Os mistérios da magia com o tarô

Eu já aludi anteriormente aos usos mágicos dos sistemas divinatórios, no sentido de usá-los para manifestar resultados, em meu texto para ajudar a escolher oráculos. Agora vale a pena explorarmos mais a fundo esta possibilidade — afinal, esses sistemas são tão completos que é o tipo de coisa sobre a qual dá tranquilamente para basear toda a sua prática mágica.


Um arranjo para magia do tarô no esquema ensinado por Donald Tyson (falaremos mais dele abaixo): uma carta de corte (no caso, o cavaleiro de paus) simboliza o magista, situado na cruz elemental dos quatro ases e dentro da roda dos arcanos do zodíaco. À frente dele, temos o triângulo composto pelos três arcanos dos elementos, e dentro um arcano menor que representa as intenções: no caso, o 10 de ouros, num ritual de prosperidade. Reforçando esta intenção, a carta de Júpiter, a Roda da Fortuna, sobre a carta de Sagitário, A Temperança.

A lógica de se utilizar oráculos, como o tarô, a geomancia ou runas, para trabalhos mágicos com propósitos palpáveis (“feitiços”) é bastante simples. Uma forma de se entender a magia é como um ato de comunicação, uma troca de informações, com o mundo invisível. Nesse processo, podemos ter uma posição ativa, enviando informações como “que meu desejo de ganhar na loteria se cumpra”, ou receptiva, recebendo as informações, como “você vai ser atropelado por um carro na Praça da Sé”. Em ambos os casos, essa comunicação é feita com mais facilidade por sistemas simbólicos — mesmo o ato de disparar um sigilo pode ser entendido como nada mais do que tentar enfiar um símbolo na realidade, ainda que, nesse caso, trate-se de um símbolo privado, diferente dos símbolos partilhados e fortalecidos pelos séculos de pessoas trabalhando com eles¹. Nesse sentido, um mesmo sistema que serve para receber essas informações, claro, também pode ser usado para emiti-las. Nós podemos tirar uma carta como o arcano menor 10 de ouros, prevendo uma situação de prosperidade, ou podemos usar o arcano de 10 de ouros para materializar essa situação, como na imagem acima.


Tirinha maravilhosa do Rafael Salimena. Atenção pro detalhe do tetramorfo na carta do Carro (sendo dirigido por um funcionário de terno e gravata)

Pela facilidade de referência, dada a popularidade do tarô, eu vou me concentrar aqui em magia com esse oráculo (motivo pelo qual eu escolhi este título), mas vou aludir brevemente à geomancia e às runas no finalzinho do texto — a lógica é semelhante, afinal.

Indicações bibliográficas

É evidente que eu não fui, nem de longe, o primeiro a conceber essa ideia. O célebre Éliphas Lévi redigiu, em algum ponto de sua vida, um manuscrito chamado O Ritual Mágico do Sanctum Regnum, publicado postumamente, em 1896, na tradução para o inglês de William Wynn Westcott, cofundador da Golden Dawn. Neste livro, Lévi parte de cada arcano maior, em sequência, começando com o Mago e terminando com o Mundo, com o Louco logo antes², para propor certas reflexões e meditações sobre a forma como cada arcano explica os processos no desenvolvimento e amadurecimento do praticante de magia cerimonial — ou seja, é menos a jornada do Louco e mais a jornada do Mago. No caso da maioria dos arcanos temos apenas reflexões pertinentes, mas para alguns ele oferece procedimentos práticos como a consagração de ferramentas e rituais iniciáticos ligados aos elementos (o Imperador), aos planetas (a Imperatriz) e aos signos do zodíaco (o Carro). Suas pesquisas mágicas com o tarô tiveram uma influência profunda no trabalho que a Golden Dawn desenvolveu posteriormente, apesar de eles seguirem por caminhos distintos³.

Agora, no século XX e XXI, foram inúmeras as publicações sobre o assunto. Para listar só as que eu tenho a mão aqui, eu conto oito livros, em ordem alfabética de sobrenome dos autores:

  • The Divine Arcana of the Aurum Solis — Using Tarot Talismans for Ritual & Initiation, de Jean-Louis de Biasi;
  • Tarot Talismans: Invoke the Angels of the Tarot, de Sandra Tabatha e Chic Cicero;
  • The Tarot Grimoire: The Magick of the Opening of the Key Spread, de Henry Ho;
  • Tarot Magick: Harness the Magickal Power of the Tarot, de Baal Kadmon;
  • Tarot and Magic: Images for Rituals and Pathworking, de Gareth Knight;
  • Tarot & Magic, de Donald Michael Kraig;
  • Tarot Spells, de Janina Renee;
  • Portable Magic: Tarot Is the Only Tool You Need, de Donald Tyson;

Desses volumes, os mais substanciais são os de Biasi, dos Cicero e do Tyson, por isso vou começar comentando os outros primeiro.

