Cristais: Quem são? Onde vivem? Do que se alimentam?

Cristais representam um problema curioso: eles são, talvez, a primeira coisa que puxa a gente para o esoterismo. São bonitos, todo mundo gosta de uma joia brilhosa, e a cultura popular está repleta de histórias, antigas e modernas, de anéis, pingentes e pedras preciosas com poderes sobrenaturais, desde as pedras Urim e Tumim, na Bíblia, até o Olho de Agamotto do Dr. Estranho. Quando visitamos qualquer loja esotérica, tem sempre caixinhas com pilhas de pedras e descrições do tipo “a lápis-lazúli estimula o chakra da garganta e ajuda com a ansiedade” ou “a ônix é a pedra do signo de Capricórnio” e coisas assim. Porém é muito raro encontrar não apenas informações confiáveis sobre o assunto, mas informações que minimamente batam entre si de um livro para outro.


Bracelete de escaravelho tirado da tumba de Tutankhamun, feito em lápis-lazúli encrustado em ouro, com turquesa, quartzo e cornalina. Mais informações aqui.

A impressão que eu tenho é que muita coisa foi copiada e repassada sem maiores escrúpulos ou esforços para se testar o que está sendo ensinado. Cristais, por séculos, foram uma preocupação da tradição esotérica ocidental, desde a Antiguidade até os autores da Renascença. Cristais eram usados para talismãs na Mesopotâmia e no Egito — existe, inclusive, um ritual nos PGM para consagração de cristais — , e a tradição hermética associa as pedras aos planetas e estrelas, compreendendo-as como possíveis portais para seus espíritos ou receptáculos para suas energias — o que é revisitado por autores medievais e renascentistas como Alberto Magno, Ficino e Agrippa. No entanto, no século XX o tema parece ter se tornado domínio do New Age, um território que, como Mitch Horowitz diz, ele mesmo um new ager confesso, rigor é uma virtude em falta. Toda a coisa de sentir-se bem e validar os próprios sentimentos nesse ramo costuma ser mais importante do que obter resultados de verdade, então é normal que isso ocorra. Eu já dei umas informações brevemente no texto sobre ferramentas, agora pretendo passar algumas coisas a limpo para quem está começando.


Runas gravadas em uma variedade de pedras roladas pela Ju Ponzi. Eu conheço e acompanho o trabalho da Ju e sei do cuidado que ela tem com as pedras ao gravá-las, por isso recomendo demais. Confiram lá no Instagram da loja dela, a Stryx Store!

Minha grande referência no tocante à teoria de como os cristais funcionam esotericamente é a Cura Prânica. A Cura Prânica não é uma tradição de cristaloterapia como se costuma entender, o uso que ela faz dos cristais não é do tipo “estou com dor de cabeça e dizem que a ametista é boa para isso, então vou esfregar uma ametista na testa”, o que implica ter uma grande variedade de cristais e saber o que para cada um serve especificamente. Não, na Cura Prânica, cristais são usados como ferramentas de trabalho, e os mais usados são, na verdade, uma gama bastante pequena, incluindo o quartzo (transparente, rosa e verde) e a ametista. Suas funções principais incluem amplificar as capacidades do curador de 1) remover energias mal qualificadas da aura e chakras do paciente e 2) de energizá-lo com prana limpo e fresco, além de 3) proteger o curador. Uma das técnicas mais incríveis dessa escola é a capacidade de medir energia etericamente com as mãos, o que é útil demais e permite se orientar de uma maneira mais objetiva no tocante ao que funciona ou não (o mais assombroso sendo o fato de que duas pessoas diferentes chegam a medições parecidas quando medem uma mesma coisa, como qualquer um pode atestar numa aula de Cura Prânica). A capacidade de um cristal de amplificar o poder de limpeza do curador, assim, se torna um dado empírico, algo que pode ser realizado e observado pela experiência repetidamente¹.

Sobre o uso de cristais na Cura Prânica, as referências usadas pela escola vêm de um manual de autoria do Mestre Choa Kok Sui, seu fundador, chamado Cura Prânica com Cristais. Este livro, somado à minha convivência com a Maíra (muito do que vocês vão ver aqui, especialmente no tocante ao cuidado com as pedras, ela já expôs no seu Instagram) e nossas discussões e experimentos quanto ao assunto, é o que fornece os fundamentos deste texto que vocês leem agora. É importante frisar, no entanto, que eu não estou, de jeito nenhum, falando aqui em nome da escola: eu aprendi sobre isso com a leitura do Mestre e com a convivência com a Maíra, mas apliquei os aprendizados, por conta, também em outras direções. Em resumo, o que tiver de absolutamente certo e confiável aqui vocês podem creditar ao Mestre. O que tiver de questionável é meu mesmo.

