Limpeza energética: o que é e por onde começa?

Peguem suas luvas ungidas e frascos de água sanitária benta, que hoje vamos falar de limpeza e sujeira. Você já deve ter ouvido o pessoal tilelê/good vibes/New Age falar para tomar cuidado com “energias negativas”. O que são essas energias, nem eles sabem dizer ao certo — o tileleísmo costuma ser eclético demais nas fontes de que bebe para permitir uma boa definição dos termos de sua cosmovisão. Pelo menos em sua forma mais caricatural (que você certamente já encontrou por aí), a coisa toda assume um aspecto de moralismo e cobrança de uma postura de santo: não pode reclamar do amiguinho, mesmo que ele seja um completo filho da puta e esteja agindo de formas escrotas, nem se permitir sentir raiva ou tristeza, porque isso é negatividade, que macula o ser perfeito de luz que você tenta ser.

Na verdade, essa discussão não deixa de ser uma manifestação, ainda que tortuosa, de questões antiquíssimas. Como comenta Mary Douglas, em Purity and Danger, preocupações com pureza são uma parte importante da cultura de sociedades “primitivas”, justamente porque a contaminação, não por microrganismos do mundo material, um conceito ridiculamente recente na história, mas por certas forças ocultas e poderosas que podem trazer grandes desgraças ao grupo social. Deriva daí que muito do comportamento nesse contexto seja codificado, tabuizado, de formas com frequência incompreensíveis a nós que observamos de fora. Mas esses padrões de comportamento persistem mesmo após as imensas mudanças de organização social que transformam a aldeia em cidade — e é assim que a religião suméria, mesmo em sua cultura urbanizada, tinha tabus curiosos, descritos como “abominações aos deuses”, como as proibições a urinar e vomitar em rios (o que nós poderíamos achar razoável, higienicamente) e a beijar na boca debaixo do sol (para nós, bem menos razoável). Preocupações com pureza ritual são ainda um elemento importante da religião semítica, tanto entre os babilônios, para quem os deuses consideravam odioso ir ao templo com mau hálito, quanto para judeus e muçulmanos, com suas abluções e seus respectivos e complexos códigos de pureza que determinam o que é kosher ou halal e o que não é.


Dentre os praticantes de magia também, há muito se percebeu que algum grau de pureza ritual é útil e desejável. Os textos dos Papiros Mágicos Gregos, do Sepher HaRazim (Livro dos Mistérios), do Ghayat al-Hakim (O Objetivo do Sábio, ou Picatrix) e de toda uma renca de grimórios medievais e renascentistas preocupados com a conjuração de espíritos — espíritos muitas vezes de estirpe pouco nobre (como no Lemegeton, Heptameron, Grão Grimório, etc)¹ — recomendam um período de mortificações (jejum, castidade) e banhos antes de se fazer grandes rituais. E mesmo na occulture contemporânea, da Golden Dawn à Magia do Caos, essa preocupação se manifestou na recomendação de que, pelo menos, se faça sempre um ritual de banimento antes e depois.

Mas o que exatamente é a sujeira de que estamos nos limpando? Certamente há vários tipos. Em algum grau, a sujeira física e a sujeira metafísica estão interligadas — daí que lugares onde sangue e outros fluidos sejam derramados, onde vidas são tiradas e onde corpos se decompõem tendam a ser impuros. Matadouros, hospitais, necrotérios, etc, são todos naturalmente lugares sujos e por isso costumam atrair certos tipos de seres para quem essa sujeira é um habitat perfeito — John Michael Greer, no rastro de outros autores como Franz Bardon, fala em “larvas”, por exemplo, que se nutrem de resquícios de substância etérica, a mais próxima do mundo material, mas que podem acabar grudando em você também, se bobear. Daí que tanta gente se sinta mal e relate histórias de acontecimentos estranhos nesses espaços. O mesmo vale para locais que foram palcos de grandes desastres, incêndios e assassinatos brutais.

Esses casos citados, no entanto, são os mais extremos. A sujeira do dia a dia tende a ser de um caráter mais leve, mas ainda assim perigosa se deixar acumular — sobre o assunto, recomendo demais a leitura do capítulo “The Exorcism of Our Lady of Sorrows”, de Low Magick, do Lon Milo Duquette, em que ele reconta a história de uma escola que ele exorcizou, à moda da magia salomônica. O taoísmo fala em sha chi, a forma doente e perigosa (mal qualificada, diz-se na Cura Prânica) do chi, também chamado de prana, a energia vital presente no ar. Esse chi ruim se encontra em espaços estagnados (pense numa casa fechada, sem arejar), mas também próximo de lugares com movimentos muito rápidos (rios de correnteza forte ou ruas de trânsito agitado), cantos pontiagudos, etc., noções que foram incorporadas pelo Feng-Shui. É importante apontar ainda que a sujeira do espaço e a sujeira do campo pessoal estão interrelacionadas: estar num ambiente sujo vai te sujar ao mesmo tempo em que você também pode chegar a um espaço limpo e trazer sujeira sua.

