Recomendações de leitura sobre magia: parte 1 — para os completos iniciantes

Com alguma frequência, as pessoas me pedem indicações de leitura. Eu vim dando algumas sugestões aqui e ali ao longo dos meus textos, via citações, mas agora eu pretendo falar disso mais detidamente. Eu aviso desde já que a maioria dos títulos são em inglês, porque é infelizmente nessa língua que encontramos a maior quantidade de material de qualidade sobre assuntos esotéricos que não sejam especificamente brasileiros¹. Alguns desses volumes, no entanto, têm tradução para o português.

Meus interesses são variados, apesar de caírem mais ou menos dentro de uma mesma área ampla que é a tradição ocidental e do Oriente Próximo, com uma tendência para a magia cerimonial. Aliás, a minha primeira indicação já seria um livro que não é nem um livro de magia propriamente, mas um estudo acadêmico, o Western Esotericism: A Brief History of Secret Knowledge, do pesquisador Kocku von Stuckrad, especializado na história cultural da religião, ciência e filosofia. Das doutrinas antigas do platonismo, neoplatonismo, hermetismo e gnosticismo à emergência da Cabala judaica e sua descoberta na Renascença e desenvolvimentos posteriores, que desembocaram na Cabala cristã e hermética, no rosacrucianismo, no swedenborguismo, nas tradições espiritualistas, na Teosofia e — ufa — na Golden Dawn, esse livro curtinho faz um apanhadão geral de forma bem resumida e é uma ótima introdução sobre o assunto.

Para quem quiser se aprofundar nesse ponto, partindo dessa perspectiva acadêmica, minhas indicações são Magic in Western Culture: From Antiquity to Enlightenment, de Brian Copenhaver (que também é o tradutor responsável pela edição mais usada do Corpus Hermeticum em inglês), e o The Cambridge History of Magic and Witchcraft in the West, editado por David J. Collins. Isso, para qualquer um, deve dar uma boa ideia do panorama geral da coisa.

De resto, vou dividir as recomendações de acordo com as áreas de interesse e aquilo que cada autor oferece. Para não ficar muito longo, nesta primeira parte vou me concentrar em livros para o completo iniciante e o que eu chamei de livros de base. Veremos Cabala, hermetismo, magia planetária e outros na próxima parte.

Para o completo iniciante: Low e High Magick

Aqui estão as indicações para quem não tem a menor ideia de por onde começar e, a bem da verdade, ainda demonstra alguma resistência ao assunto — tipo, “como assim magia é um negócio de verdade que as pessoas praticam a sério?”. O nome ideal para esse caso, eu acredito, é o de ninguém menos que Damien Echols.

Muitos devem conhecer o Echols pela sua participação no 3º episódio do psicadélico The Midnight Gospel, novo programa da Netflix que estreou em abril, criado pelo comediante e podcaster Duncan Trussell e Pendleton Ward, de Adventure Time, parte animação para adultos, parte podcast de entrevistas. Eu virei fã do Echols um pouco antes, porém, quando fiquei sabendo de sua história de vida bizarra por meio de um post no blog do Scott Stenwick, e aí foi uma surpresa ótima vê-lo falar de magia cerimonial para o público mais amplo nesse desenho.


Echols como o Fishbowl Man, explicando um monte de coisa complexa sobre magia e refletindo sobre sua história de vida, técnicas de meditação e as diferenças entre as tradições esotéricas do ocidente e oriente.

Nascido numa família pobre de West Memphis, no estado do Arkansas, Echols foi preso nos anos 90 em pleno auge da histeria coletiva do chamado “pânico satânico”, junto com seus amigos, acusados injustamente de assassinarem três crianças num ritual, os famosos West Memphis Three. Echols acabou condenado, tendo passado quase duas décadas no infame corredor da morte, esperando sua execução. Não sou grande fã de true crime e não quero entrar muito em detalhes sobre o caso — para isso, vale a pena conferir alguns textos na Vice sobre o assunto ou, melhor ainda para se aprofundar, a série de documentários Paradise Lost. Para mim, isso é o menos interessante… o legal é como foi que Echols fez para conseguir ser solto e manter a sanidade, por meio de práticas mágicas e espirituais.

