Hermetismo, sincretismo e outros -ismos: o que você precisa saber sobre os Papiros Mágicos Gregos

Quem acompanha o que eu venho escrevendo por aqui já me viu falar bastante dos PGM, uma sigla para Papyri Graecae Magicae, os Papiros Mágicos Gregos. Já passou da hora de eu dedicar um texto só sobre isso.

Primeiramente, o que são esses Papiros?

Eles não são um grimório, como entendemos o termo, no sentido de uma obra unificada, mas uma coletânea reunida ao longo dos anos, de autoria anônima e coletiva. Sua origem é greco-egípcia, ou seja, a autoria é compreendida como sendo de magos/sacerdotes egípcios, mas os textos estão em grego (ocasionalmente em copta, demótico, etc.) e tudo mergulhado no caldo cultural do helenismo — ou seja, é aquele egípcio que, contrariando o imaginário comum estereotipado, já não é mais, há milênios, o egípcio da era da construção das pirâmides. Como se sabe, o período helenístico começa com a conquista de toda a faixa de território que vai do Egito até a Índia por Alexandre, o Grande, e sua morte, em 323 a.C., que resultou na partição desse território entre seus generais. Assim, diversas culturas que já tinham algum contato, como a grega, a egípcia, a levantina (incluindo Israel e as várias sociedades cananeias), mesopotâmica e persa, passam a ter esse contato intensificado. É nesse período que o grego koiné se estabelece como língua franca na região, promovendo as trocas que produziram a literatura esotérica alucinadíssima da viradinha da era cristã. O material mágico contemplado pelos PGM vai até o século IV d.C. e acredita-se que represente uma fração da literatura oculta da Antiguidade, a maior parte da qual não sobreviveu — como se lê na introdução da coletânea dos PGM, o governo romano (e, mais tarde, cristão) tinha horror ao assunto, e Suetônio afirma que Augusto queimou 2000 livros de magia no ano 13 a.C.

Para os estudantes de magia antiga e Hermetismo, a importância da redescoberta dos PGM pelo Ocidente é comparável à da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto para os estudos do judaísmo e da biblioteca de Nag Hammadi para o gnosticismo. Essa redescoberta é bastante recente, aliás, datando do século XVIII, mas o texto em si só recebe atenção acadêmica no XIX, com os primeiros trechos aparecendo no meio filológico em grego em 1843, depois traduzidos para o latim em 1885. No século XX e XXI, a edição, em inglês, que é meio que o padrão, citada por todo mundo, é a editada pelo professor de estudos bíblicos e Egito romano Hans Dieter Betz, The Greek Magical Papyri in Translation, Including the Demotic Spells, publicada originalmente em 1986.

Assim como aprender que as estátuas gregas tinham cor e não eram todas brancas, a coisa foi meio que um choque para todo mundo. Havia o estereótipo dos gregos como um povo racional — os “inventores da filosofia” e os grandes nomes da poesia clássica, que inaugura a literatura do Ocidente — e o material mágico “maculava” essa imagem. A descoberta depois das tabuinhas de maldição foi outro golpe contra essa concepção. Tipo, como assim os gregos, essa civilização tão avançada, acreditava nessa coisa de jacu² que é magia? Mas é. E, pior, esse tipo de produção textual, ao que tudo indica, era mais representativo das noções religiosas populares entre os gregos do que as concepções aristocráticas da grande literatura que foi preservada.

Agora, qual é o conteúdo de fato desse material? Bem, tem muita coisa. Eu já falei do Oráculo de Homero, um método bibliomântico, da consagração de cristais a Helios e técnicas de lecanomancia com óleo e uma vasilha d’água — todas essas técnicas vieram daqui. Temos feitiços que cobrem as principais preocupações dos antigos, que encontramos na grande maioria dos corpus de feitiços do mundo todo: amor (sexo, na verdade, e afastar rivais), sucesso nos negócios, ganhar em jogos de azar, destruir inimigos e obter proteção, especialmente contra espíritos (dáimons). Há vários feitiços para combater febre, cruciais na era pré-Paracetamol, e para obter revelações e visões, além de amuletos, filaterias e anéis diversos. E alguns rituais ainda não sugerem uma aplicação prática direta, mas servem para conjurar deuses ou estabelecer uma relação com eles, o tipo de coisa que costuma borrar bem as ideias de separação mais nítida entre magia e religião.

