Introdução à magia: os componentes de um ato mágico

No meu texto anterior, eu ensaiei um princípio de definição do que é magia, pelo menos segundo o meu entendimento e para os propósitos de leitura entre praticantes e curiosos — i.e. sem qualquer pretensão acadêmica. A magia, eu concluí, é a exploração do mundo oculto, invisível, imaterial, que começa com a prática de atos mágicos, demonstrações do poder espiritual do praticante, que são análogas, nesse mundo invisível, às demonstrações de nossa força física aqui no plano material. Agora, gostaria de refletir com vocês: quais são os componentes de um ato mágico? O que é o mínimo necessário para um ritual ser viável?

É certo que cada tradição aborda o assunto à sua maneira: um astrólogo árabe gravando imagens de Vênus numa esmeralda no momento certo para conquistar as bênçãos desse planeta para atividades ligadas à beleza e ao amor; um sacerdote tibetano de Mahakala invocando o deus para destruir o exército inimigo; um xamã na Sibéria entrando em transe para visitar o mundo espiritual, falar com os espíritos e realizar uma cura; uma rootworker do Mississipi rezando sobre os vários itens que irão compor uma mojo bag de proteção; um yogi despertando a kundalini, manifestando siddhis e tendo visões; um cabalista judeu permutando os nomes divinos para chegar à visão da divindade e falar com os anjos; uma bruxa britânica comungando com espíritos da floresta; um umbandista preparando um ebó e oferecendo-o a Exu na encruzilhada para abrir caminhos; um mago alemão de tradição salomônica invocando o nome divino para comandar demônios que prometem riqueza e poder; um feiticeiro grego enterrando uma tabuinha de maldições para ganhar uma corrida de cavalos… Todas essas são práticas muito distintas e de origens variadas que se baseiam em noções diferentes da realidade do mundo oculto. Mas há de existir algo em comum entre todas elas, algo que possibilite reconhecer um ato como um ato mágico.


O Circulo Mágico (1886), de John William Waterhouse

Na verdade, precisamos qualificar nosso conceito aqui. Tecnicamente, qualquer ato pode ser um ato mágico. Mas também tecnicamente é possível um nascer um animal com duas cabeças. Pode acontecer, mas não é porque uma coisa possa acontecer que ela seja viável—e essa é a palavra-chave aqui. O esquema ao qual eu cheguei, ao fim e a cabo, é um esquema com três componentes: uma intenção, um sistema e o poder espiritual do praticante¹.

O primeiro item, a intenção, parece óbvio o bastante, mas não é. Seja conseguir amor ou dinheiro (90% do assunto do corpus de feitiços por aí), novas qualidades psicológicas, cura e limpeza, contato com entidades incorpóreas, informações que não seria possível obter por meios normais, explorar o plano astral ou obter comunhão com o divino e “iluminação” (o que quer que se entenda por isso), é importante ter algum objetivo claro e bem definido em mente antes de pegar a vela, o incenso, a adaga.

Existe ato mágico não intencional? No sentido de acidente, inconscientemente? De certa forma, sim, pois tudo que fazemos tem reflexo no mundo oculto (vide a questão dos tabus, também chamados “magia negativa”, atos que desagradam os espíritos mesmo sem querer). Agora no caso de alguém realmente realizar um ato mágico planejado sem saber o que quer com ele, eu lembro de um exemplo, que o Scott Stenwick cita em seu blog, de um grupo de caoístas (óbvio) que teria supostamente tirado a tarde para visitar diversos pontos de Londres e parar, apontar para o Big Ben e dar risada, sem maiores propósitos. E aí que, dizem, o Big Ben teve uma falha bizarra e meio inexplicável naquele dia. No post do Stenwick ele fica putaço, com razão, com a falta de propósito dessa atividade, que ele relaciona com os tais phenomena junkies, o pessoal que faz coisas só porque quer ver algo paranormal acontecer e geralmente acaba fazendo merda — o típico adolescente de começo de filme de terror, em resumo. Se essa história for real, é interessante que algo tenha acontecido, mas é algo que não beneficia a ninguém, nem mesmo quem fez, e só serve para ajudar quem mexe com magia, mas ainda é descrente, a acreditar que tem alguma coisa aí. Não seja como esse pessoal.