Valendo-se da meditação, de rituais famosos do currículo da Golden Dawn, conjuração freestyle de anjos e manipulação de energia, Echols conseguiu não apenas botar em movimento todos os processos que levaram a sua pena a ser revista e ele liberado, como ainda teve a capacidade de não ceder às forças avassaladoras de destruição, depressão e desespero que dominam os presídios (eu já falei antes sobre questões de limpeza e sujeira energética e eu realmente não consigo imaginar um lugar mais imundo, infernal e insalubre, em todos os níveis, do que um presídio, ainda mais um para presos condenados à morte). Ele fala disso tudo em seu High Magick: A Guide to the Spiritual Practices That Saved My Life on Death Row, que saiu pela editora Sounds True em 2018.

Para praticantes mais avançados, o livro de Echols não oferece grandes inovações no quesito técnico, incluindo práticas energéticas simples, uma rotina diária e os rituais da GD como o Pilar Médio e o Ritual do Pentagrama. O interessante, no entanto, são as explicações que ele dá: em vez de apenas ensinar os rituais e “faça assim e faça assado” como a maioria dos livros que ensinam o RmP, ele passa pelos fundamentos da forma como ele entende, não apenas com base na teoria abstrusa da GD, mas de acordo com sua própria experiência, que, é importante reconhecer, foi uma experiência extrema. Para quem nunca teve o menor contato com magia, ele faz um ótimo trabalho em te convencer da sua realidade, eficácia e — por que não? — necessidade. De quebra, é também um livro curto e de linguagem acessível, cuja prosa deixa transparecer uma persona extremamente simpática e gentil. Algumas semanas atrás, ele publicou seu segundo livro, Angels and Archangels, que se aprofunda na questão da invocação de anjos e que eu recomendo demais também para quem curtiu o High Magick. Antes de ser solto em 2011, dá para concluir que Echols viveu preso tantos anos quanto viveu solto, e ele ter conseguido manter a sanidade e a humanidade nessas condições não é menos do que um milagre.

Outro livro de que eu gosto muito é o Low Magick: It’s all in your head… you just have no idea how big your head is², do Lon Milo Duquette. O Duquette é um músico e magista cerimonial da velha guarda (já está com seus bons 70 anos), ligado à Ordo Templis Orientis e seu braço eclesiástico, a Ecclesia Gnostica Catholica, da qual é bispo, e praticante de Thelema, Cabala hermética e magia salomônica e enoquiana. Mais do que tudo, ele é um excelente contador de histórias e tem um senso de humor impecável, fornecendo muitas anedotas maravilhosas de sua vida como praticante de magia, desde a vez em que conjurou Orobas e deixou óleo de canela escorrer no canto do olho sem querer (admiro demais quem tem a humildade de falar com franqueza de suas próprias patacoadas de começo de carreira, por mais que esse caso talvez seja meio malandro, afinal os demônios gostam de ser divulgados) até o exorcismo de um colégio católico. Costurando tudo isso, temos as reflexões dele sobre as questões mais fundamentais, como o que é magia, a realidade dos espíritos e a importância da invocação — eu diria até que o brevíssimo capítulo dez, “…And That’s What Invocation is All About!” deveria ser leitura obrigatória para qualquer neopagão. Para quem tem mais interesse nesse lado autobiográfico, My Life With the Spirits: the Adventures of a Modern Magician é outro livro dele muitíssimo divertido, onde ele conta ainda mais histórias, como a evocação de Bael, que deu meio errado, e o exorcismo de um amigo imaginário.

