uma opinião sobre o que é o SAG, que acho que não deve ser polêmica, mas é um pouco diferente porque o meu entendimento do mundo energético é radicado pelo Pranic Healing. Como explica o Master Choa Kok Sui, nós temos uma alma encarnada e uma alma superior. Resumidamente, a alma superior é a parte de nós que está mais próxima dos planos divinos da existência. Ela não desce até aqui no plano material, no entanto, pelo menos não inteiramente. Uma parte dela desce, que é a alma encarnada, manifestando os vários corpos inferiores (mental, astral, etérico, físico) para interagir com este mundo. O contato com a alma superior, num primeiro nível, fornece a orientação necessária para fazermos o que temos que fazer nesta vida, o nosso propósito ou “plano de alma”, como é o termo usado na escola. Num nível mais avançado, começa o processo de aperfeiçoamento e união com o Divino que define o praticante arhático.
Pelo meu entendimento, o SAG nada mais é do que um ser espiritual que habita esse espaço intermediário entre a alma encarnada e a alma superior. Ele não é a alma superior em si, mas um tipo de facilitador. Existem muitas formas de se obter esse contato e união – esse é, inclusive, um dos temas de um livro e um curso importantíssimos da escola, chamados Alcançando a Unidade com a Alma Superior. O trabalho com o SAG não é obrigatório, nesse sentido, e talvez sequer seja o método mais eficiente (ainda mais dado o nosso estilo de vida), mas eu acho interessantíssimo que essa tecnologia espiritual tenha sido desenvolvida na Europa do século XVII, num contexto em que poucas pessoas no geral estavam preocupadas com desenvolvimento espiritual.

Agora, as recomendações de leitura para quem quiser pesquisar melhor sobre o assunto: em inglês, como comentamos, tem duas traduções do texto do Abramelin: a de Mathers, The Book of the Sacred Magic of Abramelin the Mage, baseada na versão francesa; e a de Dehn & Guth, The Book of Abramelin: a new translation (Ibis Press), baseada na versão alemã. Ambas vocês conseguem acessar online – a de Mathers aqui, e a de Dehn & Guth aqui. Sobre as diferenças entre as versões: a alemã é a mais antiga e considerada a mais fidedigna. Dá para distinguir uma da outra, porque esta se apresenta em quatro livros, enquanto a francesa tem três. Pelo que eu observei, o que falta na versão francesa é o livro II, que contém uma série de feitiços e trabalhos de cura. Mas a grande diferença é que a versão francesa recomenda um período de isolamento de 6 meses, que são 18, na verdade, no alemão. Por esses motivos e pelo fato de que traduções mais recentes costumam ser mais rigorosas, é recomendável ler a edição de Dehn & Guth, mas a tradução de Mathers tem ainda o seu valor histórico.
Em português, eu sei que tem a tradução publicada pela editora Madras sob o título A Magia Sagrada de Abramelin, o Mago – o Santo Anjo Guardião, com a autoria “atribuída a Abraão, o Judeu”. Na verdade, constam duas edições no site da editora, uma com esse nome, sem atribuição de crédito ao tradutor (e com uma capa horrorosa) e outra com o título invertido Santo Anjo Guardião – A Magia Sagrada de Abramelin, o Mago, creditada a A. C. Godoy. Não sei o motivo disso, e as duas edições estão esgotadas, mas podem ser encontradas em sebos. Eu não posso dizer que recomendo ou não essas edições, no entanto, porque não tive a oportunidade de sentar e avaliar a tradução. Mas entendo, com base na divisão de livros, que elas têm como base o manuscrito francês. Existem também as edições da editora Anúbis (O Livro da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago), de tradução de Norberto de Paula Lima, e outra, autopublicada e assinada por um tal “Tetragrama”, pelo Clube dos Autores (com o título meio repetitivo de A sagrada magia de Abramelin: o livro da magia sagrada). De novo, não posso dizer se recomendo ou não. Via de regra, eu tenho um pé atrás com autopublicação, porque é preciso ter muita gente envolvida no processo editorial para se publicar um livro com um grau de qualidade razoável.
