O que eu aprendi com a Magia do Caos — e o que tive que desaprender depois

Antes de mais nada, preciso confessar que eu devo muita coisa à Magia do Caos. Se não fosse pelos livros do Phil Hine, eu provavelmente ainda acharia que magia é bobagem, eu não teria entrado nesse caminho e estes textos que vocês leem não existiriam. E, claro, a minha forma analítica de enxergar a magia, dividida em sistemas e modelos, por mais que eu discorde das conclusões de autores caoístas (como os quatro modelos do Frater U.D.), deve muito a esse pessoal. Como alguém que apenas colecionava trívia e factoides sobre misticismo, ocultismo e história antiga de forma acadêmica, sem interesse em qualquer prática, nem mesmo cogitando a possibilidade de que qualquer coisa nesse meio pudesse ser real, o Caos foi perfeito para me instigar a experimentar e ver no que dava.

Afinal, como um sistema pós-moderno, ele apela para esse gosto pela diversidade de opções, que é típico da nossa época, e para um distanciamento meio irônico que permite praticar magia e, ao mesmo tempo, continuar mantendo uma postura cética descolada —aquela coisa tipo, “sim, eu faço meus corres, mas não sou como essas tiazonas cheias de cristal que acendem vela pra anjo da guarda tipo a Mônica Buonfiglio”. Esse apelo é uma isca perfeita para o jovem de classe média, alguma educação formal e nenhuma fé, a cria saudável do mundo desencantado¹. E nisso repousa um dos grandes méritos da Magia do Caos, acredito: ela não oferece maiores resistências para quem chega no rolê partindo desse pano de fundo, não é preciso fazer um grande esforço para aceitar uma cosmologia complexa como se vê na maioria dos sistemas. Como ela atribui a maior parte do poder da magia a símbolos, ao inconsciente e à capacidade da crença e da atenção de moldar a realidade — todos conceitos com os quais estamos já familiarizados — a transição fica mais suave. Qualquer um pode chegar, entender os fundamentos e já sair fazendo as coisas.


Um trecho do quadrinho Promethea (ed. 22), de Alan Moore, famosamente uma alfinetada em Grant Morrison e na Magia do Caos como um todo: “now it’s all sigils, stubble and self-abuse”. A tradução para o português está horrenda (“stubble” nesse contexto é barba por fazer, não restolho, e “self-abuse” é um eufemismo muito fofo para masturbação), mas dá para entender.

No entanto, dito isto, eu não me considero mais um caoísta faz muito tempo, e todo o trabalho que eu venho desenvolvendo desde, sei lá, 2017, me afastou imensamente dos seus axiomas essenciais. Este texto é uma reflexão sobre isso. E, claro, é uma reflexão pessoal que parte da minha trajetória. Se a sua experiência é diferente, que bom, fico feliz que você tenha se encontrado aí, mas para mim não deu e eu não acho que seja pelo meu entendimento dessa escola não ter sido profundo o suficiente.

Magia do Caos: de 1978 a 2020

Primeiramente, um pouco de história. Como todos sabem, a Magia do Caos (doravante só “Caos”, por praticidade) surge na década de 1970, na Inglaterra, num meio mágico dominado por ordens fechadas em estilo maçônico e pela filosofia esotérica complexa da Golden Dawn, Thelema e Wicca. As mentes por trás do Caos foram Peter J. Carroll e Ray Sherwin, que começam publicando artigos numa revista chamada The New Equinox e então, em 1978, criam a ordem dos Illuminates of Thanateros (IOT), a primeira organização mágica caoísta. No mesmo ano saem os volumes Liber Null, de Carroll, e The Book of Results, do Sherwin, inaugurando esta nova disciplina.

Suas influências eram ecléticas: xamanismo (não por acaso, o livro de Eliade sobre o assunto saiu em inglês uma década antes, em 1964), Thelema (Crowley muitas vezes é citado como o avô do Caos), taoísmo, Tantra e Zos Kia, o sistema mágico sui generis de Austin Osman Spare (1886–1956). Num nível mais estético do que técnico, podemos citar ainda o punk rock e os livros do discordianismo, como o Principia Discordia (1963) e a trilogia de romances Illuminatus! (1975–1984), de Robert Shea e Robert Wilson. O símbolo da caosfera, essa bola com oito setas saindo, foi derivado dos romances de fantasia de Michael Moorcock.

O objetivo de Carroll e Sherwin era chegar, podemos dizer, ao mágico em seu estado mais puro, aos princípios primeiros, livres da carga de simbolismos abstrusos acumulada ao longo dos séculos da tradição esotérica ocidental: Deus, sefiroth cabalísticas, elementos herméticos, planetas, a simbologia alquímica. Tudo isso era um obstáculo para se chegar no cerne da coisa toda. Não por acaso, eles recorreram ao estudo do xamanismo, uma vez que o estudo comparativo entre diversas culturas, como o feito por Eliade, revela uma similaridade de estrutura, como uma gramática oculta (num nível filosófico, é difícil também não enxergar aí uma tendência ao estruturalismo, por mais que eu não ache que eles tenham lido Lévi-Strauss), apesar da eventual dissimilhança dos símbolos usados. A influência de Spare nesse sentido foi igualmente crucial — Spare achava ridículo o teatrinho dos cerimonialistas e acabou criando um sistema mais despojado e livre de firulas, que foi a inspiração para as técnicas de magia de sigilos que se tornaram a marca registrada do Caos. Outros conceitos importantes aqui, adotados como reação à masturbação teórica dos “magistas de poltrona”, incluem ainda a ideia de que magia só se aprende fazendo e a ênfase dada à feitiçaria bem feita, à obtenção de resultados.