E, por fim, considerando que muitos hoje chegam ao rolê esotérico por conta da Magia do Caos, se tivesse um caoísta que eu recomendaria seria o Phil Hine. Hine foi o primeiro autor contemporâneo de magia que eu li quando estava começando. Como dito em meu texto sobre o assunto, faz tempo, no entanto, que eu não me identifico mais como caoísta, mas ainda tenho apreço pela obra de Hine, dadas as devidas ressalvas. Também, claro, eu simpatizo muito com o caminho dissidente que ele seguiu: Hine começa iniciado na Wicca, como parte de um coven, então conhece a Magia do Caos no final da década de 1970 e começa a trabalhar com isso ao longo dos anos 80, de maneira altamente experimental, publicando uns livros, editando algumas revistas, dando workshops e ficando conhecido na cena. Ao mesmo tempo, ele tinha um interesse em Tantra e, quando abandona a ordem caoísta dos Illuminates of Thanateros em 1996, esse passa a ser esse o foco de seus estudos³.

O que eu gosto no Hine é que ele me parece nunca ter aceitado bem uns dogmas de caoístas estritos como a ênfase exagerada dada à estrutura em detrimento do sentido das coisas e o de que espíritos e deuses não têm existência independente: a experiência pessoal dele, como se vê em duas entrevistas, uma de 1997, outra de 2010, contraria essas hipóteses. É por esse motivo que eu ainda consigo recomendar o seu Prime Chaos: Adventures in Chaos Magic, publicado originalmente em 1993. Como as outras indicações aqui, Hine é acessível e enfatiza a importância da experimentação e de ser prático, de realmente entrar de cabeça e viver a magia. “Magistas são personagens românticos”, ele diz, “ter aventuras é quase obrigatório!”. Combinando ensinamentos bem pragmáticos e pé-no-chão para iniciantes, teoria, relatos e opiniões pessoais, num texto sempre bastante lúcido e desprovido de afetação, o Prime Chaos acaba sendo realmente um dos únicos grandes livros do caoísmo em que eu ainda consigo achar graça.

Livros de base

Eu distinguo um livro de base de um livro para iniciantes pensando no seguinte: um livro para um completo iniciante dá aquele gostinho da experiência mágica, alguns relatos, princípios e reflexões, geralmente com algumas boas dicas para não deixar que o novato faça merda e fique doido, mas ele não oferece um caminho completo. O livro de base ou uma série de livros de base fornece não apenas como começar, mas como prosseguir dentro de um dado sistema, no qual existe a possibilidade de se aprofundar de tal forma que ele pode, de fato, representar o todo da prática de um indivíduo.

Meu exemplo favorito de um autor nesse sentido é o Franz Bardon, de quem já falei antes, que oferece todo um currículo na forma dos 10 passos do Magia Prática: o Caminho do Adepto, nas centenas de espíritos dos elementos e dos planetas no A Prática da Evocação Mágica e no trabalho assombrosamente complexo da Chave da Verdadeira Cabala. É possível dedicar toda a sua vida esotérica a seguir só esse caminho, se essa for a sua inclinação.

E, falando em Bardon, o mesmo pode ser dito dos livros da Cura Prânica — que eu já citei em vários textos anteriores. A Cura Prânica é um sistema fácil de entrar, e as primeiras técnicas para realizar uma limpeza e energização simples nos chakras e na aura qualquer um pode aprender e fazer. Mas, uma vez que você entra nesse mundo, há infinitas possibilidades de especialização. O idealizador dessa escola e autor dos livros foi o filipino Mestre Choa Kok Sui, e quem forma os curadores e professores e fornece cursos, retiros, meditações e produz os livros é o Institute for Inner Studies, que ele fundou, e suas filiais. Quem quiser começar pode procurar o primeiro livro, que fundamenta tudo, o Ciência da Cura Prânica, onde encontramos informações sobre os chakras, técnicas, protocolos, a Meditação dos Corações Gêmeos, e muito mais coisa (é o tipo de livro que, mesmo para quem está mais avançado, é importante reler de vez em quando). Dominadas essas técnicas básicas e instaurada uma rotina de Corações Gêmeos, é possível prosseguir com o Cura Prânica Avançada, Psicoterapia Prânica e Cura Prânica com Cristais, além dos livros sobre espiritualidade num sentido mais geral que também estão disponíveis na loja do Instituto Pranaterapia. Ou então você pode ter essas aulas diretamente com os instrutores dos institutos que existem em São Paulo e no Rio de Janeiro e em algumas outras cidades. Feitos os cursos básicos, é possível se aprofundar na Yoga Arhática, a disciplina de desenvolvimento espiritual oferecida pela Cura Prânica. Trata-se de um sistema bem robusto e fascinante, que pode tanto ajudar quem já tem um caminho próprio e distinto, quanto servir como um caminho espiritual completo.