Idealmente ainda, a intenção, qualquer que seja, precisa ser formulada com clareza. Se você for lidar com forças meio estúpidas ou perigosas, como demônios, sigilos e coisas do tipo, isso é importante para evitar pegadinhas — lembrem da história do Rufus Opus e o demônio Bune e como a casa dele pegou fogo. Recomendo, nesses casos, redigir tudo como se fosse um advogado. Mas ao lidar com anjos também… o Jason Miller dá o exemplo de alguém que conjure Tzadikiel, o anjo de Júpiter, e peça para ser rico, ao que o anjo pode responder que essa pessoa já é rica. Afinal, alguém que tenha os meios para fazer uma conjuração dessas já vai estar muito acima da base da pirâmide social se formos pensar nos níveis mundiais de pobreza. Se você quiser conseguir mais dinheiro, primeiro você deve pensar no plano em termos mundanos, e aí ver como as forças invisíveis podem te ajudar nisso. Via de regra, vale o corolário de que “intenções vagas produzem resultados vagos”.

Disso passamos para a questão do sistema. Um sistema — que também poderíamos chamar de tradição ou escola — é um mapa da realidade oculta ou, melhor dizendo, pelo menos de certas partes dela. Se você sabe ao certo onde quer chegar (intenção), o mapa mostra como chegar lá. No segundo parágrafo eu citei exemplos de vários sistemas: cada um deles entende o mundo de um jeito, segundo um conjunto de símbolos, que formam algo como uma linguagem, e a partir disso oferecem as ferramentas, na forma de técnicas de manipulação desses símbolos, para se realizar o que se deseja. A comparação com uma linguagem é porque o mecanismo disso é semelhante ao das línguas, na medida em que ter um nome para as coisas facilita a manipulação da realidade também no plano material — não tem como ensinar uma pessoa a fazer um reparo numa máquina se não tiver nomes para as suas peças. E, tal como as línguas, esses recortes são feitos de maneiras variadas.

Por exemplo, a visão do cosmo de um cabalista, sendo a Cabala uma forma de misticismo judaico, deriva do judaísmo, óbvio. Assim, ele compreende o mundo como sendo governado por um Deus que é, ao mesmo tempo, imanente e transcendente, impessoal, cujo nome máximo é representado por quatro letras do alfabeto hebraico (YHWH, yod, he, vav e he), dotadas de poder intrínseco, e que sustenta a realidade por meio da Torá e de uma miríade de anjos, aos quais se pode recorrer se você estiver puro o suficiente e sua vontade coincidir com a vontade divina. Assim, as técnicas disponíveis a um cabalista são diferentes das de alguém que pratique alguma variedade de bruxaria tradicional, com ênfase em pedras e ervas (e, de quebra, os códigos judaicos consideram ilícita a prática de rituais com materia magica²).

Um sistema místico/mágico/metafísico pode ser vasto e abrangente, como é o caso da Cabala, em suas muitas correntes (luriânica, extática, a Escola de Safed, etc.) e oferecer uma inimaginável amplitude de práticas, inclusive com a possibilidade de inovações, ou pode estar circunscrito às práticas fechadas de um único grimório com propósitos mais limitados, como, por exemplo, o Dragão Negro³. Também é importante lembrar que os sistemas não são estanques e às vezes seus limites são porosos. O mapa não é o território. Há ainda sistemas incompatíveis, e realmente não podemos recomendar que alguém tente misturar dois ou mais deles sem ter um conhecimento profundo e experiência com ambos, mas o fato é que, quando há afinidades entre dois sistemas, como há entre o queijo e o presunto, a tendência é surgirem sistemas mistos⁴, como a Cabala Hermética.

É possível alguém praticar magia sem aderir a nenhum sistema? Em tese, sim. Uma técnica que surja em um dado sistema, como o Ritual Menor do Pentagrama, pode e é muitas vezes utilizado à parte, sem que os praticantes pretendam aderir ao sistema completo da Golden Dawn (aderir superficial e temporariamente a qualquer sistema é, em essência, a graça da Magia do Caos), e um feiticeiro sem maiores compromissos com qualquer tradição pode montar uma prática como uma grande colcha de retalhos ou buffet livre de técnicas variadas — este é o caso de um livro como Pragmatic Magics do Brother Moloch. Mas aí, é claro, devemos apontar para o fato de que as técnicas derivam de sistemas, mesmo que um praticante em específico possa não aderir a nenhum deles a fundo. O quanto esse tipo de magia é viável a longo prazo sem um maior aprofundamento e o quanto é possível continuar assim e avançar sem que se criem conflitos entre as várias técnicas, aí eu não sei dizer. Eu imagino que seja possível derivar certos princípios de técnicas alheias e constituir uma prática a partir disso, no entanto é fato que esses seriam os primeiros passos rumo à construção de um… sistema.

