Rituais preliminares pra ninguém mais reclamar que não sabe fazer banimento

É, eu dei um risinho besta também quando escrevi “rituais preliminares”, mas não tem termo melhor e é um assunto que precisa ser contemplado aqui. Em alguns textos futuros, eu devo falar em termos mais práticos de construção de rituais e não quero ter que tratar disso toda vez  — daí a necessidade deste textinho, como mais uma indicação de dicas para quem está começando e não sabe muito bem como construir seus roteiros de operações mágicas.


Necromante dentro de um círculo mágico. Iluminura da letra M num manuscrito de 1481 da História Natural de Plínio, MS Lat. VI 245.

Eu gosto sempre de comparar o ato mágico com atividades que envolvem exercício físico vigoroso. Imagine que você tivesse que participar agora de uma corrida, qualquer corrida, não importa se de 100 metros rasos ou uma maratona. E, sim, agora. Do jeito que você está. De pijama, pantufa, sem ter tido tempo de acordar direito antes ou ir no banheiro ou terminar seu café. Não vai ser legal, né? Sua performance não vai ser lá essas coisas e é provável que você acabe se machucando. É preciso reservar um tempo antes para preparação, colocar uma roupa e calçados adequados, se hidratar, fazer exercícios de aquecimento e tal… para não falar nada do trabalho prévio necessário para ter o condicionamento físico adequado, mas essa analogia é assunto para outro momento. 

Para a magia é a mesma coisa: antes de qualquer atividade mágica mais rigorosa, é importante reservar uns minutos para fazer a transição, partindo da consciência normal do seu dia a dia mundano (com todas as suas preocupações cotidianas, como as tretas do trabalho e o que vai ter de janta, essas coisas que fazem girar a rodinha do hamster dos pensamentos obsessivos) para a consciência mais, digamos, fluida e permeável, mas também mais focada, do trabalho mágico. Por isso, é bom ter no seu repertório algum tipo de mini-ritual preliminar.

O tipo de ritual preliminar mais famoso é o que chamamos, por conveniência, de banimentos, do inglês banishing rituals. Como dito já no meu texto sobre o assunto, o termo deriva de uma técnica específica do currículo da Golden Dawn, o Lesser Banishing Ritual of the Pentagram, LBRP, ou Ritual Menor de Banimento do Pentagrama, popularmente RmP em português. O RmP tem inúmeras funções, algumas mais específicas ligadas ao sistema da Ordem, mas a maioria delas é geral o suficiente para garantir sua funcionalidade como uma importação isolada  —  ou seja, ele pode ser feito mesmo que você não conheça nem pratique mais nada da Golden Dawn. Entre outras coisas, ele dá uma limpadinha no espaço, a nível microcósmico (para a limpeza mais macrocósmica, usar o Ritual do Hexagrama), equilibra os elementos, protege o espaço e a sua aura, preparando-os para invocações, e ajuda com a concentração. Realizado também ao fim do ritual, ele serve de encerramento.

Pelos motivos acima, esse ritual se tornou, de longe, o mais famoso, praticado por magistas de tudo quanto é linhagem. Com o tempo, outras variações foram compostas, como o Rubi-Estrela, de Crowley, adaptado para a magia thelêmica, ou sua versão mais despojada, sem nomes divinos ou arcanjos, que é o chamado Ritual Gnóstico do Pentagrama, de Peter Carroll (eu mesmo compus uma também, de inspiração mais puramente hermética, não cabalística). As variações, popularizadas pela Magia do Caos, são inúmeras, mas geralmente seguem uma estrutura comum com um tipo de centramento e a delimitação do espaço, traçando-se um círculo e protegendo as quatro direções. Geralmente é isso que se pensa quando se fala em banimentos (para mais informações sobre o assunto, o meu artigo está aí), apesar de haver outros sentidos para a palavra, em outros contextos¹.

