Demônios: múltiplas perspectivas

O assunto de hoje é polêmico. Falar em demônio traz uma série de reações já esperadas. A primeira, eu aposto, para muita gente, é lembrar do filme O Exorcista, com a possessão da menina Regan pelo rei sumério dos demônios, Pazuzu, o vômito verde, etc. Mas há quem considere que demônios não existem, são uma invenção cristã para pastor dar showzinho, são coisa da sua cabeça e fruto de uma compreensão antiquada de causas de doenças, especialmente transtornos mentais e neurológicos. E ainda temos a galerinha que gosta de lembrar que dáimon, em grego, que dá origem a “demônio”, era um termo mais neutro1 e que os demônios, na verdade, são incompreendidos e podem ser seus amiguinhos. O Demônio, com maiúscula, e os demônios são, afinal, símbolos do Mal. No entanto, sendo o mal um problema de moralidade que sempre foi pautado socialmente — como qualquer beato homofóbico bem ilustra — , ao se questionar essas premissas, questiona-se também o papel do diabo e sua hoste.

Eu só digo, como sempre: calma lá. Temos bastante território para cobrir antes mesmo de sequer chegarmos nos princípios do cristianismo. Nesta primeira parte do meu texto sobre demônios, nós vamos, bem resumidamente, da Babilônia até o finzinho do medievo.


Edmund Dulac, ilustração para as 1001 Noites, representando a história do Djinn e do Pescador

Quando se fala em demônio, fora do contexto cristão, tem-se em mente algum tipo de ser incorpóreo ou mitológico capaz de fazer mal a nós. É por isso que termos de outras culturas que referenciam seres de conduta ambígua, como os Asuras da mitologia hindu2 ou o Anhangá das culturas tupi, sejam com frequência traduzidos como “demônio”, com ou sem a intenção de carregá-los com esse fardo semiótico cristão. O fato de que é tênue a linha que separa essas entidades dos deuses (que, como Apolo disparando suas setas que causam pestilência no começo da Ilíada, também por vezes são vistos como responsáveis por enviar desgraças ao nosso mundo… e isso não só na literatura) complica ainda mais as coisas.

Utukku, shedu, rabiṣu, etemmu

No mundo sumério e babilônico, demônios são uma parte substancial do cosmos. Alguns estão mais ou menos bem incorporados à hierarquia cosmológica, inclusos na folha de pagamento dos deuses, por assim dizer, como seus servos, como parece ser o caso dos galla ou gallû, que obedecem à rainha do submundo Ereshkigal (sincretizada com Hécate e com Perséfone no período helenístico), como se vê no poema sumério “A Descida de Inana aos Infernos” (aqui, a partir do v. 290), onde escoltam Inana em sua saída do submundo. Outros têm funções menos definidas e parecem estar à solta para causar doenças — e é possível ainda que a primeira visão fosse a predominante nos períodos mais arcaicos e então a segunda perspectiva depois tenha começado a ganhar espaço.


Estatueta de Pazuzu, século XVIII a.C., em exposição no Louvre

A literatura demonológica posterior, em acadiano, a língua da Babilônia e da Assíria, parente do hebraico, é vasta e reconhece uma grande diversidade de criaturas que chamamos de demônios: temos os utukku (ou udug hul, em sumério), seres de pura sombra, sem feições, sem membros, sem nome, mas com uma aura (melam) poderosa, subprodutos da criação; lilu (posteriormente a lilith hebraica, plural liloth) e lamashtu, monstros noturnos e sexualmente frustrados que causavam a morte de recém-nascidos e de mulheres durante o parto; rabiṣu, geralmente traduzidos em inglês como “lurkers”, que ficam à espreita nos cantos, esperando para apanhar suas vítimas, possivelmente causando derrame; etemmu, fantasmas ou sombras malevolentes dos mortos (mais ou menos como os nossos eguns), por vezes de mortos insepultos e vingativos; e por aí vai. A quem quiser saber mais sobre o assunto, eu recomendo o artigo de Frans Wiggermann, “The Mesopotamian Pandemonium”. Tem todo um bestiário desses seres.

Muito da magia babilônica que temos registrado em tabuletas gira em torno de se invocar os deuses (especialmente Ea e Marduk, deuses da magia, Asalluhi, o exorcista, Shamash, o deus do sol, e Nusku, deus do fogo) para expulsar essas coisas todas do corpo de vítimas acometidas por doenças, feitiçaria e outros malefícios. Pazuzu, que aparece no cenário mágico-religioso da Mesopotâmia no primeiro milênio a.C. e que ganhou fama por conta de sua carreira cinematográfica, era uma figura mais ambígua, ao mesmo tempo deus e rei dos demônios (o que é curioso, porque é típico dos demônios na Antiguidade eles não receberem adoração), e por isso capaz de dominar e afastar os outros demônios com seu poder, especialmente as lamashtu, motivo pelo qual era invocado em encantamentos e talismãs.