E dá pra ir mais fundo ainda. Alan Chapman, em Advanced Magick for Beginners, dá um exemplo de alguém que decida que esfregar uma banana na testa seja um ritual para mandar o seu chefe embora, o que, como puro nonsense, seria um exemplo de um ato mágico que não deriva das técnicas e simbologia de nenhuma tradição. A sua força de vontade é a única coisa que amarra a intenção e a técnica aqui. Mas Chapman avisa que a qualidade dos resultados aumenta com a coerência dos símbolos usados — ou seja, se você quer bons resultados é melhor aderir a um sistema prévio ou, se você tiver capacidade para isso, conceber o seu próprio. Assim, mesmo o ato absurdo de esfregar uma banana na testa pode ser decomposto numa gramática de símbolos. E alguém que seja muito poderoso (o tema do próximo item), a ponto de conseguir resultados bons unindo um ato e seu resultado por pura força inabalável de vontade pode muito bem cortar a parte do meio e chegar direto aos resultados apenas desejando as coisas com clareza e vontade — sim, no melhor estilo O Segredo — , mas isso não vale para a maioria de nós.

Por fim, a questão do poder espiritual. É isso que propulsiona todo trabalho, é o motor do ato mágico. Você pode querer uma coisa com vontade e clareza (intenção) e ter estudado a fundo uma tradição a ponto de saber quais os procedimentos necessários para concretizar essa coisa, mas sem a força necessária para isso, você vai só se frustrar. Via de regra, quanto mais naturalmente provável um resultado almejado, mais fácil é dar aquele empurrãozinho para tudo acontecer como você deseja, “coincidentemente”, “por sorte”. Quanto mais improvável o objetivo, como ganhar na loteria ou obter coisas dentro de um prazo muito pequeno, mais força bruta é necessário exercer. Fazendo os seus planos direito e de forma inteligente, é possível se virar muito bem sem necessariamente ser a própria reencarnação do Aleister Crowley. E, aliás, por poder, eu não me refiro apenas ao poder pessoal puro: o uso de materiais e ferramentas ou o recurso ao coletivo (magia em grupo sempre é mais forte) também amplificam a sua capacidade de manifestar resultados, junto com o auxílio das entidades, desde deuses, anjos e inteligências até os espíritos menores com os quais você possa ter boas relações.

Algumas pessoas têm um talento natural para magia, mas isto não é um substituto para o desenvolvimento via prática constante, iniciações, etc. Na verdade, é claro, uma coisa complementa a outra, mas, como em todas as outras áreas, é comum ver gente que se encosta no próprio dom (sobretudo quando se é um clarividente nato) e acaba desperdiçando potencial. Entre os místicos, entende-se que o objetivo é o desenvolvimento espiritual, a expansão da consciência e conexão com o divino, logo o desenvolvimento de poder espiritual acaba sendo apenas uma consequência (e uma consequência perigosa, dizem, porque “pode desviar a pessoa do caminho”). Eu acredito, porém, que as duas coisas se retroalimentam, na verdade: ao se desenvolver, você manifesta mais resultados e melhora sua condição de vida, o que significa que você pode usar melhor suas capacidades para ajudar os outros, e assim prosseguir em seu caminho espiritual e se desenvolver mais. Esse é um aspecto de que tanto o mago egoísta, que se concentra apenas em realizar seus desejos, e o místico solitário, que busca a visão divina só para si, acabam se esquecendo.

Logo, fica evidente que o primeiro passo para começar o trabalho mágico é escolher um sistema. Esse é um privilégio de nossos tempos — em qualquer outra época, não seria possível escolher nada, você poderia praticar só aquilo que caísse na sua mão—, mas também é um problema, porque as opções são inúmeras. Aos iniciantes que estão me lendo, é meu propósito com esses textos ajudar nesse processo.

O ideal é que você escolha um sistema que combine com as suas crenças, temperamento e sensibilidades estéticas⁵ e que esteja dentro das suas possibilidades. Se você mora no centro de São Paulo, vai ser complicado trabalhar com espíritos da natureza, por exemplo. Se você não tem paciência para rituais demorados e para recitar longas preces, hinos e fórmulas, a magia cerimonial não vai ser para você. Se você é católico, trabalhar com santos vai ser mais interessante do que com deuses pagãos. Algumas tradições circulam oralmente (tinha uma reza de cura que minha vó fazia que eu nunca achei em livro, nem em site nenhum na internet) ou que exigem que se passe por uma iniciação formal—não é possível só pegar um livro de Candomblé ou budismo Vajrayana e começar a fazer rituais em casa — e é crucial que isso seja respeitado, inclusive para sua proteção. De resto, porém, muita coisa dá para aprender a princípio num misto de livros, cursos e prática. Muita prática.