Sigilos, desenhos e rabiscos do Spare

O Caos cresceu muito nos anos 1980. Uma lojinha esotérica e editora chamada The Sorcerer’s Apprentice passou a publicar a revista The Lamp of Thoth, a sucessora da New Equinox, republicou o livro de Carroll e lançou mais dois livros da dupla, Psychonaut (hoje geralmente formando um volume único com o Liber Null) e The Theater of Results. Phil Hine também lista duas fitas relevantes que circularam nesse meio, chamadas “The Chaos Concept”, que discutia os fundamentos da Magia do Caos, e “The Chaochamber”, uma meditação guiada que substitui os elementos passadistas da maioria das meditações guiadas por elementos de ficção científica. Ao mesmo tempo, a IOT se expandia, chegando à Europa continental, graças aos esforços de Ralph Tegtmeier (Frater U.D.) na Alemanha, e Lola Babalon, nos EUA.

Os livros do Frater U.D., aliás, apesar das tretas em torno de sua figura², constam para mim como as grandes contribuições do Caos para a literatura mágica destinada a iniciantes. Seu Practical Sigil Magic, publicado em 1990, é um marco na área, e, nos anos 2000, o Die Schule der Hohen Magie, em dois volumes (publicado em inglês como High Magic: Theory and Practice e High Magic II) é um grande compilado de práticas diversas, que vão da magia popular com velas e cordas à magia bíblica à elemental e planetária e evocação de demônios. O caráter camaleônico do Caos permite que se experimente e incorpore tudo isso tranquilamente sem abandonar a perspectiva caoísta, motivo pelo qual o Caos é muitas vezes entendido como um metassistema³. Esses livros são uma ótima introdução a técnicas diversas para quem cansou de brincar com servidor e sigilo. Outros volumes relevantes do começo dos anos 1990 são o Visual Magick, de Jan Fries, e o Liber Kaos, de Carroll, que contém o famoso Liber Kaos Keraunos Kybernetos (batizado com o acrônimo meio infeliz de KKK), um programa de treinamento mágico.

Na frente artística, nomes relevantes incluem William Burroughs, famoso autor do romance Naked Lunch, do rolê beat, que foi parte do movimento do Caos e desenvolveu técnicas mágicas análogas às técnicas literárias pelas quais fez fama, como o cut-up e o playback; e Genesis P-Orridge, artista dos grupos industriais Throbbing Gristle e Psychic TV e membro fundador do Thee Temple Ov Psychick Youth, em 1981, coletivo mágico e artístico do qual fizeram parte outros membros da música experimental inglesa como o Coil e o Current 93. A assimilação das tendências esotéricas por artistas é um fenômeno bem conhecido, acredito, desde Rimbaud, Yeats e Pessoa até Tim Maia e Raul Seixas, sendo uma das marcas visíveis do sucesso de uma escola de ocultismo — e nisso o Caos teve muito sucesso. Além dos artistas já citados, temos o quadrinista Grant Morrison⁴, que, ao longo da década de 1990 publicou a série The Invisibles, concebida como um hipersigilo, uma obra mágico-artística visando a ter um efeito sobre a consciência coletiva e sobre a vida do magista. Morrison, que moldou seu protagonista King Mob em sua própria persona, inclusive conta os efeitos estranhos que a obra lhe trouxe, de modo que sua vida passou a refletir o que acontecia com seu alter ego. Na música, podemos listar ainda os nomes Aphex Twin, Fields of the Nephilim, Die Antwoord, Nurse With Wound, entre outros.

O Caos, porém, deu um passo além e transformou essa relação entre ocultismo e arte numa via de mão dupla. Autores escreverem sobre o oculto inspirados no ocultismo real é o normal, o contrário é que é estranho. E foi isso que o pessoal do final da década de 1980 e começo de 1990 estava fazendo, praticando magia inspirada por Lovecraft e Terry Pratchet. O trabalho com os horrores cósmicos conhecidos como “Cthulhu mythos” — Nyarlatothep, Azathoth, Yog-Sothoth, Shub-Niggurat, os Shoggoths e, claro, o próprio Tchutchuco — tem um antecessor em Kenneth Grant, outra figura que também tem elos com a obra de Spare, e sua Ordem Tifoniana, mas se torna popular mesmo entre os caoístas da década de 1990. É relevante apontar ainda que, em 1977, apareceu um livro que se apresentava como o Necronomicon, o famoso grimório escrito pelo Árabe Louco das histórias lovecraftianas, que faz uma mistura alucinada disso com mitologia suméria (como comentei no texto sobre o panteão mesopotâmico). Esse volume, conhecido como o Simon Necronomicon, logo provou-se ser um hoax, claro, mas o bizarro é que teve gente trabalhando com ele e obtendo resultados (o que eu pessoalmente, atribuo à presença de fórmulas sumérias reais ali). No caso de Lovecraft, fica uma dúvida aí se o que acontece é simplesmente um trabalho com formas-pensamento que costuma ser o que constitui magia baseada em obras de ficção, ou se Lovecraft, para quem essas entidades sinistras muitas vezes aparecerem em sonho, realmente canalizou alguma coisa em seus escritos. Eu tenho as minhas dúvidas sobre o quanto isso pode ser produtivo, dada a natureza conhecida dessas entidades, para quem a humanidade é menos que nada, mas, de longe, não deixo de achar fascinante.


