Um ritual hermético de banimento

Como dito no meu texto anterior sobre o assunto, eu elaborei um ritual próprio para banimento, de inspiração mais propriamente hermética. A ideia, com ele, é oferecer um método que seja simples, eficaz e “neutro” o suficiente para combinar com quase qualquer prática, sem envolver Cabala ou influências monoteístas estritas, especialmente na vertente, bem sui generis, de Cabala hermética da Golden Dawn, cujas atribuições podem causar certas interferências¹. Ao mesmo tempo, eu prefiro não abrir mão de referências ao divino, de forma mais ampla, pelo poder de proteção que essa conexão oferece. No mais, o meu ritual é 3 em 1, no sentido de que, dominando um pequeno conjunto de técnicas, pode-se usá-lo para três funções: aterramento, banimento e energização.

Comecemos com a função de aterramento, para familiarizar o praticante com a sua simbologia.

Arte de Johfra Bosschart (infelizmente não achei o título)

Aterramento

Nos sistemas de magia energética entendemos o aterramento (grounding, em inglês) como uma forma de se equilibrar depois de um trabalho mágico/espiritual. Em termos de chakras, a terminologia mais popular para descrever os centros de energia psíquica no corpo sutil, alguns chakras como o da coroa e o da testa (a consciência búdica superior e inferior) acabam abrindo enquanto meditamos, invocamos e tudo o mais — às vezes acontece já só de passar um tempo estudando magia e misticismo. Isso te prepara para o trabalho mágico e místico, mas andar por aí interagindo no cotidiano do mundo material desse jeito não é uma boa ideia, porque você acaba ficando distraído, com a cabeça nas nuvens, e difícil lidar, nesse estado, com as coisas mais chãs (inclusive, você pode acabar ficando sem libido). Há técnicas de pura visualização para aterrar (imaginar-se com raízes saindo dos pés, por exemplo), mas, para certas pessoas e/ou após trabalhos intensos, a visualização pura pode não dar conta. Neste caso, um breve ritual mais formal de aterramento é bastante útil.

Bem, vamos às instruções então.

Primeira parte: a Escada Astral²

  1. Em pé ou sentado, com os olhos fechados, visualize uma luz branca intensa acima da sua cabeça. Levantando a mão com os dedos indicador e médio estendidos, toque-a e traga-a para o topo da cabeça, a chamada “coroa”. Nisso, inspire fundo e entoe a vogal Ó por alguns segundos. Visualize a luz num tom púrpura escuro.
  2. Toque com os dedos a testa, visualize a luz descendo a ela com um tom lilás. Inspire e entoe a vogal A.
  3. Repita o gesto agora na garganta, cor laranja, vogal Ê.
  4. Repita o gesto no peito, cor azul, vogal U.
  5. Repita o gesto no plexo solar (o vão entre as costelas, acima da barriga), cor amarela, vogal I.
  6. Repita o gesto no púbis, cor verde, vogal É.
  7. Repita o gesto apontando para baixo e visualizando a esfera de luz aos seus pés, cor vermelha, vogal Ô.
  8. Enquanto inspira e expira, visualize cada ponto de luz brilhando, agora na ordem inversa, dos pés à cabeça.
  9. Inspire e, enquanto expira, visualize um pilar de luz branca subindo dos pés até a cabeça. Ao chegar lá, abra os braços em cruz.

Segunda parte: a Cruz

  1. Continue visualizando a luz branca no pilar formado pelo seu corpo. Essa luz prossegue infinitamente para cima e para baixo, fluindo, paradoxalmente, para ambas as direções ao mesmo tempo.
  2. Visualize uma luz que corre assim como a luz do passo anterior, mas pelos seus braços abertos. Sua cor é vermelha.
  3. Inspire fundo e entoe longamente o nome divino IAO. Com o Iiiiii, concentre-se no pilar branco, com o Aaaaaaa, no pilar vermelho, e, ao começar o Óóóóó, vá unindo as mãos até enlaçá-las na frente do seu peito.
  4. Nessa posição, visualize a luz acima de sua cabeça descendo como um raio pelo seu corpo e continuando, como as ramificações do raio, formando uma raiz terra abaixo.
  5. Concentre-se no seu chakra básico (na base da espinha dorsal) e abra os olhos.

E é isso. Todo o ritual demora menos de 3 minutos.