Porém, apesar da insistência de muitos caoístas sobre o quanto é absolutamente indispensável praticar banimentos, tem vezes em que você não quer utilizá-los  —  e não é por preguiça. Mais sobre isso, pode ser lido no meu texto anterior também. No mais, eu conheço gente com muita experiência que não faz uso nem do RmP nem de outros rituais nesse estilo. Como dito, eles são práticos, pois dá para fazer rápido e acumulam várias funções, mas, se você tem outros modos de proteger e limpar um ambiente e o próprio campo pessoal e de se conectar com o divino e se equilibrar elementalmente, eles não são necessários… pelo contrário, inclusive, esses outros rituais mais dedicados vão fazer isso tudo com mais força. Banimentos nesse modelo são rituais preliminares, mas nem todo ritual preliminar necessariamente é um banimento.

Alguns casos também são curiosos. O Sam Block, cujo blog eu recomendo toda santa vez aqui, é um dos que dizem que nunca fez o RmP. O que ele chamou de um ritual de banimento angelical, que ele mesmo compôs e ensina no blog, invoca os 4 arcanjos dos elementos mais os 7 arcanjos planetários (e opcionalmente os 12 arcanjos do zodíaco), mas tudo mais parece uma grande prece corrida com visualizações do que um ritual no esquema do RmP, com todos os gestos, movimentos e a ginástica toda envolvida². O chamado ritual de banimento enoquiano, do Frater Goya, que lhe foi ensinado pelo anjo Alegere, vai por uma via semelhante, sendo uma fórmula em enoquiano para ser entoada, sem mais nenhum gesto — acredito, porém, que esta opção seja talvez forte demais para o uso diário³.

Agora vamos ver mais algumas opções de rituais preliminares.

Tem um livro bem interessante de magia prática baseada na Cabala judaica chamado Qabbalistic Magic: Talismans, Psalms, Amulets, and the Practice of High Ritual, da respeitada Dolores Ashcroft-Nowicki e seu pupilo Salomo Baal-Shem. Em um dado capítulo, lemos sobre magia de salmos, com uma lista de salmos, suas funções e os nomes divinos atribuídos a eles. Antes de um ritual de magia de salmos, porém, os autores recomendam “abrir” as quatro direções cardeais. Seu método nos lembra um pouco o RmP, mas é muito mais simples. Basta desenhar um hexagrama (estrela de David) no ar em cada direção, começando pelo leste, com a prece: “Eu abro [o leste, sul, oeste, norte] em nome de [nome divino referente ao salmo em questão]”. Depois de tudo feito, claro, você repete o processo fechando os portões que foram abertos. Simples e prático, porém sua utilidade a princípio é limitada a esse tipo de magia. Felizmente é um tipo de magia extremamente versátil (dá para fazer muita coisa com 150 salmos) e é certo que não é difícil adaptá-lo para outras práticas.

Um ritual semelhante, porém de orientação mesopotâmica, é ensinado por Michael Cecchetelli em seu Mardukite Magick. Esse livrinho brevíssimo publicado pela Scarlet Imprint gira em torno da invocação do deus Marduk a fim de se estabelecer e aprofundar um contato com ele, podendo-se aproveitar essa aliança espiritual para uma série de coisas. O ritual preliminar utilizado aqui envolve abrir as seis direções (quatro direções cardinais mais acima e abaixo) com os nomes divinos de Marduk que ele recebe no Enuma Elish, mais ou menos num esquema parecido com o uso dos nomes de Deus na Cabala. Começa assim: “Voltando-se aos céus: Pelo nome ZULUMMAR, protege para mim o pico do templo de Amar-Utu”. Depois prossegue para o leste, sul, oeste, norte e para “as profundezas” com os nomes MARUKKA, ASARULUDU, MUMMU, EPADUN e TUTU, nessa ordem. Feito isso, Marduk pode ser tranquilamente invocado. De novo, é um ritual de abertura bastante específico e não vai ser muito interessante para quem não pretende trabalhar com Marduk ou divindades mesopotâmicas no geral, mas seu modelo pode ser útil.