Yog-Sothoth, arte de Giacomo Tappainer

Ao mesmo tempo, a internet e a cultura hacker, que teve sua apoteose na cultura pop em 1999 com Matrix, começava a se popularizar, e o Caos era o tipo perfeito de prática esotérica a ser adotada por esse pessoal, além de representar o meio ideal, então rizomático, anárquico e anti-hierárquico, ainda livre das garras de Zuckerberg e afins, para trocar informações além dos espaços restritos das ordens mágicas. E, de novo, a coisa da via de mão dupla: enquanto os escritos sobre Caos, sigilos e ideias de rituais circulavam online nesses grupinhos, o modelo computacional passou a oferecer um formato novo e interessante para entender a magia como “hackear a realidade”.

Foi nesse caldeirão de influências filosóficas, esotéricas e estéticas que se formou a Magia do Caos como a conhecemos hoje. Assim, quando Phil Hine publica seu influente Condensed Chaos, em 1995 (para mim, uma das melhores introduções ao assunto), a coisa toda já estava consideravelmente bem consolidada. Os princípios do Caos, segundo Phil Hine (cujo livro tem as bênçãos do próprio Carroll no prefácio), são: o anti-dogmatismo, a ênfase na experiência pessoal, a excelência técnica, o descondicionamento e a diversidade de abordagens. Parece bom, né? Razoável. É obrigatório também eu citar duas frases que fazem parte do repertório caoísta, de que “a crença é uma ferramenta” e de que “nada é verdadeiro, tudo é permitido”, frase atribuída a Hassan-i Sabbah, o “Velho da Montanha” e líder da ordem dos hashshashin (ou assassinos). Se podermos resumir a base do Caos em dois axiomas, seriam esses: a ideia de que nada tem uma verdade intrínseca e só vale a pena investir em acreditar em algo na medida em que essa crença pode ser útil, tanto no sentido mágico quanto no mundano.

Depois dos anos 2000, porém, é difícil identificar grandes inovações na área. Por outro lado, houve um backlash significativo. Se, no começo, nos anos 1980, as desconfianças quanto ao Caos e sua abordagem despreocupada e DIY serviram para aumentar seu apelo (pois era perigoso, edgy, etc.), agora muitos que estiveram envolvidos no rolê a princípio, como Christopher Hyatt, cansaram dos seus excessos e seguiram na direção contrária, resultando no grimoire revival que se vê hoje, traduzindo e retraduzindo os textos da velha guarda, tratando-os a sério e seguindo-os mais ou menos à risca. Outros voltaram às ordens tradicionais ou foram atraídos às religiões e práticas mágicas de matriz africana, como o Hoodoo, o Vodoun e a Quimbanda, o que, vale lembrar, não é tão comum na gringa. As tradições esotéricas iniciáticas do Oriente, do Tantra e do budismo Vajrayana também se tornam uma presença forte.

Já Grant Morrison, dando continuidade ao seu trabalho estético-mágico, publica um texto famoso em 2003 chamado “Pop Magic”, consolidando o que eu identifico como uma vertente do Caos que não parece ter muito a ver com o restante da corrente. A Pop Magic se concentra menos na natureza experimental originária do Caos e se ocupa mais com o trabalho com criações do imaginário coletivo contemporâneo, partindo da lógica de que personagens de ficção partilham do mesmo arquétipo dos deuses clássicos. A partir daí eles fazem o salto (esdrúxulo) de que, por isso, ambas as coisas seriam formas equivalentes de se chegar a essa mesma fonte de poder, e a atenção dedicada a elas por milhões de pessoas todos os dias seria um equivalente à devoção prestada aos deuses. Alguns autores contemporâneos discordam ferrenhamente disso, como Alan Chapman e Jason Miller, e fala-se inclusive numa era “pós-Caos” hoje, que se beneficia do que foi aprendido ao longo dos seus mais de 30 anos de história, mas sem se deixar levar pelos excessos que surgem quando levamos seus corolários às últimas consequências.

No Brasil, onde essas coisas são mais lentas e esse tipo de prática tem dificuldade para se firmar em meio à concorrência de inúmeras outras correntes esotéricas (aqui sempre foi um terreno fértil para isso), tivemos grupos de caoístas online muito ativos nesse meio digital dos anos 90 como o NOX (abraço, Mojo!), mas textos fundamentais como o Liber Null & Psychonaut só foram ser publicados por aqui em português agora, graças à editora Penumbra. Grupos de Magia do Caos são bastante populares no facebook, com dezenas de milhares de membros, mas o que mais se vê é o trabalho com servidores coletivos, motivo pelo qual os Quarenta Servidores de Tommie Kelly fizeram tanto sucesso por aqui. Todo caoísta mais sério vai dizer “Caos não é só sigilo e servidor” e eu concordo, mas, se você for se pautar pela prática que se vê por aí, meio que acabou virando isso sim.

