Dicas para uma prática diária

Uma coisa de que a gente não tem muita noção antes de começar a mexer com questões esotéricas mais a fundo é que magia, misticismo, esoterismo e tudo o mais vão muito além de fazer ritual ou tirar carta quando precisa. Se você faz seus rituais (o que inclui rezar também) só quando quer manifestar algum resultado, é difícil se desenvolver — e, a não ser que sua técnica seja muito boa e/ou você tenha um certo dom natural, é muito provável que os resultados obtidos estejam longe de ser ideais. Jason Miller, autor de Protection and Reversal Magick e The Sorcerer’s Secrets (para mim, um dos mais úteis livros de magia dos últimos anos) é bastante enfático quanto a isso:

Qualquer vocação que valha alguma coisa tem um conjunto de habilidades que deve ser aprendido, desenvolvido e mantido via exercícios e práticas regulares. A feitiçaria não é diferente. Na verdade, porque a magia depende de habilidades e sentidos sutis que a maior parte da humanidade sequer reconhece que existem, ela exige muito treinamento, estudo e prática para ser bem feita (The Sorcerer’s Secrets, Cap. 4).

Eu gosto de comparar a prática mística com as práticas físicas: suponha que você quisesse correr uma maratona. Tudo bem que você até poderia correr como está agora, com a sua preparação física atual (estou pressupondo que você, leitor ou leitora, não é atleta, OK): porém, mesmo que você conseguisse terminar a maratona, não vai ser uma experiência agradável, que você vá querer repetir, e pode ser perigoso. É preciso treino e cuidado, disciplina, etc. Com as práticas espirituais — o que inclui magia, feitiçaria, o que quer que você queira chamar — é a mesma coisa.

A boa notícia é que as práticas espirituais de rotina não precisam ser tão extenuantes quanto correr ou ir puxar ferro na academia. Você pode começar aos poucos e de acordo com o que você sabe e está disposto a fazer dentro do seu cronograma diário.

Essa analogia ainda é verdadeira em uma outra dimensão, no sentido de que quem exercita o corpo para uma dada atividade, seja correr uma maratona, lutar boxe, dançar balé, se beneficia de outras vantagens além de seu desempenho nessa atividade: mais força, mais flexibilidade e mais resistência física, além do pico de neurotransmissores que dão aquela sensação de bem estar com a qual esse pessoal está bem familiarizado. Tudo isso é muito útil no dia a dia. O desenvolvimento das capacidades energéticas e espirituais, igualmente, traz vantagens palpáveis. Como diz o Mestre Choa Kok Sui, que desenvolveu o sistema da Cura Prânica, “quando muda a energia, tudo muda”. Uma prova viva disso é Damien Echols, ex-presidiário do Corredor da Morte dos EUA. Echols foi preso injustamente, acusado de assassinato, durante o “pânico satânico” dos anos 90 e só conseguiu sobreviver, com a sanidade intacta, à experiência massacrante do seu tempo na prisão, muito do qual ele passou na solitária, graças à prática diária dos seus rituais. Para mim, essa é uma das maiores provas do poder disso. E, em tempos como os de hoje, em que muita gente está sofrendo visivelmente por conta do confinamento da quarentena, eu acredito que toda ajuda é necessária.

Certo. Então, agora que eu consegui convencer vocês da importância da rotina mágica, vamos a uma sugestão de o que fazer. Neste post tratarei de quatro coisas que qualquer um pode começar a praticar hoje mesmo e, se possível, nesta ordem.

Rituais de banimento

O termo banimento é uma tradução do inglês banishing, como se vê no nome oficial do ritual mais famoso do currículo da Golden Dawn, o Lesser Banishing Ritual of the Pentagram (LBRP), em português Ritual Menor de Banimento do Pentagrama, ou RmP. Eu não vou entrar em detalhes sobre as origens desse ritual e sua simbologia hermético-cabalística, mas, em resumo, para quem não conhece, trata-se de um ritual breve que envolve entoar certos nomes divinos, desenhar pentagramas no ar nas quatro direções e chamar a proteção dos quatro arcanjos Rafael, Gabriel, Miguel e Uriel. Esse ritual costuma ser usado para abrir e fechar rituais mais longos, especialmente rituais nos moldes dos da Golden Dawn, além de ser uma boa prática diária. Ele tem uma função importante de higiene e proteção espiritual, limpando e barricando o espaço contra forças externas, o que é muito importante antes de qualquer conjuração, para evitar interferências. Usado diariamente, ele fortalece a aura e oferece alguma limpeza, não tão profunda quanto um bom banho de ervas, um exorcismo ou uma sessão de Cura Prânica ou outra cura energética, mas ainda assim é muito útil, inclusive para quem já faz essas coisas.

Infelizmente, por questões de espaço, eu não vou ensinar o ritual aqui agora, mas quem quiser pode encontrar fácil as instruções na internet e ver algumas demonstrações dele no YouTube. Eu também escrevi sobre o assunto e você pode conferir na tag de banimentos aqui do blog.

