Uma brevíssima visão geral do panteão mesopotâmico

O chamado (neo)paganismo é um tema que tem estado bastante em voga ao longo das últimas décadas de práticas ocultas no Ocidente. Isso é um fenômeno recente — nenhum ocultista renascentista como Agrippa ou mesmo o pessoal posterior, da Golden Dawn, em sua mimaioria, apesar de sua estética egípcia, gostaria de se identificar como pagão ou neopagão — e eu chutaria que isso tem a ver com o enfraquecimento do cristianismo desde o século XIX e as buscas por novas formas de espiritualidade que estouraram desde então como reação ao processo de desencantamento do mundo. Os nomes de Crowley e Gardner, fundadores da Thelema e da Wicca, também não podem ser ignorados em suas contribuições para esse fenômeno, e o mesmo deve ser dito da força do movimento New Age na década de 1960, que voltou a atenção do Ocidente (por mais que de formas por vezes muito ingênuas e superficiais) a práticas espirituais que não as historicamente dominantes por aqui.

Os panteões antigos mais comuns para serem revisitados são o grego e o romano, o egípcio (kemetismo), o nórdico (Ásatrú), por vezes o céltico (druidismo), apesar de, nesse caso, faltar material para uma reconstrução mais precisa. Esse tipo de devoção tem muitas formas, desde uma vela singelinha acesa a um deus com o qual você simpatiza, até todo o trabalho de reconstrução que tem sido feito, por exemplo, entre o pessoal do neopaganismo helênico.

Se definirmos o conceito de “pagão” em oposição às religiões abraâmicas (um construto que eu sei que é problemático, mas é como historicamente o termo paganismo é entendido), também poderíamos incluir os deuses do Oriente e os Orixás de religiões africanas nesse balaio das divindades mais cultuadas hoje, mas talvez seja difícil aplicar o rótulo de forma adequada — a umbanda, por exemplo, que tem a influência do catolicismo e do espiritismo, inclui Jesus em suas devoções, além do sincretismo entre santos e Orixás, e as teologias hindu e tibetana são complexas na maneira como entendem a realidade e identidade dos seus deuses, bem como a questão da divindade de Cristo. Além do mais, é importante pontuar que essas religiões, diferente das outras mencionadas acima, são tradições vivas, com autoridades a serem consultadas no caso de você querer estabelecer uma relação de devoção com Xangô ou com Ganesha.


Um monumento de Nínive, na Assíria, hoje no British Museum, representando uma figura divina, armada com raios, cuja representação lembra os vajra do deus Indra, contra um monstro primordial. Alguns identificam as duas figuras como Marduk e Tiamat, como Ninurta e o Anzu, ou como Adad e um outro monstro caótico.

Por algum motivo, no entanto, a religião mesopotâmica tem recebido bem menos atenção, comparativamente. Com o grego é óbvio que não tem como competir (a mescla da mitologia grega e bíblica são a base do imaginário literário ocidental, afinal), e a egiptomania do século XIX foi e é um fenômeno poderoso. No entanto, quando comparamos a riqueza de material que temos da antiga Mesopotâmia, o que inclui hinos e fórmulas mágicas no original, com, por exemplo, o pouco que sobreviveu da cultura Viking, é intrigante que esse panteão seja tão pouco explorado¹.

O que podemos encontrar mais fácil nessa área no rolê esotérico é: 1) ou o material do Michael Ford, o Maskim Hul ou Sebitti: Mesopotamian Magick, que tem, no geral, uma perspectiva satanista/luciferiana pró-Tiamat e antidevocional que até pode ser interessante, mas vai contra toda a espiritualidade dos antigos; 2) o infame Simon’s Necronomicon, uma farsa de um grimório forjado que mistura Lovecraft com mitologia babilônica²; ou 3) o material de um tal Joshua Free, cuja página na Amazon não me inspira a menor confiança, total chapéu de alumínio. Nenhum desses autores eu posso recomendar de forma alguma nesse sentido. Talvez aconteça que a maior parte do material mais legítimo tenha ficado confinada na academia e a discussão online tenha sido afogada pelo excesso de barulho gerado pelos fãs de Zechariah Sitchin e sua hipótese alucinada de que esses deuses eram alienígenas (que é engraçada, mas logo se torna irritante quando você é incapaz de fazer uma simples busca no Google sem esbarrar nessa teoria conspiratória). Apenas recentemente eu tenho visto ocultistas como Michael Cecchetelli (autor de um livretinho minúsculo chamado Mardukite Magick, que eu posso recomendar, com algumas pequenas ressalvas³) e Damien Echols, que assumiu o deus Enlil como sua divindade de devoção, demonstrarem interesse sobre o tema. Por isso, neste texto eu pretendo repassar algumas coisas sobre os deuses, mitos e religião da antiga Mesopotâmia para quem tem curiosidade e talvez queira também trabalhar com isso espiritualmente, mas não sabe por onde começar.

Os deuses


Estátuas sumérias. Os olhos enormes representam a devoção dos adoradores diante dos deuses. Ou significa que aquele quartinho de ácido bateu.

