No penúltimo texto aqui d’O Zigurate, nós falamos sobre o que eu chamo de conexão com o Divino (ou o Sagrado ou o Numinoso, etc). Nele, eu expliquei ao que é que eu estou aludindo quando falo nesses termos, os efeitos dessa conexão e por qual motivo isso é tão importante. Hoje eu quero passar um exercício simples para a gente sair um pouco da teoria e ir para a prática.
Algo que talvez não tenha ficado suficientemente óbvio no texto anterior é que a conexão com o Divino não é um estado binário, não é uma coisa que ou você tem ou não tem, e não é algo que você obtém pontualmente, uma mudança ontológica radical, e que dali em diante vai te acompanhar para sempre. Há um espectro e, embora algumas pessoas possam ter experiências intensas de forma espontânea, esse é um trabalho que precisa ser cultivado – inclusive mesmo uma pessoa com experiência em práticas espirituais pode sentir essa conexão ser interrompida ou enfraquecida em momentos como de crise de fé ou a famosa Noite Escura da Alma, de São João da Cruz. O que é comum é a gente sentir essa conexão muito fortemente durante uma prática específica, como uma meditação intensa ou durante um retiro espiritual, mas depois não conseguir sustentar esse estado de graça no dia a dia. É normal, precisa de bastante prática para chegar nesse nível e o progresso não é linear. Mas, mesmo assim, mesmo que o efeito não dure, eu acho importante que a pessoa tenha a experiência de um momento de contato mais intenso e de clareza mental resultante das práticas de purificação justamente para saber como é a sensação, para saber que é possível.
Há muitas formas de fazer esse cultivo, que vão ser condizentes com as várias formas de conceitualizar o Divino conforme as diversas tradições. O que eu quero oferecer hoje é um exercício simples que qualquer um pode fazer para começar esse processo. Você só vai precisar de 1) uma vela branca1, 2) uma prece (pode ser por escrito; já vou falar sobre isso) e 3) uns 15 minutos sem distrações no seu dia. Ele pode ser feito todo sentado, inclusive.

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Essa prática eu recomendo fazer de manhã, logo depois de acordar. O motivo para isso é que, nesse momento, você ainda não passou por todos os estresses e desgastes do seu cotidiano. Se a gente imaginar a nossa cabeça como uma folha de papel, ao acordar ela ainda vai estar relativamente em branco (embora provavelmente não 100%, porque todo mundo tem aquelas preocupações de base), mas até o fim do dia vai ter tempo para ela acabar toda amassada e coberta de rabiscos e manchas de borracha. E aí fica mais difícil de fazer o exercício.
Então, você vai acordar e se dirigir para o espaço onde a prática será feita. Você vai colocar a sua vela num castiçal, pratinho ou no que for mais cômodo para você, sobre algum móvel que vai servir por ora como um altar improvisado. Idealmente, recomendo se organizar de tal forma que, ao se ver diante da vela, você esteja com seu corpo virado para o leste (use a ferramenta bússola do seu celular para se orientar). Recomendo também tomar um banho antes da prática ou, pelo menos, antes de ter ido dormir. Pode ser um banho normal mesmo, mas um banho de sal fino é melhor (instruções aqui), ou, se você tem alguma familiaridade com banhos de ervas, talvez um banho de ervas simples de limpeza (eu gosto de lavanda, que é suave e não vai ter grandes contra-indicações).
Certo: pois você acordou e tomou seu banho antes ou depois de ir dormir e já colocou a velinha branca normal no lugar. E agora?
O primeiro passo para a prática em si é um breve exercício de respiração (não acenda a vela ainda, calma). Feche os olhos e exale fundo. Aí comece a respirar em quatro tempos: inspira pelo nariz contando até quatro, segura contando até quatro, depois expira, também pelo nariz, contando até quatro, e segura, contando até quatro. Pode usar os dedos para contar, se quiser. Depois repete. Faça esse ciclo umas quatro vezes.
Agora, você lembra de um texto que eu publiquei aqui em 2024 com uma prática de percepção dos corpos sutis? A gente vai fazer isso. Citando o meu próprio texto anterior:
Primeiramente, você vai sentir seu corpo físico, prestando atenção a todas as sensações físicas: o ar entrando e saindo, a sensação da pele contra a roupa, a pressão do corpo sobre a cadeira, a temperatura do ar, cheiros, o gosto na sua boca, sensações de fome, dor, cansaço etc. Mantenha essa concentração por alguns instantes, depois visualize que dentro desse corpo físico há um corpo mais sutil, como se o físico fosse uma luva. Esse corpo mais sutil dentro do físico é o corpo astral. Você pode visualizá-lo como uma cópia do seu corpo físico feita de luz colorida (a cor pode ser a primeira que vier à sua tela mental). Agora você vai prestar atenção aos seus sentimentos, seu “estado de espírito”, por assim dizer. O que você está sentindo nesse momento? Alegria? Ansiedade? Tristeza? Medo? Apreensão? Tranquilidade? Entre em contato com essas sensações e mantenha essa concentração por alguns instantes, depois prossiga, visualizando que dentro desse corpo astral há um corpo de luz ainda mais sutil, que é o mental. Aqui você presta atenção no seu estado mental, óbvio. Como andam seus pensamentos ultimamente? O que tem povoado a sua cabeça? Mantendo essa concentração e essa visualização (corpo mental dentro do astral dentro do físico), passamos para a última parte, o mais sutil, que é o corpo espiritual, ligado a um cordão que dispara pelo céu do topo da sua cabeça. Mantenha essa visualização dos corpos um dentro do outro por alguns instantes e depois pode abrir os olhos.