Considerando a influência babilônica e da língua acadiana e, mais tarde, aramaica falada por lá, que se tornaram línguas francas na Antiguidade, bem como os muitos intercâmbios culturais no Antigo Oriente Próximo, essas noções não ficaram confinadas entre os muros da Babilônia. No mundo helenístico e da Antiguidade Tardia, temos relatos abundantes na literatura médica de maneiras de se lidar com aparições de várias naturezas (umbra, eidolon, phantasma e daimon em grego e latim) e os males que elas causam. E há demônios também na cultura judaica — o termo hebraico para demônio, shed, é um cognato para shedu, um termo ambíguo em acadiano que descreve tanto demônios quanto espíritos protetores — e na cultura árabe, que os batizou de djinns, ou gênios. Demônios são reconhecidos não apenas nas práticas populares e folclóricas, como as incantation bowls (armadilhas de demônio enterradas nas casas dos judeus babilônicos), mas pela própria ortodoxia judaica clássica, como consta, por exemplo, no Talmude:

Para um demônio do sanitário, deve-se dizer: “No escalpo de um leão e na fuça de uma leoa eu encontrei o demônio Bar Shirika Panda, num leito de alho-poró eu o derrubei, com a mandíbula de um asno eu o atingi”. (Shabbat 67a).

A famosa história de Lilith como primeira esposa de Adão, registrada pela primeira vez no texto cômico medieval O Alfabeto de Ben Sirá, também é um tipo de conto etiológico que explica o uso de amuletos com os nomes angelicais Snvi, Snsvi e Smnglof para afastar esse tipo de demônio do berço de recém-nascidos.

Agora, nesse lado mais para o noroeste do Oriente Próximo, por mais que tenham sido registradas diversas fórmulas e produzidos inúmeros amuletos para proteção contra essas forças, a sua compreensão começa a mudar. Sim, eles causam mal ao ser humano e um encontro com um ser desses pode ser fatal, mas, na verdade, eles não são nem bons, nem maus em essência, pelo menos não num sentido moral. Podemos compreendê-los, talvez, como grandes poderes fora de controle, que, no entanto, podem ser direcionados para boas causas, como faz Salomão, personagem da religião, mitologia, magia e folclore tanto judaico quanto árabe.

Salomão (ou Suleyman, como é conhecido no mundo árabe) domina os djinns/demônios e os coloca para trabalhar, inclusive, para construir o Primeiro Templo em Jerusalém. Os djinns fazem parte dessa cultura pré-islâmica e representam uma força tão incontornável que o islã acabou incluindo-os oficialmente em sua cosmologia: compreende-se, pois, que os anjos são feitos de luz pura, os humanos de argila, e os djinns de “fogo que não faz fumaça”. Um conto famoso das 1001 Noites, o Demônio e o Pescador, tem como personagens um djinn preso numa garrafa por um selo de chumbo com o nome divino3, por ter se rebelado contra Salomão, e um pescador infeliz que recupera a garrafa do fundo do mar e o liberta sem querer. Na cultura esotérica árabe, entende-se que os djinns, assim como os nossos demônios hollywoodianos, são capazes de possuir seres humanos, o que exige rituais de exorcismo e acaba sendo um problema, porque o assunto se situa numa área cinzenta da ortodoxia islâmica4.


Djinns em arte árabe

Vale lembrar ainda que Salomão é uma figura ambígua, ao mesmo tempo um rei conhecido por sua sabedoria e uma desgraça para o antigo judaísmo por ter cometido idolatria, motivo pelo qual o reino de Israel foi cindido em dois após sua morte, segundo o livro de Reis. Pelas minhas pesquisas na scholarship bíblica mais recente, houve uns esforços durante o período helenístico para reabilitar a sua imagem, motivo pelo qual o Eclesiastes e Cântico dos Cânticos foram atribuídos a ele. É provavelmente nesse período ainda que começa a se moldar essa noção de Salomão como comandante de demônios, que culmina no apócrifo Testamento de Salomão, livro do começo da era cristã no qual observamos o rei sábio e uma criança interagindo com vários demônios famosos como Astaroth e Belzebu (e muitos outros nem tanto), interrogando-os e descobrindo seus poderes, os signos zodiacais aos quais estão ligados e outras informações interessantes. O Talmude e o folclore judaico têm várias histórias divertidas sobre o tema, como a vez em que Salomão é enganado por Asmodeus (um demônio possivelmente de origem persa, que também é o vilão do deuterocanônico Livro de Tobit), perde seu anel mágico, acaba sendo arremessado a muitos quilômetros de distância e precisa recuperar o trono.

De deuses a anjos caídos

Mais ou menos ao mesmo tempo (estamos falando aqui desse período da viradinha para a era cristã), surge um outro conceito, algo herético, de que demônios seriam, na verdade, anjos caídos.