A princípio, um pouco de história. Não posso me aprofundar muito nisso, senão o texto vai ficar inviavelmente longo, mas não tem como evitar. A Mesopotâmia, a terra entre os dois rios, Tigre e Eufrates, é considerada o berço da civilização, porque é lá que os primeiros centros urbanos, como a cidade suméria de Eridu (5500 a.C.), teriam sido fundados. Os principais nomes, ao falarmos de Mesopotâmia, são a Suméria, a Babilônia e a Assíria. A Suméria, o nome não de uma cidade ou império, mas uma região geográfica, fica mais ao sul, na fronteira com Elam (Pérsia), pegando o Golfo Pérsico, onde encontramos, além de Eridu, cidades como Ur, Uruk, Nippur, Lagash, entre outras. Os sumérios se denominavam “povo da cabeça negra”, mas até hoje não sabemos bem como eles eram, nem com qual etnia tinham proximidade. Sua arte pictórica é muito estilizada, com aquelas estátuas com olhos imensos, sua língua é considerada uma “língua isolada” (i.e. não tem nenhum parentesco conhecido) e eles se misturaram com os povos semíticos de tal modo que desapareceram. A Babilônia, uma cidade fundada em 2300 a.C. por amorreus (um povo semítico do Levante, mencionado várias vezes na Bíblia) e que depois floresce e se torna um império sob Hammurabi, fica um pouco mais ao norte. E, mais ao norte ainda, puxando um pouco para o oeste, fica a Assíria, cujas cidades mais famosas são Ashur e Nínive, que se torna um império poderoso a partir do século 10 a.C. Tanto os assírios quanto os babilônios falavam o acadiano, uma língua semítica que deriva seu nome de Acade (uma cidade e depois império próxima a Suméria, que floresceu sob o governo de Sharru-kin, ou Sargão, e desapareceu depois) e se tornou um tipo de língua franca na idade de bronze.

Uma das grandes invenções mesopotâmicas foi a escrita cuneiforme, utilizando tabuletas de argila, que surge a princípio entre os sumérios, mais ou menos em 3500 a.C., mas depois é refinada e adaptada pelos babilônios. Junto com ela, também foi concebido o misticismo da escrita, na medida em que a lógica de se registrar sons e ideias com símbolos gravados possibilita pensar o próprio mundo como uma tabuleta de argila a ser interpretada e decifrada, como diz Jean Bottéro em Mesopotamia: Writing, Reasoning, and the Gods. Por esse princípio, as estrelas logo se tornam a escrita dos deuses, o documento que detalha seus decretos — e esse é o fundamento da astrologia mesopotâmica, que, por sua vez, inspira depois a astrologia grega como a conhecemos hoje.

Quanto à religião, tudo começa com deuses locais. Cada cidade-estado tinha um deus próprio, e o templo ou, melhor dizendo, todo o complexo dos templos, que era um centro cultural, religioso e administrativo, servia de casa ao deus (bitum em acadiano, e em sumério). Esse complexo muitas vezes incluía o famoso zigurate, essa estrutura elevada piramidal com o topo chato, que servia como uma montanha artificial, aproximando o céu e a terra. Deuses de locais diferentes por vezes foram sendo identificados como um mesmo deus — um processo que acredita-se que tenha ocorrido com uma deusa como Inana — e esse contato aos poucos foi constituindo um panteão, com os muitos deuses da região organizados conforme uma estrutura familiar. Os sumérios reconheciam milhares de deuses, mas há um número bastante reduzido de nomes principais, que veremos agora.


Um kudurru: pedras utilizadas para delimitar terrenos contendo o contrato, assinado sob a vista dos deuses, com pragas para quem violar o contrato. Elas eram usadas na Babilônia durante o período cassita. Note os símbolos de Ishtar, Sîn e Shamash acima (esquerda para direita), depois Enlil, Anu e Ea abaixo e, mais abaixo, Nergal, talvez Adad e Ishara, cujo símbolo era o escorpião.

Para começarmos cronologicamente do começo: a grande trindade dos sumérios era formada pelos deuses An, Anum ou Anu, o deus do céu, Enki, o deus da sabedoria, da magia, das águas e criador da humanidade, e Enlil, um deus atmosférico que é o chefe do panteão. Cada um deles regia uma das três faixas da eclíptica e seus nomes são descritivos de suas atribuições: An literalmente significa “céu”, Enki é “Senhor (en) da Terra (ki)” e Enlil é por vezes entendido como “Senhor do Ar” ou “Senhor dos Espíritos”, a palavra lil tendo esse sentido ambíguo em sumério. An, cujo símbolo é uma coroa, é um tipo de deus otiosus, um pai celestial considerado acima de todos os deuses, mas que não toma muitas decisões quanto ao estado do mundo, que é o trabalho que cabe a Enlil. O culto de Enlil tem origem na cidade-estado de Nippur, seu símbolo por vezes eram sete círculos dispostos em duas linhas, representando os 7 planetas ou as estrelas das Plêiades ou ainda o mesmo símbolo que An, a coroa. Sua esposa era Ninlil, mas rola uma confusão — talvez antes ela fosse Ninhursaĝ, identificada com Nintur, que, por sua vez, é a esposa de Enki, mas também às vezes chamada Ninki. É, é uma bagunça. Quanto a Enki, ele tinha muitos símbolos: uma cabeça de carneiro, o capricórnio, uma tartaruga, um vaso transbordando com água. Se Enlil era representado de forma meio sisuda, um pai poderoso e temível, Enki já era mais simpático (nós humanos fomos sua criação, afinal), por vezes assumindo um papel de trickster na mitologia.

Na versão suméria da história do dilúvio, Enlil decide destruir o mundo porque os humanos haviam se multiplicado demais e suas cidades imensas estavam atrapalhando seu sono. No entanto, Enki, que não é tão poderoso quanto Enlil nesse sentido, mas é mais sábio e ardiloso, o engana e frustra seus planos ao revelá-los a Ziusudra (também conhecido como Atrahasys ou Utnapishtim, antecessor de Noé), que constrói a arca, salvando a humanidade. Essa história consta em tabuletas avulsas em sumério, mas depois é incorporada na segunda versão do Épico de Gilgamesh, em babilônico, num flashback, relatada pelo próprio Utnapishtim ao protagonista, que o procura em busca da imortalidade.

Depois temos o trio dos grandes deuses dos corpos celestes: Nanna, o deus da Lua, senhor dos ciclos e pai de Utu, o deus do Sol e, por consequência, da justiça, e Inana, deusa de diversas coisas, mas sobretudo amor, sexo e guerra, considerada a Rainha dos Céus. Cada uma dessas divindades tinha um símbolo característico, que adorna muitas esculturas e relevos antigos: Nanna era representado pelo chifre da crescente lunar, Utu pelo disco solar (uma estrela de quatro pontas emanando quatro raios) e Inana pela estrela de oito pontas. A temida deusa Ereshkigal (“Senhora da Grande Terra”, i.e. o mundo dos mortos) é irmã de Inana e rege o submundo, não por acaso mais tarde é sincretizada com Hécate e Perséfone em textos mágicos helenísticos.