Magia e sincretismo

Ler os PGM é fascinante, mas não tanto porque exista a chance de se praticar a maior parte de seus rituais, pelo menos ao pé da letra. Muita coisa envolve mexer com bicho morto (fala-se na possibilidade de que certos nomes de partes animais fossem um código para se referir a plantas, mas pelo menos um ritual, PGM III. 1–164, sacrifica um gato e se refere a partes de sua anatomia, acho estranho que fosse código para planta nesse caso). Um outro envolve se lambuzar com uma mistura feita do olho de uma coruja, esterco e azeite de oliva (PGM I. 222–31, feitiço de invisibilidade). Faz-se uma lambança imensa, é inviável demais. Um outro ritual, que eu já mencionei (PGM IV. 1390–1495), envolve dar pão aos espíritos de um local onde tenham morrido gladiadores, recitar umas fórmulas e depois levar a terra de cemitério para jogar na casa da pessoa “amada”. Por que diabos um sacerdote egípcio teria esse tipo de conhecimento é uma pergunta que inevitavelmente vem à tona, e uma hipótese para respondê-la é que é provável que eles fizessem uns frilas à parte. No mais, ainda que a fundamentação teórica dessas práticas mágicas viesse originalmente desse meio oficial, é possível que outros magos itinerantes tenham praticado-as e contribuído para esse corpus, ainda mais considerando que a perseguição romana à magia forçou esse pessoal a agir e circular esse material na clandestinidade.

Observar essas bizarrices é interessante, mas o mais legal, para mim, é atentar para o sincretismo alucinado que rolava nesse período. Geralmente, quando se fala em sincretismo, as pessoas entendem a relação que a umbanda teria com o cristianismo, por exemplo, a ideia de disfarçar os Orixás como santos católicos para evitar perseguição. Bem, para começo de conversa, essa noção já é polêmica e não é consenso de que essa relação entre Orixás e santos católicos fosse bem um disfarce, mas uma convergência de culto de fato motivada por outras questões³. Esse tipo de coisa acontecia direto na Antiguidade, quando um deus estrangeiro era identificado como uma forma de um deus local: Ba‘al Hadad, por exemplo, o deus atmosférico do Levante, era conhecido pelos gregos como Zeus Adados, misturando um calque de seu nome original com o nome do pai dos deuses olímpicos.

Não é novidade que a relação dos antigos com os deuses era fluida. Eu insisto nisso de que a ideia de panteões sólidos e fechados é uma impressão meio equivocada que a gente tem ao olhar tudo de longe e pelo viés aristocrático. Para dar um exemplo, tem uma edição de cartas em aramaico do Levante do século V a.C.⁴ onde podemos observar declarações como “que YHWH e Khnum [o deus egípcio com cabeça de carneiro] te abençoem”—e olha que o Antigo Testamento era bem severo quanto a esse tipo de coisa, mas as práticas populares sempre escapam à ortodoxia, graças a Deus. Nos PGM isso acontece de forma alucinada. Temos deuses gregos, com destaque para Hélios, Hermes e para a deusa Hécate, que aparece o tempo inteiro, às vezes chamada de Hekate Ereschigal, sincretizada com a rainha dos mortos da religião mesopotâmica (que, por sua vez, também às vezes é sincretizada com Perséfone); deuses egípcios, como Anúbis, Set, Ísis e Osíris, além de Thoth sincretizado com Hermes, que ocasionalmente é sincretizado ainda, em sua forma ctônica, com Anúbis como o deus Hermanúbis (Serápis também é outro deus sincrético que faz uma aparição aqui); temos a divindade angelical persa Mithras, que originou os mistérios mitraicos romanos no começo da era cristã, presente aqui na famosa Liturgia de Mithras (PGM IV. 475–829); temos YHWH em seus muitos nomes, Iao, Adonai, Sabaoth, etc, e seus anjos, Miguel, Rafael e Gabriel, além de Cristo; e entidades ligadas ao gnosticismo, sobre as quais sabemos pouquíssimo a respeito, como Abraxas, e sabe Deus quem era o Akephalos. Esse tipo de vislumbre dos pensamentos mágico-religiosos reais dos antigos, não passado a limpo por poetas e teólogos, é valiosíssimo e, especialmente aqui no Brasil, onde fazer a famosa feijoada mística está no nosso sangue, gera um forte sentimento de familiaridade.