Agora, é importante lembrar que, no judaísmo rabínico e em muito da cultura mágica posterior, anjos não têm livre-arbítrio, sua vontade coincide sempre com a vontade de Deus, logo o conceito de um anjo caído, rebelde, simplesmente não faria sentido — nem mesmo HaSatan, o Adversário, tradicionalmente era um anjo caído. Seu estatuto no livro de , o único livro canônico do Antigo Testamento em que ele aparece, é como um dos outros bnei elohim, “filhos de Deus”, e fica evidente que, por mais desagradável que seja, ele também está na Sua folha de pagamento. O mesmo vale para outras figuras temidas como o terrível Azrael, o Anjo da Morte. Nos apócrifos, como Jubileus, e no misticismo judaico, porém, Satã vai ganhando tons cada vez mais sinistros, formando com Lilith um par que é uma perversão diabólica de Adão e Eva.

Uma religião e suas crenças, é claro, são sempre mais fluidas do que a forma engessada e caricata como nós as concebemos séculos depois do fato. Assim, em alguns meios, muito possivelmente seguindo o rastro da angelologia pós-Exílio (depois do século V a.C., quando os israelitas retornam da Babilônia), quando se começa a compreender a existência de anjos individuais com nome próprio e talvez até algo como uma personalidade, como Miguel, Gabriel e Rafael, alguns israelitas conceberam essa ideia de anjos caídos e escreveram o livro apócrifo de Enoque⁵. Nele, esse conceito aparece pela primeira vez bem delineado e biblicamente fundamentado naquele versículo obscuro do Gênesis (6:1–4) que fala dos nephilim, seres celestiais que desceram à terra e copularam com mulheres humanas na era antediluviana. A ideia dos anjos caídos, no entanto, acabou não pegando muito no judaísmo, haja vista que Enoque é apócrifo, logo tão autoritativo quanto uma fanfic, e, diz a Jewish Encyclopedia, a tradição judaica posterior à Antiguidade considerava a ideia escandalosa.

Onde ela vingou mesmo foi entre os cristãos, e foi então que a coisa ficou colorida: toda a imagem de Lúcifer como líder dos anjos rebeldes se voltando contra Deus e toda a caterva sendo expulsa, transformada em demônios e obrigada a habitar o inferno, como vemos séculos depois no épico Paraíso Perdido, de John Milton (publicado em 1670), começa a se formar aí. E melhora: na narrativa da Viagem de São Brandão, um texto irlandês do século X, fala-se ainda em “anjos neutros”, isentões, que não ficaram nem do lado de Lúcifer, nem do lado de Deus, o que o folclore gaélico cristianizado por vezes entende como sendo a origem das fadas (no melhor estilo classificação de monstros de D&D). Também no islã, para o qual Satã/shaytan descreve uma categoria de seres, por vezes entendidos como djinns rebeldes, temos Iblis, como o Chifrudo é conhecido, que foi expulso do céu por ter se recusado a se curvar diante da última criação de Alá, Adão.


Arte de Johann Lund, em Die Alten Jüdischen Heiligthümer, representando o ídolo Moloch

E, ainda falando em Milton, que faz uma representação divertidíssima das interações entre Satã, representado como uma figura quase heroica, Moloch, um demônio tosquíssimo, e Belial, pusilânime e apegado ao luxo, é importante lembrarmos do problema da idolatria. O judaísmo, bem se sabe, tem uma postura linha-dura contra a questão: não é possível ter outros deuses, YHWH é o único Deus. Por isso as outras divindades do Oriente Próximo foram transformadas em “ídolos”, falsos deuses impotentes (vide a cena patética dos sacerdotes de Ba‘al no livro de Reis), ou então em entidades sinistras, como Moloch, com o poder de corromper seus adoradores e levá-los a fazer coisas horrendas como imolar crianças no fogo. O caso mais famoso talvez seja Belzebu, o “Senhor das Moscas”, uma corruptela do nome original Ba‘al Zevuv ou Ba‘al Zebul, um deus adorado em Ecrom e transformado em anjo caído e príncipe dos demônios no Testamento de Salomão. Em alguns espaços com uma visão mais generosa, como se observa no Sepher HaRazim (Livro dos Mistérios), escrito entre os séculos III-VI d.C., deuses pagãos como Afrodite e Hélios passaram a ser compreendidos como anjos, figuras de poder divino, mas submissas a YHWH, porém essa está longe de ser a visão sancionada pelas autoridades religiosas.