Outros nomes dignos de menção incluem: Ninhursaĝ, uma deusa da fertilidade que equivale mais ou menos à nossa noção de Mãe Terra, cujo símbolo é um ventre numa forma que lembra a letra grega ômega; Ninurta, deus guerreiro agrícola e herói civilizatório, cujos mitos contam suas vitórias sobre monstros primordiais; Dumuzid, um deus pastor e da vegetação do tipo que morre e renasce, marido de Inana; Gula, também chamada Ninkarrak, a deusa da saúde e da cura; Ishkur, o deus da tempestade; Ningishzida, um deus do submundo, cujo símbolo era a serpente; Damu, outro deus do submundo e da vegetação, sincretizado com Dumuzid; Nanshe, deusa da fertilidade, pescaria e justiça social; Nisaba, deusa agrícola e deusa da escrita; Ninkasi, a deusa da cerveja, grande invenção suméria; Pabilsaĝ, deus caçador ligado à constelação de Sagitário; e Nergal, o deus da guerra e da pestilência, sincretizado com um outro deus belicoso chamado Erra.


Relevo parta do século I, representando Nergal, em Hatra, no Iraque, possivelmente com sua esposa Ereshkigal. É difícil ignorar a presença do cão de três cabeças também. Será que houve um sincretismo grego e ele adota Cérbero também?

Os deuses mesopotâmicos geralmente são divididos em duas categorias, os Anuna (ou Anunaki) e os Igigi. Em alguns textos, os Anuna são os juízes do submundo, sempre sete em número, e os Igigi são deuses menores que fazem trabalho braçal para eles, porém se rebelam, o que leva à criação da humanidade. Em períodos posteriores, essa separação meramente distingue os deuses ctônicos (Anuna) dos celestiais (Igigi). Inana, por exemplo, num hino é descrita como “proeminente entre os Igigi”, já Nergal é “proeminente entre os Anuna”.

Há outros nomes que têm um papel importante na mitologia, mas que, até onde eu sei, não recebiam culto: Abzu ou Apsu era um ser primordial, representando um aquífero de Eridu, vencido por Enki, que faz desse local seu lar; Nammu era uma deusa também dos mares primordiais (identificada posteriormente com Tiamat), mãe de An e sua irmã, Ki (terra), com quem ele gera o mundo, às vezes identificada com Ninhursaĝ ou outras deusas; e uma infinidade de outros seres primordiais como Lahmu e Lahamu, Anshar e Kishar, Mummu, etc, que não vale a pena comentar melhor agora, porque seria cansativo demais. Por ora, basta dizer que a cosmologia mesopotâmica concebia um universo ordenado, criado pelos deuses a partir de um caos primordial constituído por monstros cósmicos que são vencidos numa grande batalha. Essa concepção ainda se encontra, vestigialmente, em alguns livros bíblicos, apesar da mudança que os sacerdotes israelitas operaram sobre a narrativa da Criação.

Os povos semitas amorreus, acadianos e babilônios, por sua vez, vieram já com um panteão próprio, que incluía alguns deuses conhecidos do panteão do Levante, como Dagan, deus dos grãos, Adad, deus da tempestade, sincretizado com o deus sumério menor Ishkur, e a dupla Shalim e Shahar, os deuses, respectivamente, do crepúsculo e do amanhecer, cujo culto, no entanto, se perde no meio do caminho. Muitos desses deuses encontram equivalentes na religião suméria e ocorre uma fusão, com apenas a alteração de nome: Enki passa a ser conhecido em acadiano pelo nome Ea; Nanna por Suen ou Sîn; Utu por Shamash⁴; Inana por Ishtar. Marduk, um deus atmosférico já conhecido entre os sumérios, mas a princípio uma divindade menor, patrono da Babilônia, também ganha mais espaço conforme a Babilônia cresce politicamente, e se torna o chefe do panteão, desbancando Enlil e absorvendo suas características.

Toda a cosmogonia confusa da religião e mitologia suméria vai então sendo mais ou menos passada a limpo no épico Enuma Elish, redigido entre 1700 e 1300 a.C. É nesse poema que vemos, por exemplo, a noção da criação do mundo quando a deusa primordial Tiamat, ligada aos oceanos, mãe de muitos monstros, é vencida por Marduk, que utiliza seu corpo como matéria-prima para a criação. Nessa ocasião, Marduk recebe 50 nomes — um conceito que, talvez não por acaso, nos remete aos 72 nomes do Deus judaico no Shemhameforash — , alguns dos quais, como Asalluhi e Enbilulu, eram nomes de deuses menores cujo culto acabou absorvido também.

Outras inovações babilônicas foram o casamento de Nergal com Ereshkigal, formando um lindo casal ctônico, e a importação do deus assírio Nabû, entendido como filho e herdeiro de Marduk, que acaba casado com Nisaba, ambos sendo deuses escribas (Nabû às vezes ainda é sincretizado com Ninurta). Ishara, deusa síria do amor, cujo culto é atestado pela primeira vez em Ebla, é outra divindade importada. Nesse processo também emerge uma compreensão de que haveria sete deuses principais, associados aos sete planetas clássicos: Sîn=Lua; Nabû=Mercúrio; Ishtar=Vênus; Shamash=Sol; Nergal=Marte; Marduk=Júpiter; Ninurta (ou às vezes Adad)=Saturno. Essa noção se torna bastante popular ao longo do mundo mesopotâmico e parece ter influenciado as práticas de magia astrológica posteriores. Já nesse período emerge a associação de cada planeta a uma cor para usos mágico-religiosos, por exemplo, apesar de essa associação não ser exatamente a usada na magia ocidental atual⁵.