Propriedades

Vamos começar com os princípios básicos: quais a propriedades dos cristais? Como qualquer praticante de magia natural pode confirmar, quanto mais trabalhamos com elementos da natureza, menos brutos e estúpidos eles nos parecem e mais conseguimos identificar neles aquele quê de consciência que caracteriza a postura animista sobre o mundo. Pois é, isso é para dizer, tentando não parecer doido, que cristais são uma forma de inteligência. Poderíamos compará-los a espíritos nesse sentido, mas espíritos com um corpo, como nós somos, com a diferença de que esse corpo é mineral. O Mestre Choa diz que eles são dotados de fagulhas de consciência, mas são desprovidos de vontade — por esse motivo, podem ser programados e encarregados com uma variedade de funções esotéricas.

Uma outra propriedade é que os cristais são como os chakras em um certo sentido. Explico. Os chakras são pontos energéticos no corpo sutil — a tradição ocidental mais comum, divulgada pela Teosofia com base num texto específico, o Ṣhaṭ-chakra-nirūpaṇa (1577), de Pūrṇānanda Yati, fala em 7, um sistema que se tornou popular porque é um número bem fechado e de importância cósmica por aqui, mas o total é incontável, e cada tradição utiliza um número diferente — e, segundo a Cura Prânica, uma de suas funções é absorver e fazer circular a energia vital (prana ou chi) pelo corpo. Como dito no texto sobre limpeza, nossa vida encarnada tem como consequência a produção de poluição energética (entendida como energia “suja” ou mal qualificada), e os chakras também filtram essa energia para evitar circulá-la, ficando eles próprios sujos e por vezes debilitados no processo, o que exige sua limpeza. Pedras não fazem parte de um corpo completo, mas estão constantemente processando a energia do ambiente, dentro das suas capacidades… no entanto, assim como um Roomba passando por cima do jornal que serve de banheiro para o cachorro, tem sujeiras que elas não conseguem processar. E, quando não dão conta, elas mesmas acabam se sujando e contribuindo para a sujeira do ambiente (se você nunca viu o que um Roomba faz nessa situação acima, tem imagens e relatos no Google, é medonho).

Agora, então sabemos que os cristais 1) são programáveis e 2) tentam filtrar o ambiente — quando somamos essas duas questões temos um problema composto. Cristais são programáveis, mas essa programação nem sempre precisa ser explícita: um cristal não consagrado pode tranquilamente captar uma ordem, um sentimento ou desejo que você tenha perto dele e começar a trabalhar para amplificá-lo e manifestá-lo. Se você pensar em todas as pessoas envolvidas na cadeia de produção de cristais por quem eles passaram e toda a energia suja acumulada e continuamente processada e amplificada nos depósitos e lojas, você pode começar a ter uma ideia de o porquê ser uma má ideia comprar um cristal e já pendurá-lo no peito sem pensar antes. É, as pessoas que não mexem com magia fazem isso o tempo todo. Pois é, pensa no estrago.

Um outro fato importante é que cristais têm características próprias, incluindo as já mencionadas afinidades com planetas e elementos. Uma característica que o wiccano Scott Cunningham traça em seu Cunningham’s Encyclopedia of Crystal, Gem & Metal Magic é uma distinção entre pedras “masculinas” que projetam e pedras “femininas” que absorvem energia… porém, sinto dizer que Cunningham está equivocado aqui, digo, pelo menos segundo a sua intenção original. De fato, certas peças de cristal são mais adequadas a projetar ou absorver energia, mas isso deriva da sua lapidação, não da constituição da pedra. Pedras com ponta projetam melhor, enquanto pedras roladas absorvem melhor, mas mesmo uma pedra rolada pode projetar energia, ainda que de forma difusa, e isso independe de a pedra ser “feminina” ou “masculina”. As características dos cristais, chamadas de “virtudes” pelos antigos, são inúmeras, mas, poderíamos citar, para ilustrar a questão, o fato de que há pedras mais calmantes e pedras mais estimulantes, pedras mais associadas a energias construtivas e pedras associadas a energias destrutivas, pedras mais aterradas e pedras mais áreas, e por aí vai.