Dentre eles, o que eu menos gosto é o do Baal Kadmon e já explico o porquê. Nesse livro, ele trabalha apenas com os arcanos maiores, cada um dos quais representa uma intenção. A maioria dessas intenções está ligada a objetivos mais internos do que externos, como “a Morte: um Ritual Para Abrir Mão do Passado” ou “a Torre: um Ritual Para Se Libertar do Ego Destrutivo”, o que insere o seu livro mais no território da psicomagia do que qualquer outra coisa (no sentido de que mesmo quem não acredita em energias ou espíritos pode praticar como um tipo de terapia lúdica sem se sentir muito ridículo). Apenas um ou outro visa resultados mais materiais, ainda que também possa ser um por viés mais psicológico (“o Imperador: um Ritual Para Obter Estabilidade na Vida” e “o Sol: um Ritual Para Obter Sucesso em Todas as Coisas”). O método que ele ensina até que é interessante: você pega o arcano maior com o qual deseja trabalhar e o coloca no centro do altar, então faz uma prece e tira 5 cartas, que devem trazer algum insight para se obter esse desejo, depois carrega a carta consigo durante 10 dias, põe embaixo do travesseiro para dormir e tudo mais.

Meus problemas com o Kadmon são os seguintes: primeiro, que ele me cheira a farsante — sua página na Amazon diz que ele é historiador e fala hebraico (clássico e israelense!), árabe, ugarítico, aramaico, grego e latim, e seus inúmeros livros tratam de tudo, desde magia com Jesus, Maria e os 72 anjos do Shemhameforash até demônios, Lilith e divindades hindus. Eu desconfio demais de quem tem uma área de abrangência desse tamanho. E, ao mesmo tempo, apesar de sua formação toda, sua redação está, no máximo, no nível de um vestibulando. Esse livro não é apenas simples, mas simplório, e Baal Kadmon parece ter sempre uma abordagem extremamente superficial a tudo que faz. Depois, temos os problemas de âmbito técnico, derivados de você carregar e dormir com uma carta de tarô por aí — primeiro, o problema mais mundano, porque a carta vai amassar (e tarô é caro), segundo porque, seguramente, se você andar o tempo inteiro com o arcano da Torre no bolso, você vai atrair forças que vão além dessa intenção de “se libertar do ego destrutivo”: as energias da Torre derrubam tudo que não tiver uma base sólida na vida, o que pode ser útil em certos momentos, mas seria bem complicado você fazer o ritual com a intenção dada no livro e aí de repente acabar divorciado e desempregado. Já ouvi relatos de gente que teve sérios problemas depois de dormir com a Torre embaixo do travesseiro. Por isso, cuidado.

Em contraste, o livro da Janina é surpreendentemente bom— surpreendentemente, porque ela parte daquele background meio New Age que faz qualquer ocultista mais sério torcer o nariz. No entanto, ela ensina um formato ritual sólido, com invocações, afirmações, meditações e gestos rituais para cada intenção e um grau considerável de complexidade. Ela também vai além da psicomagia, do tipo “ritual para ter mais autoconfiança” e oferece fórmulas para proteção, boa sorte, prosperidade, saúde, emprego, boa colheita e até mesmo para encontrar animais perdidos.


Não inspira muita confiança, né? Mas é o caso clássico de não julgar o livro pela capa

Seu Tarot Spells é um livro de receitas, com 72 fórmulas prontas constituídas de combinações de arcanos maiores e menores: por exemplo, um ritual para inspiração artística inclui a Lua, a Estrela e o Mago; para preservar a beleza e a saúde e combater o envelhecimento, usa-se uma combinação do ás de copas, a Roda da Fortuna deitada com o Enforcado em cima e a Estrela. Alguns rituais envolvem um significator, uma carta que representa a pessoa para quem o ritual está sendo feito, prática recorrente na cartomancia e em magia com tarô — com frequência é uma das cartas de corte, mas Janina inclui indicações em linhas gerais para se usar qualquer um dos arcanos. Para proteção, por exemplo, essa carta fica no centro, cercada pelo Carro em cima, a Estrela à direita, a Temperança à esquerda e o quatro de paus embaixo. O único problema desse livro é o problema de qualquer livro de receitas: ele está limitado aos 72 rituais que ele ensina… no entanto, 72 é muita coisa e ela cobre as principais preocupações da maioria das pessoas. Se você não entende muito de tarô, é só seguir tudo à risca (a velha máxima do siga simples instruções). Se você entende, você sabe como customizá-los ou como usá-los como inspiração para rituais próprios.