Para quem tem interesse em magia cerimonial mais orientada pela tradição esotérica ocidental, tem mais alguns nomes que eu posso indicar. O primeiro é o John Michael Greer, com seu Circles of Power, que é um belo resumo dos rituais do currículo da Golden Dawn, se é isso que você curte (recomendo especialmente para quem leu o High Magick e gostaria de se aprofundar no sistema). É óbvio que a leitura mais completa seria o The Golden Dawn: The Original Account of the Teachings, Rites, and Ceremonies of the Hermetic Order, do Israel Regardie, mas esse calhamaço enorme não é dos mais práticos e acaba sendo uma leitura densa demais e confusa para quem está começando. Greer é uma figura interessantíssima — um iniciado e um grande nome contemporâneo na geomancia, que acabou partindo para o druidismo, tendo fundado um braço druídico da Ordem em 2013, e que escreveu ainda alguns livros sobre ecologia e a crise da depleção do petróleo. Os grandes rituais da Ordem estão lá, junto com as explicações sobre ferramentas, teoria mágica, etc., etc., tudo muito claro e sem afetações.

Seguindo nessa linha ainda, outra figura incrível é a Nema. Esse era o nome mágico de Maggie Ingalls (1939–2018), uma thelemita que, no entanto, trabalhou já com Wicca e Tantra, estudou as obras de Crowley, foi membro da Typhonian Order de Kenneth Grant e ajudou a fundar a Loja Horus-Maat e uma corrente de magia, derivada da Thelema. Seu livro Maat Magick, que também dá o nome à corrente que ela inaugurou, se baseia na Cabala hermética da Golden Dawn, depois herdada pela Thelema, utilizando um esquema da Árvore da Vida com equivalências astrológicas como um mapa para a ascensão espiritual. Assim, a cada etapa ela deita as bases teóricas para esse trabalho de autoiniciação, saindo de Malkut, o mundo terreno, para começar a lidar com o plano astral em Yesod (equivalente à Lua), depois a lidar com as formas-deus em Hod (Mercúrio) e assim por diante, incluindo indicações para o contato com o Sagrado Anjo Guardião em Tiffereth e a Travessia do Abismo de Chesed a Binah.

Para quem tem interesse nessa pegada ocidental ainda, mas sem necessariamente ter elos com a Golden Dawn ou Thelema, eu indicaria ainda o livro de outro grande nome do ocultismo do século XX, Dolores Ashcroft-Nowicki, The Ritual Magic Workbook: a Practical Course of Self-Initiation, disponível em português sob o título Manual Prático de Magia Ritual. Como o nome indica, trata-se de um manual: ele começa dando as diretrizes para a preparação do seu espaço para rituais (o seu “templo”, mas que eu prefiro chamar de “quartinho das mandingas”), junto com dicas para preparação mental, temas para reflexões, técnicas meditativas e uma lista de leitura. Então a Dolores prossegue com um passo a passo segundo o qual, a cada mês, você incrementa o seu espaço e suas práticas com coisas novas, gradativamente permitindo que você avance ao longo de um ano. O caminho é bastante completo, mas, ao mesmo tempo, ela reconhece que cada um é atraído por uma tradição que lhe parece mais interessante — assim, tem espaço no sistema dela para essas adaptações. O que é uma constante nas minhas indicações é que a Dolores também é uma autora muito lúcida e reconhece, por exemplo, que as pessoas chegam à magia hoje precisam equilibrar isso com um dia a dia mundano.