É a partir dessa cosmologia que, mais tarde, na era moderna, emergem os grimórios de magia demoníaca. Neles, como na Ars Goetia, a parte da Chave Menor de Salomão dedicada ao assunto e o seu exemplar mais célebre, os demônios são tidos como anjos caídos — alguns deles, como Focalor, Marchosias, Phenex e Amy, inclusive, como diz o livro, parecem nutrir ainda um desejo ou esperança de retornar ao céu e às graças de Deus, o que mais uma vez nos lembra a representação dramática de Milton. Apesar de tudo e contrariando sua representação como imprestáveis (literalmente o sentido do nome “Belial”) e causadores de malefícios, eles têm utilidade e são capazes de fazer uma série de coisas pelo conjurador, além de ensinarem conhecimentos úteis em todas as ciências. Porém, sua índole é difícil e, segundo os grimórios, precisam ser tratados com severidade, do contrário podem enganar o conjurador ou causar uma série de problemas. Tem uma história interessante de Lon Milo Duquette, em seu Low Magick, sobre a vez em que ele conjurou Orobas (sua primeira evocação, aliás, que foi um desastre… como ele conta, ele deixou cair óleo de Abramelin no olho, foi uma patacoada) para resolver uns problemas. E Orobas os resolveu de fato, mas um amigo de Duquette acabou sendo exposto sem querer ao sigilo do demônio usado no ritual e se tornou viciado em corrida de cavalos (o cavalo sendo a forma como Orobas se manifesta, e a tendência ao vício uma falha de caráter latente do pobre amigo de Duquette). Então, mesmo quando eles ajudam, é tudo menos tranquilo.


O 55º espírito da Goetia, o príncipe Orobas, que dá respostas verdadeiras sobre coisas do passado, presente e futuro, sobre a divindade e criação do mundo; confere dignidade e prelados e favores de amigos e inimigos.

O demônio ridículo

Agora, uma outra questão importante é o fato de que O Diabo e os diabos têm, ou pelo menos tinham, também um lado cômico. Se pensarmos em Dante, por exemplo, muito do Inferno, apesar de discutir questões éticas e filosóficas, se aproxima de um tom cômico e satírico bastante debochado, e inclusive tem uma cena memorável, digna de South Park, em que um demônio “faz o cu de trombeta” (XXI, v. 139). O Satã dantesco não é temível, mas patético, uma criatura presa no fundo do inferno e condenada a mastigar os três traidores Bruto, Judas e Cássio, enquanto chora eternamente.

Essas imagens podem ser entendidas como representativas das noções medievais do diabo. Aqui eu estou me baseando — ainda que, por questões de brevidade, eu esteja resumindo tudo muito grosseiramente — na dissertação da Clarice Machado Aguiar (valeu, Clarice, pelo link!), que analisa as narrativas ibéricas de milagres e comenta a transformação pela qual o Diabo passou na virada do medievo para a idade moderna. Na era medieval (vamos chutar lá para o século IX), os diabos costumavam ser figuras grotescas e ridículas, personagens teatrais farsescos de representação asquerosa e comportamento tosco, mais dignas de riso e pena do que de medo. De uma perspectiva mágica, talvez fosse possível dizer que foi pela via do ridículo que o povo deu um jeito de domar essas forças difíceis. O poder do diabo, diz-se, está em ser temido — deve-se temer apenas a Deus e, tendo o coração ocupado por Deus, não há espaço para os diabos. Se ele é ridicularizado, logo, fica difícil temê-lo e dar-lhe poder… sim… igual no Harry Potter.


O Sabá das Bruxas, de Goya (1789)

Agora, no final da idade medieval, como explica Clarice ao longo de sua dissertação, começam os processos que culminam num novo entendimento de Satã. Diz a autora:

O diabo medieval é encarado como um protótipo do assustador Satã da Idade Moderna, período entendido como o laboratório que transformará Lúcifer em um perigo real a ser combatido, abrindo espaço para os tratados demonológicos, a caça às bruxas e a perseguição às heresias.

Os motivos para essa transformação são vários, desde os desastres naturais e políticos que se abateram na Europa do período, até as buscas dos europeus por uma maior coerência religiosa e invenção de novos sistemas políticos, que tiveram um impacto sobre o imaginário religioso. Satã e seus comparsas não são mais figuras ridículas, que podem ser combatidas pelo riso e pelo temor a Deus, mas ameaças reais, uma inspiração para hereges e bruxas que ameaçam a estrutura da boa sociedade cristã. Bizarramente o medievo tem a má fama de perseguição a bruxas — quando na verdade a má fama que o período merece é de antissemitismo, sendo que muito mais judeus foram queimados nesse período do que bruxas. A caça às bruxas começa mesmo é com a Renascença, na idade moderna, e o infame Malleus Maleficarum, “O Martelo das Bruxas”, o grande tratado sobre bruxaria que defende o seu extermínio, é publicado apenas em 1486 na Alemanha. Antes disso, a bruxaria não era exatamente aceitável, mas era até meio tolerada, como um pecado menor de superstição. Santo Agostinho, em De Doctrina Christiana (396) já havia condenado todas as “artes supersticiosas”, mas, como comenta Michael Bailey, no Cambridge Dictionary of Magic and Witchcraft in the West, demorou séculos para as autoridades cristãs levarem essa preocupação a sério.