Amuleto mesopotâmico contra o demônio Lamashtu, em obsidiana

A obsidiana, por exemplo, é uma pedra estimulante e destrutiva, o que dá uma impressão de agressividade, por isso útil para autodefesa e extração de energia suja e forças nocivas. O que está acima é como o que está abaixo, assim, não por acaso, seus atributos esotéricos acompanham os atributos físicos — um vidro vulcânico cortante, a obsidiana era utilizada para produzir lâminas extremamente afiadas, um uso belicoso hoje voltado à medicina, com a produção de bisturis feitos desse material. A ônix é igualmente destrutiva, porém mais calmante e pesada, com associações saturninas, por isso é um cristal que deve ser usado com cuidado, pois pode ter o efeito colateral de induzir estados de humor melancólicos. A lápis-lazúli é não apenas calmante, como pacífica, associada a Júpiter, o que a torna útil para propósitos espirituais, mas também magia de prosperidade. E por aí vai.

Quanto aos elementos, é importante notar que todos, ou quase, os cristais têm afinidades com o elemento terra, pois, óbvio, é de lá que eles vieram. Ao serem usados no corpo, eles costumam aumentar os chakras, mas, por conta dessa afinidade terrestre, seu efeito é sentido de forma mais perceptível nos chakras inferiores, como o básico, o sexual e o umbilical². Aliás, porque é o chakra básico que rege as funções de sono e vigília, deixando-nos mais despertos quanto mais ativo ele estiver, ter pedras consigo na hora de dormir ou no quarto é uma ótima maneira de se causar insônia e noites mal dormidas, ainda mais se ele estiver sujo. Por esse motivo é bom evitar. Práticas em que se recomenda dormir com uma pedra no travesseiro (por exemplo para sonhos lúcidos) podem ser substituídas por ir dormir depois de energizar e comandar a pedra e colocá-la no altar, em outro cômodo. Fazer isso com uma sodalita, por exemplo, outra pedra calmante, pelo que eu descobri, ajuda bastante para ter um sono tranquilo.

Ao mesmo tempo, eles também podem ter associações com outros elementos: a obsidiana, sendo lava cristalizada, tem afinidade com o fogo; a ametista, aérea e elétrica, com o ar; o quartzo rosa, ligado às emoções, com a água (isso não apaga nem desloca a afinidade com a terra, e um mesmo cristal pode, em tese, ter afinidade com tudo). É a interação entre esses vários atributos que nos dá a “personalidade”, por assim dizer, de cada cristal. Tais atributos podem ser medidos etericamente, mas um excelente exercício para testar essa personalidade é sentar com os cristais, todos já previamente limpos, desprogramados e consagrados (falaremos disto na sequência), fazer um banimento (para retirar qualquer outra influência do ambiente), entrar num estado meditativo e segurar o cristal em questão em sua mão não dominante. Preste atenção nas imagens e na sensação mental que emergem durante esse exercício e compare-as entre diferentes pedras. Esse exercício é ótimo, não apenas para conhecer as suas pedras, mas também para ir construindo uma relação com elas.

Cuidados com cristais

Como dito, ao comprarmos os cristais, eles vêm impregnados com toda uma sujeira energética que os acompanha desde o processo de mineração até sua exposição nas lojas, ao lado de outros cristais igualmente sujos. Aliás, quem tem maior sensibilidade, ou de nascença ou por conta de anos de práticas que refinam o corpo energético, costuma não poder passar muito tempo em lojas de pedras sem sentir dor de cabeça e enjoo, por conta disso.

Assim, ao comprar um cristal, é preciso limpá-lo e desprogramá-lo. Para a limpeza, colocá-los numa bacia com água e sal grosso durante meia hora, depois enxaguá-los em água corrente já basta. Infelizmente não são todos os cristais que podem ser limpos assim: a turmalina e a selenita, por exemplo, são solúveis, a hematita enferruja e a malaquita é tóxica. Mais sobre o assunto pode ser lido nestas páginas aqui (sobre pedras solúveis) e aqui (sobre a toxicidade das pedras). A questão da toxicidade é importantíssima, aliás, porque uma prática que se tornou bastante popular nos últimos anos é a de preparar elixires com as pedras mergulhadas na água. Eu não tenho experiência com isso (meu negócio com os cristais é puramente energético), então não sei quais os benefícios um elixir de cristais pode ter… mas sei que uma preparação com malaquita, cinábrio e pirita seria uma mistura excelente para quem quer ter o mesmo destino que o imperador Qin Shi Huang.