Esse culto planetário foi, mais tarde, somando ainda elementos herméticos em lugares como a cidade de Harran (hoje território turco). Há uma história divertidíssima em que o seu povo, já na era islâmica, enganou o califado ao se apresentarem como “sabeus”. O Corão identifica certos povos como “Povos do Livro” (Ahl al-Kitab), referindo-se a religiões monoteístas como o judaísmo, cristianismo e zoroastrismo, que são as religiões permitidas, não consideradas idólatras ou infiéis. O texto também alude a um povo chamado “sabeus”, sobre o qual sabe-se muito pouco. Harran, que praticava essa variedade hermética de culto astral, ao se identificar como uma cidade de “sabeus” conseguiu se safar do extermínio da caça aos pagãos, prolongando seu culto ancestral até um período bastante tardio do medievo.

Os mitos

No tocante aos mitos, temos vários que são dignos de nota. Um favorito é “A Descida de Inana ao Submundo”, registrado originalmente em forma de poema em sumério. Nele, Inana decide descer aos infernos, domínio de sua irmã, por motivos desconhecidos — especula-se que seja, inclusive, para ampliar seu poder. Como ela sabe que isso é perigoso, ela encarrega sua cortesã Ninshubur de cuidar de algumas coisas, caso ela não volte. Ela se veste com sete itens de roupa e acessórios, mas, a cada um dos portões infernais, ela é obrigada a se despir de um deles, chegando nua lá embaixo. Então, ao se sentar no trono de Ereshkigal, os sete Anuna passam julgamento e ela morre. Ninshubur, percebendo que deu ruim, procura os outros deuses, Enlil, Nanna e Enki, mas apenas Enki a ajuda. Ele cria dois seres a partir da terra debaixo de suas unhas, Kur-gara e Gala-tura, que levam a água da vida e a erva da vida a Inana. Esses dois seres também parece que ajudam Ereshkigal, que está com dores de parto ou algo assim. Ressuscitada, Inana volta ao mundo dos vivos, mas sob uma condição: ninguém que entre no mundo dos mortos pode sair sem que outra pessoa tome seu lugar e, ao sair, Inana, escoltada pelos demônios galla, precisa escolher alguém para substituí-la. Todas as pessoas que eles procuram, porém, estão de luto por sua senhora… exceto seu marido, Dumuzid. Dumuzid está lá felizão no trono. Enfurecida, ela manda um “vai ele”, e os demônios o capturam. Há muitos outros poemas, inclusive, sobre essa cena, que parece ter um lugar especial no imaginário sumério.


Imagem de Inana a partir de um selo cilíndrico sumério, representando a deusa com um leão, seu animal. Esses selos eram usados para imprimir imagens e texto na argila, como um carimbo.

Porém, Inana se arrepende — a irmã de Dumuzid, Gestinana, deusa do vinho, fica triste por sua morte, e ela dá um jeito de ir resolver isso. Parece que uma mosca a ajuda ou coisa assim. Infelizmente o final do texto está muito truncado, mas o acordo final é que ele passa a ficar metade do ano no submundo e sua irmã a outra metade. A morte e ressurreição de Dumuzid era tradicionalmente celebrada no quarto mês do calendário babilônico, Dumuzu, ligado ao período do Sol em Câncer, equivalente ao mês de Tammuz do calendário judaico (é o mês em que estamos agora, aliás). Há quem diga que Inana tenha influenciado a assimilação do culto de Afrodite — motivo pelo qual ela era chamada de “cípria”, vindo da Ilha de Chipre, próxima ao Levante, que foi conquistada pelo império acadiano sob o rei Sargão. A filha de Sargão, a poeta e sacerdotisa Enheduanna, literalmente a primeira mulher a deixar o registro de seu nome e escritos na história, era devota de Nanna e Inana. É possível que os mitos de Inana e Dumuzid tenham influenciado, inclusive, o mito grego de Vênus e Adônis, este sendo um nome claramente semítico.

“A Descida de Inana”, como dito, foi registrada originalmente num longo poema sumério do período paleobabilônico, de mais de 400 versos, depois é reescrito, num poema menor em acadiano, no período neo-assírio (século 7 a.C.). Além da diferença de tamanho, esta versão é notável porque enfatiza o papel cósmico de Ishtar como uma deusa, não bem de fertilidade necessariamente, mas do desejo sexual: quando ela desce, “o touro deixa de montar a vaca” e os homens e mulheres dormem sozinhos. Este texto foi traduzido para o português recentemente pelo ilustre professor da UFMG, Dr. Jacyntho Lins Brandão. Ele também traduziu o Épico de Gilgamesh, a obra literária mais famosa da Mesopotâmia, que conta a história do rei Gilgamesh e seu amigo Enkidu.


Relevo com um herói mesopotâmico demonstrando um motivo artístico conhecido como “Mestre dos Animais”. Alguns o identificam com Gilgamesh.

Gilgamesh era um semideus e um rei terrível, mas os deuses enviam um homem selvagem, meio bestial, chamado Enkidu, para fazê-lo mudar. A princípio rivais, eles lutam, mas se tornam melhores amigos, como é o lugar-comum mais clássico de qualquer mídia de história de lutinha. Então embarcam em altas aventuras, matando monstros como o selvagem Humbaba, da Floresta de Cedros, e Gugalana, o Touro do Céu, até que, por uma ofensa a Inana, Enkidu acaba morto, e Gilgamesh é devastado pelo luto. Na sequência, ele embarca numa jornada em busca da erva da imortalidade, que o leva a terras muito distantes, onde habita o sábio Utnapishtim, porém — atenção ao spoiler de quatro mil anos — uma serpente rouba a erva dele, enquanto ele se banha, e a come. Serpentes, como se sabe, são símbolos antigos de imortalidade e renovação, porque trocam de pele. A elas e aos deuses cabe a renovação eterna, portanto — não a nós.