Apesar de o papel de Satã crescer também entre os católicos, sobretudo em meio à Inquisição, não podemos diminuir o impacto do protestantismo, responsável por popularizar a história de Fausto, por exemplo — e sabe-se bem que Lutero tinha uma obsessão meio bizarra com o diabo. O Lúcifer imponente e semi-heroico do Paraíso Perdido, que depois inspiraria o satanismo literário de Byron e Baudelaire que certamente influenciou o satanismo real como tendência religiosa no final do século XIX e século XX, só poderia ser fruto de uma imaginação moderna, influenciada por esse tipo de teologia. Helen Farley em seu A Cultural History of Tarot, num comentário que encontra consonância com o que vimos na dissertação da Clarice, afirma que em nenhum dos tarôs que sobreviveram no século XIV temos o arcano do Diabo, o que é coerente com o fato de que sua iconografia medieval era escassa e problemática. “Com o advento da Reforma”, diz a autora, “Martinho Lutero identificou o Papa com o Diabo e vice-versa. Foi só após o fim dessa época, quando o Diabo passou a não ser mais definido de forma estrita pela teologia da Igreja, que ele pôde ser associado a uma ideia mais geral do mal”6. Ela então conclui que sua ausência nos baralhos deveria ser porque não haveria se cristalizado ainda na psiquê renascentista uma ideia personificada do mal, o que só se dá no século XVI.

E talvez o processo todo tenha começado nos meios eruditos dos séculos X e XI. Como Bailey reconta, essa foi a época em que novos conhecimentos, de origem árabe, inclusive conhecimentos mágicos, começaram a entrar na Europa, o que inclui a tradução para o latim do Ghayat al-Hakim, grande compêndio de magia astrológica do mundo árabe, que ficou conhecido como o Picatrix, de que eu já falei algumas vezes por aqui. As cidades de maior contato com a população muçulmana, como Toledo, ganharam fama como centros de estudo de magia, inclusive má fama, porque logo de cara essas práticas foram associadas a demônios (e, o que para um cristão da época era muito pior, muçulmanos).

Só que essa magia, praticada por gente erudita e ordenada, não era mais a superstição de camponeses ignorantes que poderia ser ignorada. Há diversos relatos e boatos da circulação de conhecimentos clandestinos e de rituais de conjuração de espíritos nessa época. Assim, na medida em que a situação mudou a postura do clero sobre magia — de uma superstição impotente e insignificante para um problema sério, no século XIV, e motivo de excomunhão para clérigos que fossem flagrados brincando disso — , é possível que ela tenha contribuído para mudar a postura e a perspectiva geral sobre demônios e o Demônio.

Até onde eu sei, não temos grimórios sobreviventes de magia demoníaca explícita diretamente do medievo. O Heptameron, do século XII/XIII, atribuído a Pietro d’Abano, e o Livro do Juramento de Honório (não confundir com o hilário Grimório do Papa Honório, uma obra forjada do século XIX) se preocupam mais com anjos, apesar que fica entendido que este último chama os anjos para subjugar “reis”, que, a julgar pelos nomes (Maymom, Formione, etc) não parecem angelicais. Os trevosos Lemegeton, Grão Grimório, Dragão Negro, Grimório Vero e Poule Noire — todos estes datam da idade moderna, talvez reunindo material mais antigo. E também, dada a fascinação, em parte alimentada pelo medo, por esses espíritos infernais, não por acaso, essas obras tendem a oferecer uma demonologia e mitologia mais complexas quanto à natureza dos espíritos evocados. Isso, no entanto, infelizmente nos diz mais sobre a perspectiva do clero e da sociedade do que dos espíritos em si.

* * *

Bem, até o momento, nós lançamos um olhar histórico, ainda que muito panorâmico e resumido, sobre as possíveis formas de se enxergar o que são e como agem esses seres que se convencionou chamar de demônio e qual o seu lugar no universo. Porém, se fizemos até então esse panorama partindo do ponto de vista cultural mais amplo, pensando na religião e folclore, agora vamos nos concentrar na perspectiva de alguns praticantes de magia, especialmente salomônica e qlifótica.


A Tentação de Santo Antônio, de Domenico Ghirlandaio (1448–1494)

Para retomarmos, então, resumidamente: a perspectiva judaica (ou uma delas) é bem explicada por esse post do rabbi Geoffrey Dennis, autor de The Encyclopedia of Jewish Myth, Mysticism and Magic, em seu blog. Os demônios (ou djinns) fazem mal, porque esse é o seu dever, mas geralmente não há um inferno torturante que lhes sirva de morada (o judaísmo é muito reticente quanto às possibilidades do Além) e tampouco eles são opostos a Deus (segundo alguns sábios, como conta Dennis, eles até estudam a Torá). Já a perspectiva cristã saiu de um ponto inicial parecido, segundo o qual o diabo era uma figura ridícula, rumo a algo distinto, uma perspectiva que o identifica como uma figura poderosa, padroeira dos hereges e das bruxas que derivam seu poder dele, o que faz com que ele seja motivo de temor. O anjo rebelde, que deseja ser como Deus, aguarda no Lago de Fogo, junto com seus comparsas caídos, os pecadores impenitentes no dia do Juízo Final.

