Introdução à magia: o que é?

Tem uma citação muito famosa de Santo Agostinho, nas suas Confissões, que diz: “O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei”. Magia meio que vai pelo mesmo caminho. Todo mundo sabe o que é, mas é na hora de definir que o bicho pega.

Primeiramente, vamos pensar no que ela não é. Magia não é ilusionismo, mágica de palco — motivo pelo qual um pessoal como o Crowley começou a usar a grafia arcaizante magick em inglês para ajudar a separar as duas coisas. Certamente, de uma perspectiva histórica, houve quem as misturasse (o próprio Franz Bardon era um exímio ilusionista, dizem), até porque devia ajudar no marketing, você vê o mago ou o yogi levitando e pensa, “bem, ele é foda mesmo”. Mas calma lá. Em segundo lugar, temos a relação entre magia e ciências naturais, que já andaram juntas, como a astrologia e a astronomia, mas essa amizade terminou por volta do século XVIII. Usar ervas para tratar uma inflamação não é magia, é o começo da farmacognosia; agora usar ervas para atrair prosperidade, aí sim, entramos no território do mágico. Do mesmo modo, afirmar que as moléculas da água reagem às emoções é pseudociência (sobretudo se for para vender água amorosa a preços exorbitantes), enquanto afirmar que é possível “energizar” ou “magnetizar” a água num nível sutil, extrafísico, já são outros quinhentos.

A magia tem ainda uma relação muito complexa com a religião e com o misticismo, duas categorias da experiência humana que também têm uma relação complexa entre si. Eu não pretendo, porém, entrar a fundo nessa discussão — muita gente grande como o Marcel Mauss e o Malinowski já se engalfinhou nisso, e eu estou escrevendo esses textos por prazer e não para publicar em periódico acadêmico¹. E temos ainda outras palavras que pertencem a esse campo semântico: ocultismo, termo utilizado por Agrippa que a princípio se referia às ciências da astrologia, alquimia e magia natural, mas foi posteriormente ampliado para dar conta do espiritualismo, da Teosofia e da magia da Golden Dawn, e hoje, no senso comum, eu sinto que tem uma conotação levemente sinistra; bruxaria, que tem umas conexões com formas mais intuitivas de magia, de predominância feminina e com ênfase no contato com a natureza; e feitiçaria, que, como o termo é usado hoje, é a aplicação mágica que procura gerar resultados palpáveis.

Então, vamos ficar com o termo magia mesmo. Mais fácil.

Circe oferecendo o cálice para Ulisses (1891), de John William Waterhouse

Essas dificuldades de definição são históricas, em algum grau, e deixaram marcas nas palavras. “Mago” e “magia” vêm do grego, mágos (μάγος) e mageía (μαγεία), o mágos sendo como eram chamados os sacerdotes do zoroastrismo, a religião iraniana fundada pelo profeta Zaratustra, a quem era atribuída popularmente a invenção da astrologia. Considerando o preconceito que se costuma ter quanto à magia (“nós fazemos religião… agora magia, macumba, mandinga, é o que eles fazem”), é compreensível que as práticas religiosas, exóticas, de um outro povo tenham sido entendidas como feitiçaria. Num caso ainda mais antigo, como entre os sumérios e babilônios, uma palavra como mashmash(û) significava “bruxo” — e tem uma narrativa muito interessante em sumério, “Enmerkar e En-suḫgir-ana”, sobre um mashmash que apronta altas confusões na cidade. Mas mashmash também era “sacerdote”, em especial o tipo de sacerdote responsável pelo exorcismo de espíritos malignos. Alguns autores acreditam na hipótese de que os rituais registrados nos Papiros Mágicos Gregos, uma coletânea de literatura mágica da Antiguidade Tardia, fossem de autoria de sacerdotes que também ofereciam seus serviços como feiticeiros freelancer. Não deixa de ser engraçado como, no imaginário popular posterior, um mago e um sacerdote acabaram sendo coisas bastante diferentes.