Em termos de literatura secundária, eu já citei o volume Holy Guardian Angel, de Michael Cecchetelli, que é uma coletânea de ensaios, e o Magick of Thelema do Lon Milo Duquette, que dedica um capítulo ao tema, junto com a explicação do ritual do Liber Samekh. Tanto o Maat Magick, da Nema, quanto o Postmodern Magic, do Patrick Dunn, também contêm um capítulo cada dedicado ao trabalho com o SAG. No sistema Quareia, Josephine McCarthy trata do Sagrado Anjo Guardião na lição 8 do módulo 6, “Angels and Demons in Depth”, do nível de Iniciado. E, claro, não posso não mencionar o The Abramelin Diaries, do Ramsey Dukes (Lionel Snell), um relato detalhado da tentativa de conduzir essa operação. Por fim, no ano passado, saiu um volume do Frater Barrabbas intitulado Abramelin Lunar Ordeal, que apresenta um experimento em cima da operação de Abramelin, visando encurtá-la significativamente e que vale dar uma olhada. No canal Esoterica, do Dr. Justin Sledge, tem pelo menos três vídeos sobre o tema: “Abramelin – Introduction to the Magical Text and the Ritual made famous by Aleister Crowley”, “Abramelin – Thoughts on the Hebrew Manuscript & Word Squares” e “Does the Abramelin Ritual originate in the Sar Torah praxis & the Hasidei Ashkenaz?”.
E, para quem não gosta de ler e prefere ver o filme, tem o A Dark Song, de 2016. Dirigido por Liam Gavin, a película tem o ritual de Abramelin como centro do seu enredo. Ele toma várias liberdades, claro, para fazer uma história interessante (como tratar o anjo meio como o Shen Long de Dragonball, que você tem todo um trabalho para chamar a fim de que ele realize um pedido), mas é um filme divertido.

O complexo eudaimônico
O termo SAG é usado especificamente para falar dessa entidade encontrada no Abramelin, mas é claro que o seu autor, seja lá quem tenha sido, não inventou o conceito do nada. Pelo contrário, todo mundo que comenta esse material traça certos paralelos com conceitos mais antigos, como o Agathos Daimon ou o dáimon pessoal.
Dáimon é um termo genérico entre os gregos para falar de seres espirituais intermediários entre o plano humano e o divino. Às vezes é usado de forma intercambiável com theós (deus), às vezes há um maior grau de distinção. O dáimon pessoal era entendido como esse espírito que acompanha cada indivíduo ao longo da sua vida, conferindo-lhe boa ou má sorte, conforme o seu julgamento. O filósofo neoplatônico Plotino trata do assunto detalhadamente no quarto tratado do livro III das suas Enéadas. Diz Plotino que o sábio é aquele cujas ações são determinadas pelos aspectos superiores de sua alma e, nesse caso, o dáimon guardião é o próprio Divino. A leitura de Plotino, no entanto, não é das mais fáceis4.
Voltando um pouco mais no tempo ainda, encontramos o conceito de um deus pessoal entre os povos mesopotâmicos. Embora os antigos cultuassem os grandes deuses do seu panteão, entendia-se que esses deuses eram distantes, como reis e príncipes, e uma relação mais próxima era construída com o deus pessoal ou o deus da família. Cito aqui o artigo “Religion of the Common People in Mesopotamia” (2007), da pesquisadora Karen Rhea Nemet-Nejat:
A família babilônica tinha um deus, o “deus da família”, a quem eram feitas oferendas regulares e de quem os seus membros faziam pedidos específicos quanto a alimentação e saúde. Para os antigos, a boa sorte de cada um estava associada a seu deus pessoal, tal como descrito na expressão “adquirir um deus”.
Os antigos mesopotâmicos se dirigiam a seus deuses (ou deusas) pessoais às vezes por nome, pedindo para que buscassem a intervenção de deuses mais poderosos. Se alguém tivesse um sinete cilíndrico, poderia se referir a si mesmo na inscrição do sinete como “servo” de um deus. Ainda assim, esses deuses não eram de importância menor no panteão. Ao se referirem a uma pessoa azarada, dizia-se com frequência que “os seus deuses o abandonaram”.
Nas práticas mágicas que temos registradas dos tempos antigos, é muito comum que os praticantes suplicassem e pedissem perdão ao seu deus ou deusa pessoal, porque se entendia que as nossas ações podem fazer com que essa divindade se ofenda. E aí, quando isso acontece, ela se afasta e a gente fica vulnerável a todo tipo de desgraça.
As semelhanças entre os conceitos são bastante evidentes, acredito. Se o SAG do Abramelin é a mesma coisa que o dáimon ou o deus pessoal dos gregos e mesopotâmicos, eu não vou saber dizer. É possível que seja uma mesma entidade que assume certas características conforme a cultura do indivíduo, mas é importante frisar também que o SAG, tal como descrito no Abramelin, tem uma dimensão espiritual mais explícita em termos de um discurso de elevação espiritual e não apenas de distribuição de boa ou má sorte. Em todo caso, até onde eu sei, não temos técnicas tradicionais para comunhão com o deus ou dáimon pessoal. Reconstruir isso seria, de novo, território de magia experimental.