O bom

Primeiramente, vamos ao que é aproveitável. Antes de mais nada, o Caos teve um papel importante na história da magia ocidental do século XX e eu acho louvável o espírito de experimentalismo ritual dos grandes caoístas desse período entre a década de 1980 e os anos 2000. Jason Miller, num texto sobre o pós-caos, comenta a ambição de Carroll em “usar a própria realidade como conjunto de símbolos”, o que, em tese, seria uma possibilidade potencialmente frutífera do Caos, que, no entanto, não foi o caminho trilhado pela corrente de modo geral. O lado estético também é interessante (eu gosto muito da obra do Burroughs e da música do Coil, por exemplo). Ocultismo tradicional é legal, mas dificilmente capaz de inspirar arte contemporânea que seja boa e não passadista.

Agora, no nível técnico, se pudéssemos reduzir o Caos a quatro práticas básicas essenciais e recorrentes, coisas que fazem parte do repertório de qualquer caoísta, que você encontra em todo manual desse sistema, elas seriam: banimentos, sigilos, “gnose” e mudança de paradigma.

Sobre banimentos, eu já escrevi bastante num texto anterior, minha conclusão sendo a de que eles não são obrigatórios se você faz outras práticas de limpeza, proteção e abertura de rituais, mas são muito práticos. O sigilo é uma técnica psicoenergética divertida — enquanto outras técnicas de magia psicoenergética com formas-pensamento trabalham na base da repetição da energização de um desejo, o sigilo concentra isso num momento só de energização intensa. O termo “gnose” descreve estados alterados de consciência, o transe mágico que, para os caoístas, é essencial à magia. Não é um transe profundo, tipo perder a consciência, só o suficiente para desligar o lado discursivo e racional do seu cérebro. O exemplo de gnose mais comum é o orgasmo, motivo pelo qual caoístas ganharam má fama, talvez merecida, por “bater punheta pra sigilo”. E, por fim, a “mudança de paradigma” é a habilidade de manter uma mentalidade mercurial, fluida, capaz de assumir qualquer visão de mundo temporariamente ao tratar todas elas como ficções úteis.

Dessas práticas, a mudança de paradigma é, para mim, apesar de sua utilidade para os neófitos, a menos interessante a longo prazo, por motivos que explicitarei mais adiante. Os verdadeiros trunfos técnicos do Caos são a descoberta da utilidade dos banimentos e dos estados alterados de consciência. Os banimentos condensam num único ritual breve uma série de técnicas e funções, que, de outro modo, exigiriam vários rituais separados: um para higiene da aura, um para limpeza do ambiente, um para proteção energética, e por aí vai. De novo, útil especialmente para iniciantes, mas ainda assim prático para os adeptos. Já os estados alterados de consciência têm a vantagem de que amplificam praticamente qualquer coisa que você faça. Mesmo um trabalho mágico bobo que acabe incluindo, por exemplo, repetir uma frase como mantra no cerne do ritual, até você ficar meio zureta, se torna bastante eficaz. Não por acaso, roteiros de rituais caoístas comuns costumam seguir a estrutura: 1. banimento; 2. declaração de intenção; 3. gnose, com alguma coisa envolvendo sigilo no meio; e 4. banimento de novo. Sigilos e técnicas de sigilação são uma mão na roda também. Se compararmos o Caos com outros sistemas, como o da Golden Dawn, que botava o neófito para fazer o Ritual do Pentagrama por um ano antes de aprender qualquer outra coisa, ou o sistema do Bardon de 10 etapas, que exige chegar na etapa 4 para fazer rituais com objetivos práticos, dá para dominar pelo menos um método de “gnose” em uma tarde e já conseguir construir e disparar um sigilo. Fazer isso e observar resultados logo de cara, por mais que pequenos e não muito úteis, ajuda muito a convencer o iniciante, ainda cheio de dúvidas, da realidade da magia.

Considerando que as premissas do Caos, em seu princípio, eram descobrir as estruturas subjacentes dos rituais e aplicá-las para potencializar suas práticas, visando a uma excelência técnica e obtenção de resultados, podemos dizer que, com o que vimos, esse objetivo foi concretizado. Mas aqui já começamos a entrar nos pontos problemáticos…

O mau

Um erro dos caoístas é, ao terem descoberto o que são, em essência, grandes macetes, eles confundiram o macete com uma obrigação que, confrontada com a realidade de outras práticas, fez com que eles tivessem então que dar muitas piruetas teóricas para suas explicações generalistas fazerem sentido fora das próprias práticas. É comum ver caoísta por aí que minimiza a utilidade de técnicas de limpeza como defumação, porque acha que qualquer banimento feito de qualquer jeito resolve tudo, e diminui outras tradições, especialmente de magia evocativa ou natural, porque seus rituais não envolvem “gnose”, porque acham que espíritos não existem de verdade ou porque acreditam que a função de todo material mágico é meramente de muleta psicológica — assim qualquer coisa pode ser substituída por qualquer outra.