Sam Block, além de ensinar o seu banimento angelical no blog, também nos oferece um modelo do que ele chama de um framing ritual, uma moldura, fundamento ou estrutura, que inclui fórmulas para limpeza, abertura do templo, invocações dos regentes da hora, planeta e signo zodiacal do momento e os guardiões das quatro direções, depois também umas fórmulas de agradecimento e encerramento. Tudo é feito dentro de um molde cerimonial hermético, inspirado pelos Papiros Mágicos Gregos (de fato, a maioria das fórmulas e nomes de poder aqui são retirados diretamente dos Papiros). Por um lado, trata-se de um ritual longo e complicado que eu imagino que a maioria das pessoas não teria paciência para fazer (é preciso consultar uma tabela para conferir os regentes corretos, por exemplo, e recitar vários nomes bárbaros), mas é poderosíssimo e o que quer que você faça no miolo desse ritual vai ser amplificado em muitas vezes em comparação a como seria se você fizesse o seu trabalho no seco. 

Para quem quiser ter um gostinho, sem precisar ir tão a fundo, eu traduzi e adaptei um pedaço dela, incluindo a aspersão no começo e a invocação da luz e do guardião do dia, que vocês podem conferir na sequência:

(Com aspersão de água lustral num punhado de folhas de louro) Fora, fora, espíritos polutos, espíritos malignos, fora, fora! Que todos os profanos sejam expulsos e apenas o que é sacro aqui permaneça. 
(Ao acender a vela) Eu te conjuro, Ó Fogo, dáimon do santo Amor, o invisível e múltiplo, o uno e onipresente, para que habites esta luz neste momento, reluzente, sem te apagares, pelo comando de Aiōn! Sê grande, Ó luz! Vinde, Ó luz! Ergue-te, Ó luz! Eleva-te, Ó luz! Vinde, Ó luz de Deus! Ó face reluzente de Helios [ou, se à noite, “anjo reluzente de Selene”], servo de Deus, cuja mão é este momento, pertencente à hora X do dia/noite, traz tua luz a mim! 
(Invocação do regente planetário) Ó, santo deus, [nome aqui], servo de Deus, cuja mão é este momento, que rege este dia, traz tua luz a mim! (concluindo com a fórmula da retenção da luz) Eu te conjuro, santa Luz, em largura, profundidade, comprimento, altura e refulgência, por IAŌ SABAŌTH ARBATHIAŌ SESENGENBARPHARANGĒS ABLANATHANALBA AKRAMMAKHAMAREI AI AI IAŌ AKS AKS INAKS, para que permaneças ao meu lado na hora presente, até que eu realize o que desejo fazer. Agora, agora, de imediato, rápido, rápido!

Sam também oferece outras preces poderosas num post recente, no geral centradas no louvor a Deus e invocação de seu poder — sem, no entanto, recorrer a um imaginário teológico mais especificamente judaico, cristão ou muçulmano, apesar de beber de todas essas fontes. Eu recomendo demais conferir esse material.

Um outro modelo utilíssimo (e bem mais breve) é o indicado por Rufus Opus em seu Seven Spheres, um livro de magia planetária em que o magista procura os arcanjos dos sete planetas (Gabriel, Rafael, Anael, Miguel, Camael, Tzadikiel/Sachiel, Tzaphkiel/Cassiel) buscando ser iniciado por eles, aumentando seu poder a cada iniciação. O ritual preliminar de abertura deste livro também é de inspiração hermética e inclui, no final, um trecho também retirado do Bornless Ritual (de que eu já falei no texto sobre os PGM). Diz ele:

Pai Primeiro, fonte de toda Luz, que te assentas em escuridão absoluta e eterna, tu que expressaste por tua Palavra tudo que é; tu que, com o amoroso Spiritus Mundi, moldou-me à tua imagem como um deus criador divino, te invoco agora para abençoar e consagrar estes ritos. (acende uma vela branca e traça um círculo começando no leste) Eu consagro este terreno para nossa defesa, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. (volta-se ao norte e pronuncia a fórmula, visualizando-a com as palavras escritas sobre sua testa, formando uma coroa) AÓTH ABRAÓTH BASYM ISAK SABAÓTH IAÓ. Faz com que todo espírito esteja sujeito a mim, que todo espírito do firmamento e do éter, sob a terra e sobre a terra, em terra firme e sob as águas, do ar que rodopia e do fogo que corre, que todo encantamento e flagelo me sejam obedientes.