Parece complexo à primeira vista, mas sua explicação é simples e coerente. Quem tiver dificuldades com a primeira parte pode simplificá-la a princípio e fazê-la sem as cores e/ou realizando-a apenas com as vogais mais centrais Ô, U, I e Ó (pulando os passos 2, 3 e 6 da Escada). Após pegar o jeito, você pode fazer os passos 1 a 7 numa inspiração só: Ó-A-Ê-U-I-É-Ô.

Essa atribuição não é arbitrária. Como dito, existe uma associação no Hermetismo clássico entre os 7 planetas e as 7 vogais do grego (que também são as nossas 7 vogais, contando as com acento agudo e grave separadamente). A é a vogal da Lua; Ê, de Mercúrio; É, de Vênus; I, do Sol; Ô, de Marte; U, de Júpiter; e Ó, de Saturno. Num ritual mais antigo, registrado nos PGM e parte do Ritual do Heptagrama, entoa-se a vogal desses planetas às vezes tocando partes do corpo: a coroa para Saturno, o peito para Júpiter, o plexo para o Sol e os pés para Marte. Os planetas restantes não envolvem tocar partes do corpo, mas uma aproximação com os centros de energia do corpo mais conhecidos acaba sendo naturalmente sugerida: a Lua e a testa (o centro da atividade clarividente); Mercúrio e a garganta (regendo a fala, domínio mercurial); Vênus e o sexo (o domínio do prazer e da criação). As cores não são as cores tradicionais dos chakras, mas as que a tradição esotérica ocidental atribui aos planetas, porém isso não é um problema e, se essa atribuição for problemática para você por estar acostumado com o modelo das cores dos chakras, você pode usar esse esquema também. Assim, da coroa aos pés, é como se a energia celestial descesse, abrindo o caminho e depois possibilitando o seu fluxo em todas as direções.

Na segunda parte, temos o nome divino IAO. As origens desse nome são bíblicas — “Iao”, iota, alfa, ômega, é como traduções para o grego de trechos da Bíblia Hebraica vertiam o tetragrama YHWH antes da tradução oficial da Septuaginta. PORÉM, a partir daí, o nome se espalhou pelos meios mágicos do Mediterrâneo e Antigo Oriente como um nome de poder, descolado do mundo hebraico mais estrito, onde ele mesmo desaparece, sendo posteriormente mais associado aos gnósticos e “caldeus”. É assim que IAO aparece com bastante frequência nos Papiros Mágicos Gregos, ao lado de outros nomes de poder que se costuma chamar de voces magicae (vozes mágicas) ou palavras bárbaras, uma noção que se aproxima do que entendemos como palavras mágicas, que não têm um sentido mundano. Jason Miller também lembra que estas três vogais equivalem ao começo, meio e fim do macrocosmo (Lua, Sol e Saturno) e que podem ser vistas como “uma abreviação de todos os sons vocálicos reunidos — uma fórmula xamânica poderosa representando a totalidade do universo”. É meio que uma fórmula que você pode usar para tudo, representando a conexão com o divino.

Invocando este nome de poder, então, e com o gesto da cruz e a visualização que puxa as energias para baixo, encerrando o ritual, é possível tranquilamente descansar e ir fazer qualquer outra coisa não mágica da vida. Sempre que você se sentir muito distraído(a), o aterramento pode ajudar.

Banimento

Tendo dominado este ritual para aterramento, podemos prosseguir com o ritual de banimento propriamente. É a mesma coisa, só com alguns acréscimos.