O livrinho do Henry Ho tem um título meio enganoso. Seu foco não é tanto magia com o tarô, apesar de o tema aparecer em algum ponto, mas ensinar a usar uma tiragem do baralho de Thoth chamada The Opening of the Key. Essa tiragem é bastante complexa e profunda, sendo feita em várias etapas, exigindo conhecimentos de Cabala hermética e astrologia… como tudo com o Thoth. Seu trunfo mágico é que ela diagnostica aberturas para mudanças por meio de cartas que saem em certas posições da tiragem e oferecem possibilidades para se meditar sobre elas e invocar sua energia ou evocar o espírito ligado à carta por meio das correspondências do tarô. Ele não tem maiores instruções sobre evocação, mas inclui algumas técnicas de magia energética derivadas de Bardon.

E então chegamos aos dois Tarot (and) Magic(k). Kraig foi um autor consagrado de ocultismo contemporâneo que dispensa apresentações, e o seu livro é uma ótima introdução à prática de magia com tarô baseada no sistema da Golden Dawn. Ele discute questões de correspondências também, Cabala, teoria mágica e tudo o mais, além de ensinar métodos de rituais com o tarô, trabalho de pathworking e viagem astral, usos talismânicos do tarô e até mesmo magia sexual (!) com os arcanos. Porém, com tanta coisa aí, é um livro que sofre de uma certa superficialidade e arbitrariedade — os capítulos não constituem uma prática em que eles se construam um sobre as técnicas anteriores, por exemplo, e ele não dedica muitas páginas a cada questão. Porém, é uma bela introdução ao assunto. Em contraste, o livro de Knight é incrivelmente profundo: ele começa com uma história do tarô muito bem pesquisada e cheia de referências, então mergulha no seu vocabulário simbólico e imagético, comparando as várias versões do baralho e discutindo sua sabedoria. Apesar de passar pela Cabala, ele comenta que ela não é necessária para trabalhar com os arcanos… o que é um alívio no meio ocultista. O cerne do livro, como o título diz, são as práticas de pathworking, meditações guiadas sobre as cartas que constituem um tipo de viagem astral e servem para obter insights reveladores sobre os arcanos, mas também sobre a própria vida espiritual do praticante. Seus rituais, no entanto, não são voltados ao praticante solitário, mas a magistas de organizações mágicas ou covens, com os membros do ritual assumindo os papéis das figuras dos arcanos ou de combinações de arcanos.

Por fim, algumas palavras sobre os livros de Tyson, Cicero e Biasi. Esses volumes são o mais longos e complexos: em vez de ensinarem uma técnica ou conjunto de técnicas, cada um deles trabalha com todo um sistema baseado no tarô e é esse sistema que eles procuram ensinar. Os Cicero são pratas da casa da Ordem da Golden Dawn, por isso não é surpreendente que o método do seu livro opere por essas linhas — inclusive eles ensinam, pela milésima vez, o Ritual Menor do Pentagrama. Ao longo das 300 páginas desse livro, eles cobrem questões teóricas, passam pelas funções e associações dos elementos, planetas e signos zodiacais, pela Árvore da Vida cabalística, deuses, anjos e nomes divinos. A principal ênfase do livro é dada à criação e consagração de talismãs, utilizando para isso todos os recursos à disposição de um iniciado da Golden Dawn. Os anjos do tarô aqui no título descrevem os nomes que regem os elementos, planetas e signos, como consta nos tabelões do 777, mais os 72 anjos do Shemhameforash que regem os aspectos noturnos e diurnos dos 36 decanos — assim, estando os decanos ligados aos arcanos menores, do 2 ao 10 de cada naipe, temos dois anjos para cada arcano menor (essa também é a mesma lógica de se ligar os 72 demônios da Goetia aos arcanos menores).