Uma outra palavra de origem grega é mántis (μάντις), cuja raiz vem do verbo “delirar”, mas significa “vidente”, “profeta”, e dá em todas as palavras que terminam em -mante e -mancia, geralmente com o sentido de “adivinhação”. Um necromante, por exemplo, seria a princípio alguém que pratica a adivinhação com os espíritos dos mortos, o que era bastante popular na Grécia e no Oriente Próximo. Mas também se refere a quem realiza outros tipos de trabalhos com os mortos, de modo que, aos poucos, em português e em outras línguas europeias, a palavra ganhou o sentido de “praticante de magia negra”. A palavra goetia, que gerou uma tradição de magia de conjuração de demônios, também tem origem grega, sendo o góes (γόης) um termo que se referia a cantores de cânticos fúnebres, depois ganhou esse sentido de feiticeiro (tem um trecho em Heródoto, por exemplo, em que ele comenta a fama do povo Neuri, na Ucrânia, como feiticeiros capazes de se transformar em lobos). Por fim, na época do Novo Testamento, o termo assumiu o sentido de “charlatão”, “golpista”. Em latim, temos a palavra veneficus, que significa tanto “bruxo” quanto “envenenador”, literalmente fabricante (ficus) de venenos (vene)… e “veneno”, por sua vez, se diz pharmakon em grego, termo que é famoso por significar tanto veneno quanto remédio, mas que tem um terceiro sentido, menos conhecido, de preparação mágica.

A partir daí começamos a ver alguns motivos recorrentes: o trabalho como sacerdote, como adivinho ou com a preparação de poções e outros remédios, como um boticário. Essas tendências são observadas em outras palavras, como sorcerer em inglês, que vem do francês sorcier, de sors, “sorte”, como em “tirar a sorte” e “sortilégio”. Wizard significa “sábio” (do Middle English wys), e warlock vem do Middle English waerloga, traidor, enganador, literalmente quebrador de pactos. Witch, derivado de wicca/wicce, tem uma origem incerta, assim como “bruxa”, mas é provavelmente ligada à prática da adivinhação, até onde se sabe. Em português, “feitiço” significa “coisa feita”, como um trabalho é feito (não por acaso usamos o termo trabalho nesse sentido também), e essa é a etimologia de fetiche, pela via francesa, como um objeto dotado de poderes mágicos e religiosos.

Preparador de poções e envenenador, adivinho, sacerdote, sábio, até mentiroso e enganador. Todas essas palavras refletem algumas das atividades dos praticantes de magia ao longo da história e sua percepção pelo público em geral. Mas seria interessante chegarmos a uma definição mais essencial. De novo, eu não vou repassar e comentar as várias afirmações que outros praticantes de magia já fizeram sobre o tema — como a de que “magia é a ciência e a arte de fazer com que ocorram mudanças em conformidade com a Vontade”, de Crowley — , mas pretendo partir de uma reflexão que acho que pode iluminar a questão.

Vamos imaginar um grupo de humanos caçadores-coletores de uns muitos mil anos atrás. Imagine que você faz parte de um desses grupos sociais antigos e esteja saindo para a caça. Há uma certa tecnologia que é preciso dominar. É infinitamente mais fácil caçar carregando uma lança ou tacape para perfurar o animal ou esmagar seu crânio do que tentar pegar e estrangular a caça com as mãos nuas. Você não precisa entender exatamente a física do movimento, da dureza da pedra e sua capacidade de rasgar a pele e a carne do animal para perceber que a caça se torna mais eficaz armado. É possível observar isso pela experiência. No entanto, e aí está o xis da questão, e se houver outros elementos observáveis, mas menos evidentes?

Suponha que alguém do grupo tenha um talismã para caça, preparado especialmente por um xamã, abençoado por certos espíritos. Suponha que esse talismã funcione e o desempenho do caçador seja ampliado por ele. O seu sucesso é observável — você vê o caçador, dia após dia, trazendo as maiores presas em segurança e com grande facilidade — , mas não fica claro como um objeto como um talismã, diferente da lança, seja capaz de afetar esse resultado. Sabemos, no entanto, que há fatores invisíveis que influenciam o sucesso da caça, certas variáveis que estariam a princípio além de nosso controle, que é o que geralmente chamamos de “sorte”, “acidente”, “acaso”, etc. A caça é uma atividade perigosa e, por isso, sujeita a inúmeros tabus — o conceito dos tabus de caçadores é bem documentado na literatura antropológica, e, por exemplo, sabe-se que caçadores mongóis, mas não apenas eles, não utilizam o nome comum de uma presa durante a caçada, porque, do contrário, a presa vai descobrir o seu plano e isso desagrada os espíritos. Um caçador pode ser experiente, mas ainda assim acabar como vítima de circunstâncias imprevisíveis, tendo seu desempenho diminuído pelo simples fato de, sei lá, um leão chegar na sua prese antes dele, ou escorregar sem querer e cair num arbusto espinhoso e ser picado por uma cobra, perigos reais aos quais quem viola os tabus está sujeito.

É possível, portanto, que o talismã não afete a caça do mesmo modo como a lança afeta², mas opere nesse espaço das variáveis invisíveis. É evidente que um cético entenderá essa relação como um exemplo do que se chama, em lógica, de viés de confirmação. Em todo caso, essa é a natureza do ceticismo — levado ao extremo, como em Hume, chega-se facilmente à negação do próprio conceito de causalidade. O fato de que o tempo só anda para a frente e que também cada evento é, em essência, único e irrepetível faz com que não seja possível testar um exato mesmo evento com e sem o talismã para verificar como ele o afeta.