Um outro elemento distintivo da magia dos PGM é a presença das chamadas voces magicae ou palavras bárbaras. Eu já falei um pouco disso antes, no meu texto sobre meu ritual de banimento. Essas palavras bárbaras são nomes de poder desprovidos de um sentido mundano claro. Entende-se que seriam ou fórmulas intrinsecamente dotadas de poder por si só ou palavras que só fazem sentido para os deuses e espíritos, talvez como uma senha. Algumas são recorrentes e fáceis de identificar de onde vêm: IAO, por exemplo, como dito já, é a tradução para o grego, anterior à Septuaginta (a tradução oficial da Bíblia para o koiné), do nome divino YHWH, que se descola do mundo hebraico e se torna uma fórmula mágica independente. Por vezes ela aparece como IAO SABAOTH, sendo esta última palavra outra derivação do hebraico — YHWH Tzabaoth, Deus dos Exércitos. Às vezes ela é permutada também — IAO, IOA, OIA, AIO, AOI, OAI — ou então aparece junto com as 7 vogais associadas aos planetas A-Ê-É-I-Ô-U-Ó, que representam um outro nome divino nesta sequência, na ordem clássica das esferas planetárias (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter, Saturno), por vezes também permutados. Outros nomes, como OSORONNOPHRIS e NEPHOTES, vêm do egípcio (no caso, de Wsir Wn-nfr, ou “Osíris, o Belo”, e Nfr-htp, Neferhotep, outro deus). Mas a maioria não têm uma origem clara e ninguém sabe bem de onde vieram.

Os PGM, Hermetismo e o Sagrado Anjo Guardião

Os PGM são especialmente relevantes para os praticantes de magia de viés hermético. Quando se fala em Hermetismo, muitas vezes pensa-se na Golden Dawn, no Kybalion ou nas práticas de Bardon, mas é importante salientar que esses casos são sistemas modernos—a Golden Dawn mistura Hermetismo, Cabala e Maçonaria e de um jeito bastante sui generis, sendo uma revisitação vitoriana de práticas renascentistas, o Kybalion é essencialmente New Thought, uma escola americana de mentalismo, e Bardon bebe de várias fontes ocidentais e orientais. Assim, é difícil categorizar o que é o Hermetismo, pois não é um sistema mágico fechado propriamente, nem uma religião, mas é importante para as duas coisas. Sam Block o define como uma meta-religião, o que eu acho que é a melhor maneira de descrever. Um exercício para começar a pensar de forma meta-religiosa, pelo que eu entendo, pode ser refletir sobre os modos como duas religiões diferentes podem interagir, interpretando os fenômenos de uma pelo viés da outra.

No Ocidente, acostumado ao cristianismo, esse é um exercício muito difícil, porque a resposta padrão cristã diante de tudo é “está errado, vai para o inferno”, com raras exceções, como é o caso de Ficino e sua prisca theologia, não por acaso influenciada pelo Hermetismo. Pela via do materialismo, também um dogma religioso de certa forma, entende-se que é tudo “superstição primitiva”, o que também não ajuda. No entanto, quando cruzamos Ocidente e Oriente, surgem uns conceitos interessantes, como os de que Cristo seria um bodhisattva ou um avatar, como os deuses hindus também tiveram avatares. Isso é uma reflexão meta-religiosa, aplicando ferramentas conceituais budistas e hinduístas sobre o cristianismo. O Hermetismo, nesse sentido, é a forma que surgiu no Ocidente de pensar e harmonizar as muitas práticas religiosas⁵, contemplando as relações entre o ser humano, o cosmos e os dáimons e energias que o operam, deuses, o destino e o Deus supremo — não por acaso noções herméticas, ao longo da Antiguidade até a Idade Média, já foram adotadas por pagãos, gnósticos, cristãos, judeus, muçulmanos e os tais sabeus, num processo sempre muito fértil de influência mútua.