Já Biasi segue por outro caminho: ainda que sua orientação também seja talismânica e voltada à magia cerimonial, suas afiliações são com a Ordo Aurum Solis, uma ordem britânica que partilha de algumas semelhanças com a Golden Dawn (ambos descendem do Hermetismo, afinal), mas seu universo imagético é preenchido mais por símbolos de um viés grego do que hebraico. Assim, suas correspondências do tarô não seguem a lógica das letras hebraicas — inclusive, Biasi faz uma crítica severa e bem fundamentada à distribuição clássica dos arcanos maiores do tarô na Árvore da Vida feita pelos ocultistas ocidentais, com alfinetadas direcionadas a Mathers e companhia, da ordem rival. Em vez disso, a Aurum Solis atribui a cada arcano maior uma correspondência com um deus grego de acordo com um raciocínio próprio, no qual o Sol e a Lua são Hélios e Selene, tudo certo, mas o Hierofante é Zeus, a Morte é Cronos, a Justiça é Atena, o Carro é Posêidon e por aí vai. Não por acaso, eles têm um tarô próprio (cuja arte é infelizmente horrível) e é sobre ele que se fundamenta o livro de Biasi.


“Ronald, eu não tô bem não”

Agora o livro de Tyson difere de todos os outros, porque, por mais que ele venha de um background cerimonial e utilize as atribuições da Golden Dawn, seu sistema mágico é uma invenção sua, original, e parte do princípio, como diz o título, de que o tarô é a única ferramenta de que você precisa. Nada de construir e consagrar varinhas, pentáculos e o escambau — nem velinha ou incenso precisa acender nesse método dele. Tyson ensina a conjurar essas forças no astral, ancoradas nas cartas dispostas no altar. A lógica dele é que geralmente esse ancoramento das forças astrais no plano material é feita por todos os gestos do teatrinho cerimonial comum, mas aqui esse teatrinho passa a ser representado pelas cartas, em vez do seu corpo. Para isso, Tyson recorre a um esquema no qual usa-se uma carta de corte para representar o magista (um significator, portanto), que se insere dentro de uma cruz formada pelos ases dos quatro naipes, por sua vez inserida num círculo construído pelas 12 cartas zodiacais — assim situamos o magista no centro do universo constituído pelo círculo zodiacal e os quatro elementos. À frente deste círculo, fica um triângulo formado pelas 3 cartas elementais (o Louco, o Enforcado e o Julgamento), no estilo do triângulo clássico de evocação, e as cartas que sobraram para serem usadas para simbolizar a intenção do magista são as 36 cartas dos arcanos menores de 2 a 10, que devem ser inseridas, sozinhas ou empilhadas, dentro do triângulo. Por fim, pode-se ainda invocar as forças dos planetas com os 7 arcanos planetários, colocando-os junto com as cartas dos signos que eles regem no círculo, reforçando o trabalho.

Parece complicado falando assim, mas é porque eu estou tentando resumir em um parágrafo o que ele leva dezenas de páginas para fazer. Seu sistema é engenhoso e criativo, reproduzindo sobre o altar todo o drama da alta magia sem que você tenha que se dar ao trabalho de vestir um robe e fazer toda a cerimônia de fato. O melhor, para a maioria dos meus leitores, é que ele faz isso com um mínimo de fórmulas e sem precisar entrar a fundo em noções de hebraico, anjos e nomes divinos. Seu trabalho é essencialmente energético, mas nada impede que ele seja combinado com a magia angelical dos Cicero também. No exemplo dado com a foto que eu tirei para ilustrar este texto, em que estamos conjurando o 10 de ouros, o Senhor da Riqueza na lógica da Golden Dawn, reforçado por Júpiter em Sagitário (Roda da Fortuna sobre a Temperança), seria possível reforçar o ritual com uma invocação dos anjos Sachiel /Tzadikiel, de Júpiter, e Laviah ou Hihaayah do decano de Mercúrio em Virgem, 20º-30º, que corresponde ao 10 de ouros (cujas invocações são os versículos 18:46 e 10:1 dos salmos, respectivamente).