A questão toda da gnose também é problemática, porque, na prática, é uma palavra que não quer dizer nada. Explico.


Imagem de Spare ilustrando, de forma muito estilizada, a death posture.

Tudo começa com Spare, que, como parte do seu trabalho em desenvolver a magia dos sigilos, elaborou uma técnica corporal chamada de death posture, “postura de morte”. Essa postura é como se fosse a versão death metal de uma asana de Yoga e envolve forçar o corpo de tal forma que induz um estado extático extremamente condutivo a energizar sigilos. Então, pensando nisso e comparando-o com outras práticas extáticas comuns a tradições mágicas do mundo inteiro como dançar, ouvir tambores, cantar mantras, hiperventilação, excitação sexual e uso de drogas, Carroll e companhia chegaram à conclusão de que o método de êxtase em si não importa: o que importa é atingir um estado alterado de consciência, que é o que se chama gnose. É isso que desliga o goleiro mental que é o chamado “censor psíquico”⁵, por quem o desejo mágico passa, chega no seu inconsciente e começa a se concretizar. Carroll coloca a questão sem qualquer ambiguidade no Liber Null: “Altered states of consciousness are the key to magical powers”. Ponto.

Tá, beleza.

Faz sentido… a princípio. Quando você não acredita de verdade em magia, a ideia do transe ajuda a suavizar as coisas. O nosso estado mundano de consciência não é lá muito condutivo à linguagem simbólica da magia, mas o transe vira isso do avesso e possibilita que coisas estranhas aconteçam. Conforme a consciência se torna mais maleável, fica sugerida a possibilidade de que a realidade se torne maleável também — não por acaso, a feitiçaria é associada à noite e a lugares ermos e afastados, momentos e espaços distintos do meio urbano bem povoado, onde parece que tudo pode acontecer. Então você lança o seu primeiro sigilo, seguindo as instruções, ele funciona e… bingo, você desvendou o segredo.

Como todo caoísta experiente gosta de lembrar, o mágico na magia de sigilos não é o desenho em si. Fazer o sigilo é só metade do caminho, ele precisa ser disparado — desenhá-lo e guardá-lo na carteira só, pela teoria caoísta, não vai ter efeito nenhum. É pelo transe, “gnose”, que ele é implantado no subconsciente e se concretiza. Em tese. Por isso raramente caoístas falam em talismanizar sigilos. Mas aí encontramos problemas: não tem gnose na construção dos talismãs astrológicos do Picatrix, das defixiones ou mesmo na magia simples de velas. O mínimo necessário para uma defixio é ter a tabuinha em si, ter o nome de um desafeto para escrever nela e um local ctônico para depositá-la. Nem o Sam Block em seu blog, nem o Patrick Dunn, em Postmodern Magic, no capítulo sobre defixiones, incluem gnose no passo a passo desse tipo de prática.

Explicar como a magia de outras tradições funciona, é claro, não é uma obrigação de nenhuma tradição. Mas o Caos, como metassistema e sabichão, precisa de uma teoria sobre tudo. Então, partindo pelo meu entendimento do Caos, há 2 formas de explicar um ritual desses da perspectiva caoísta:

  1. Como não há gnose, essas técnicas são ineficazes. Sim, porque todo mundo nos últimos milhares anos de magia estava fazendo tudo errado, certo é o ChaosBoy666 que tem delírios sexuais com servidores.
  2. O magista entra em gnose no ato de criar e depositar a tabuinha ou de criar o talismã. Nesse caso, rola uma dupla forçação de barra: primeiro, porque os objetos em si se tornam dispensáveis. Depositar a tabuinha numa cova ou criar o talismã na hora certa e guardá-lo ou enterrá-lo são gestos que só teriam importância porque o magista atribui importância a eles. Em tese, depositar a tabuinha no canto do seu quarto ou fazer o talismã em qualquer hora deve ter a mesma eficácia se você acreditar que vai ter (uma postura meio “fadas só existem se você acreditar nelas”, que me parece Peter Pan demais para o meu gosto). Em segundo lugar, porque você precisa pressupor que houve sim gnose, mas uma forma leve que é a mera concentração firme, a “condition of one-pointed consciousness wherein awareness is emptied of all save the object of concentration” de que fala Phil Hine. Se é possível chegar a essa condição só escrevendo e depositando uma tabuinha ou fazendo um desenho, então toda a complicação da death posture ou mesmo o esforço da punheta viram um trabalho desnecessário.

Christopher Orapello e Tara Love Maguire em Um guia à bruxaria tradicional também falam em estados de transe leve, associados ao chamado estado alfa das ondas cerebrais, mas nesse volume fica evidente que esse transe leve é fácil de entrar e é um estado preliminar à prática mágica e não o seu cerne.