O que a gente tem, até onde eu sei, são técnicas para comunhão com a Natureza Perfeita e com o gênio da natividade, que são outras coisas ainda, mas cuja atuação também cai nesse campo mais ou menos. Vamos lá falar disso, então.
A Natureza Perfeita eu já comentei brevemente aqui no site quando falei da obra de Al-Razi. Do árabe, al-ṭibāʿ al-tāmm, o termo descreve “um espírito celestial (rūḥ falakī) que era a origem ontológica de um grupo discreto de almas humanas. Os céus eram habitados por uma multiplicidade desses espíritos, cujo número é proporcional com o número de grupos de almas discretos, que constituíam, segundo os sabeus, a humanidade” (cito de novo Michael Sebastian Noble). Sua origem é pseudo-aristotélica, o que não é estranho, pois na Antiguidade Tardia surgiram uma série de livros, de teor hermético e alquímico, que foram atribuídas a Aristóteles. E aí, quando as obras do filósofo grego foram traduzidas para o árabe, esse material entrou no balaio também e influenciou muito da magia hermética islamicizada do medievo. O trabalho com a Natureza Perfeita é mencionado no Ghayat al-Hakim, ou Picatrix, que descreve um tipo de ritual em que é feito um banquete para os espíritos. Mais recentemente, o Sam Block (sempre ele!) publicou um roteiro ritual completo para a adoração e comunhão com a Natureza Perfeita, que eu gostaria muito de traduzir aqui quando eu tiver tempo.
Por fim, o gênio, ou anjo, da natividade. O conceito remete, mais uma vez, ao esoterismo islâmico. Tem um post do Patreon do Dr. Ali Olomi (The Angel of the Nativity) que trata do assunto. Resumidamente, o historiador diz que o Corão descreve que cada um tem não apenas um anjo guardião, mas uma multidão. O plano divino é um processo constante de escritura, em que Deus escreve o destino da humanidade, executado por uma categoria de anjos, e uma outra categoria, os kiraman katibin, registra os nossos feitos, de modo que a Criação se dá por meio desse diálogo. Os anjos que nos guardam são chamados de mu’aqqibat, cuja função é “garantir que cada humano esteja à altura de seu destino”.
Na tradição esotérica ocidental, Agrippa, que bebeu muito de fontes árabes, direta ou indiretamente, oferece um método para obter o nome de um desses seres, chamado em sua obra de “gênio”, a partir do mapa natal. Para isso, é preciso usar um sistema de distribuição de caracteres, de modo que cada um dos 360 graus da eclíptica seja equivalente a uma letra. Nesse contexto, tem cinco pontos do mapa natal que são relevantes para se chegar ao nome do gênio. Esses pontos são: o Sol, a Lua, o ascendente, a parte da fortuna e a sizígia. Tudo isso você pode conferir facilmente ao fazer o seu mapa num site como o Astro-Seek. Com essas informações, você obtém o nome do gênio da sua natividade (ou um nome, pelo menos) e, tendo um nome, você passa a ter uma forma de estabelecer uma conexão por meio de meditações e rituais – em termos de método, é o contrário do Abramelin, que oferece um procedimento mágico primeiro, que só depois de executado vai oferecer o nome do seu anjo. Para quem quer saber mais sobre o assunto, recomendo o livro The Celestial Way, de Christopher Warnock.
Na minha opinião, todos esses seres não são a mesma coisa. Seu SAG não vai necessariamente dar o mesmo nome que você obteria pelo cálculo do gênio da natividade, por exemplo. E eu não acho que o trabalho com a Natureza Perfeita vá autorizar você a usar os quadradinhos mágicos do Abramelin. Nada impede também você de conduzir trabalhos com a Natureza Perfeita, o SAG e o gênio da natividade… só não sei o quanto essa prática seria produtiva, porque uma hora começa a ficar meio redundante, mas entendo que é possível porque são seres distintos que, no entanto, atuam numa área muito próxima – todos eles aqui agem nesse espaço intermediário entre a alma encarnada e a alma superior. Por isso, para a gente ter um nome para chamar as coisas, eu gosto de me referir a esse campo e seus integrantes como um complexo eudaimônico. Nesse balaio, entram todos esses seres divinos ou semidivinos que exercem essa função de guia pessoal para nos orientar em termos de propósito de vida e comunhão com a alma superior.