Infelizmente não tem como eu fazer uma lista abrangente de sistemas para o novato olhar e escolher, mas podemos falar em tipos de sistemas, com base nas premissas que eles partilham entre si. A divisão a que eu cheguei⁶ compreende quatro grandes guarda-chuvas de sistemas esotéricos: a magia evocativa, a natural, a divina e a psicoenergética. Orientando-se por essa divisão, você pode pensar nos tipos de sistemas que te interessam, com base nas técnicas que eles priorizam e no que presumem sobre a realidade, e assim dar os seus primeiros passos. No meu texto seguinte, eu falo sobre isso

[1] Eu defini o ato mágico no outro texto como uma demonstração de poder espiritual, então é no mínimo coerente, né.

[2] Como comenta o rabbi Geoffrey Dennis em sua enciclopédia de assuntos míticos e místicos judaicos, há uma distinção interessante no judaísmo entre o que pode e o que não pode, que aponta para uma separação clara entre “alta” e “baixa” magia. Em hebraico, “magia” diz-se Kishuf, Kesem ou Nachshaya e inclui desde rituais de teurgia (invocação de anjos e uso do poder dos nomes divinos) à criação de amuletos, sendo praticável por qualquer um que tenha “retidão moral” e “domínio sobre as disciplinas judaicas”, logo, não é necessariamente considerada uma prática maligna por si, ainda que bastante controlada. Agora o que um bruxo/a ou feiticeiro(a) (Mechashef/Mechashefah) faz, i.e. “bruxaria”, é derivar o seu poder de fontes consideradas ilícitas, o que inclui a alma dos mortos (necromancia) e simpatias.

[3] O Dragão Negro é, além de um título de álbum de metal em potencial, um grimório medieval de magia demoníaca — o que também é muito metal. Apesar de metade dele consistir em receitas de feitiços que oscilam entre o prático, mas duvidoso, e o absurdamente bizarro, o cerne do grimório é um trabalho de mais de uma semana em que o conjurador evoca os reis demoníacos das quatro direções e depois utiliza sua autoridade para conjurar os demônios menores dos dias da semana, todos os quais realizam as vontades do conjurador e o iniciam, tornando-o, em tese, mais poderoso. Há uma edição em inglês desse livro, de autoria de Michael Cecchetelli, intitulada Crossed Keys (Scarlet Imprint, 2011), que também conta com uma tradução do Enchiridion do Papa Leão III, uma obra de magia de salmos que complementa o Dragão Negro, e comentários da experiência do próprio Cecchetelli.

[4] Zero arrependimentos pelo trocadilho. A forma de ambas as filosofias entenderem o divino e a estrutura do mundo, pela via astrológica, é semelhante, muito possivelmente porque o Hermetismo, o Neoplatonismo, o Gnosticismo e os princípios da Cabala emergem num mesmo espaço alimentado pelas trocas do Oriente Próximo catalisadas a partir do período helenístico.

[5] Damien Echols, o entrevistado do episódio 3 do fantástico Midnight Gospel, seriado novo na Netflix pelo qual eu ando obcecado e sobre o qual devo dizer algumas coisas em breve, fala algo nessas linhas. Ele diz que, como um ocidental, acaba sendo mais vantajoso trabalhar com magia de tradição ocidental do que com as práticas orientais, justamente porque nós já estamos familiarizados com seus símbolos e lógica, que há muito já escaparam dos meios literalmente esotéricos e permeiam o nosso imaginário coletivo

[6] Essa é uma divisão minha, apesar de que é meio que uma resposta ao que se chama de “os quatro modelos de magia” da teoria da Magia do Caos, com a qual eu tenho alguns problemas, mas não pretendo perder tempo discutindo isso. Apesar de alguma semelhança, a minha lógica para divisão é diferente. Os quatro textos do Medium sobre o assunto que eu publiquei vão me servir de base para explorar o assunto mais a fundo num ebook, que eu pretendo publicar em breve.

(Este texto foi publicado originalmente em meu Medium em 27 de abril de 2020.)

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