Essas histórias circulavam oralmente e em tabuletas de argila em sumério, mas depois tudo foi organizado e reelaborado em acadiano, com uma primeira versão que não tem a parte da busca da imortalidade (em vez disso, ela acaba com a lição mais mundana, dada por uma taverneira, de “come, bebe e sê feliz, porque é isso que cabe ao ser humano”), e uma segunda versão final, como a conhecemos, compilada pelo sacerdote e escriba Sîn-leqi-uninni. O pesquisador finlandês Simo Parpola, que tem a teoria, bastante heterodoxa, de que a Árvore da Vida cabalística foi derivada de uma tradição esotérica mesopotâmica, faz uma leitura mística do épico, entendendo-o como alegórico do processo de Iluminação — uma leitura que, mesmo que possa não ter necessariamente respaldo histórico, é bastante relevante para quem procura esse material por motivos espirituais.

Outro mito importante, nesse sentido, sobre a mortalidade do ser humano é a história do sábio Adapa. Dotado de grande poder sobre a magia, Adapa um belo dia quebra as asas do vento sul, que o atrapalha enquanto ele pesca. O deus Anu o chama então para se justificar, num banquete celestial. Enki o instrui, no entanto, para que não coma nada lá, pois Anu vai lhe oferecer é a comida e bebida da morte. Após subir aos céus, passando pelos dois guardiões, os deuses mortos Ningishzida e Damu, Adapa faz como lhe foi dito, mas descobre que foi ludibriado: Anu realmente lhe oferece a comida e a água da vida e, ao negá-las, toda a humanidade como consequência passa a estar sujeita à morte. Se foi Anu ou Enki quem enganou Adapa, essa é a questão que fica pendente.

Outros mitos dignos de nota são os mitos do deus Ninurta. Eu descrevi acima Ninurta como um herói civilizador, pois esse é o seu papel: ele cava diques e instaura a agricultura, mas também persegue monstros primordiais que atrapalham a vida da humanidade, com sua fiel arma, a maça inteligente Sharur. Um desses monstros é o Asag ou Asakku, um demônio monstruoso cuja mera presença faz os peixes ferverem vivos nos rios, vencido no poema “As vitórias de Ninurta”. Ele tem a seu comando um exército de monstros de pedra… ou, melhor dizendo, são os espíritos das próprias pedras, na verdade. Ao matá-lo, Ninurta proclama os destinos desses exércitos: às pedras que se resguardaram do combate, um bom destino é decretado, como é o caso da lápis-lazúli, da cornalina e outras pedras preciosas, destinadas a fazerem joias e talismãs. A pederneira, por outro lado, ergueu armas contra Ninurta e assim ganhou sua função: ser desgastada e servir para afiar lâminas. Em outro poema, agora babilônico, o Épico de Anzû (mais sobre o poema aqui), um pássaro gigante chamado Zu ou Anzû rouba a Tabuleta dos Destinos, o artefato que permite a Enlil ter poder sobre o universo. Ninurta o persegue, mas não consegue feri-lo: ao atirar suas flechas, o monstro se vale do poder da Tabuleta para revertê-las, transformando sua madeira de volta em árvores. Com o conselho de Ea, porém, Ninurta corta suas penas e, ciente de que o Anzu vai utilizar sua magia para fazê-las voltarem ao seu corpo, aplica as penas em suas setas, que então perfuram o coração do monstro. Ninurta assim o vence e restaura a ordem ao universo. Há uma alusão a esse mito em outro, “Ninurta e a Tartaruga”, que se passa logo após a derrota do monstro e conta que Ninurta se recusa a devolver a Tabuleta. Enki então manda uma tartaruga gigante morder seu pé e prendê-lo num fosso para botá-lo em seu lugar (infelizmente não sabemos como a história acaba, pois os manuscritos estão danificados).

A Tabuleta dos Destinos pode ser considerada um tipo de me. Essa palavra é um conceito importante da mitologia e religião suméria e é um pouco difícil de traduzir. Uma possível tradução é como “funções cósmicas” ou “poderes divinos”, descrevendo comportamentos, tecnologias, instituições e práticas ligadas à civilização. A governança, por exemplo, representada pela coroa, é um me (que é representada como descendo dos céus em Eridu, na Lista Suméria de Reis), bem como a música também, o poder, a paz, a arte da metalurgia, mas também o medo, a destruição das cidades e por aí vai. E o mais interessante é que os me são, nos mitos, objetos físicos, apesar de sua forma nunca ser descrita (há quem diga que seriam tabuletas), que podem ser armazenados e transferidos. Como explica este glossário, o equivalente em acadiano de me era parṣū, literalmente ritos, “o que sugere que os deuses derivavam seu poder dos rituais”.


O deus Enki a partir de um selo cilíndrico. Note as águas transbordando, um de seus símbolos.

No poema sumério “Enki e a Ordem do Mundo”, Enlil encarrega Enki de distribuir os me. Acontece que Inana, uma deusa que, como Karel van der Toorn explica, tem suas atribuições ligadas mais à vida urbana e menos ao funcionamento da natureza, sente que lhe passaram a perna na hora dessa distribuição e decide tomar uma atitude: ela visita Enki em seu lar no Apsu, em Eridu, onde ele prepara um grande festim e se embebeda. Aproveitando-se da embriaguez do deus, então, ela rouba vários me e foge de volta para sua cidade, Uruk. E temos mais um mito que diz respeito a seu papel no cosmos (claramente uma questão importante para os antigos) que é o mito de Inana e a árvore huluppu, de que já falei no texto sobre Lilith. Como muitos termos sumérios e acadianos, especialmente no vocabulário ligado à flora e fauna, não sabemos bem o que era huluppu, mas há quem creia que fosse o álamo. Pois, nesse mito uma tempestade arranca essa árvore, e Inana a colhe e a planta em seu jardim. Porém, a árvore logo fica infestada de pragas: uma serpente, resistente à magia, se enrosca em suas raízes; um demônio lilitu, ou melhor kisigil-lila, se aninha no tronco; um Anzu pousa nos galhos. Incapaz de se livrar deles, ela recorre ao deus do sol, Utu, que se recusa, mas o herói Gilgamesh mata os monstros, corta a árvore e entrega a madeira do tronco para Inana, com a qual ela constrói seu leito matrimonial.