Na sequência, ele engata outras preces mais específicas, invocando o “assistente sobrenatural” e abençoando a bola de cristal e o incenso, antes de prosseguir com a evocação em si. Este ritual é útil, seja para ser usado como está ou como base para elaborar uma oração própria (a menção à trindade pode ser meio brochante para quem não tem simpatia pelo cristianismo, mas dá para substituir por algo mais genérico como “em nome da Luz Divina” ou do Aiōn ou algo assim).


Os sete selos do Apocalipse, em ilustração de Lévi.

Para quem curte os clássicos, temos a prece cabalística do livro de Éliphas Lévi, O Ritual Mágico do Sanctum Regnum, uma série de rituais e meditações sobre os arcanos maiores, que eu já mencionei no texto sobre magia com o tarô. Eu a traduzi e a transcrevo abaixo:

Sê favoráveis para comigo, Ó Potestades do Reino Divino.
Que a Glória e a Eternidade estejam a minha mão esquerda e direita, para que eu obtenha a Vitória.
Que a Piedade e a Justiça restaurem minha alma à sua pureza original.
Que a Razão e a Sabedoria Divinas conduzam-me à Coroa imperecível.
Espírito de Malkut, tu que te empenhaste e superaste; põe-me no Caminho do Bem.
Guia-me aos dois pilares do Templo, Jakin e Boaz, para que eu me apoie neles.
Anjos de Netzach e de Hod, fazei com que meus pés se firmem em Yesod.
Anjo de Gedulah, consola-me. Anjo de Geburah, golpeia se precisares, mas fortalece-me para que eu seja digno da influência de Tiphereth.
Ó Anjo de Binah, dá-me Luz.
Ó Anjo de Chokmah, dá-me Amor.
Ó Anjo de Keter, concede-me a Fé e a Esperança.
Espíritos do Mundo Yetzirático, retirai-me das trevas de Assiah.
Ó triângulo luminoso do Mundo de Briah, faz com que eu veja e compreenda os mistérios de Yetzirah e Atziluth.
Ó Letra Sagrada, Shin.
Ó Ishim, assisti-me pelo nome Shadai.
Ó Kerim, dai-me forças por Adonai.
Ó Beni Elohim, dai-me vossa fraternidade pelo nome Tzabaoth.
Ó Elohim, lutai por mim pelo Santo Tetragrama.
Ó Melakim, protegei-me por Jehovah.
Ó Serafim, dai-me o santo amor pelo nome Eloah.
Ó Chashmalim, iluminai-me pelas tochas de Eloi e da Shekinah.
Ó Aralim, anjos do poder, dai-me sustentação por Adonai.
Ó Ophanim, Ophanim, Ophanim, não vos esqueçais de mim e não me expulseis do Santuário.
Ó Chaioth HaKadosh, gritai alto como uma águia, falai como um homem, rugi e urrai.
Kadosh, Kadosh, Kadosh.
Adonai, Jehovah, Ehyeh asher Ehyeh.
Hallelujah. Hallelujah.
Hallelujah.
Amen. Amen. Amen.