Um lugar-comum recorrente desse pensamento hermético é a concepção da constituição do universo, com seus quatro elementos — conceito que emerge em Empédocles e vira prata da casa do pensamento grego — e os sete planetas da cosmologia ptolemaica, que eram meio que o consenso do período quanto à composição do universo. Há uma ênfase na importância da purificação e do refinamento da alma, que permitem que ela ascenda pelas esferas celestes (espiritualmente, claro… não é para sair voando) e chegue a algum tipo de comunhão com o divino, Iluminação, gnose, etc., superando a ilusão imposta pelo mundo material de separação entre as coisas. A máxima famosa da Tábua de Esmeralda, um texto hermético tardio, mas o mais conhecido, “O que está acima é como o que está abaixo”, se dá pelo fato de que Todas as Coisas São Uma Só — Deus⁶.

Mas o que isso tudo tem a ver com os PGM? Bem, os textos oficiais do Hermetismo clássico estão contidos no que, em inglês, dá dois volumes, o Corpus Hermeticum, cuja edição mais aclamada é a de Brian Copenhaver, que reúne os 28 textos curtos originalmente traduzidos para o latim e divulgados na Europa por Ficino, mais o Asclépio, e o Hermetica II, editado por David Litwa, que reúne fragmentos diversos, desde o material de Stobeus até a Tábua de Esmeralda, redigida já no medievo, originalmente em árabe. Em português, creio que tenhamos apenas o Corpus Hermeticum⁸. Assim como ocorre com a Cabala, em que há uma Cabala mais teórica e teosófica e uma Cabala prática que envolve amuletos e conjurações de anjos, existe o Hermetismo altamente cerebral dessa literatura hermética que temos até hoje e também textos e relatos de práticas mágicas atribuídas ao sábio Hermes Trismegisto (“triplamente grande”, em grego). Hermes, que dá seu nome à corrente, combinava o arauto grego dos deuses com o deus escriba Thoth, dos egípcios, encarnado como o sábio a quem a autoria desses textos era atribuída⁷ e capaz de grandes feitos de magia que envolvem a manipulação do poder dos astros, prender espíritos em pedras e animar estátuas.

A animação de estátuas, praticada na religião mesopotâmica e egípcia, era conhecida já da Antiguidade, mas o que perdura mesmo, inclusive durante o período islâmico, são as técnicas de magia astrológica, como os talismãs das estrelas fixas, e os conhecimentos dos sabeus preservados no Picatrix. Uma teoria, de Dan Merkur, que faz bastante sentido, é a de que haveria já uma rica tradição de práticas mágico-religiosas do Mediterrâneo e Oriente Próximo, parte da qual ficou preservada nos PGM, na medida em que esses sacerdotes greco-egípcios foram absorvendo material semítico, mesopotâmico e judaico e mesclando-o com o que já faziam. Assim, os textos mais teóricos e teológicos como o Corpus Hermeticum seriam uma tentativa de passar a limpo as bases filosóficas dessas práticas num sistema mais ou menos coeso. Por esse motivo, para o magista hermético, estudar o CH e os PGM lado a lado é imensamente produtivo.

Agora, no tocante ao que dá para aproveitar na prática hoje, eu falei que muita coisa realmente é inviável, mas há várias filaterias que rendem ainda, além de fórmulas e preces poderosas, que podem ser extraídas e adaptadas por quem tiver um ânimo mais experimentalista. Sam Block, em seu blog, cuja leitura eu sempre recomendo, faz várias coisas nesse sentido o tempo todo.

O exemplo mais famoso desses rituais é a Estela de Jeu, o Hieroglifista (PGM V. 96–172). Trata-se de um ritual de exorcismo num molde bem clássico, que consiste em se dirigir a uma divindade poderosa para que, invocando seu poder a ponto de identificar-se com ele, o conjurador consiga expulsar qualquer espírito maligno que estiver atormentando o paciente. Essa divindade, incrivelmente obscura e sem literatura a respeito, é conhecida como Akephalos (literalmente “o acéfalo”, “o sem cabeça”), motivo pelo qual o ritual ganhou a alcunha de Headless Ritual. Esse texto chegou na Golden Dawn e foi traduzido e incorporado aos seus rituais, ficando conhecido como Bornless Ritual, com base na interpretação meio freestyle, mas engenhosa, de que “cabeça” aqui seria “começo”, assim uma figura sem começo e sem fim seria uma entidade eterna (o que tem alguma base, pois é assim que funciona nas línguas semíticas, como babilônico, árabe e hebraico… mas não grego). Dá para ver como é a versão da GD no famoso The Golden Dawn: The Original Account of the Teachings, Rites & Ceremonies of the Hermetic Order (p. 442), o livro em que Israel Regardie quebra o seu juramento e mostra ao mundo todo os rituais da ordem e… é uma bagunça. Se você compara o texto original na edição de Betz com o que a GD fez, você vai ver que eles transformaram um ritual bastante direto numa salada mística cheia de rococó (como tudo na GD).