O único problema do RmP é, digamos, estilístico: é um ritual de magia cerimonial, o que não agrada todo mundo, muito pelo contrário; envolve decorar fórmulas em hebraico, o que é meio chato; e, dada sua inspiração abraâmica, quem está mais ligado a outros tipos de tradições (bruxaria, neopaganismo, mão esquerda) pode se sentir desconfortável com os nomes divinos e conjurações de anjos. Felizmente, há outros banimentos que são variações dessa estrutura do RmP: o Rubi-Estrela, composto por Crowley, que é a adaptação do RmP para a Thelema, o Ritual Gnóstico do Pentagrama, que é a variação composta por Peter Carroll (e a versão mais simples), etc. Se houver interesse, eu pretendo compor um outro post futuramente em que discutirei o assunto mais a fundo e então apresentarei uma outra variação que acredito que seria útil para quem está começando.

Energizações

Existe um ritual, também do currículo da Golden Dawn, difundido pelo Israel Regardie, chamado Middle Pillar Ritual, ou Ritual do Pilar Médio, em alusão aos três pilares do diagrama da Árvore da Vida cabalística. Regardie escreve sobre esse ritual em dois livros, The Middle Pillar e The Art of True Healing.

O Pilar Médio é relativamente simples: ele consiste em visualizar esferas de luz em pontos específicos do corpo, mantendo um ritmo adequado de respiração (profunda e pausada) e entoando os nomes divinos equivalentes. Primeiro, você visualiza a luz descendo do alto ao topo da cabeça, então inspira e entoa a palavra EHYEH (“eu sou”, em hebraico) de tal forma que sua cavidade torácica vibre. Na sequência, passa para o próximo ponto, YHWH (pronuncia yod-he-vav-he) ELOHIM na garganta, YHWH ELOAH VE-DA’ATH no plexo solar (o espaço no vão das costelas), SHADDAI EL ḤAI (o “h” é gutural) no púbis e ADONAI HA’ARETZ sob os pés. Por fim, visualiza a luz circulando ao redor do seu corpo. Se você tiver dificuldade para lembrar, você pode a princípio fazer o ritual com uma cola, mas a repetição leva à memorização rapidinho.

Sobre a função e funcionamento deste ritual, eu vou tentar não entrar em muitos detalhes técnicos, mas, em muitas tradições de pensamento esotérico, entende-se que o corpo físico é acompanhado de um corpo sutil, dotado de centros onde as energias metafísicas (também chamadas de chi ou prana) são processadas. Ao se limpar e ativar esses centros, como se faz nesse ritual, a circulação dessa energia é aprimorada, o que tem vantagens tanto para o dia a dia quanto para outras práticas mágicas (não por acaso, com frequência recomenda-se que esse exercício seja usado antes de rituais mais longos).

Para quem tem qualquer objeção a esses nomes divinos e fórmulas em hebraico, o Jason Miller oferece uma outra versão desse ritual que utiliza, em todos os pontos, apenas um único nome divino: IAO. Falarei mais sobre fórmulas mágicas e nomes divinos em outro momento.

Devoções

Muita gente, especialmente da Magia do Caos, que é provavelmente a forma mais laica de magia, pode torcer o nariz ao ler isso, mas o fato é que a devoção — real, vinda do fundo do coração e em privado, não espalhafatosa como muita gente gosta de fazer em igrejas — é fundamental para o desenvolvimento mágico e espiritual. E, atenção: eu falo de devoção, não de religião: é perfeitamente possível que uma pessoa seja, à primeira vista, uma completa carola, mas não tenha qualquer ardor interno pelo divino. Exemplos atuais não faltam.

A questão, porém, é que não basta acreditar passivamente (desculpa, Lutero), a devoção precisa ser formalizada como uma prece, um cântico, um mantra ou qualquer coisa do tipo. Isso ajuda a firmar a sua conexão com o divino, em qualquer que seja a forma como ele se apresenta a você, seja diretamente, como o Ser Supremo abstrato que é, ao mesmo tempo imanente e transcendente e a base de toda a realidade, como vemos no Hermetismo, no Neoplatonismo, na Cabala, na Filosofia Perene, seja como suas manifestações refratadas e individualizadas em divindades específicas como deuses, orixás, anjos e santos.