Princípios da magia com tarô

Lendo comparativamente todos esses livros, nota-se o princípio básico de que os arcanos representam arquétipos e situações, junto com suas respectivas energias, que podem ser evocadas e direcionadas, seja na sua vida, seja na vida de outra pessoa. O fascinante para mim é a pluralidade de abordagens, que variam do intuitivo e New Age à toda a complexidade abstrusa da magia cerimonial. Esses sistemas são bastante funcionais, me parece, e vale a pena experimentá-los. Como vocês bem sabem, eu tenho uma certa ojeriza a essa prática popular dos caoístas contemporâneos de ficar criando e compartilhando servidores públicos, e tenho para mim que, se esse pessoal soubesse fazer magia com o tarô ou outros oráculos, iam parar com essa farra de servidores. Com 78 possibilidades, fora as inúmeras combinações de cartas, o tarô oferece formas de trazer à tona quase todo tipo de situação que você desejar, se você souber como lidar com ele.

O método que eu pratico é próprio e infelizmente não tenho permissão para divulgá-lo, porém posso explicar sua lógica e linhas gerais: meu viés também é cabalístico, orientado pela magia com um dos maiores livros de magia da história, o Antigo Testamento. Acontece que cada sefirá da Árvore da Vida (que representam os arcanos menores, enumerados de 1 a 10) e cada letra do hebraico (os caminhos na Árvore atribuídos aos arcanos maiores) tem uma associação com um dos versículos do Gênesis, segundo o livro Bahir, a partir dos quais dá para derivar fórmulas cabalísticas.

Mesmo tendo um método próprio, no entanto, ler livros de outros autores é sempre interessante para colher referências. Assim, com base nesses livros, dá para ver que você pode usar os arcanos para: meditação e pathworking (uma técnica popular é utilizar as cartas com figuras humanas para conversar com elas); invocação de suas energias e arquétipos (por exemplo, tornar-se próspero e paciente como o rei de ouros); evocação e direcionamento de uma única carta ou um conjunto de cartas, inclusive contando uma história; afetar pessoas a distância por meio do uso de cartas que as representem (você pode imobilizar um inimigo que esteja ativamente tentando lhe fazer mal representando-o com uma carta de corte deitada, com o 8 de espadas em cima, por exemplo); fortalecer correspondências astrológicas; criação de talismãs, seja talismanizando a própria carta ou um fac-símile⁴; e criar uma jornada iniciática começando com o Louco ou o Mago até o Mundo. E por aí vai.

Usos dos arcanos

Não temos espaço aqui para falar mais detidamente das inúmeras possibilidades oferecidas por cada arcano — para isso, recomendo muito que consultem os autores citados, especialmente os Cicero, Tyson e Kraig. Mas podemos dar umas dicas gerais.


6 de paus, 3 de copas, 8 de copas e 6 de espadas, no tarô RWS, para ajudar a visualizar

Via de regra, eu entendo que os arcanos maiores representam princípios e forças em grande escala, enquanto os menores são mais orientados a detalhes e situações específicas. Por experiência, posso relatar que, nas duas vezes em que eu fiz uso do arcano o Mundo, minha vida mudou drasticamente — no sentido de ter emprego novo, endereço novo, relacionamento novo. Por isso, esteja preparado para lidar com essas forças. Já os arcanos menores são muito práticos para problemas mais triviais. No caso do tarô Rider-Waite-Smith, eu gosto do 3 de ouros, com seus significados de divulgação no boca a boca e criação de contatos, inclusive utilizei recentemente para encontrarmos o contato de um bom dentista. O 6 de paus é bom para todo tipo de vitória e triunfo, inclusive acelerar a recuperação de alguém que esteja mal de saúde, e o 3 de copas pode trazer a reconciliação com alguém com quem você tenha rompido laços — enquanto o 8 de copas e o 6 de espadas fazem o contrário, mandando a pessoa para longe.

Para o naipe de espadas em especial parece difícil encontrar funções que não sejam destrutivas, do tipo “vou meter um 3, um 9 e um 10 de espadas na vida daquela vagabunda, ela me paga”, mas calma lá. Damien Echols, no seu recém-lançado Angels and Archangels, também tem uma seção dedicada aos anjos do tarô, em que ele faz referência aos anjos listados pelos Cicero, mas as funções de cada carta que ele dá são resultado de sua própria experiência e engenhosidade. Partindo da mesma lógica de que os planetas maléficos que causam violência e doenças (Marte e Saturno) também podem ser usados para prevenir esses males, a pobreza do 5 de ouros, a mágoa e a angústia do 3 e 9 de espadas, a tristeza do 5 de copas e a exaustão do 10 de paus podem ser mandados embora com esses mesmos arcanos.