No caso de cristais que não podem ser limpos com água, a melhor opção é recorrer ao incenso. Acenda um bom incenso de lavanda, olíbano ou sândalo, comande os elementais da fumaça para que façam a limpeza e peça a colaboração do cristal, então exponha-o à fumaça durante alguns minutos. É mais chato do que colocar todo mundo numa bacia e deixar na água com sal, mas é o que dá para fazer.

Na sequência, para desprogramá-los, há algumas possibilidades. Essa desprogramação e desimpregnação de comandos e formas-pensamento prévias é feita pelo influxo de um tipo de energia divina, por isso você pode simplesmente escolher uma prece favorita e rezá-la durante algumas repetições tendo os cristais em mão, ou pode expô-los a um fone de ouvindo tocando mantras, como Om, durante algum tempo. Essa etapa é especialmente importante ao se lidar com joias, ainda mais no caso de heranças.


Mais umas runas gravadas pela Ju Ponzi, para a Stryx Store (estas, em crisocola).

Feito isso, os cristais já estão prontos para a próxima etapa: a consagração (eu já falei da importância da consagração de ferramentas mágicas no texto sobre o assunto). Para consagrar seus cristais, reúna-os durante o dia, de preferência ao ar livre. Se isso não for possível, tente pelo menos abrir uma janela para deixar entrar ar e luz do Sol. A consagração não exige tooodo um ritual, mas ter uma formulazinha ajuda bastante. A Cura Prânica tem uma fórmula própria, que eu não posso ensinar, no entanto — e, em todo caso, é meio específica e mais útil para quem usa os cristais como instrumentos de Cura Prânica de fato.

Dito isso, eu elaborei uma aproximação razoável que há de ser útil para a maioria dos meus leitores, acredito. É a seguinte:

Pai Primeiro, fonte de toda Luz, tu que expressaste com tua Palavra tudo que é; tu que, com o amoroso Spiritus Mundi, moldaste-me à tua imagem como um deus criador divino, te invoco agora para abençoar e consagrar estes ritos. (recitar esta primeira parte com os braços abertos, depois unir as mãos ao peito) Eu invoco as bênçãos do Ser Supremo do Universo, Deus, de todos os deuses e de todos os anjos e seres excelsos, Mestres Sagrados e meu Sagrado Anjo Guardião. Eu me refugio humildemente em vós, buscando vossa proteção divina, vossa orientação divina, vosso poder divino e vosso amor divino. Abençoa, Senhor, estes cristais; que, em todos os propósitos com os quais eles forem encarregados, eles possam contar com a presença da Divindade e sua Luz. (voltando-se aos cristais, mãos em posição de bênção) Cristais, estejam receptivos e recebam as bênçãos agora (pausa para quatro ciclos de respiração).

Abençoa, Ó Mãe Terra, estes teus filhos, que tua força os sustente até o momento de retornarem ao teu ventre. E que as bênçãos dos anjos da Terra, do Sol e do Ar e dos espíritos da natureza estejam sobre estes cristais. Que as bênçãos dos arcanjos dos elementos e das esferas celestes lhes deem luz e vida (pausa, quatro ciclos).

Que estes filhos do céu e da terra sejam santificados e consagrados pela Luz Divina para todos os usos mágicos condizentes às suas virtudes. Que eles sejam meus aliados na realização da Grande Obra e a conquista da Iluminação (dispositivo de segurança, voltado aos cristais) Eu e somente eu posso programar, carregar, desprogramar e reprogramar estes cristais, segundo a minha Vontade. Que assim seja (pausa, mãos ao peito).

A Deus, todos os deuses, todos os anjos e arcanjos, a Mãe Terra e seres excelsos, eu vos agradeço por vossas bênçãos e por consagrarem esses cristais em meu nome, por ensinarem-nos e concederem-nos o poder para realizar o que lhes for pedido. Em gratidão e plena fé, eu agradeço. Que assim seja.