E assim chegamos ao princípio de uma definição: o primeiro passo para a magia é reconhecer que existe um mundo invisível, oculto, espiritual, imaterial. Em nosso momento histórico, significa ainda separar conceitualmente esse mundo invisível por natureza, por não ser parte do mundo físico, do que é invisível apenas a olho nu, que é o domínio, não do mago, mas da microbiologia e da física de partículas. Quais os poderes que habitam esse mundo, aí isso vai depender da cada tradição — deuses, espíritos, dáimones, djinns, fadas, anjos, demônios, energias, fluidos e vibrações, pensamentos. Na sequência, para se haver magia é também necessário que se creia na permeabilidade entre esses dois mundos, na ideia de que, ainda que pareçam separados, um é capaz de influenciar o outro.

Deriva daí que um ritual não afete o mundo físico da mesma forma que uma ferramenta física, diretamente, mas pela via indireta, de revesgueio, como um ricochete, afetando o mundo oculto e então observando como o nosso mundo reage a essas alterações, inserindo uma etapa adicional entre a causa e o efeito observáveis. Isso se aplica a muitos contextos, desde o feiticeiro marginal manipulando escondido uma efígie de uma vítima para que ela adoeça, até uma congregação que reze pelo bem-estar de um de seus membros e o místico solitário que observa fenômenos estranhos consequentes de sua meditação intensa.

Entende-se também que há diferenças de capacidade entre as pessoas. Uma pessoa comum, neófita, e um adepto com anos e anos de treinamento, prática e iniciações são capazes de afetar o mundo invisível de formas distintas — seja isso entendido como a capacidade do adepto de movimentar maiores quantidades de energia ou de se impor e ser respeitado por espíritos mais poderosos — , que é o que chamamos de poder espiritual. Nesse sentido, um ato mágico é sempre uma demonstração de poder espiritual. Mesmo um místico sem maiores interesses por feitiçaria, como Abraham Abulafia, Santa Teresa de Ávila ou Simone Weil, trabalha duro para desenvolver seu poder espiritual de modo a permitir que ascenda, com segurança, aos planos mais altos da existência e possa contemplar a divindade sem ser fulminado³. Não por acaso, esse pessoal, se assim quiser, é capaz de manifestar grandes coisas e é extremamente difícil afetá-los magicamente⁴.

Por fim, é importante frisar que há mais na magia do que os atos mágicos, os rituais em si. Ainda que, sim, este seja o começo, em algum momento você passa a vivenciar a coisa, a conviver com essas forças e a ter uma maior compreensão do que é o mundo espiritual e como ele se organiza, o que dá uma outra perspectiva sobre a sua própria existência. Isso não significa iludir-se com sua autoimportância no Grande Esquema das Coisas (sempre haverá poderes maiores), mas também não é entrar em posição fetal e se desesperar com uma percepção dolorosa da própria insignificância. Essa perspectiva mágica oferece um equilíbrio possível entre os dois extremos. Assim sendo, se eu defino o ato mágico como uma manifestação desse tipo de poder, a magia em si é simplesmente a exploração desse mundo espiritual, oculto, invisível, imaterial.

Pintura de Andreas Achenbach mostrando um penhasco e o mar revolto da Sicília e o sol se abrindo entre nuvens escuras

O tempo abrindo no litoral da Sicília (1847), de Andreas Achenbach

Note-se, no entanto, que ainda que essa exploração seja o domínio do xamã, do mago, do ocultista, que são as figuras que receberam e desenvolveram as técnicas para isso, todo mundo pode ter esse contato pelo menos uma vez na vida. Os exemplos mais óbvios são os sonhos e aqueles casos de crianças que enxergam espíritos, mas não é só isso. De vez em quando e sobretudo diante de cenas do mais profundo sublime, estamos todos suscetíveis àquela sensação, geralmente extática, de que sonhamos acordados, de que a realidade comum é tudo menos real, e de que há alguma força, vasta, incompreensível e assombrosa, que alimenta e energiza o que está diante dos nossos olhos. Uma breve passagem pela arte e poesia do romantismo, ainda mais no caso de Shelley, Wordsworth e Byron, nos oferece incontáveis exemplos dessa teofania frente ao mundo natural, esse chamado ao mágico e ao numinoso que foi entendido por eles como o poético. Shelley, diante dos picos nevados de Mont Blanc, na Suíça, escreveu os seguintes versos num poema epônimo:

Power dwells apart in its tranquillity,
Remote, serene, and inaccessible:
And this, the naked countenance of earth,
On which I gaze, even these primeval mountains
Teach the adverting mind.