Os arcanos mencionados neste parágrafo, que ninguém nunca quer tirar

Por fim, é importante atentar para o baralho que você usa. O tempo todo aqui estamos falando no Rider-Waite-Smith. Nele, o 7 de ouros é ótimo para receber dinheiro que estejam te devendo… mas, se usar o Thoth, em vez disso, cujo rótulo para esse arcano é failure, seguindo a atribuição da Golden Dawn como o “Senhor do Sucesso Malogrado”, o resultado vai ser bem diferente. Aliás, falando nisso, eu reitero o que eu disse no texto sobre oráculos: você deve manter separadas as funções dos seus baralhos. Uma vez decidido que um baralho vai ser para magia, apenas você deve manuseá-lo a partir de então e ele não deve ser usado mais para oráculos. Por isso, programe-se certinho para evitar confusão.

Outros oráculos

E é claro que o tarô não é o único oráculo que tem funções mágicas: as runas e a geomancia também oferecem essas mesmas possibilidades—a bem da verdade, no caso das runas, tudo indica que seu uso mágico é bem anterior ao divinatório, inclusive. Não vou me alongar muito aqui, mas boa parte do que foi dito se aplica a esses sistemas: eles também permitem pathworking e você pode utilizar tanto uma única runa para um dado trabalho quanto uma combinação, as chamadas bindrunes. No caso da geomancia, pode-se usar uma figura geomântica sozinha, uma triplicidade (duas figuras geomânticas independentes mais uma terceira que é resultado da sua soma, como na imagem aqui) ou todo um mapa geomântico com 15 figuras (12 figuras em estilo carta astrológica + testemunhas e juiz, que determinam o resultado final).


Uma triplicidade geomântica formada por laetitia, uma figura de fogo e Júpiter que representa felicidade, e puella, uma figura de fogo, água e terra, de Vênus, com o sentido de beleza e harmonia. Somadas, elas constituem Fortuna Maior, uma figura de água e terra, ligada ao Sol, que representa sucesso por conta das próprias forças. Um talismã assim poderia ser útil para artistas, por exemplo.

O grande trunfo desses dois sistemas é que, no caso das runas, as pedras em que elas são gravadas são em si talismãs bem mais práticos e duráveis do que cartas. Melhor ainda, com uma meia dúzia de riscos e talvez algum outro componente ritual, você pode traçar as runas em qualquer superfície, talismanizando-a (como algiz, uma runa de proteção, no batente da porta, por exemplo, como ensina a Ju Ponzi, minha grande referência no assunto), ou mesmo traçando-a no ar energeticamente.

No caso da geomancia, temos os sigilos geomânticos que constam em Agrippa que podem ser inscritos em talismãs e em velas e combinados com magia planetária. O Balthazar, do Balthazar’s Conjure, ensina a fazer magia de velas com esses símbolos neste vídeo do YouTube, e é uma técnica simples, pelo menos em sua forma mais básica, e versátil. Essas técnicas podem ser complementadas pelos mudras geomânticos que Sam Block ensina a fazer em seu blog (neste post e neste outro aqui). Como as figuras geomânticas são compostas de quatro elementos, cada um podendo estar ativo ou passivo, é fácil traduzi-las para a mão, usando os quatro dedos, fora o polegar, como equivalentes (indicador=fogo, médio=ar, anelar=água, mindinho=terra), que, por sua vez, podem estar estendidos (passivo) ou dobrados (ativo). E ainda dá para usar técnicas parecidas para se gerar mantras com eles (vide aqui e aqui), o que reforça o trabalho. Também as runas têm posturas do corpo associadas a elas (que imitam o desenho das letras) e fórmulas chamadas de galdr ou rune chants, como se pode ler no Futhark: a Handbook of Rune Magic, de Stephen Flowers, o cara que basicamente foi o responsável por introduzir o tema como o conhecemos hoje no mundo esotérico contemporâneo. Para magia geomântica, além do blog de Sam Block, convém conferir o The Art and Practice of Geomancy: Divination, Magic, and Earth Wisdom of the Renaissance, do John Michael Greer.