Para a estudiosa Johanna Stuckey, trata-se de uma narrativa cuja função era rebaixar a deusa: conforme avança o domínio do patriarcado (não que qualquer scholar sério acredite na história de uma era de ouro matriarcal pré-histórica, mas é fato que, apesar de a situação das mulheres na Mesopotâmia ser melhor do que era na Grécia, por exemplo, ela tende a piorar ao longo dos séculos), as grandes deusas vão perdendo seu espaço para as divindades masculinas. Assim, para Stuckey, este mito tem um papel nisso. Mas tem mais: a presença da árvore remete ao tema da Árvore da Vida ou da Árvore Cósmica e suas três divisões onde se alojam as diferentes pragas remetem à divisão tripartida, típica do mundo xamânico, com um mundo superior celestial, um médio humano e inferior ctônico. Stuckey comenta a possibilidade de que as três pragas possam ser reflexos da deusa, e a destruição da árvore teve implicações existenciais mais sérias. Diz ela:

Inana passou a ser então apenas a deusa dos céus e da terra, e o ciclo da vida sofreu um dano irreparável. A destruição da árvore huluppu significou que os seres humanos não poderiam contar mais com Inana e a Árvore Cósmica para manter o ciclo da vida e morte. Em vez disso, eles se veem então diante de um mundo linear e aterrorizante. A antiga compreensão cíclica da morte como uma mera etapa no processo eterno de nascimento, morte e renascimento, simbolizado pela árvore, foi substituída por uma percepção da vida com a morte e o submundo como fim.

Ou seja, essa seria mais uma forma de explicar a mortalidade e o conceito sumério do Kur, o submundo (que era idêntico ao Hades grego e o Sheol hebraico). E, falando em Árvores da Vida, mais uma vez eu não acho que seria exagero compará-lo também ao grande desastre cósmico, agora cabalístico, da quebra dos vasos, que abre o universo à presença qlifótica do mal.

A religião

Os mitos são divertidos, provocam reflexão e representam um aspecto importante do trabalho místico — o sistema místico mais bem-sucedido da história, afinal, a Cabala só funciona, como explica Scholem, por conta de uma forte base mitopeica que age a contrapelo da hostilidade da religião judaica no geral ao mito — , mas é importante lembrar que eles não definem os deuses. O Zeus da literatura grega, baseada na mitologia, é uma figura frequentemente horrível: tirano, irracional, sanguinário, pervertido. Mas não era isso que os gregos tinham em mente quando rezavam ou faziam sacrifícios e libações a ele, nem era essa a figura celebrada nos famosos e belíssimos hinos órficos. Como diz Jason Miller: “Do mesmo modo como nós existimos em múltiplos níveis ao mesmo tempo, assim também é com os espíritos. É inteiramente possível acessar o Zeus que é um ser transcendente e sábio. É também possível apelar ao Zeus que é egoísta, petulante e às vezes meio estuprador (a bit rapey). Não confunda as coisas”.

Para quem tem interesse nesse lado mais religioso do que mitológico, o material sumério contendo textos litúrgicos como os famosos Hinos Templários e “A Exaltação de Inana”, de autoria de Enheduanna, podem ser acessados também no ETCSL, o Electronic Corpus of Sumerian Literature. Infelizmente nem todos estão em estados razoáveis de conservação. Quanto ao material babilônico, uma ótima edição é o Reading Akkadian Prayers and Hymns, de Alan Lenzi, que inclui a transcrição, tradução e comentário de hinos a deuses como Sîn, Shamash, Ishtar, Nergal, Marduk, Gula e outros.


Um Lamassu

Na Babilônia surge ainda o conceito do henoteísmo — o nome da cidade, aliás, Bab-ilu, acredita-se que significasse “portão (bab) de Deus (ilu)”. Marduk foi elevado ao papel de Deus Supremo, às vezes chamado apenas de Bel, “Senhor”, e entende-se que os outros deuses seriam seus aspectos ou emanações. Na Assíria, o mesmo conceito se aplicou ao seu deus nacional, Ashur. A Babilônia também é o berço da angelologia. Pensemos na figura do Tetramorfo, o arranjo simbólico com as faces de um touro, leão, águia e homem, típicos da arte cristã, que remetem às quatro chayot (criaturas vivas) da visão de Ezequiel, entendidas como querubins, personificando os quatro elementos e quatro signos fixos do zodíaco: Touro, Leão, Escorpião e Aquário. Como comenta Damien Echols, esses querubins têm uma semelhança notável com os Lamassu mesopotâmicos, espíritos celestiais guardiões com um corpo misto de touro e leão, rosto humano e asas de águia, uma semelhança já comentada por pesquisadores. Vale lembrar que é durante o Exílio na Babilônia (período em que as famílias nobres de Israel estiveram cativas após a destruição de Jerusalém) que Ezequiel tem a sua visão e os israelitas de um modo geral concebem a ideia dos anjos com nomes próprios como Miguel, Rafael e Gabriel.

Ter isso em mente é importante ao trabalhar com esse panteão. Eu tenho a impressão de que muitos, especialmente os jovens, chegam ao neopaganismo com uma visão aparentemente influenciada pela Ilíada (mesmo que não tenham lido o poema… o que eu acho meio grave): os deuses, todos com personalidades e egos bem definidos, estariam envolvidíssimos nos afazeres humanos, inclusive a ponto de assumirem lados e tudo o mais e aí, claro, seus devotos teriam linha direta com eles quanto a esses afazeres — teve uma arroba com vários seguidores que disse, uns meses atrás, algo como “não ligue se os deuses não te derem atenção agora, eles estão ocupados com tudo que está acontecendo”. Talvez com a exceção de situações extremas como guerras (que é o tema da Ilíada, afinal), essa perspectiva, por mais que faça você se sentir importante e especial, me parece equivocada, ainda humana demais, beirando a mesquinharia, e não dá conta do quanto os deuses são infinitamente maiores que nós.