  1. Virado para o leste, no centro do espaço onde você está, comece com a Escada, realizando os passos 1–9, porém não abra os braços ainda.
  2. Visualize a luz branca descendo da coroa até a sua mão, nos dedos estendidos, e então abra os olhos.
  3. Dando um passo à frente, ainda no leste, desenhe um pentagrama no ar com uma luz branca cintilante, penetrando-o no centro com os dedos depois. Enquanto desenha o pentagrama, entoe a palavra de poder ABLANATHANALBA. Tente sincronizar cada uma das sílabas do nome com um dos pontos do pentagrama: A — BLA —NA — THA — NAL — BA (a última sílaba coincide com a parte em que você fura o pentagrama no centro).
  4. Feito o primeiro pentagrama, vire para a esquerda, sentido anti-horário, para o norte, e lá repita o passo 3 (o nome não varia).
  5. Ainda no sentido anti-horário, repita o passo 3 agora no oeste.
  6. E mais uma vez repita o passo 3 no sul.
  7. Feche o círculo tocando o primeiro pentagrama e retorne ao centro da sala.
  8. Abra os braços, feche os olhos e faça a invocação dos arcanjos do RmP: À minha frente, RAFAEL; às minhas costas, GABRIEL; à minha direita, MICHAEL; à minha esquerda, URIEL; ao meu redor flamejam os pentagramas e no centro brilha a estrela de seis raios. Se preferir, você pode chamar outros guardiões com os quais você tenha mais afinidade ou uma relação mais forte. Se tiver familiaridade com outros rituais dos PGM, como o Bornless Ritual, você pode encerrar ainda com a fórmula AOTH ABRAOTH BASYM ISAK SABAOTH IAO.
  9. Declare, entoando o nome divino: Assim é, em nome de IAO. Acompanhe o nome com as visualizações do passo 3 da Cruz.
  10. Se estiver utilizando este banimento para encerrar os trabalhos do dia, conclua com os passos 4 e 5 da Cruz (o raio e as raízes), senão apenas una as mãos, e é isto.

O ritual de banimento, como podem ver, se situa dentro do de aterramento — na verdade, desdobrando-se a partir dele. Diferente do RmP, usamos apenas um único nome de poder, ABLANATHANALBA. Calma, a princípio parece uma palavra complicada, mas fica fácil decorá-la se você observar que ela segue uma ordem alfabética crescente e depois decrescente: a-Bla-Na-Tha-Nal-Ba. Em grego, aliás, trata-se de um palíndromo, uma palavra que é igual lida normalmente e de trás para frente (o TH é uma convenção ortográfica, em grego é uma letra só, theta). Se for muito difícil, você pode ensaiar antes para decorar.

De quebra, lembramos que o pentagrama também era chamado de pentalpha em grego, porque o desenho lembra cinco letras alfa reunidas, e com esse nome fechamos as cinco letras, com as cinco pontas, mais o ponto central.


Pentagrama de banimento com a disposição das sílabas, para facilitar a visualização

ABLANATHANALBA é outra palavra bárbara dos PGM, também presente nas invocações cristãs e gnósticas dos papiros coptas. Com frequência aparece ao lado de outros nomes famosos como IAO, ABRASAX, AKRAMMACHARI, e em contextos de solicitar proteção, o que é perfeito aqui. Ele é incluído no final do texto do ritual em PGM III. 1–164 (página 22 da edição do Betz), junto com os nomes dos anjos Miguel, Gabriel, Rafael e Souriel (talvez uma variação de Uriel?), motivo pelo qual eu me sinto tranquilo em utilizá-lo aqui mantendo a invocação dos arcanjos, apesar de todo o resto ser diferente do RmP. De novo, insisto que, apesar de o conceito de anjos ser uma presença imensa nas religiões abraâmicas, eles estão além de qualquer religião³.

Quanto à forma do pentagrama usada, isso eu deixo para você. O padrão, como demonstrado acima, é mantermos o pentagrama de banimento do RmP, começando na ponta inferior esquerda e subindo. Mas aí, se quiser usar as formas de invocação e banimento, pode. Se quiser usar o pentagrama do elemento equivalente a cada direção (leste: ar, oeste: água, norte: terra, sul: fogo), guiando-se pelos pentagramas da Golden Dawn ou pelo modelo otimizado de Colin Campbell, maravilha também. Só não faça lambança, tipo começar com um modelo e terminar com outro no meio do ritual.

Energização

Tendo feito seu banimento e tudo o mais, esse ritual pode ser usado para energização, à moda do pilar médio. Assim como no pilar médio, você vai visualizar uma esfera de luz na coroa, na garganta, no plexo, no púbis e abaixo dos pés (ou base da espinha se estiver sentado), em todos os casos vibrando o nome IAO — alternativamente, você também pode fazer a sequência coroa, testa, garganta, plexo, períneo. Depois, visualize as esferas de luz subindo de novo e então faça uma versão mais lenta da Escada, sem tocar nas partes do corpo, só visualizando. Visualize uma esfera púrpura na coroa e entoe Óóó-Óóó, com a segunda parte mais aguda que a primeira. Se conseguir, visualize também ali o símbolo de Saturno: ♄. Para um efeito mais forte, repita três vezes. Depois prossiga para a testa, Aaa-Aaa, com o símbolo da Lua… e assim por diante, apenas tomando o cuidado de, ao chegar no peito, fazer a visualização na parte de trás, nos pulmões em vez do coração, por segurança⁴. No fim, você vai visualizar a luz subindo pela última vez e saindo pelo topo da sua cabeça como um chafariz de luz multicolorida, feito um arco-íris, circulando ao seu redor. Utilize essa técnica como prática diária e antes de qualquer trabalho prático.