E esse é o tipo de experiência que a vida espiritual cultiva.

Ao cético (ou melhor dizendo, descrente) materialista que, se está me lendo agora, o faz com um risinho, é certo que tudo pode ser explicado por algum fenômeno neurológico e, bem, sequer vale a pena entrar na discussão da incapacidade da neurologia em explicar a consciência. E, OK, eu já estive nessa situação. Aí que eu pessoalmente distinguo os céticos em dois tipos: tem o de boa vontade, que tem curiosidade, apesar de não acreditar em nada do que eu disse e para quem os resultados do que eu descrevi nos textos anteriores (e é certo que eles dão resultado) são efeitos puramente psicológicos — placebo. Nesse caso, porém, partindo de uma perspectiva racional, não existe nenhum motivo para não se usar o “placebo”. E há aqueles que, mesmo quando têm uma experiência que não podem explicar (como assistir a uma incorporação numa gira), se agarram com o mais profundo desespero a explicações materialistas vazias de sentido. Sobre este caso, eu não tenho nada de bom a dizer, apenas que é muito triste e doentia a vida confinada ao materialismo niilista do mundo moderno ocidental e que esse tipo de reação colérica a qualquer coisa que desafie essa cosmovisão os coloca no mesmo balaio que os fundamentalistas religiosos — igualmente desprovidos de espiritualidade — aos quais alegam se opor. Apontar para os limites da ciência materialista não acarreta ter que abrir mão das suas conveniências⁵, nem significa ser terraplanista ou qualquer bobagem dessas, e todos que lidam com humanidades já perceberam que há muita coisa que esse modelo não dá conta e, tudo bem, ele cumpre a sua função sem precisar determinar a nossa ética, estética ou espiritualidade. A oportunidade de ter acesso a mais do que isso está aberto a todos, mas é um trabalho que ninguém pode fazer por você e que começa (e, talvez, culmine) com uma transformação interna.

* * *

[1] Se alguém quiser uma perspectiva acadêmica mais aprofundada sobre essas questões, recomendo a leitura deste texto aqui.

[2] Por isso, a magia, ao contrário das suas representações ficcionais, não substitui a ação no plano físico, tampouco, talvez com raríssimas exceções, pode violar as leis naturais. Se você procura a ajuda de um curador espiritual decente (e não um charlatão), por exemplo, ele vai te explicar que uma coisa complementa a outra — a magia serve para potencializar o tratamento físico — e que não é para parar de tomar o antibiótico ou fazer a quimio para depender exclusivamente do trabalho mágico. Igualmente qualquer ritual de prosperidade exige que o dinheiro tenha um caminho para entrar na sua vida. Fazer um ritual desses e ficar o dia inteiro com a bunda no sofá vendo série não vai dar resultado.

[3] Esse é um tema recorrente da literatura mítica e mística. Na mitologia grega, Sêmele é fulminada ao ver Zeus em sua forma verdadeira, e o mote de que a visão de Deus é poderosa demais para o mortal aparece no Êxodo. Vide também o Talmude e a narrativa do Pardes.

[4] Conta-se que uma vez Plotino, o grande mestre do neoplatonismo, foi alvo de um trabalho maléfico, mas, sendo Plotino extremamente poderoso, o trabalho bateu nele e voltou para o feiticeiro. Isso acontece de fato.

[5] Porém, é preciso reconhecer que, sim, muitas vezes quando as pessoas desenvolvem algum contato superficial com o mágico e o espiritual, sobretudo na forma da espiritualidade New Age, como aconteceu com Steve Jobs, ou o fanatismo obcecado por milagres que assola o neopentecostalismo, como se vê nos programas de tele-evangelismo, elas ficam meio loucas e acreditam que soluções espirituais são sempre superiores às soluções materiais ou ainda sofrem com a húbris de achar que são capazes de fazer milagres. Infelizmente para se partir daí rumo ao movimento antivacina é um pulo. Isso é pura burrice (com uma boa dose de ego e narcisismo) e motivo pelo qual por muito tempo essas coisas eram, bem, ocultas. Em todo caso, eu sou da opinião de que, para quem é um pouco mais inteligente do que isso, ter um acesso mais profundo à espiritualidade e ao misticismo reais fornece os meios para reconhecê-los e não ser enganado por misticismos e pseudomisticismos que tentem se passar por ciência materialista.

(Este texto foi publicado originalmente em meu Medium em 20 de abril de 2020)

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