Na edição de Crowley e Mathers da Goetia, publicada em 1904, que tem uma abordagem bastante heterodoxa, desviando-se e muito do material original, o Bornless é usado como uma “conjuração preliminar”, a fim de conferir ao magista a autoridade necessária para mandar nos demônios. É uma inovação que faz bastante sentido, pois seu refrão, afinal, diz “ouve-me e faz com que todo espírito esteja sujeito a mim” e esses grimórios salomônicos sempre partem do pressuposto de que o conjurador já fosse um exorcista experiente. Mas a fama mesmo desse ritual, o motivo pelo qual ainda é praticado, veio mais tarde.

Em 1897, Mathers havia publicado a sua tradução do Livro do Mago Abramelin, o que causa um certo frisson no círculo da GD e é considerado um marco até hoje na magia ocidental. Esse livro nada mais é que um grimório alemão famoso do século XV que ensina todo o procedimento para se estabelecer contato com seu Sagrado Anjo Guardião (SAG ou HGA, Holy Guardian Angel), uma entidade às vezes chamada de Higher Self ou Higher Genius ou ainda (Agatho-)Daimon ou Augoeides, apesar de haver certas desavenças quanto ao sentido dessas equivalências. O que é exatamente essa entidade é difícil de dizer (afinal, as experiências são sempre profundamente íntimas), mas a explicação mais chã é que é como se ele fosse o seu guia espiritual pessoal mais importante, que faz a ponte entre o seu eu encarnado e o divino. O Abramelin descreve uma longa operação mágica que dura entre 6 e 18 meses, para a qual é necessário um período de quase completo isolamento, marcado por jejuns, purificações e preces. O contato com o SAG é sempre possível, porém o normal é que ele seja intermitente e o objetivo dessa operação é estabelecer o Contato constante com ele — ou seja, depois desse, esse passa a ser o novo normal do magista. Essa experiência é tida pelos praticantes de magia da tradição esotérica ocidental hoje como um grande marco do seu caminho mágico, e Crowley, que tentou o Abramelin duas vezes, considerava esse contato com o SAG tão importante que chegou a afirmar que qualquer outro trabalho mágico cujo foco não fosse este era “magia negra”.

O que isso tem a ver com o Bornless é que, nesse processo, ele ganhou outra função. Agora eu não sei ao certo como isso se deu ou qual a lógica para esse salto, mas Crowley e companhia descobriram que ele poderia ser usado como um método mais rápido, mas mais intenso, de se contatar o SAG. Crowley então redigiu uma nova versão do Bornless, realçando os elementos egípcios e incluindo uma simbologia cabalístico-thelêmica (com as interpretações alucinadas de Crowley para as voces magicae), criando o ritual que hoje é conhecido como Liber Samekh.

Sobre o assunto eu recomendo ainda, de novo, a leitura do blog de Sam Block, que dedica um post longo para apresentar o texto no original, traduzi-lo para o inglês (sem o viés thelêmico ou da GD) e comentá-lo, inclusive mencionando suas várias funções.


Acéphale, uma ilustração de André Masson para uma publicação concebida por Georges Bataille (1936–1939).

Alguns rituais utilizáveis

Como um agrado aos meus leitores curiosos, eu selecionei e traduzi também mais alguns trechos da edição inglesa dos PGM com fórmulas que, como o Bornless, são mais utilizáveis e não envolvem se lambuzar de bosta com azeite. Só uma nota de leitura quanto às vogais: a vogal E normal descreve o epsilon e deve ser lida fechada, como Ê; a vogal O é o omicron, Ô; e o eta e ômega, com sons de É e Ó, estão marcados.