O Hermetismo e o Neoplatonismo, essas doutrinas místicas posteriores, com uma ênfase no trabalho teúrgico, entendem o Divino como eterno, perfeito e a fonte de todo o bem. Ainda que localizado além da matéria e do tempo, seu fluxo chega à matéria e os deuses partilham desse poder e nos auxiliam a acessá-lo também, elevando nosso espírito. Apesar de serem doutrinas concebidas muito mais tarde, Belleli aponta, neste artigo, para os pontos em que fica evidente que essas tradições beberam do pensamento místico mesopotâmico — o que, junto com a evidência da religião hermética de Harran, nos faz pensar como tudo, na verdade, pode ser visto como a evolução de uma mesma tradição mística e religiosa. Essa perspectiva teúrgica me parece mais produtiva e menos cartunesca de um modo geral, por isso mais interessante para o praticante moderno que chegue aos deuses partindo de um background esotérico.

Purificação

As religiões semíticas, como o judaísmo e o islã, têm uma forte ênfase na questão da purificação, e a religião mesopotâmica não era diferente. Para ser um sacerdote, era preciso, além de ter certos direitos burocráticos para isso, estar limpo de corpo e alma. Era preciso se banhar constantemente e higienizar a boca com resina de cedro, a fim de tirar qualquer resquício de mau hálito e não ter tido contato com nada que o deixasse impuro, fosse por tabu ou crime (como em muitas culturas, entendia-se a poluição astral como sendo contagiosa). Os sacerdotes e todas as oferendas que eles faziam precisavam se apresentar puros diante dos deuses. E, como dito no texto sobre limpeza energética, a purificação material acompanha a purificação espiritual. Assim, não são apenas hinos aos deuses que sobreviveram desse período, mas também fórmulas mágicas de limpeza e exorcismo.

Vamos ver, por exemplo, esta fórmula em babilônico, parte de uma sequência maior de exorcismos:

ašḫuṭ ašḫuṭ aštaḫaṭ aštaḫaṭ
imṭīya tāniḫīya u tādirātīya
u’a ayya mimma lemnu ša ina zumrīya šer’ānīya bašû
ina muḫḫīkunu ašḫuṭ
ašḫuṭ ša zumrīya ina muḫḫīkunu
ašḫuṭ ša šīrīya ina muḫḫīkunu
ašḫuṭ ša šer’ānīya ina muḫḫīkunu
ašḫuṭ ša mešrētīya ina muḫḫīkunu

Uma tradução bem literalzona dela poderia ser:

Eu me livrei, eu me livrei, eu me livrei de vez, eu me livrei de vez
Da minha exaustão, meus suspiros e pesares, dores,
Enfim, de todo mal que está em meu corpo e minhas veias eu me livrei (e lancei) sobre ti
Do que está em meu corpo eu me livrei e lancei sobre ti
Do que está em minha carne eu me livrei e lancei sobre ti
Do que está em minhas veias eu me livrei e lancei sobre ti
Do que está em meus membros eu me livrei e lancei sobre ti

O “sobre ti” provavelmente se refere a uma efígie, uma imagem de cera representando os males que afligem o paciente, que era queimada durante o ritual. Esses males poderiam ser a presença de uma série de espíritos malignos identificados como fantasmas ou demônios (de que eu já falei antes), responsáveis por causar doenças físicas e psicológicas, as maldições (kišpu) rogadas por feiticeiros ou o mal de eventos astrológicos sinistros como eclipses (neste caso, o nome desses rituais é namburbi). Esse tipo de ritual e fórmula constitui o grosso da literatura mágica do período e representa um corpus poderoso de encantamentos, aos quais temos acesso sobretudo pelos livros de Tzvi Abusch.

Muitas preces que sobreviveram também, como os shu-illa, dingirshadibba e ersahunga registrados no volume de Lenzi, tratam não apenas de louvar os deuses, mas também de pedir que eles purifiquem o adorador e o protejam do mal, inclusive do mal que ele mesmo possa ter praticado, transgredindo os tabus contra os deuses, mesmo sem querer. Uma prece “a qualquer deus”, um tipo de “desculpa qualquer coisa”, conclui pedindo que o vento leve embora o mal que tenha sido cometido (anna ēpuš šāru litbal), e uma outra prece, ao deus pessoal (um conceito semelhante ao Agathodaimon ou os Lares), diz: šukun ḫiṭātīya ana damqāti, “transforma meus erros em virtudes”. É visível como essas preocupações possam fundamentar o tipo de trabalho de ascensão teúrgica que viria mais tarde a ser desenvolvido por Jâmblico e outros neoplatônicos.

E a grande questão: por quê?

Trabalhar com (ou melhor, para) deuses mesopotâmicos inevitavelmente traz a questão: por quê? Como é um nicho bem menos explorado, ele causa algum estranhamento, mas, se você pensar, não é mais estranho do que qualquer outro neopaganismo (nem mesmo mais estranho do que o cristianismo ou islamismo, pois tudo provém da mesma região). De quebra, o culto a esses deuses não era restrito a qualquer grupo étnico ou nação específica, e a Mesopotâmia foi habitada por uma multidão de povos diferentes. A influência mesopotâmica sobre nós até hoje se manifesta em coisas pequenas, como o fato de usarmos uma contagem de base 60 para calcular graus e tempo (a contagem deles era assim, o número 60 sendo considerado o número perfeito), além de todas as coisas que chegaram a nós por via das heranças abraâmicas, como os anjos ou o calendário judaico ainda em uso, que nada mais é do que uma versão com nomes levemente diferentes para os meses do calendário babilônico (Nisanu — Nisan, Dumuzu — Tammuz, Abu — Av, e assim por diante).