Se você tem afinidade com alguma forma de teologia bíblica, reservar um momento do seu dia (preferencialmente no começo da manhã) para acender uma vela e ler um salmo já há de ser muito produtivo. Se você é devoto de algum santo, converse com ele e recite a sua prece — se tiver um altarzinho, uma imagem, melhor ainda. Devotos de orixás já devem saber os pontos cantados de cor e a forma correta de cantá-los, e outros adeptos de religiões politeístas podem encontrar facilmente o material para fazer suas devoções, como os mantras dos deuses e bodhisattvas orientais e os hinos a deuses mesopotâmicos, egípcios e gregos. Para quem não tem maiores devoções específicas, nem nada além de uma vaga noção do divino, eu recomendo a prece hermética do Poemandro, um dos textos mais famosos do Corpus Hermeticum:

Santíssimo é Deus, que a tudo gerou.
Santíssimo é Deus, cuja vontade por seu próprio poder se concretiza.
Santíssimo é Deus, que deseja ser e é conhecido por seu povo.
Santíssimo és Tu, que a tudo que é, Tu criaste por Tua palavra.
Santíssimo és Tu, de quem toda natureza nascera como imagem.
Santíssimo és Tu, a quem a natureza jamais gerou.
Santíssimo és Tu, poderoso mais que qualquer poder.
Santíssimo és Tu, que ultrapassa qualquer excelência
Santíssimo és Tu, acima de todo louvor.

Para quem mexe com magia e ainda não desenvolveu algum tipo de devoção ou noção mais concretas do divino, o que eu posso dizer é que é bem provável que essa experiência chegue uma hora, se você permitir e estiver aberto a isso. Em alguns contextos socioculturais, especialmente em meios mais intelectualizados, é muito comum que nos aproximemos da magia e do misticismo a partir de um viés desencantado (daí que bastante gente se fie num modelo “psicológico” da magia), mas é difícil fazer as coisas direito e permanecer nele por muito tempo.

Meditação

A meditação é uma prática tão importante que, para citar de novo o Jason Miller, ele diz que, se fosse obrigado a abandonar todas as outras práticas e escolher uma só para continuar, essa prática seria a meditação. Muita gente diz que não consegue meditar, porque não consegue parar, é agitado demais, etc, etc, mas a questão é que é justamente para esses casos que a meditação traz mais benefícios. Porém, como é um exercício, de fato como qualquer exercício, ele é mais difícil no começo e depois se torna mais fácil.

A forma mais básica de meditação é a seguinte. Primeiro, eu recomendaria que a prática meditativa acompanhasse a prática devocional — a meditação prepara o corpo e o espírito para aprofundar a conexão com o divino. Sem esse elemento, como se costuma fazer no caso das meditações de mindfulness adaptadas para o público ocidental laico, os resultados podem ser perigosos e muitos já tiveram ataques de pânico e ansiedade com essas práticas. Por isso, faça suas devoções, invoque a proteção e a orientação divinas, depois sente-se confortavelmente. Feche os olhos e se concentre na sua respiração. Torne-a mais profunda, preenchendo o diafragma. Inspire pelo nariz, contando até quatro, prenda o ar contando até quatro, depois expire pela boca, contando até quatro também. Repita esse ciclo algumas vezes, depois você pode retomar um ritmo de respiração mais natural. É esperado que a sua mente comece a divagar. Quando você perceber que está pensando em coisas como o que vai ter para jantar, traga o seu foco de novo para o agora (para os tipos mais devotos, um bom truque é visualizar um símbolo religioso à sua frente e se concentrar nele por uns instante). E é isto, você já está meditando.

“Ah, mas eu fiquei o tempo todo percebendo que minha mente divagou e tendo que me trazer de volta”.

É assim mesmo. Vai melhorar com o tempo. Ninguém é capaz de começar a meditar e já conseguir esvaziar a mente. O Poke Runyon, em The Book of Solomon’s Magick, ensina o truque de você visualizar a sua cabeça como uma caverna, onde a sua consciência está confortavelmente boiando, e seus pensamentos acima como vaga-lumes, e então imaginar que você está mergulhando, até os vaga-lumes cessarem.

Comece com apenas alguns minutos — 10 ou 5, se você realmente tiver muita dificuldade — e vá aumentando aos poucos. Vinte minutos por dia, se você fizer todos os dias, já é ótimo. Você pode utilizar música relaxante se quiser, e eu recomendo o uso de música para contar o tempo sem usar despertador (o barulho súbito incomoda demais). Sempre volte devagar da meditação, primeiro mexendo os dedos, depois abrindo os olhos e levantando com calma. Depois tome água ou coma alguma coisa para “aterrar”.

E é isso. Essas são quatro práticas que qualquer um pode começar em casa agora mesmo. Há outras coisas que podemos recomendar que ajudam muito—exercícios físicos, Yoga, banhos e defumações, oferendas a espíritos, meditações guiadas — , mas, por ora, essas são as mais básicas e, ainda que básicas, extremamente eficazes. Uma sessão de banimento, energização, devoções e meditação deve ocupar pouco mais de meia hora do seu dia, mas, mantendo-se a rotina, aliada aos cuidados gerais com a saúde, há de trazer resultados bem palpáveis.

(este texto foi publicado originalmente em meu Medium em 25 de março de 2020)

1 comentário Adicione o seu

  1. Bianca disse:

    Incrível! Era o que eu precisava esse site. O inicio da pratica de magia, o excesso de informação e muitas outras coisas acabam nos confundindo e nos fazendo esquecer de praticas básicas.

    Curtir

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