Você provavelmente vai ter uma sensação meio esquisita ao abrir os olhos. É normal. Então, sinta que é o seu corpo espiritual, dentro do mental, dentro do astral, dentro do físico/etérico, que está movendo a sua mão. E, assim, unificando os seus corpos no que é o básico de um gesto mágico, você acende a vela. Intencione, nesse processo, que a luz que está ali é um reflexo em menor escala da pura luz divina.
Na sequência, vamos passar por três pontos do seu corpo energético, começando pelo coração. Toque o centro do seu peito e visualize uma luz dourada nele. Concentrando-se no seu coração, você vai listar as coisas na sua vida pelas quais você gostaria de agradecer. Eu sei, a vida é difícil, as coisas lá fora estão um inferno e, sim, eu sei também que você já passou por muita coisa. Mas é uma ilusão achar que houve algum momento ideal para nascer nesta Terra e que todo mundo está melhor do que você. Alguma coisa deve ter nesta vida pela qual você é grato/a.
Ter consciência disso e verbalizá-lo é importante, por três motivos, no mínimo. Primeiramente, porque ninguém vem inteiramente sozinho para cá: existem consciências espirituais que zelam por nós. Reconhecer esse auxílio é um gesto simpático e amplia a possibilidade de receber mais ajuda dessas forças no futuro (ninguém gosta de gente ingrata, afinal). Depois, tem o fato de que esse exercício estimula o chakra cardíaco e isso vai possibilitar estimular a coroa – que é o centro energético responsável por tudo isso, como vimos no outro texto. O terceiro motivo é que esse hábito, aos poucos e sutilmente, promove uma transformação interna que é positiva, que remove as asperezas interiores, por assim dizer, o que torna a gente mais condutivo. É, eu sei, o pessoal tilelê dificultou demais para a gente falar em gratidão, mas infelizmente não tem como contornar. Eu também não gosto do fato de que exercício físico faz bem para a saúde. Se essa barreira for incômoda demais, lembre que você está fazendo uma prática solitária. Ninguém está vendo.
Vamos subir do coração para a sua garganta agora. Concentre-se na sua garganta, passando a esfera de luz dourada para esse ponto. Aqui vai entrar a prece.
“Mas, Frater, que prece é essa?”
Essa parte você vai ter que preparar com antecedência e vai envolver um momento de pesquisa e reflexão. Na medida em que as muitas tradições terão, cada uma, uma forma de conceitualizar o Divino, isso é exprimido na forma de preces e orações, que cristalizam os sentimentos envolvidos nessa relação em uma fórmula verbal. E essa fórmula ganha em força 1) conforme os recursos retóricos e literários usados, que conferem um maior peso emocional ao texto e 2) conforme essa prece é repetida ao longo das eras, consolidando a egrégora2. Há muitas possibilidades de preces: você pode trabalhar com salmos, com orações católicas como o “Pai Nosso” (e variações, como o “Pai Nosso da Natureza” usado por alguns umbandistas), a oração de São Francisco de Assis ou o seu Cântico do Irmão Sol, a prece hermética do Poemandro, a Prece Cabalística de Éliphas Lévi, a Grande Invocação de Alice Bailey, o mantra Gayatri3, o Sutra do Coração etc. Nesse primeiro momento, eu só não recomendaria recitar preces a deidades específicas, porque o trabalho com elas é um pouco mais complexo, mas cabem alguns hinos órficos, por exemplo, a forças cósmicas mais amplas, como o hino 3, ao Céu, ou 9, à Natureza. Tem até umas preces wiccanas (sei que as pessoas torcem o nariz, mas paciência…) que me soam simpáticas, como a “Charge of the God”.
Eu acho importante cada pessoa reservar um momento para fazer esse trabalho justamente para despertar a própria consciência. Entendo que é uma experiência comum as pessoas serem levadas para a religião no modo automático pela família, participando das cerimônias, decorando preces e cânticos sem prestarem muita atenção naquilo, sem entenderem direito o que está havendo e o motivo daquilo ser como é. É comum também as pessoas se enfastiarem disso e debandarem para o ateísmo. Se a gente está querendo trabalhar a espiritualidade, temos que fazer as coisas com consciência, por isso vale a pena sentar e ler de perto essas preces, buscar entender os conceitos em que elas estão radicadas e, mais do que isso, sentir, deixar ali essa abertura para que possa haver uma conexão. Também sou da opinião que ninguém precisa se preocupar com questões de pertencimento a uma dada religião. “Quero recitar o Sutra do Coração, sinto que ele me emociona, mas não sou budista”. Pois recite. Não deixe que essas identificações sejam uma prisão. No mais, reitero: esse é um trabalho particular, ninguém está olhando.