O que as perspectivas judaica e cristã têm em comum são duas coisas. Uma é que a visão do diabo como oposta a Deus é minoritária: no medievo entendia-se que ele era um funcionário com um trabalho desagradável, como um limpador de fossas, encarregado de punir os pecadores. Mesmo depois da virada que fez dele uma figura mais sinistra, é raro um teólogo que vai fazer a afirmação blasfema de que ele seja capaz de se igualar a Deus — Deus o tolera, e ele só pode agir com Sua permissão. A outra questão em comum é a natureza tentadora do demoníaco: a intenção de Satã, no Antigo Testamento, é desgraçar a vida do coitado do Jó para levá-lo a blasfemar contra Deus; no Novo Testamento, seduzir o lado humano de Cristo para desviá-lo do caminho. As multidões todas de demônios são um motivo recorrente na representação dos santos na arte cristã (vide o quadro acima), e a história de Fausto surge, a princípio, no Faustbuch alemão, como propaganda protestante contra os perigos da magia, pretendendo ajudar a combater seu apelo… e falhando miseravelmente nisso. Era mais ou menos como um Smilinguido do século XVI.


Arcano XV — o Diabo

É evidente que essa ideia do demônio tentador é muito interessante de uma perspectiva artística e psicológica, sobretudo no Ocidente moderno (diversos autores, de Spengler a Marshall Berman, falam que vivemos numa sociedade fáustica), e não é por acaso que o tema seja tão explorado na literatura, do Faustbuch ao Fausto de Marlowe, Goethe e suas outras representações em Pessoa, Valéry, Thomas Mann. Essa é a ideia, afinal, que permeia o arcano O Diabo, no Tarô: ele te escraviza porque, em algum grau, você permite (na versão de Rider-Waite-Smith acima, nota-se que a coleira que acorrenta as duas figuras humanas está frouxa) e representa o triunfo do material e do corpóreo sobre o espiritual — ou seja, ceder à tentação.

Rebelião gnóstica, Lúcifer e deuses demonizados

Para alguns do meio neopagão e da magia salomônica, como Poke Runyon e Michael Cecchetelli, os demônios são deuses estrangeiros que sofreram esse processo de demonização pelas religiões abraâmicas, como vimos que aconteceu com entidades com Belzebu em nosso texto anterior. Astaroth e Bael são os casos mais clássicos, em que é possível distinguir ainda seus nomes originais por baixo do palimpsesto das palavras doidas do mundo ocultista — Astarte e Ba‘al, a deusa da fertilidade e o deus atmosférico central do panteão do Levante, respectivamente. Com todo o respeito por esses ocultistas, essa postura eu acho complicada de se assumir, porque já havia a distinção entre demônios reais (ou djinns) e deuses no mundo antigo, pré-monoteísmo, e, se Salomão dominava demônios e cometeu idolatria, não faria o menor sentido ele ter venerado um ser que ele era capaz de subjugar e fazer trabalhar como mão de obra não qualificada8. Alguns autores dizem coisas na linha de “os deuses das religiões antigas são demônios das religiões que as suplantam”, mas é um argumento difícil de manter historicamente como regra. É o tipo de coisa que pode acontecer ou não. Nenhum dos demônios mesopotâmicos, por exemplo, foi venerado como deus em qualquer momento que se tenha registro.


Le génie du mal, de Gillaume Geefs (1848), exposta na Catedral da Bélgica. Esta estátua é famosa pelo fato de que foi feita para substituir um Lúcifer que acabou ficando gostosão demais… e então o escultor foi lá e conseguiu piorar ainda mais o problema.

Outros magos, como Jake Stratton-Kent, autor da Geosophia, um estudo histórico impressionante sobre magia goética que começa suas investigações na Antiguidade, os entendem como djinns ou espíritos/dáimons de natureza sublunar (i.e. inseridos abaixo das esferas celestes), mais especificamente ctônicos, ligados ao submundo. Esses espíritos teriam sido contatados por métodos originalmente xamânicos e apenas depois submetidos a noções abraâmicas de hierarquia cosmológica — e essa é mais uma polêmica goética: se é necessário aderir aos nomes divinos abraâmicos e a toda a sua cosmologia, porque é a esse conjunto de símbolos a que eles respondem, ou se é possível trabalhar em outros moldes, mais pagãos. Em todo caso, o que é comum é que tais autores entendem que não é produtivo tratar esses espíritos na base da porrada, como é a recomendação dos grimórios do começo da idade moderna, “contaminados”, por assim dizer, por uma visão de mundo cristã, e a melhor forma de lidar com eles é com respeito, como se você estivesse negociando com um prestador de serviços (em todo caso, no entanto, um prestador de serviços carioca que acha que você é gringo e quer te cobrar 10 reais por uma água de coco).