Essa possibilidade da magia de mãos vazias e de gravar seus símbolos em qualquer superfície são as vantagens práticas das runas e da geomancia, nesse quesito, em relação ao tarô, que depende de um baralho físico que precisa ser comprado e consagrado. Essas duas opções são ótimas também para quem não gosta de Cabala, nem de anjos, nem de magia cerimonial, temas que aparecem em quase todos os livros de magia do tarô. Em contrapartida, são vertiginosas as possibilidades criativas do tarô, como deu para observar. No fim, é claro, cada um vai optar pelo tipo de magia oracular com o qual tem maior afinidade. Eu só não recomendo misturar sistemas, exceto (e ainda assim com muito cuidado) no caso de eles estarem subordinados a um ritual maior e sempre depois de estudá-los a fundo. Por exemplo, combinar acquisitio e a Roda da Fortuna (uma figura geomântica e um arcano jupiterianos) num ritual de prosperidade de Júpiter ou então albus e o ás de copas num ritual do elemento água ou então o arcano o Sol e a runa sowilo (que significa… “sol”⁵) num ritual solar.

* * *

Enfim, estas são apenas algumas possibilidades. O importante, como sempre, é que você desenvolva algo que faça sentido para você e dentro da sua prática de forma mais ampla. Se você já mexe com anjos ou com a Golden Dawn, o livro dos Cicero vai ser valiosíssimo; se você tem uma prática energética robusta já, o do Tyson é excelente; se você chegou agora e não tem nada muito sólido ainda, o ideal, acredito, seria começar pelo da Janina.

Você pode praticar tal como consta nos livros ou se basear neles para desenvolver uma prática própria. Para ilustrar com um exemplo bem bobo, já que em nenhum caso falaram em combinar o tarô com magia natural, nessas linhas daria para fazer um triângulo com arcanos de fogo e abençoar um punhado de canela (um item de materia magica muito ligado ao fogo e ao Sol) num pires colocado em seu centro antes de ele ser soprado no primeiro dia do mês, numa prática que eu sei que muita gente já curte, para dar uma carga a mais no ritual mensal. Chame os anjos do tarô, vibrando seus nomes e recitando os versículos indicados, e peça suas bençãos.

Para quem prefere aprender com um professor (sempre melhor), meu amigo e tarólogo, o Ricardo Baratella, do Via Lunar Tarot (FBInstaTwitter), vai ministrar um curso em outubro que vai incluir o tema. Quanto a runas, tem rolado uns cursos da Ju Ponzi (eu só tenho amizade bruxona, é maravilhoso), em que ela toca tanto no assunto do seu uso divinatório quanto mágico. Ela também criou recentemente sua loja de runas, a Stryx Store. Então, fiquem de olho!

* * *

[1] Apesar das origens baixas das cartas, pode-se falar numa egrégora do tarô, constituída pelos séculos de pessoas que confiaram seus destinos nas cartas, enxergando-o como uma representação do cosmo. E ajuda também que tantos ocultistas o tenham utilizado para fazer magia divina com base na Cabala. Trataremos com mais atenção das questões teóricas sobre o porquê de esse tipo de magia funcionar (e possíveis paralelos com magia, tipo, com carta de Magic: the Gathering) num texto futuro.

[2] Como vocês lembram do meu texto sobre correspondências, o Louco na distribuição do Lévi fica na posição de arcano 21, equivalente à letra shin, e o Mundo como 22, letra tau.

[3] Os nomes dos arcanjos astrológicos de Lévi não batem com os da Golden Dawn, por exemplo. E a GD também não usa a posição do Louco como arcano 21.

[4] Em seu How to Make and Use Talismans, Regardie dá o exemplo de criar talismãs em papel reproduzindo a arte da carta. Para aqueles entre nós com menos talentos artísticos, como eu, você pode reduzir os desenhos das cartas a seus elementos mais básicos, formando sigilos dos arcanos, e reforçar o elo com outras referências que aludam às suas correspondências astrológicas, elementais e cabalísticas. Uma outra boa dica é usar a receita de condensador de fluidos de Franz Bardon e embeber o papel que vai servir de talismã nele.

[5] Apesar de ter o mesmo significado literal, no entanto, vale lembrar que a runa sowilo é um pouco mais enfática do que o Sol do tarô, por conta do contexto: o Sol para um escandinavo que passa meses na completa escuridão do inverno representa de fato uma salvação. E, por sua vez, as duas coisas podem não necessariamente ter a ver com os conceitos ligados ao Sol na magia planetária, tipo riqueza. Por isso é preciso tomar cuidado com as equivalências e pensar no propósito de cada ritual.

(Este texto foi publicado originalmente em meu Medium em 3 de agosto de 2020)

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