Outros sérios problemas com toda a teoria caoísta são:

  1. A falta de diferenciação entre tipos de “gnose”. Peter Carroll e companhia distinguem entre os tipos inibitórios (mantras e meditação, por exemplo) e excitatórios (orgasmo, dança extática), mas é só isso, o que é uma distinção muito básica. Para eles, não faz a menor diferença se o mantra que você canta é OM, um versículo bíblico ou a abertura do desenho do Bob Esponja. Isso vai completamente contra a minha experiência direta (e é um objeção apontada também por ninguém menos que o próprio Phil Hine posteriormente).
  2. A obsessão com o inconsciente/subconsciente. Toda a pesquisa sobre o assunto feita por Freud e Jung e a psicologia e psicanálise do começo do século XX foram bastante inovadoras… para a época. Um psicólogo que escute hoje um caoísta fazer essas apropriações e distorções místicas de conceitos psicológicos deve sentir o mesmo grau de constrangimento que um físico ao ouvir esses malucos New Age falando de física quântica. No mais, entende-se que essa confusão deriva da falta de um aparato teórico ocidental para lidar com a expansão de consciência, diferente do que se observa no Oriente (sobre o assunto eu recomendo a tese de Michelle Shete sobre poetas místicos, que toca nessa questão algumas vezes).
  3. “Gnose” é o pior termo possível que eles poderiam ter achado para descrever esses estados levemente alterados de consciência. Gnose, na Antiguidade, era o conhecimento adquirido pela iluminação, vindo direto dos planos superiores e não derivado racionalmente do mundo físico — daí o conceito do gnosticismo, da importância de se atingir essa iluminação para escapar da prisão da matéria.

O Balthazar, um praticante bem experiente de Hoodoo, autor do blog Gnostic Conjure, passa por essas questões também num post em que fala sobre outras possibilidades de trabalhar com sigilos que não a forma caoísta, geralmente envolvendo espíritos. Ele tem uma posição sobre o transe mágico que eu ainda estou considerando e não sei se concordo, mas que é interessantíssima: é o contato com espíritos e com o numinoso que produz o transe (ele nada mais é que a reação do corpo a esse contato) e não o contrário.

Nada disso quer dizer que o método caoísta de criar sigilo, disparar com “gnose” e esquecer depois não funcione, mas muitas das pressuposições teóricas por trás disso que, vale lembrar, muitos caoístas usam com extrema arrogância para falar mal das práticas alheias, acabam sendo bem furadas. E, em todo caso, se você não consegue fazer magia porque é incapaz de se concentrar e calar a tagarelice interna da própria mente — a tal monkey mind de que falam os budistas — , que, como um bom ocidental, te diz que magia não funciona e te faz pensar no que vai ter para o almoço em vez de se concentrar no ritual, é claro que entrar em transe vai resolver, mas aprender a meditar também. Porém, é infinitamente mais fácil bater uma punheta do que acalmar o macaco mental.

Assim, para uma corrente que se pretende antidogmática, é irônico que tenha surgido uma cultura tão forte de dogmatismo nesses espaços, pautada por uma compreensão do mágico que está simplesmente equivocada e beira o materialista. Na busca pelo cerne da magia, identificada no poder da mente inconsciente, da crença e dos estados alterados de consciência, bebês foram jogados fora junto com a água do banho e a hipersimplificação de tudo levou a uma postura de leviandade com as tradições alheias que é francamente ofensiva — ignorante na melhor das hipóteses, colonialista na pior. O mecanismo de se descolar as coisas de seu contexto original — como o Peter Carroll desavergonhadamente fez com a magia planetária ao criar sua teoria das “cores da magia” — é o método clássico do capitalismo que parece ter sido internalizado aqui, a redução de tudo a objetos que podem ser destacados, apropriados, manipulados e descartados depois. Não por caso, essa é a postura que muitos caoístas têm com deuses: “oferenda e devoção é o caralho, eles são só partes da minha psique”. Então você acredita nele na hora, chama o cara, depois finge que ele não existe, como uma criança que não adquiriu ainda a permanência de objetos. Enquanto a maior parte das tradições mágicas vai pelo caminho da subjetivação (identificando consciência até mesmo no que comumente é visto como objetos), o Caos seguiu pela via contrária. E os resultados disso não são bons.

Eu nunca esqueço do caso, que Jason Miller conta em seu Protection and Reversal Magick, do caoísta que bolou um ritual de banimento no estilo do RmP com Orixás. Até aí tudo bem, mas o cara botou dois Orixás que, apesar de combinarem com a distribuição elemental que ele fez, não podem estar presentes num mesmo trabalho. Então deu ruim e ele teve que ir num terreiro — coisa meio difícil de achar nos EUA, como vocês devem imaginar — para resolver. Ou seja, foi brincar com aquilo que ele não tinha cacife para brincar, fez cagada e teve que depender de quem entende da coisa de verdade, o que me parece uma bela lição de humildade.

No mais, e este talvez seja menos importante, mas ainda assim perturbador, quando você olha os roteiros de rituais de Magia do Caos produzidos nos anos 90 num site como o Chaos Matrix, há uma vasta quantidade de… bobagem. Para cada sucesso interessante como a história do Fotamecus e seu poder de manipulação temporal, há 100 rituais de bobagem pura e simples. Alguns até podem ser divertidos, mas permanecem bobagem. Por exemplo, num ritual para conjurar uma ondina do mar e mandá-la ao “mar digital” (?), o autor fala para ir à praia usando camisinhas na cabeça e relata uma história muito besta e sem sentido como suposto efeito. Outro ritual envolve usar um sigilo dedicado a Azathoth e ao Homer Simpson, chumbo e xarope de Ipecac (que induz vômito) para conjurar um “elemental nuclear”. Um outro ritual envolve simplesmente bater punheta para programas de TV de crente. Eu entendo que o humor e não se levar muito a sério são parte do Caos, mas tem limite. Isso não é “excelência técnica”, como é a expressão de Phil Hine, são só rituais impraticáveis e sem muito propósito.