Também, diferente do tipo de neopaganismo de tendência inglesa que se observa por aí, especialmente na bruxaria, não há aqui uma ênfase tão grande no mundo natural. Pelo contrário, trata-se de um culto de carácter majoritariamente urbano, sendo o próprio conceito de urbanidade, em oposição ao nomadismo, crucial para a identidade mesopotâmica, mais do que etnia, inclusive. Aliás, indo por essa via, a Mesopotâmia tem mais em comum com as religiões abraâmicas do que com os vários outros paganismos — afinal, a fraseologia dos louvores babilônicos e seus mitos são bem visíveis no material bíblico, como qualquer assiriólogo é capaz de apontar. Ao mesmo tempo, felizmente falta aquele elemento de terror psicológico que quem cresce em famílias cristãs muito beatas nunca mais consegue dissociar da religião.

O elemento da antiguidade e da preservação do material é outra questão importante. Ler um texto como “A Descida de Inana ao Submundo” fascina, não apenas pelo conteúdo, mas também porque data do período paleobabilônico, que vai de 2000 a 1600 a.C. — a Ilíada e a Odisseia, em comparação, datam do século 8 a.C., vários séculos depois. Ter a oportunidade de ler um texto de quase quatro mil anos atrás é um privilégio enorme de se viver em nossa época. É um milagre também que possamos ter acesso aos textos de Enheduanna, simplesmente a primeira mulher a registrar seu nome na história. Outro exemplo ainda: Ammi-Ditana foi um rei da Babilônia que governou entre 1683 e 1640 a.C., e tem um hino a Ishtar atribuído a ele, em que louva a deusa e termina pedindo suas bênçãos de vida e reinado longo (o que aparentemente é concedido, pois seu reinado foi pacífico e o mais longo da primeira dinastia). Ouvir esse hino musicado pelo Lyre Ensemble e cantado no original pela Stef Conner (aqui) é absolutamente assombroso. É inegável a sensação de continuidade, de tradição (e uma tradição mutável, não fixa e rígida). Há muito poder nessas palavras.

Vamos parar por aqui, porque este texto já está excessivamente longo e, o que é pior, eu ainda tive que resumir muito e deixar coisas demais de lado. Porém, para quem nunca viu nada disso eu acredito que esta seja uma boa introdução. Para quem quiser se aprofundar, eu recomendo começar pelas traduções do Jacyntho do Gilgamesh e da Descida de Ishtar, que não apenas apresentam os textos, como incluem bastante material introdutório e de contextualização. Os livros de Jean Bottéro, como No começo eram os Deuses, são ótimos também e disponíveis em português. O resto do material temos apenas em livros acadêmicos em inglês, mas eu devo compartilhar mais algumas coisas futuramente.

Que os deuses sejam louvados.

* * *

[1] A maior parte da cultura Viking era transmitida oralmente, e temos poucos exemplares sobreviventes do uso cotidiano de sua escrita. As canções e mitos foram registrados mais tardiamente, no período medieval, como é o caso, por exemplo, do famoso Hávamál, o poema que inclui o trecho de descrição das runas (Rúnatal), presente no Codex Regius do século XIII. Nessa época, os autores, como Snorri Sturluson do Edda em Prosa, já eram todos cristãos. Em comparação, nós temos vastas quantidades de textos legítimos diretamente da idade de bronze da Mesopotâmia. Infelizmente, esses textos são descobertas mais recentes, do século XIX, e em sua maioria ficaram restritos ao mundo acadêmico, por enquanto ainda sem maiores possibilidades de causar o mesmo impacto cultural que o material nórdico teve. Eu não digo isso para desmerecer quem trabalha com magia e espiritualidade nórdica, claro, mas para demonstrar a potencialidade da magia mesopotâmica.

[2] O Necronomicon, como bem se sabe, era um grimório ficcional das histórias de Lovecraft, de autoria do “árabe louco” Abdul Alhazred. Simon, o autor desse livro que se apresenta como se fosse o verdadeiro (como se tal livro existisse de verdade) fez bem a lição de casa e demonstra seu conhecimento da linguagem de grimórios clássicos como o Picatrix e o Lemegeton, além de obras de assiriólogos bem conhecidos, como R. C. Thompson, de cujo Devils and Evil Spirits in Babylonia ele copia vários textos diretamente. O principal conteúdo do grimório é um sistema de ascensão planetária por meio dos deuses mesopotâmicos, o que, na verdade, é bastante engenhoso, pois realmente é uma prática factível e poderosa. Por meio disso, ele argumenta, seria possível evocar os horrores primordiais como Cthulhu ou Shub-Niggurath, identificados como monstros ligados a Tiamat e vencidos pelos deuses. Eu não posso recomendar esse livro, mas é fato que o que tem nele que funciona deriva mais do poder das conjurações legítimas que foram copiadas e coladas e de sua associação aos deuses do que de qualquer coisa de lovecraftiano.

[3] Minhas únicas ressalvas quanto ao Mardukite Magick é que o autor não teve acesso a uma fonte melhor ao transcrever os 50 nomes de Marduk e há alguns erros (por exemplo, no nome LUGALDIMMFRANKIA o F deveria ser um E, simplesmente pelo fato de que essa consoante não era usada em sumério ou babilônico).

[4] Em hebraico se diz “Sol” por via de um nome muito parecido: Shemesh, derivado da mesma raiz semítica SH-M-SH.

[5] Na tradição esotérica ocidental mais comum de magia planetária, encontra-se as seguintes correspondências para as cores: Lua=branco/prata (ou lilás); Mercúrio=laranja; Vênus=verde; Sol=amarelo/dourado; Marte=vermelho; Júpiter=azul; Saturno=preto (ou roxo). Peter James e Marinus Anthony van der Sluijs no artigo “Ziggurats, Colors, and Planets: Rawlinson revisited” reconstroem uma sequência parecida na Babilônia do século VIII a.C., mas com algumas diferenças: o branco fica como a cor de Júpiter (e a Lua apenas com prata), Mercúrio é um vermelho claro (que pode ser entendido como próximo de laranja, oposto ao vermelho escuro de Marte) e Vênus fica com azul.

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