Abaixo, segue a poderosa invocação de Aion, para ser recitada no que se presume que seja a consagração de um talismã feito com a inscrição do nome divino de 100 letras numa folha de ouro.

PGM IV. 1167–1226

Estela que é útil em todas as coisas; salva até da morte. Não investigues o que vai nela.

Fórmula: “Eu te louvo, o único e abençoado dos éons e pai do mundo, com poderes cósmicos. Vinde a mim, tu que preencheste o universo inteiro com ar, o que pendurou o fogo da água [celestial] e separou a terra da água. Presta atenção, forma, espírito, terra e ar, a uma palavra daquele que é sábio no que concerne a divina Necessidade e aceita minhas palavras como dardos de fogo, porque sou um ser humano, a mais bela criatura de deus no céu, feito do espírito, orvalho e terra. Céu, abre-te, aceita minhas palavras. Ouve-me, Hélios, pai do mundo; eu te invoco com o teu nome AÓ EY ÉOI AIOÉ YEÓA OUORZARA LAMANTHATHRÉ KANTHIOPER GARPSARTHRÉ MENLARDAPA KENTHÉR DRYOMEN THRANDRÉTHRÉ IABE ZELANTHI BER ZATHRÉ ZAKENTI BIOLLITHRÉ AÉÓ OYÓ ÉÓ OÓ RAMIATHA AÉÓ ÓYÓ OYÓ ÓAYÓ: o único que possui o elemento original. Tu és o nome santo e poderoso considerado sagrado por todos os anjos; protege a mim, _______, contra todo excesso de poder e ato violento. Sim, faz isso, senhor, deus dos deuses, IALDAZAÓ BLATHAM MACHÓR PHRIX AÉ KEÓPH EÉA DYMEÓ PHERPHRITHÓ IACHTHÓ PSYCHEÓ PHIRITHMEÓ RÓSERÓTH THAMASTRAPHATI RIMPSAÓCH IALTHE MEACHI ARBATHANÓPS, criador do mundo, criador do universo, senhor, deus dos deuses, MARMARIÓ IAÓ. Eu falei de tua glória insuperável, tu que criaste os deuses, arcanjos e decanos. Os dez mil anjos vigiaram ao teu lado e exaltaram o céu, e o senhor testemunhou tua Sabedoria, que é Aion, IEOYÉÓÉ IAÉAIÉÓÉYOEI, e disse que tu és tão forte quanto ele. Eu invoco teu nome de cem letras, que se estende do céu às profundezas da terra; salva-me, pois tu te regozijas eternamente em salvar os teus, ATHÉZE PHÓI AAA DAIAGHTI, THÉOBIS PHIATH THAMBRAMI ABRAÓTH CHTHOLCHIL THOE OELCHÓTH THIOÓÉMCH CHOOMCH SAÉSI ISACHOÉ IEROUTHRA OOOOO AIÓAI. Eu te invoco, tu, o da folha de ouro, diante do qual a lamparina inapagável queima continuamente, o grande Deus, aquele que fez sua luz brilhar sobre todo o mundo, radiante em Jerusalém, senhor, IAÓ AIÉ IÓÉ ÓIÉ ÓIÉ IÉ AIÓAI AI OYÓ AÓÉ ÉEI IEÓ ÉYÓ AÉI AÓ AÓA AEÉI YÓ EIÉ AÉÓ IEY AEÉ AIA IAÓ EY AEY IAÉ EI AAA III ÉÉÉ IÓ IÓÉ IAÓ, para receber tua bênção, Ó senhor.

Abaixo, uma outra filateria, chamada de “Estela de Afrodite”.

PGM VII. 215–18

Estela de Afrodite: Para ganhar amizade, favores, sucesso e amigos. Pegue uma tira de estanho e grave nela com um stilus de bronze. Mantenha-te puro enquanto o carrega.

Um feitiço simples para aparecer nos sonhos dos outros:

PGM VII. 407–10

Se desejas aparecer para alguém em seus sonhos, diga à lâmpada de uso diário, diga com frequência: “CHEIAMÓPSEI ERPEBÓTH, que ela, ____, filha de ____, me veja em seus sonhos, imediatamente, imediatamente, rápido, rápido.”