E mesmo com o Fotamecus (que me deixou bem “óóó” quando eu estava começando) e similares, eu tenho muitas ressalvas. O caoísta médio subestima a capacidade de estrago que um servidor pode ter em sua vida, e eu já ouvi histórias tensas de gente em que eu confio e que trabalha com limpeza e desobsessão, de tretas com servidores populares. É importante lembrar que, ao usar um servidor criado por terceiros, você está confiando na capacidade técnica e na índole dessa pessoa. Se ela quiser, pode tranquilamente usar a energia de quem evoca as suas criações para alimentar os seus próprios rituais, que é o que eu chamo de “minerar Bitcoin astral” (e tem uma figura famosinha do rolê que eu já flagrei fazendo isso ao “ensinar” sigilos para seus clientes). E mesmo que esse servidor não tenha propósitos escusos, nada garante que ele não possa também atrair outras pragas astrais que vão contaminar o seu espaço depois.

O feio

Pois bem, agora o bicho pega. O que eu apontei nesta seção anterior são, em perspectiva, picuinhas, desavenças técnicas e filosóficas. Nós vamos agora ao que, para mim, é o problema fundamental do Caos — especialmente problemático porque não chama a atenção à primeira vista, mas acaba sendo o motivo pelo qual tanta gente acaba pulando fora depois de pegar experiência: a Magia do Caos é oposta a qualquer noção de espiritualidade e desenvolvimento espiritual.

Diz Peter Carroll no Liber Null, sobre o tal “quinto éon”, que os adeptos do Caos, preocupados com a evolução da sociedade, poderão trabalhar para desenvolver as tecnologias desse novo éon que “libertarão o homem da espiritualidade, do preconceito, da superstição, da identidade e da ideologia”. A questão é que, quando você parte do princípio de que nada é verdadeiro, não existe um caminho mais para trilhar. Todos os caminhos são falsos (nada é verdadeiro) e não levam a lugar nenhum. A “iluminação” no Liber KKK é reduzida à “automodificação deliberada por via da magia”, o equivalente oculto de botar um piercing no umbigo. Como tal, o Caos é, em essência, uma prática niilista de magia.

Em resumo, o niilismo, como diagnosticado por Nietzsche, e motivo de toda crise existencial, é o que aconteceu com o Ocidente quando, após séculos de desvalorização do mundo e das experiências imediatas em prol de valores superiores (o Bem, a Verdade, a Justiça, Deus), a própria noção de uma hierarquia de valores caiu por terra (“Deus está morto, e nós o matamos”) e deixou a humanidade perdida. O capitalismo se aproveitou disso e preencheu esse vácuo com tralhas, e todo o modelo de vida proposto pelo Ocidente desde então tem sido botar todo mundo para trabalhar para produzir essas tralhas e diluir as ansiedades geradas por um estilo de vida insalubre com consumo de mais tralhas, junto com entretenimento e drogas (lícitas ou não), que mantêm saudável o fluxo de capital que sustenta este sistema. As práticas espirituais geralmente oferecem uma alternativa a isso, num movimento de retorno ao momento pré-“morte de Deus”, não apenas por via da fé irrefletida, mas pela experiência do contato esotérico com o numinoso (a real Gnose). Não por acaso, quanto mais o capitalismo avança, mais as práticas espirituais se proliferam em resposta.

O Caos, em contraposição, não tem isso. Ele não vai a lugar nenhum. Não há lição nenhuma a ser aprendida, porque nenhuma lição vale nada, nada é real. O mais próximo que encontramos no meio caoísta da figura de um “Iluminado” seria o cara que domine a arte da mudança de paradigma, a pessoa tão esvaziada do seu condicionamento cultural e pessoal que é capaz de assumir apaixonadamente qualquer postura, qualquer personalidade, qualquer religiosidade. Parece um caminho nobre e impressionante… até você imaginar alguém que defenda a sério o Lula num momento e no seguinte o Bolsonaro com a mesma intensidade, e aí você percebe que não tem nada de iluminado nisso, só afetação. A primeira vista, até parece uma forma de transcender o ego, mas nada mais é que o próprio niilismo incorporado, alimentando um ego tão grande que não é mais capaz de se perceber, de modo que nada para ele mais é proibido. O Caos se pretende rebelde e contracultural, o que é uma grande parte do seu charme, mas, ao se apresentar nesses termos, é um sistema que está apenas reproduzindo os valores da sociedade ocidental que a levaram ao seu estado atual precário. É um grande desfile de moda esotérico.


Imagem de um dos artigos mais vergonha alheia que eu já vi saírem no jornal: “Will chaos magic reign over your wardrobe?”