Mas há também aqueles que dão um passo além ainda em relação ao tratamento cordial com os demônios e estão dispostos a venerá-los. Essa veneração pode ser como os deuses que eles supostamente teriam sido a princípio, no que rola um certo sincretismo com outras formas de neopaganismo e bruxaria, ou ainda como demônios de fato, numa relação de antagonismo e rebeldia com o deus abraâmico — uma variedade de satanismo que se chama demonolatria. Às vezes vira as duas coisas e eu já vi gente falando que Enki, o deus sumério da sabedoria (que pessoas como Sitchin acreditam que fosse um geneticista alienígena), teria lutado ao lado de Lúcifer na Guerra nos Céus, mas isso me soa como fanfic do Paraíso Perdido. Outros, como Michael Ford, preferem uma abordagem a panteões pagãos da perspectiva dos derrotados, enfatizando deuses como Tiamat, o monstro dracônico cósmico vencido por Marduk na criação do mundo, no Enuma Elish.

Se por um lado há algo de bizarro nisso, dá para entender de onde essa perspectiva parte — como dito na primeira metade deste texto, na medida em que demônios e O Demônio representam o mal, conforme as perspectivas sobre o mal passam a variar, é natural que a visão sobre o demoníaco também varie. Os valores mudam, e a modernidade extrapolou esse processo, de modo que o verdadeiro mal passou a ser visto de forma muito mais sistêmica do que individual. E aqui está o pulo do gato: cada vez mais a face dessa opressão sistêmica é a face de Cristo, na medida em que está atrelada a valores cristãos que, mesmo que não fossem cristãos em teoria originalmente, acabaram se tornando na prática (como a defesa do “casamento tradicional” ou a luta contra o aborto). A ideia de Deus como Rei do Universo, como se diz na prece judaica, se torna bem menos interessante nesse contexto… e certamente menos descolada. Não é por acaso que, ao lermos um manifesto como o “Contra 3 M” da ordem sueca de magia dracônica Dragon Rouge, os três M contra os quais eles se declaram são o Monoteísmo, o Materialismo e a Modernidade: “O motivo pelo qual Roma se cristianizou foi porque a cosmovisão monoteísta se adequava à superpotência da época. Num império em que todos obedecem a um imperador, o monoteísmo é uma ideologia adequada. Hoje os EUA, um país cristão e fundamentalista, assumiu o papel de império e superpotência”.


Los e sua emanação Enitharmon, arte de William Blake.

Milton tomou cuidado para que suas posturas políticas antimonarquistas não se refletissem numa atitude de No gods no masters para com Deus — partindo da lógica de que Deus, diferente dos homens, pode ser rei, pelo simples fato de que Ele é Deus. William Blake, que partilha do ideal revolucionário dos outros românticos que lhe foram contemporâneos, todos influenciados por Milton em algum grau, também insere a necessidade de rebelião no cerne teológico da mitologia própria de sua obra9. Mas isso ele faz ao assumir uma postura gnóstica, com as figuras de seus poemas proféticos Los e sua forma decaída Orc, respectivamente os espíritos da criatividade humana e da revolução, opostos ao demiurgo Urizen, que busca aprisionar a mente humana com a matéria, as leis e a tradição. Los/Orc representam uma fusão de Cristo e Satã, de certa forma, um tema caro a Blake pelo menos desde o seu Matrimônio do Céu e do Inferno, a união dos opostos sendo a própria definição da Grande Obra mágica de Crowley — e não por acaso Blake é considerado um dos santos thelêmicos. Enfim, estou entrando numa digressão complicada aqui, mas já serve para ilustrar que é pelo caminho desse mesmo ímpeto de rebelião, eu acredito, que siga a noção da demonolatria, o equivalente espiritual de resistir à tirania celestial e torcer pelos rebeldes e underdogs.

O gnosticismo é, em linhas gerais, uma escola metafísica, se podemos falar nesses termos, que surge mais ou menos na virada da era cristã e identifica o mundo como a criação de um demiurgo maligno do qual só é possível escapar por via de um tipo de iluminação — um conhecimento que não é apenas intelectual, mas derivado da gnose, a inspiração direta concedida por quem quer que seja que está além do demiurgo. Na prática nunca existiu um gnosticismo como uma religião ou prática unificada e a coisa toda era uma bagunça que a gente ainda está tentando entender (o que é especialmente complicado, porque a maior parte do material que sobrevive veio dos seus detratores, como Ireneu de Lyon). Mas eu falo em gnosticismo aqui porque existe ainda uma vertente do satanismo que poderíamos descrever como gnóstica, que é quando se venera Satã na forma de Lúcifer, como uma figura prometeica de iluminação (seu nome, como todo adolescente sabe, quer dizer “portador da luz” em latim e era usado para descrever o planeta Vênus, a Estrela da Manhã).