Por fim, eu vou sugerir apenas um único livro de bruxaria. Esse paradigma totalmente não é a minha praia — a estética não casa comigo, eu estranho muito lidar com materia magica e, no tocante ao desenvolvimento espiritual, o caminho é oposto ao que eu sigo — , mas não deixo de achar o assunto fascinante. Se você não sabe nada de bruxaria tradicional (i.e. as formas de bruxaria não ligadas a Wicca), o livro de Christopher Orapello e Tara-Love Maguire, Besom, Stang and Sword (em português Um guia à bruxaria tradicional: a vassoura, o cajado e a espada) é perfeito. Nele, os autores oferecem tudo: um ritual de autoiniciação, recomendações para construir e consagrar suas ferramentas, um ritual preliminar, receitas de magia natural e herbalismo, uma introdução a oráculos, diretrizes para contato com espíritos locais, necromancia, a importância das fases da lua e métodos para “voos” — as viagens em transe, por métodos químicos ou não, que fazem parte da mitologia bruxesca. O sistema a que Orapello e Maguire aderem se chama Blacktree, que também é nome do seu coven, fundado pelos dois em Nova Jersey. Independente das questões ligadas ao sistema em si — que bebe tanto dos grandes nomes da bruxaria do século XX quanto de autores do esoterismo ocidental como Crowley e da Magia do Caos — , eles enfatizam a dimensão não religiosa da bruxaria e a importância de se prestar atenção e honrar os espíritos locais, motivo pelo qual esse livro é fundamental para a bruxaria do biorregionalismo. E é essa parte, incluindo o capítulo com dicas para comunicação com genii loci, que mais me interessa e me parece praticável, mesmo o restante não fazendo parte do meu paradigma.

…mas e os clássicos do ocultismo?

Bem, este tipo de leitura eu realmente só consigo recomendar para praticantes mais avançados. Muita gente recebe a recomendação de ir ler Crowley ou Éliphas Lévi logo no começo, mas aí não entende nada e sai desanimado. Para além do estilo insuportavelmente rebuscado, a grande dificuldade é que é preciso ter uma grande quantidade de leitura prévia (e alguma experiência) para esse pessoal fazer sentido. Além do quê, é importante manter em mente que Lévi era uma figura atormentada pela divisão interna entre ser um ocultista e ser um bom católico, o que volta e meia transparece em seus escritos. Já Crowley era um geniozinho, mas tinha um ego do tamanho do mundo. O livro de cartas que constitui o seu volume tardio Magick Without Tears é provavelmente o que tem de mais acessível em sua obra.

Se você tiver uma tendência mais acadêmica e um gosto por entender as coisas em seu contexto histórico e social, ler sobre o Crowley pode ser mais interessante do que ler o próprio, como nos livros Arguing with Angels: Enochian Magic and Modern Occulture, de Egil Asprem, e The Place of Enchantment: British Occultism and the Culture of the Modern, de Alex Owen. O primeiro livro é sobre John Dee e a magia enoquiana, mas chega em Crowley e sua biografia porque essa foi uma área que ele explorou bem, como sabemos pelos relatos de sua invocação do demônio Choronzon no deserto. Já o livro da Owen passa por Crowley dentro de uma discussão mais ampla sobre o ocultismo e sua relação com a modernidade, inclusive mencionando interações curiosas entre o ocultismo, as artes e as ciências do começo do século XX, como as influências da Teosofia na arte de Kandinsky e o interesse dos psicólogos anteriores a Freud por magia. Para entender Lévi, Eliphas Lévi and the French Occult Revival, de Christopher McIntosh, e Satanism, Magic and Mysticism in Fin-de-siècle France, de Robert Ziegler, ajudam muito. E, falando em Crowley e Lévi, só para completar essas indicações mais cabeçudas, o A Cultural History of Tarot, da Helen Farley, também clareia demais as ideias numa área cheia de confusão e desinformação, que é o tarô.

Da Teosofia, eu tenho uma completa aversão pela Blavatsky, mas simpatizo com os dissidentes da Sociedade Teosófica. O Thought Forms (que saiu em português como Formas de Pensamento) de Besant e Leadbeater é um livro curtinho e importante como base para a discussão de um tema em que, por conta de sua popularidade, muita gente, inclusive na Magia do Caos, fala das coisas sem saber do que se trata. E a Maíra (@_pranichealer no Twitter) gosta do estilo dos livros da Alice Bailey, mas esses eu ainda não li, apesar de que me parecem interessantes por terem uma pegada prática que com frequência esse tipo de leitura não tem.