Uma versão mais complexa dessa energização pode ser elaborada pensando nos elementos do corpo para equilíbrio elemental — assim incluindo um trabalho hermético completo todos os dias, com os 4 elementos e 7 planetas. Esses elementos são: fogo na cabeça, ar na garganta e torso, água no ventre e terra no quadril e pernas, na versão do Franz Bardon e da tradição geomântica; ou ar no pescoço e cabeça, fogo no plexo, água no sexual e terra nos pés, na versão do Pilar Médio original. Você poderia aplicar visualizações dos elementos e permutações do nome divino IAO, mas acho que já seria muita complicação para o momento. Deixo a possibilidade no ar, e quem quiser vai saber como incorporá-la.

* * *

E voilà. Temos aqui um ritual relativamente fácil de decorar e que pode ser incorporado com tranquilidade a qualquer prática ou quase. Você pode começar seu dia com o banimento, energizar, fazer suas devoções (de novo, insisto no uso da Prece Hermética do Poemandro, que você pode repetir 3x por dia, na falta de algo que lhe chame mais a atenção), 10 minutos de meditação e terminar com o aterramento. Ao todo, isso deve tomar menos de meia hora do seu dia e, em pouco tempo, você já vai observar que faz diferença. Ele também pode ser usado antes e depois de rituais para qualquer propósito prático, inclusive tiragens de tarô, entre um consulente e outro.

Meu objetivo aqui, é claro, não é tentar rivalizar com o RmP (eu não sou megalômano desse jeito⁵) ou o Pilar Médio, mas oferecer uma possibilidade viável aos iniciantes que, por qualquer motivo, considerem esses rituais difíceis demais ou conflitantes com sua prática pessoal. Como eu disse, banimentos não são obrigatórios, mas, dadas as suas várias funções, eles são uma mão na roda, especialmente para iniciantes.

* * *

[1] Tudo na GD está intimamente ligado a uma rede de símbolos bem específica e onde tudo é codificado. Por exemplo, o nome divino EL está ligado à sefirah de Chesed na Árvore da Vida, que, por sua vez, está ligada ao planeta Júpiter, ao anjo Tzadikiel e suas cores são, em ordem de manifestação, violeta, azul, púrpura profundo e — sem brincadeira — azul profundo com manchas amarelas. Se você já adere a algum outro sistema de atribuições (na versão da Árvore da Vida oferecida por Aryeh Kaplan em seu comentário ao Sefer Yetzirah, a sefirah de Júpiter é Malkut, por exemplo), as coisas podem ficar bagunçadas. Eu tenho problemas, porque prefiro usar este modelo da Árvore da Vida do que este, que é o usado pela GD e pela Thelema (note que os caminhos todos mudam), e aí complica o rolê todo.

[2] Nome pomposo obrigatório, em cumprimento da Lei Municipal Hermética 93/666.

[3] Sobre o assunto, recomendo a leitura do livro The Footprints of Michael the Archangel: The Formation and Diffusion of a Saintly Cult, c. 300-c. 800, de John Charles Arnold. Nele podemos ler não só sobre como Miguel era invocado por cristãos, judeus e pagãos igualmente (muitas vezes ao lado de deuses), como ainda há casos de judeus invocando outras entidades, inclusive Abraxas. A religião na Antiguidade era uma confusão imensa.

[4] O motivo para isso é que nenhuma tradição de magia energética de que eu tenha conhecimento recomenda energizar o coração ou o chakra cardíaco frontal diretamente, pois é perigoso a longo prazo. Em vez disso, energiza-se o cardíaco dorsal, atrás, na região dos pulmões.

[5] Por outro lado, pelos meus experimentos e medições, esta forma protege e limpa mais do que a versão de Peter Carroll, pelo menos tal como ela é ensinada, sem acréscimos ou outras invocações adicionais.

(Este texto foi publicado originalmente no meu Medium em 16 de abril de 2020)

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