Muito da energia suja em nosso campo pessoal, pelo menos em nossa configuração histórico-social de hoje, deriva de nossas emoções e pensamentos. Pois é, existe um quê de verdade no discurso tilelê, mas calma lá. É preciso lembrar que você é humano, você está encarnado, num corpo físico ainda animalesco, e você não é, tipo, o Dalai Lama. Sim, sentir raiva e outras emoções, como medo e mágoa, é negativo, não por ser moralmente errado, mas porque faz você se sentir mal, durante e depois — não é por acaso que os gregos reconheciam as paixões como um tipo de adoecimento (a palavra pathos dá tanto “paixão” quanto “patologia”) e algo parecido se dá entre os budistas, com o conceito dos venenos que mantêm os seres presos ao samsara. Quem nunca teve um acesso de raiva tão intenso que deixou uma “ressaca” depois, sentindo-se pesado, cansado, com dor de cabeça? Ou ficou tão abalado emocionalmente com alguma coisa que chegou a vomitar? Esses sentimentos sujam tanto o próprio campo pessoal quanto o ambiente. Porém, podemos traçar uma analogia com o corpo físico: cagar também suja, mas, assim como esse tipo de sentimento, é parte da vida, e a solução é limpar a bunda, não se forçar a parar de ir ao banheiro².

Tem muita coisa errada no mundo, problemas sociais, governantes imbecis, a pandemia e tudo o mais, problemas que não podemos fingir que não existem, e isso é natural que faça com que a gente se sinta mal. O grande problema é se apegar a esse tipo de sentimentos e sobretudo agir irrefletidamente com base neles — a raiva é uma emoção destrutiva, no sentido de que, se você age com base nela, algo (objetos, relações, pessoas) acabará sendo destruído por puro instinto animalesco, sem qualquer clareza mental. E agarrar-se à raiva impotente também é muito destrutivo, mas volta essa capacidade de destruição para o interior. No pensamento hermético, as emoções são ligadas ao elemento da água, simbolicamente por conta de sua natureza fluida. Daí que se deve reconhecer esses sentimentos e permitir que passem, se possível transmutando-os em algo mais construtivo, que leve a uma ação capaz de ajudar com o problema (nem que seja uma ação no sentido de uma transformação interna).

Certo, então, a parte teórica está resolvida, chegamos à conclusão de que OK, a sujeira acontece³, é só limpar depois. Mas como fazemos isso?

Uma boa sugestão é começar pela limpeza do ambiente — não adianta muito você estar limpo, mas inserido em um espaço imundo. E a limpeza energética do ambiente, antes de você pegar a sálvia para queimar, deve se iniciar pela limpeza física — faxina mesmo. Não adianta muito defumar a casa se ela estiver um chiqueiro. Varrer e passar aspirador no chão, trocar a roupa de cama, lavar a louça, lavar a roupa, lavar banheiro, colocar o lixo para fora, abrir as janelas para arejar e entrar sol. Tudo isso já faz diferença. Depois você pode preparar uma solução de ervas para passar pano, como se fosse um banho ou spray, com arruda, alecrim, espada de São Jorge, sal grosso e/ou lavanda (pode ser em formato de óleo essencial), entre outros possíveis ingredientes (algumas lojas vendem lavagens de chão prontas, aliás). Lembre-se de sempre começar do interior da casa e ir na direção da porta de entrada, levando a sujeira de dentro para fora.

Na sequência, passamos para a etapa de limpeza mais sutil propriamente. Se você sabe fazer um banimento como o Ritual do Pentagrama, agora é um bom momento de fazê-lo em cada cômodo — se tiver uma espada ou adaga consagrada para defesa, melhor ainda. A oração de São Miguel Arcanjo também é bastante poderosa. E depois vem a defumação, que pode ser com sálvia, palo santo ou arruda. Na falta, um incenso de boa qualidade (nada desses incensos de loja de 1,99 que é um real doze varetas) que contenha olíbano, cânfora, sândalo e/ou lavanda também quebra um galhão. Se tiver algum óleo consagrado, como o famoso óleo de Abramelin ou o óleo Parede de Fogo, do Hoodoo, passe um pouco dele em todas as portas e janelas da casa, e está feito. Se você não puder fazer todos esses passos indicados, tudo bem, você faz o que puder, só não tente usar isso como desculpa, tipo “ah, eu até faria, mas acabou a sálvia, vou deixar para fazer depois”.