Esse trabalho com o vazio até tem um certo charme Zen — e, de fato, por vezes o nome Zen aparece em alguns textos sobre o Caos. O Zen, como todos os budismos, prega a nulidade de todas as coisas, mas há uma diferença crucial aí: essa nulidade das coisas deriva do fato de que o mundo é ilusório, mas é possível ir além dessa ilusão ao se seguir o caminho do Bodhisattva, que é o objetivo do budismo Mahayana como um todo, o que inclui o Zen.

Assim, o Caos não tem grande potencial como sistema espiritual, apenas como feitiçaria. Nesse sentido, ele oferece ferramentas para se usar outros sistemas, mais ou menos como um emulador de videogame no computador, mas é sempre num nível superficial. Como diz Jason Miller, um caoísta que, procurando trabalhar com uma dada divindade para qualquer propósito, acreditasse ser capaz de gerar espontaneamente o mesmo grau de crença e devoção nessa divindade que alguém que tenha anos de devoção e prática, estaria apenas se iludindo. E nenhum dos autores oferece nada nesse sentido de aprofundamento. Não é por acaso que mesmo Phil Hine, um dos expoentes do Caos na década de 90, acabou, nos últimos anos, partindo para o Tantra, sem dúvida em busca de algo mais substancial.

Dito isso, a mudança de paradigma tem suas utilidades para quem está começando. Como uma corrente de magia que surge no mundo ocidental e desencantado, pós-moderno, o principal apelo do Caos, como dito, é para as crias saudáveis desse mundinho desencantado. Assim, se você não acredita na existência independente de espíritos, deuses ou de Deus, se você acha que tudo é coisa da sua cabeça, se você quer usar magia para resolver problemas pequenos do seu cotidiano, o Caos é perfeito para você começar a praticar. Eu falo pela minha vivência, pois foi por onde eu comecei. Para quem ainda não tem certeza da realidade da magia, essa postura ajuda a dourar a pílula e aceitar melhor o processo.

O problema é que, conforme você acumula experiências e mexe com outros sistemas, o que o próprio caoísmo incentiva, fica difícil manter essa postura blasé. Então você vai abrindo brechas e exceções (“nada é verdadeiro… exceto as joias do Dharma”, “deuses estão na minha cabeça… mas vou ser respeitoso só pra garantir”) e se distanciando do caoísta prototípico — quando você vê, o que você está fazendo nada mais tem de Caos. Chegando nesse estágio, para se justificar como caoísta, você acaba precisando diluir tanto o Caos que já não vira mais nada. Daí umas definições vagas, tipo “ser caoísta é fazer o que funciona para você”, o que se aplica para todo mundo, ou “ser caoísta é montar seu próprio sistema”, o que resulta numas conclusões absurdas como a de que John Dee, Bardon, Master Choa Kok Sui e Mikao Usui seriam caoístas.

Se você se identifica com o perfil que eu tracei, começar o seu caminho no Caos não é de todo ruim, contanto que com prudência e o empenho que são necessários em qualquer outro caminho — e eu tenho amizades na IOT que provam que existe muita gente séria nesse rolê, tanto que a seleção é rigorosa e a maioria dos candidatos à ordem fracassa. Em todo caso, se você for se ater à ideia de que nada é verdadeiro, lembre que isso se aplica a esse axioma também. Não deixe que o niilismo da Magia do Caos te impeça de se engajar mais a fundo com outros sistemas e ir além.

* * *

[1] O termo vem dos escritos do sociólogo alemão Max Weber.

[2] A IOT, nesse ínterim, teve umas tretas com o Frater U.D. e amigos em torno de uma tal de Eismagie (magia do gelo), uma prática severa, porém poderosíssima, segundo relatos. Ela emergiu na ala alemã da Ordem e levou a uma patacoada chamada “Ice Magick Wars” que culminou em Frater U.D. sendo expulso e Peter Carroll saindo da ordem no ano seguinte.

[3] Essa é uma discussão divertida. O Caos é um metassistema, pois você pode adotar qualquer sistema específico, como, por exemplo, o da Golden Dawn ou o Hoodoo, a partir de uma perspectiva caoísta, o que envolve pressupor que nenhuma de suas verdades é de fato real, mas que isso não impede que seus rituais funcionem. Ou seja, ao fazer o RmP, não são os arcanjos que protegem e limpam o espaço, mas o seu sub/inconsciente, por via da sua crença e foco neles, que opera a magia. Você pode acreditar neles só durante o ritual e depois fingir que não conhece. No entanto, é inegável que o Caos como metassistema produziu sim sistemas próprios caoístas, como a Pop Magic, de que eu falo mais adiante no texto, a tecnomancia e o que eu chamo de neocaoísmo (ou caô-ísmo) que é o caoísta de internet cujo hobby é colecionar servidor feito pelos outros, como uma Goetia open source.

[4] Famosamente, Morrison e Alan Moore têm entre si uma rixa há anos, com desentendimentos em aspectos artísticos (Moore acusa Morrison de tê-lo copiado), pessoais e mágicos.

[5] Censor, com C, no sentido de “aquele que censura”. Você não tem ideia do quanto de gente que tem por aí que só ouviu a palavra em podcast e escreve com “s”, confundindo com “sensor”, aquilo que sente. Daí você vê o nível da compreensão geral dos conceitos da escola.

(Este texto foi publicado originalmente em meu Medium no dia 27 de julho de 2020)

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