Voltando para o ritual. Com a prece em mãos, você vai recitá-la agora. Pode ser em voz alta ou pode ser baixinho, mas acho bom que corpo esteja envolvido de alguma forma e a prece não seja lida apenas mentalmente. Se quiser ler mais de uma vez ou se quiser usar mais de uma prece, você pode também.
Por fim, subimos de novo, desta vez para o topo da sua cabeça. Concentre a luz dourada visualizada ali, na sua coroa, e a imagine se expandindo por um momento. Mantendo sua consciência ali, repita a respiração em quatro tempos.

Por fim, reserve uns minutos para a meditação em silêncio. Feche os olhos e volte com a respiração ritmada. É recomendável sentar, para não arriscar cair no chão. Você pode marcar o tempo no relógio (5 minutos já está bom para começar) ou apenas ficar ali curtindo durante o tempo que sentir que deve. Se você nunca meditou, o nosso querido Rudá tem um texto sobre meditação na newsletter dele que representa uma excelente introdução ao assunto.
Quando terminar, abra os olhos, volte e preste atenção a como você está, os seus sentimentos, sensações físicas e mentais. Então agradeça brevemente e faça um exercício de aterramento, visualizando raízes que partem dos seus pés e entram alguns metros dentro da terra por uns segundos. Para acabar, pode apagar a vela e seguir com o seu dia.
Se você tem o hábito de escrever num diário mágico, vale anotar nele as suas sensações. Aviso desde já que não é para esperar pirotecnia. Acho muito improvável que Deus em pessoa desça num redemoinho para falar com você ou algo assim – não é esse também o objetivo desse exercício, que é simples, fácil e de baixa intensidade. Mas há certas sensações, no geral agradáveis, que costumam acompanhar esse trabalho. Vale a pena também voltar para elas ao longo do dia, lembrando-se desse momento de conexão.
Repassando tudo resumidamente, portanto:
Antes de começar, ter a vela branca e a prece escolhida impressa ou copiada num papel (a pesquisa da prece é parte do seu dever de casa). Escolher o horário mais recomendável para a prática (de manhã, ao acordar, tendo se banhado4 antes ou depois de ir dormir).
- Exercício de respiração em quatro tempos, durante quatro ciclos.
- Exercício de percepção dos corpos sutis.
- Acender a vela.
- Concentrar-se no coração: exercício de gratidão.
- Concentrar-se na garganta: recitar a prece.
- Concentrar-se na coroa: repetir a respiração em quatro tempos.
- Meditar em silêncio.
- Agradecer, aterrar, apagar a vela.
E é isso! É um exercício extremamente simples, mas é um começo e eu prometo que vai ter um efeito sobre o seu chakra da coroa se você o fizer rotineiramente5, com consciência. Não tem contraindicações.
Se quiser algo mais forte, aí é o caso de procurar as práticas que as tradições oferecem – eu mesmo logo mais vou postar n’O Zigurate um roteiro de práticas ancoradas no hermetismo, por exemplo. E a gente aqui d’O Zigurate sempre vai recomendar a Meditação dos Corações Gêmeos, que é uma prática espiritual completa que quase qualquer pessoa pode praticar e vai fazer tudo que esse exercício faz, elevado à enésima potência, junto com muitas outras coisas. Não é todo mundo que precisa dedicar a própria vida à espiritualidade com afinco, mas mesmo que esse não seja o seu propósito nesta vida, tudo que você fizer nesse sentido conta.
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- “Frater, não posso acender vela. Pode fazer sem?” Aí eu não recomendo, porque se eu estou indicando o uso da vela, é porque ela tem uma função. ↩︎
- Sobre o que é uma egrégora, conferir o meu texto de seres espirituais. ↩︎
- Dá para trabalhar com outros mantras também, mas eu recomendo, se você quiser seguir por esse caminho, que estude as interpretações dos mantras, porque, nessa parte do exercício, eu acho importante ter essa conexão com a parte do significado. ↩︎
- Importante frisar que, caso você opte por tomar o banho de sal ou de ervas antes de fazer essa prática, você não precisa repetir esse banho todos os dias se quiser fazer a prática diariamente – pode fazer só com um banho normal mesmo. Eu recomendo que tome esse banho mais forte antes da primeira vez e depois o repita uma vez por semana ou toda vez que sentir que está “carregado”. ↩︎
- Idealmente, o legal é fazer todos os dias, mas sei que a vida é corrida e fica difícil. Três vezes na semana já ajuda. ↩︎