Uma vez limpa a casa, eu recomendo ainda preparar uma invocação para trazer coisas desejáveis — não basta apenas tirar coisas, é bom ocupar esse espaço também. Uma bênção como a ensinada pelo Sam Block em seu blog, com uma vela para cada cômodo e/ou a recitação de salmos (29, 33, 96–98, etc), ou outra prática equivalente, é ideal. Fazer essa limpeza geral e intensa pelo menos duas vezes por ano ajuda a proteger o espaço e, tomando-se as precauções para manter o ambiente limpo, evitar esse acúmulo de energia doente.

Agora, vamos aos modos de fazer uma limpeza em si mesmo. Se você mantém uma rotina constante, como recomendei no outro texto, de banimento, energização, devoção e meditação, é possível manter-se mais ou menos limpo já, o suficiente para sentir uma boa diferença no dia a dia em comparação com o normal. Outras práticas que ajudam muito são: ter uma alimentação adequada, apanhar sol e praticar exercícios físicos; tomar banhos (normais mesmo) e usar roupas limpas; tomar banho de mar; visitar um terreiro, um centro espírita (quando tudo for reaberto, óbvio), a casa de uma benzedeira, ou outros locais semelhantes, para tomar um passe, uma reza, etc.; participar de energizações e meditações guiadas; exercer algum grau de autocontrole consciente sobre as suas ações sob efeito de emoções negativas; ouvir e recitar mantras (ter um OM tocando no ambiente, mesmo que num volume muito baixo, é bastante eficaz, e eu mesmo amo o mantra de purificação de Vajrasattva) e outras músicas de caráter sacro; e por aí vai.

Ainda assim, de vez em quando, é importante fazer uma limpeza mais pesada — a frequência da necessidade dessa limpeza é caso a caso, na medida em que alguém que trabalhe num ambiente insalubre ou que está passando por um momento tenso de sua vida, como um divórcio, vai precisar com muito mais frequência do que alguém que more num mosteiro, por exemplo. Para isso há uma série de opções. Você pode: 1) preparar banhos (arruda, arroz, sal grosso, etc.); 2) receber um exorcismo (ou fazer um autoexorcismo) por via de um ritual como o da Estela de Jeu/Bornless Ritual/Liber Samekh (um antigo ritual greco-egípcio de exorcismo, também utilizado para obter o contato com o Sagrado Anjo Guardião), a série dos salmos penitenciais (6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143) ou outras técnicas semelhantes; e 3) contratar os serviços de alguém especializado em um método de cura energética, como o Reiki ou Cura Prânica (em algum momento eu ainda escreverei algo sobre Cura Prânica, um sistema que realmente me impressionou), que vai manualmente limpar e energizar seus chakras e sua aura. Todas essas medidas, sozinhas ou combinadas, eu recomendo não apenas para quem já mexe com práticas mágico-espirituais (isso já deve estar claro, pelo amor de Abraxas), mas para todo mundo, sobretudo num momento como o que estamos vivendo, em que a tendência é ficar trancafiado, sendo vítima de um bombardeio constante de notícias ruins e chafurdando em emoções indesejáveis. Nem tudo pode ser feito agora, mas qualquer coisa que se faça já vai ajudar horrores a evitar ser engolido pela atmosfera de pânico e desespero que paira sobre nós.

[1] Os Papiros Mágicos Gregos são uma vasta coletânea de feitiços, registrados, óbvio, em papiros, datando da Antiguidade Tardia do mundo greco-egípcio; o Sepher HaRazim é um livro mais ou menos da mesma época, mas mais especificamente do meio judaico e mais organizado, preocupado com a conjuração de anjos e a descrição dos Sete Céus; o Picatrix é um imenso compilado de magia astrológica do mundo árabe medieval; o Heptameron é um grimório medieval/renascentista, atribuído a Pietro d’Abano, para a conjuração de espíritos dos 7 planetas, e o Lemegeton e o Grão Grimório são alguns dos grimórios mais famosos da demonologia.

[2] É claro que um santo, um arhat, um bodhisattva, um místico de alto grau de desenvolvimento espiritual, vai chegar num estágio em que ele vai ser capaz de manter a placidez mesmo diante da maior tragédia ou do maior filho da puta do universo. Para a maioria de nós, porém, essa analogia se mantém.

[3] Isso não quer dizer que você deva ativamente se sujar, lamber sarjeta e fazer Reiki bêbado, rolar em terra de cemitério, lançar maldição no amiguinho e invocar demônio sem círculo de proteção. Essa nhaca dá muito trabalho para tirar.

(Este texto foi publicado originalmente em meu Medium em 31 de março de 2020)

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