Por fim, um outro tipo de clássico do ocultismo são os livros de referência. Nesse sentido, claro, os Três Livros de Filosofia Oculta, de Agrippa (mais o quarto, pseudepigráfico), ainda reinam e são indispensáveis para praticantes de magia cerimonial, especialmente do tipo elemental e planetária, mas falaremos disso no próximo texto. No entanto, não gosto do 777, de Crowley, que até pode ter seus usos para iniciantes e adeptos da Thelema/GD, mas acho perigosa a tendência desse tipo de ocultismo de meter tudo em tabelões. Dignos de menção ainda são os hinos e invocações do Picatrix e da Hygromanteia, além dos Hinos Órficos e de alguma coisa do Lévi pelas suas preces, incluindo a prece cabalística e orações aos seres elementais⁴. E, claro, eu não poderia deixar de falar da Goetia, e o que eu digo é o seguinte: leia se quiser, por curiosidade, a Chave Menor de Salomão. É interessante, a edição do Crowley e do Mathers é fácil de encontrar, inclusive em português, mas já aviso que não é a melhor e não aconselho, de modo algum, que se mexa com isso sem ter acumulado muito tempo de experiência (pelo menos obtido contato com o Sagrado Anjo Guardião, como indica o Rufus Opus). E olha lá ainda.

E é isto, por enquanto. Num próximo texto, eu devo entrar em mais detalhes sobre tradições específicas e indicações de leitura para quem já pratica alguma coisa e quer se aprofundar. Por ora, se você não sabe nada de nada de nada, esses livros vão te ajudar a se situar e a ter uma ideia do que é magia, como funciona, por onde começa, etc. Enfatizo de novo a importância da leitura do Stuckrad para contextualizar as coisas e apresentar o panorama histórico. Sem ter uma boa ideia de história, fica-se vulnerável a cair em papos mais estranhos e falsificações… e não é porque você vai mexer com uma coisa fora do senso-comum, que é a magia, que precisa abrir mão do senso crítico — muito pelo contrário.

* * *

[1] Não se trata de uma questão de viralatismo. É fato que o mercado editorial brasileiro é um espaço sofrido demais, por inúmeros fatores (históricos, inclusive, considerando que demorou muito tempo para sequer surgir um mercado editorial no país e mais tempo ainda para emergir um público minimamente alfabetizado), como qualquer editor pode te dizer. Aplique esses problemas no nicho esotérico e não deve surpreender ninguém que o melhor material seja gringo.

[2] Low Magick, no caso, é mais uma piadinha do que um título descritivo do livro de fato. A questão é que a maioria dos autores no gênero, como Eliphas Lévi, um dos responsáveis por popularizar o termo alta magia (haute magie), são muito pomposos, enquanto o Duquette é bem pé-no-chão. O subtítulo também é uma provocaçãozinha com o modelo psicológico de magia.

[3] O Phil Hine tinha um site até pouco tempo atrás com várias coisas interessantes de Magia do Caos, mas agora ele desativou e mantém apenas o enfolding.org, cujo tema principal é o Tantra. Alguns desses textos ainda estão online por aí, em sites diversos, e eu recomendaria sua leitura, como “An introduction to banishing rituals”, “An introduction to sorcery”, “Chaos Servitors: a user guide”, e o divertidíssimo “When rites go wrong”.

[4] As chamadas orações dos elementais você encontra em muitos sites por aí, com frequência sem darem a fonte e ligados às tradições wiccanas, o que eu acho vergonhosíssimo. Essas orações constam no capítulo 4 do Dogma e Ritual da Alta Magia, de Lévi.

(Este texto foi publicado originalmente em meu Medium em 24 de agosto de 2020)

1 comentário Adicione o seu

  1. Elias disse:

    Obrigado pelas dicas, aguardo ansiosamente pelos cursos.
    Pratico o sistema de Bardon e gosto dos Ensinamentos de Osho(Rajneesh)

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