A questão – e é aí que o bicho pega – é que até aqui estamos falando de rituais, de técnica. Nesse sentido, é interessante cada um procurar aquilo que entra mais em ressonância consigo. Mas não existe nenhum ritual em termos do complexo eudaimônico que vai te dar tudo pronto, que é só seguir as instruções e acabou – quem vai falar disso também é a sempre polêmica Josephine McCarthy.
Eu entendo que, se você trabalhar com o gênio da sua natividade, por exemplo, obtendo o nome dele e gerando um sigilo a partir do nome para você contemplar e chamar, pode ser que ele comece a inclinar a sua vida sutilmente na direção que seria recomendável você seguir, conforme o seu propósito, talvez na forma de intervenções diretas, mas mais provavelmente como pequenas inspirações que chegam do nada. Porém cabe a você prestar atenção, ouvir e agir de acordo. Não por acaso, boa parte da operação do Abramelin envolve não rituais complexos (a operação é surpreendentemente simples, ao contrário do que se vê no filme), mas a criação de um espaço e de um estado de purificação e silêncio externo e interno que são condutivos para isso. E, de novo, tem a parte da mudança interna. Eu falo muito do lado técnico, porque é fascinante e aponta para vários conhecimentos que nos permitem mapear as coisas, especialmente quando colocamos essas várias técnicas lado a lado, comparativamente. Mas acho que o papel do ritual é apenas como um catalisador: você faz a prática e aquilo vai desencadear certos efeitos nos planos sutis, depois cabe a você estar à altura desses efeitos, e assim sucessivamente. Você pode passar anos fazendo o Liber Samekh três vezes por dia e não chegar nem perto do seu SAG ou qualquer outra força do complexo eudaimônico se estiver se deixando guiar pelo seu ego e não trabalhando para o refinamento interno, a conexão com o Divino, o serviço e o propósito de vida. É o tipo de coisa que é óbvio, mas precisa ser dito.
A questão é que o termo SAG foi muito popularizado nos meios ocultistas e por isso eu sinto que rola uma certa glamourização sobre os autores que falam disso (meio tipo “ó o clubinho dos caras que conseguiram, uuuh”) e, com isso, também uma pressão sobre os iniciantes – o próprio Crowley fala, daquele jeitinho doce dele, que todo trabalho mágico que não seja para comunhão com o SAG é “magia negra” (sic). Se você pretende se desenvolver como magista, pode ser interessante conduzir esse trabalho, seja com o Abramelin ou Liber Samekh, seja com a Natureza Perfeita, o gênio da natividade ou outra coisa assim, porque é uma experiência enriquecedora magicamente.
Mas é bom frisar duas coisas: 1) que tem outros trabalhos que precisam ser estabelecidos primeiro (se você é muito iniciante, firme as suas bases antes e aí depois se preocupe com isso) e 2) essas figuras são intermediárias. Elas vão apontar você na direção de um certo destino e esse destino é a conexão com a alma superior e com o Divino. E há outros métodos para isso que não envolvem essas práticas. Eu já falei, tem as meditações que a gente aprende a fazer no Pranic Healing, nos cursos Alcançando a Unidade com a Alma Superior e de Yoga Arhática, que são poderosas e pensadas para o nosso dia a dia, não exigindo 6-18 meses de isolamento. Existem muitos caminhos dentro da espiritualidade. No fim, meio que não importa tanto qual o método usado. O importante é que o trabalho seja conduzido de forma consciente, com menos controle e mais entrega. E esse é o grande desafio de qualquer caminho espiritual.
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- Quadradinhos mágicos são um elemento recorrente da magia talismânica do período árabe medieval. A diferença é que normalmente esses quadradinhos são de base numérica, embora haja também sistemas de equivalência entre números e letras do abjad árabe. Também podemos traçar comparações com o quadradinho palindrômico SATOR, de origem latina. ↩︎
- Existe, sim, uma prática de identificar, entre esses 72 anjos, alguns anjos que seriam seu guardião com base em numerologia do seu nome ou data de nascimento. Mas isso é um outro trabalho que nada tem a ver com o SAG. ↩︎
- Uma questão talvez um tanto polêmica é se há relação entre o SAG e o anjo da guarda do catolicismo popular. A maioria dos autores vai dizer que não. Como vai aparecer depois neste mesmo texto, o Dr. Ali Olomi comenta que há mais de um ser espiritual encarregado de nosso destino. ↩︎
- Alguns autores vão comentar também as semelhanças entre o SAG e o Paredros, o “Assistente Sobrenatural” que é conferido ao magista por meio de um dos primeiros rituais do corpus dos PGM. Eu sou da opinião de que são coisas bastante distintas. O Paredros é um assistente mágico, mas não desempenha o papel de conexão com a sua alma superior. ↩︎