Esta prece é interessante, porque passa por toda a Árvore da Vida, pedindo o auxílio dos anjos de cada sefirah para elevarem o magista, de modo que Malkut abra o caminho, Hod e Netzach o sustentem sobre Yesod e a Chesed (Gedulah) e Geburah fiquem ao seu lado⁴. Essa distribuição de tipos de anjos e os nomes divinos associados são bastante tradicionais, apesar que quem estiver acostumado com as tabelas da Golden Dawn e do Liber 777 vai reparar que alguns nomes são diferentes. Há também menção aos quatro mundos cabalísticos (Assiah, Yetzirah, Briah e Atziluth), pelos quais flui a realidade a partir da fonte em Deus. Meu único problema com essa prece é que eu sinto falta de algo mais aprofundado nela, ela me parece muito construída como se fosse baseada numa tabela mesmo. Não é uma grande demonstração de dotes poéticos e ter umas imagens mais marcantes não faria mal. Mas enfim, isso sou eu pegando no pé. Sobre suas funções, diz Lévi: “Esta prece deve ser usada todo dia, de manhã e ao entardecer, e deve ser recitada como preliminar a todas as grandes cerimônias mágicas e cabalísticas; deve ser recitada voltado para o Oriente com os olhos erguidos aos céus ou fixos no emblema cabalístico do sublime Tetragrama”.

Por fim, das últimas grandes preces, convém citarmos ainda a Grande Invocação, de Alice Bailey. Quem tem alguma familiaridade com a Teosofia ou a Fraternidade Branca já deve ter lido ou ouvido essas palavras: 

Do ponto de Luz na mente de Deus, 
Que flua luz à Mente dos homens, 
Que a Luz desça à Terra.
Do ponto de amor no coração de Deus, 
Que flua o amor aos corações dos homens, 
Que o Grande Professor retorne à Terra.
Do centro onde a Vontade de Deus é conhecida,
Que o Propósito guie as pequenas vontades dos homens,
O propósito que os Mestres conhecem e servem.
Do centro a que chamamos a Raça Humana,
Que se realize o Plano de Amor e de Luz,
E feche a porta onde se encontra o mal.
Que a Luz, o Amor e o Poder
Restabeleçam o Plano Divino sobre a Terra
Hoje e por toda a Eternidade.
Amém.

A Grande Invocação foi publicada pela primeira vez em 1945, transmitida a Alice Bailey por seu mestre espiritual, Djwal Khul, a quem é atribuída a autoria de muitos de seus escritos. Sua função é autoevidente: alinhar quem a invoca com o trabalho de colaboração na manifestação do Plano Divino como um ato de serviço à humanidade. Ela é muito utilizada na Cura Prânica antes das meditações, ainda mais nas ocasiões especiais de meditações da lua cheia como o Wesak, a lua da ascensão do Buda. É evidente que, caso você opte por incorporá-la à sua rotina, ela será mais útil para as práticas mais espirituais e de serviço do que como ritual preliminar antes de rituais para manifestação de propósitos menores e mais egoístas.

Agora, para quem é da bruxaria, essas opções devem ser menos interessantes, afinal o seu caminho geralmente vai contra essas noções de divindades de luz e harmonia, a própria figura da bruxa sendo consistentemente um personagem marginal — não por acaso, nas últimas décadas, conforme a Wicca tem perdido força, vem emergindo grupos de bruxaria mais ligados à chamada Mão Esquerda e que não se acanham de ir dançar com o diabo nos sabás. Nesse caso, Christopher Orapello & Tara-Love Maguire em Um guia à bruxaria tradicional: A vassoura, o cajado e a espada (quem leu meu texto anterior vai reconhecer esses nomes que eu venho citando ao longo deste texto) ensinam uma técnica que eles chamam de The Witches’ Compass, a “Bússola das Bruxas” (que eu carinhosamente apelidei de brúxola). Ela difere um pouco dos banimentos em função, apesar de algumas semelhanças estruturais, e constitui um ritual preliminar ideal para os adeptos dessas tradições.