Eu dei uma garfadinha na fórmula do ritual de abertura do Rufus Opus (veremos isso num texto futuro sobre rituais preliminares) e a fraseologia usa algumas coisas da Cura Prânica e outras mais genéricas de magia cerimonial. Quem quiser pode modificá-la à vontade de acordo com as tendências mágico-religiosas que lhe forem mais adequadas. Nos Papiros, como dito, existe um ritual de consagração de pedras e filaterias a Hélios (PGM IV.1596–1715), que é um pouco específico (o Sam Block inclusive tem um post longo sobre o assunto), mas pode servir de inspiração também. Eu só friso a importância de manter uma estrutura parecida de invocação, bênção e agradecimento, e de incluir o dispositivo de segurança.

Carregando cristais

Uma outra característica dos cristais é que eles são como pequenas baterias. Comandando-os, eles absorvem e armazenam a energia que for projetada sobre eles, com a mão mesmo ou usando uma ferramenta como uma varinha ou um outro cristal com ponta³. Com essa energia, claro, eles podem ser empregados para se realizar muitas coisas.

A carga de um cristal pode ser medida com as mãos, para quem sabe, ou com outros instrumentos, como um pêndulo, acompanhando a força e intensidade do seu movimento. Aplique um pêndulo já treinado sobre um cristal descarregado, observe sua reação, depois energize o cristal com uma projeção de energia, teste o pêndulo de novo e repita (o meu pêndulo faz o gesto de “não” quando o cristal está descarregado e o de “sim” quando tem carga, mexendo-se com mais ímpeto quanto maior a carga). Cada pedra tem a sua capacidade, o que também pode ser medido e averiguado na prática.

Um cristal carregado também se limpa de forma mais eficaz. Uma outra forma de carregá-los, menos direta, é deixá-los na terra, idealmente num jardim, ao ar livre e em contato com a luz do Sol e, de vez em quando, água da chuva (lembrando de novo que alguns cristais são solúveis em água e outros desbotam na luz solar). Na falta, um vasinho de planta já ajuda. Como o cristal carregado se limpa melhor, há quem dê essas sugestões como dicas para limpá-los, mas pode demorar muito, até vários dias, para que o cristal se limpe totalmente, por isso o mais eficaz é a água com sal ou incenso mesmo. Vale lembrar ainda que pedras escuras têm uma maior dificuldade para fazer essa autolimpeza, por isso devem ser mantidas nos locais mais limpos da casa (como próximo ao altar) e purificadas com frequência.

E, como dito, os cristais têm algum grau de consciência e podem estar contentes ou não. Cristais comprados em loja sempre vão chegar putaços, inclusive. Energizá-los, manualmente ou pelo contato com a natureza, também costuma dar uma apaziguada (como nós igualmente ficamos de bom humor depois de encher o bucho), e o mesmo vale para o uso dos mantras. Evite ainda esquecê-los mais tempo na água com sal do que a meia hora indicada ou abafá-los, colocando-os em caixas de madeira ou sacos plásticos. Isso desagrada os cristais e aí, claro, eles não vão trabalhar tão bem e podem se quebrar (“escapando” da mão).

Utilizando cristais

Por fim, uma vez o cristal limpo, consagrado, carregado e feliz, ele está pronto para ser usado.


Um talismã da estrela fixa Spica, da constelação de Virgem (mas, no momento, situada dentro do signo de Libra). Foi feito em prata, com a imagem descrita em Agrippa, o sigilo da estrela e seu cristal, que é a esmeralda. Este item foi a criação de um joalheiro chamado Tony Mack e, embora esteja indisponível no seu site agora, poderia ser adquirido pela bagatela de mil dólares.

Há muitas formas de se fazer isso. Uma técnica possível e rápida, derivada das práticas do Bardon, é a seguinte: você toma o cristal na palma da sua mão dominante, então visualiza a sua própria consciência encolhendo até ficar do tamanho de um grão de areia. Na sequência, você projeta sua consciência encolhida para o cerne do cristal, como se estivesse acessando o seu âmago — visualize como se o cristal fosse todo o universo. A partir desse lugar, você o programa com as instruções, enunciadas com clareza e/ou visualizadas, e então o leva consigo ou o deixa no seu altar ou no local onde você quer que ele aja. Para dar alguns exemplos, você pode energizar e programar um quartzo rosa para acalmar e apaziguar um chefe meio escroto e aí deixá-lo por perto, na sua mesa de trabalho, como “decoração”, ou energizar uma lápis-lazúli para atrair clientes para o seu negócio e colocá-la do lado do caixa. Essas técnicas podem ser combinadas com outras ainda, como magia astrológica⁵, carregando-os com a energia dos planetas, ou magia do tarô — combinando uma granada com um ás de ouros, por exemplo, deixando-os ambos sobre seu altar após o ritual, para magia de prosperidade. Só lembre-se, na hora de determinar o que você quer que o cristal faça, de garantir que a sua intenção esteja alinhada com as características da pedra.