E uma filateria de proteção espiritual:

PGM VII. 579–90

Uma filateria, um guardião contra dáimons, contra fantasmas, contra toda doença e sofrimento, a ser inscrita numa folha de ouro ou prata ou estanho ou em papiro hierático. Quando usada, funciona com grande poder pois seu nome é o nome poderoso do grande deus e seu selo, e é o seguinte: KMÉPHIS CHPHYRIS IAEÓ IAÓ AEÉ IAÓ OÓ AIÓN IAEÓBAPHRENE MOUNOTHILARIKRIPHIAE Y EAIPHIRKIRALITHANYOMENERPHABÓEAI. Esses são os nomes; a figura é assim: que a Cobra esteja mordendo a própria cauda, os nomes estejam dentro do círculo descrito pela cobra e os caracteres sejam assim: [vide a imagem]

A figura toda é assim desenhada, como se vê abaixo, com o feitiço, “Protege meu corpo e toda minha alma, ____”. E quando a tiveres consagrado, que tu a carregues consigo.

Por fim, cito mais alguns livros dignos de menção sobre o assunto, para quem tiver interesse. O primeiro é o Hermetic Magic: The Postmodern Papyrus of Abaris, de Stephen Flowers. O livro de Flowers deita as bases para um sistema mágico moderno de inspiração hermética, com um quê de Cabala (há uma menção à Árvore da Vida e gemátria, mas numa versão grega), ensinando os rituais a serem praticados, as ferramentas a serem construídas e consagradas, etc. Assim, o que tem de mais praticável nos PGM foi extraído e adaptado, formando um método coeso e viável. Ele não se pretende uma reconstrução fiel, mas ainda assim está alinhado em espírito com as noções do Hermetismo antigo (o próprio Christopher Warnock, do Renaissance Astrology, elogia o livro dele por essas linhas nas resenhas da Amazon). Porém, rola uma certa contaminação, pois Flowers é conhecidamente alinhado à “mão esquerda”, como se vê em seus outros livros. Ainda que ele não apresente o Hermetic Magic como um livro de “hermetismo satanista” explicitamente, há uma ênfase a Set (o “arquétipo satânico” da mitologia egípcia, daí o nome do secto satanista do Templo de Set, por exemplo) aqui que não se encontra nos originais.

Outro livro importantíssimo é o Ancient Christian Magic: Coptic Texts of Ritual Power, de Marvin W. Meyer. Apesar do título que aponta para um contexto cultural mais cristão do que hermético, essa coletânea nos mostra uma adaptação da técnica das defixiones, as tabuinhas de maldição, para o papiro, e suas fórmulas apresentam a mesma mentalidade que os PGM no geral (o copta, afinal, nada mais é que um descendente do egípcio), com a presença das mesmas famosas voces magicae. Para quem se interessa sobre esse assunto ainda, a tese da Patrícia Schlichter, da USP, é só sobre as voces magicae (link aqui).

Para hermetistas modernos e para quem pretende praticar esses rituais de fato ou incluir essas fórmulas em seus próprios rituais, como eu demonstrei no meu ritual de banimento, estudar os PGM e a magia antiga de modo mais amplo é crucial. Mas todo mundo com interesse em magia e religião se beneficiaria dessa leitura, porque, além de tudo, ela serve para ampliar o nosso repertório e nosso entendimento desses assuntos. Se você é um magista cerimonial, a evocação de espíritos sem círculo, triângulo ou bola de cristal pode parecer estranha (apesar que usa-se uma vasilha com água e óleo em PGM IV. 154–285), mas é um convite a entender os mecanismos da magia e de que forma essas necessidades de proteção podem ser supridas de outra forma. Se você chegou agora no rolê, leu Peter Carroll ou outros caoístas e sua prática consiste, em sua maior parte, em sigilos e servidores, sem reconhecer outras técnicas como válidas, porque “não têm gnose”⁹, ler os PGM também pode ser um choque de realidade necessário — afinal, aqui estão registradas as técnicas de gente que manjava muito mais do que nós. Ou ainda, quem nunca ouviu um: Ai eu sou Wicca, não recito salmos, não mexo com anjo, o Ritual do Pentagrama vai dar choque de egrégora? Só fala isso quem nunca viu um feitiço dos PGM com Hermes, Osíris, Abraxas, Hécate Ereshkigal e o arcanjo Miguel, todo mundo juntinho dançando¹⁰. Não é comum termos fontes históricas assim tão bem preservadas (o pessoal do paganismo celta que o diga) e é bom que elas representem uma marretada bem dada nas nossas preconcepções.