Como explicam os autores, a diferença entre a bússola e os banimentos é que os banimentos agem como uma fortaleza, barricando o espaço contra influências externas, de modo que nenhum espírito zombeteiro vá parar na bola de cristal enquanto você tenta bater um papo com Paralda, Lúcifer com o arcanjo Gabriel. Já a bússola serve para estabelecer o local do ritual como um tipo de “pista de pouso”: considerando que muito da bruxaria envolve “viagens” e “voos”, ter um local seguro para servir de ponto de saída e retorno é bastante útil. Para esse ritual, você precisa da “corda de soberania” que você cria anteriormente, como parte da sua autoiniciação, também descrita no livro, o cajado, oferendas aos espíritos do local (o ritual pressupõe que você está realizando-o ao ar livre, mas pode ser feito em casa também), uma bússola para identificar o norte e objetos como pedras, tochas ou velas para marcar as quatro direções. Primeiro você identifica o leste, faz as oferendas e um centramento, mantendo o silêncio durante alguns ciclos de respiração. Então bate o pé três vezes, declara sua intenção e marca as quatro direções com o cajado e deixando os objetos nelas. Se quiser fortificá-lo, você traça um círculo com a espada e purifica e abençoa com incenso e água com sal. Por fim, você dança ou perambula na direção horária recitando o cântico:

I take a step and travel forth
To journey, beyond, up, and down
From top of tree, to solid ground.

To journey on through blackest night,
To seek the chill and terror fright.
To visit worlds and those be gone,
Beyond horizons and through the dawn.

I travel through, betwixt I know,
Between the worlds and hedges go.

Over the hill and down the way,
To claim the night and rule the day.
By east, by south, by west, and north…


(Como a desgraça do cântico é rimado, eu só tenho o livro no original e meus dias de traduzir poesia por lazer já estão no passado, eu deixo aqui o texto em inglês mesmo.)

Diferente também dos banimentos, este você não faz antes e depois do ritual, só antes e aí conclui varrendo, guardando seus objetos e agradecendo depois.

Por fim, umas palavras de despedida. É possível ainda combinar rituais preliminares: você pode tranquilamente abrir um ritual com a prece do Rufus Opus, fazer um banimento e recitar a prece de Lévi, ou recitar a Grande Invocação e abrir as quatro direções cabalisticamente. Há poder nisso, mas, é claro, assim o ritual fica mais longo e é preciso tomar cuidado para não misturar coisas que não combinam. A bússola das bruxas não dá muita liga com a prece cabalística de Lévi, por exemplo, mas, dependendo do que você pratica, se tiver uma guinada meio grega, pode combinar com o ritual do Sam Block, tirado dos PGM. Por isso, cuidado.

E, não, não é preciso memorizar essas fórmulas e preces todas, pelo menos não a princípio. Eu recomendo demais ter um caderninho ou grimório para anotá-las e então consultá-lo na hora dos rituais. Com a repetição, você rapidinho decora e a coisa toda flui fácil, mas enquanto isso não rola, ter uma colinha não faz mal (além do quê, o próprio grimório assim acaba acumulando uma boa carga de energia). Ter um bom ritual de abertura deixa tudo mais elegante e coeso, fortalecendo o que quer que você queira fazer.

* * *

Notas

[1] Banimento é uma palavra às vezes usada como referência a um tipo de exorcismo, no sentido de expulsar, banir um espírito específico. Em alguns casos, ainda é entendida como um banimento de pessoas, meio como as práticas de hot-footing do Hoodoo.

[2] Echols, em Angels and Archangels, descreve um ritual que ele chamou de Celestial Lotus, uma customização do Ritual Maior de Invocação do Pentagrama que, além de invocar os quatro arcanjos elementais, vai somando outros, como os dos planetas, do zodíaco, dos decanos, etc. Sua função não é apenas como banimento, porém, e mais como um ritual para gerar energia divina para fortalecer um trabalho ou para derivar “sustância espiritual”. O ritual do Sam é parecido, mas sem a parte das práticas da Golden Dawn.

[3] Lendo o texto e o relato, nota-se que é uma fórmula extremamente forte e violenta, tipo limpar as coisas com cloro. Eu reservaria esse tipo de prática para quando se está precisando de proteção adicional.

[4] Você também pode substituir as fórmulas impessoais “anjos da sefirah x” pelo nome dos anjos utilizando um esquema como o da Golden Dawn, segundo o qual o anjo da Lua, Gabriel, fica em Yesod, e por aí vai. Para esse modelo, você pode conferir o Angels and Archangels também.

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