Não esqueça de revisitar o cristal em uso de vez em quando e medi-lo para garantir que está energizado ainda, projetando mais energia sempre que ele estiver prestes a descarregar. Você também pode medi-lo com o pêndulo para perguntar a necessidade de limpá-lo. Feito o que você quer que ele faça, agradeça-o e mande-o parar, então limpe-o de novo (e eu gosto de deixar o cristal depois na terra também, como um agrado pelo bom trabalho feito). Você pode ainda empregar mais de um cristal num mesmo propósito — nesse caso, convém ligá-los energeticamente, com a mão ou varinha, e dispô-los num arranjo em que estejam em contato, como num tabuleiro ou sobre o desenho de uma estrela de David. O trabalho com cristais pode ser simples, como o método descrito acima, ou complicado, na medida da sua preferência e necessidade, e as possibilidades são inúmeras. Para quem está começando, eu recomendaria obter umas pedras roladas de quartzo branco (uma pedra curinga) e rosa, ametista, obsidiana, sodalita, granada, jaspe vermelho, hematita e esmeralda bruta para experimentar. Essa seleção abrange uma grande amplitude de possibilidades mágicas sem gastar muito e já oferece a oportunidade de perceber as personalidades, características e afinidades elementais dos cristais.

* * *

[1] Infelizmente eu não posso ensinar essa técnica por aqui, primeiro porque seria pilantragem minha; segundo porque é o tipo de coisa que é muito difícil de fazer por escrito. A técnica está descrita em Ciência da Cura Prânica, do Mestre Choa, o primeiro livro da escola, mas outros autores já chegaram em algo parecido, como Damien Echols em High Magick e John Michael Greer em The Druid Magic Handbook: Ritual Magic Rooted in the Living Earth.

[2] É possível um cristal estimular os chakras superiores, mas para isso é preciso que ele seja carregado com a energia de trabalho teúrgico. Essa energia divina acumulada não se dissipa com o uso, nem com a limpeza com água e sal, pelo menos em cristais. Outros objetos podem se comportar de forma distinta.

[3] Evite gastar a sua própria energia para carregar cristais. Em vez disso, você pode acumular energia via respiração pelos poros ao inspirar ou puxar a energia diretamente do ar.

[4] No caso de joias, como anéis e pingentes, você pode fazer a consagração do cristal, como descrito, depois talismanizar a joia num ritual do planeta em questão, então terá o efeito desejado sempre que for usada. Isso pode ser feito tanto para questões mais imediatamente práticas (como carregar um anel de lápis-lazúli com energia jupiteriana para prosperidade) quanto para facilitar o contato com as energias de um dado planeta para trabalhos posteriores— assim, você faz um ritual mais longo para ter esse efeito, depois pode usar a joia em rituais mais rápidos e menos formais, inclusive em emergências.

[5] Alguns exemplos de associações entre pedras e planetas: quartzos e selenitas estão associados à Lua; topázios e ágatas, a Mercúrio; malaquitas, águas-marinhas, turquesas e jades, a Vênus; crisoberilos e rubis, ao Sol; jaspes vermelhos e hematitas, a Marte; ametistas, a Júpiter; ônix, a Saturno. A lápis-lazúli tem elos com Vênus e Júpiter; a cornalina, com o Sol e Marte; a esmeralda, com Mercúrio, Júpiter e Vênus; a safira com Saturno, Júpiter e Vênus, e por aí vai… a coisa toda não é bem uma ciência exata. No mais, cada uma das 15 estrelas fixas behenianas está associada a um cristal que pode ser utilizado para criar um talismã. Eu devo ministrar um curso sobre magia astrológica em breve, então, quem tiver interesse, fique de olho!

(Este texto foi publicado originalmente no meu Medium em 10 de agosto de 2020)

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