* * *

[1] Eu pessoalmente preferiria chamar de Papiros Gregos Mágicos e não Papiros Mágicos Gregos, mas se a comunidade acadêmica toda diz com o nome trocado não sou eu quem vai destrocar.

[2] A opinião dos acadêmicos por muito tempo era a mesma daquele jacaré do Pica-Pau. Várias objeções foram feitas à época da publicação dos PGM no século XIX, afirmando que esses textos “maculavam o esplendor da antiguidade”. Entendia-se a magia como uma prática primitiva, baseada em falsas premissas, que, no caminho evolutivo delineado por Frazer, deveria dar lugar à religião e, por fim, à ciência. Saber que os gregos praticavam magia depois de Sócrates, Platão e Aristóteles era como se fosse um retrocesso.

[3] Como comentam Orlando Calheiros e Stephanie Borges no seu podcast Benzina (não mais no Meião), no especial sobre Ogum, o motivo para esse sincretismo pode ser mais empírico e até mesmo técnico, de uma maneira experimental, do que qualquer outra coisa. Orlando fala no uso que os terreiros fizeram das imagens dos santos como um tipo de “guerrilha cosmológica”: quando se tem uma religião hegemônica sendo imposta (e, com ela, uma única cosmologia), é um ato de resistência e criatividade se apossar desses símbolos para utilizá-los para outras coisas, fragmentando o unívoco numa pluralidade desafiadora. Assim, ao se usar as imagens de São Jorge, por exemplo, descem no terreiro as entidades ligadas a Ogum ou a Oxóssi, dependendo do lugar (Ogum é como é feito esse sincretismo no Rio, Oxóssi na Bahia), daí que o santo e esses Orixás tenham sido associados. Essa interpretação faz mais sentido do que a ideia, mais senso comum, de que a função do sincretismo era de disfarce — até porque, como comenta Orlando, não faria sentido o sincretismo ser mantido depois da descriminalização das religiões de matriz africana.

[4] O livro se chama Ancient Aramaic and Hebrew Letters, editado por James M. Lindenberger, Kent Harold Richards e Kent Harold Richards, e reúne 79 cartas e fragmentos do mundo antigo, datadas de até o período helenístico, que compõem todo o corpus disponível desse material.

[5] A Teosofia, de certa forma, também poderia ser enquadrada como um forma de pensamento meta-religioso, e o mesmo poderia ser dito da Magia do Caos.

[6] Para uma definição mais palpável das bases da filosofia hermética, na medida em que isso seria possível, dada a fragmentação da literatura, eu recomendo a leitura de dois textos no blog do Nick Farrell, “The Real Hermetic Principles” e “The Main Hermetic Principle”.

[7] A melhor forma de entender a literatura hermética, como um magista, é enxergar Hermes como um tipo de guia ou professor espiritual, responsável pela inspiração desses textos atribuídos a ele, mas escritos de fato por outros autores em períodos mais tardios da Antiguidade. [8] Há várias edições, mas é difícil averiguar a sua qualidade, o que é um problema comum no meio esotérico. A mais recente e recomendável é a traduzida e editada pelo pesquisador Américo Sommerman, publicada pela editora Polar.

[9] Alguns rituais induzem transes, mas são transes para usos bastante específicos, geralmente ligados a adivinhação.

[10] Mas, só para desencargo de consciência, eu deixo aqui o aviso de que, se você adere a um sistema, pelo amor do Buda, não me invente de misturar coisas que não tenham nada a ver, especialmente com tradições fechadas e/ou com as quais você não tem a menor familiaridade. Essa mistura sincrética dos PGM é viável porque o meio cultural, com todas essas culturas em contato, possibilitava. Há muita força na prática eclética, mas bom senso é crucial. Sobre o assunto, eu recomendo o texto do blog do Jason Miller.

(Este texto foi publicado originalmente em meu Medium em 13 de julho de 2020)

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