Os paralelos são evidentes: YHWH, o Deus abraâmico, é visto como uma entidade terrível, com todas as histórias sangrentas do Antigo Testamento pesando contra ele, logo faria sentido que ele fosse, não a divindade real, mas um mero demiurgo neurótico e preocupado em manter a humanidade aprisionada sob sua tutela. Nesse caso, fala-se na doutrina do luciferianismo, que geralmente traz a promessa de iluminar o discípulo e elevá-lo ao estatuto de um deus, para além das proibições limitantes impostas pelo demiurgo — e, assim, essa vertente de satanismo está diretamente oposta também à visão cristã do satanismo como culto da natureza, afinal o mundo natural faz parte da prisão gnóstica. O luciferianismo, por sua vez, existe também em duas vertentes, pelo menos: a versão teísta reconhece Lúcifer como uma entidade real a ser invocada, que pode ou não estar associada a Satã (essa imagem negativa, para eles, é propaganda da Igreja), enquanto o não-teísta se vale dele como uma figura mais simbólica do que qualquer coisa. E tudo isso pode andar junto ou não com a demonolatria e deuses pagãos. De novo, repito o mantra: é uma bagunça10.


Os caracteres ligados a Lúcifer segundo o Grimório Vero.

Mas, voltando agora à demonolatria sincrética: ao mesmo tempo em que eu estranho essa associação de equivalência direta entre demônios e deuses pagãos (que, como se vê em Milton, é bem cristã), não acho que a relação entre deuses e demônios seja tão distante assim, mas precisa de ressalvas. Da forma como eu entendo a divindade, a existência dos deuses se estende por todos os planos da realidade (pois é, desculpem, sei que estou fazendo teologia), desde a sua forma pura no nível espiritual até suas manifestações como conceitos como Beleza e Justiça, sentimentos e objetos do mundo material. Nesse sentido, é possível conceber que haja aspectos dos deuses que seriam inferiores também, e esses aspectos poderiam ser reconhecidos como demoníacos— de fato, como Jake Stratton-Kent comenta, a representação dos deuses nos próprios Papiros Mágicos Gregos é muito mais demoníaca, ctônica, do que celestial, como é na magia teúrgica. Assim, haveria esse elo entre as duas coisas, mas um elo não é uma relação de identificação 1=1.


A Master Mandala, como consta em The Book of Solomon’s Magic, de Poke Runyon. Note os 72 demônios da Goetia no círculo externo, distribuídos de acordo com os seus decanatos e regências planetárias; os 72 anjos do Shemhameforash no círculo interno; e, no centro, uma estrela de doze pontas (uma para cada signo do zodíaco), formada por 3 triângulos elementais, com os 4 reis demoníacos Ziminiar, Amaymon, Corson e Goap e os 4 arcanjos Auriel, Rafael, Gabriel e Miguel.

Demônios sefiróticos, qlifóticos e enoquianos

Cabalisticamente, Frater U.D., no segundo volume de High Magic, insere os demônios da Ars Goetia na sefirah de Yesod, que seria a base da realidade, a etapa imediatamente a partir da qual o mundo material se manifesta, motivo pelo qual ele os descreve como “astral workmen” (ou seja, eles não são maus, apenas meio toscos, grosseiros, mas ainda fazem parte da infraestrutura do mundo… meio como a relação entre a internet e técnicos de TI). É interessante que os demônios da Ars Goetia sejam 72, numa equivalência com os 72 anjos do Shemhameforash — uma sequência de letras de um trecho crucial do Antigo Testamento, em Êxodo 14:19–21, a partir da qual se formam nomes de anjos que constituem o mais poderoso nome de Deus. Para cada demônio, portanto, há um anjo que o restringe, e alguns praticantes de Goetia recorrem a eles para protegê-los antes da evocação. Damien Echols, num vídeo recente publicado em seu canal, vai ainda além e fala das duas coisas como uma polaridade de forças. A chamada Master Mandala, como ele comenta, ilustrada acima, é um diagrama que representa uma operação em que o magista conjura os 72 anjos ao seu redor na direção horária e então, por fora, conjura os 72 demônios, na direção anti-horária, criando como se fosse um campo magnético através do qual o magista, situado no centro entre as duas polaridades, pode expandir a própria consciência. De novo, somos lembrados do projeto crowleyano de fusão de opostos e do matrimônio blakiano do Céu e do Inferno. Eu não sei quantas pessoas são de fato capazes de um trabalho desses, mas certamente é um uso mais nobre da Goetia do que chamar Sitri para fazer as pessoas tirarem a roupa.

E, falando em Cabala, tem ainda quem insira os demônios, não nas sefiroth, as etapas das emanações de Deus no mundo que sustentam a realidade, mas nas qlifoth ou kelipoth, as “cascas”, forças espirituais impuras que, como perversões das sefiroth, representam os obstáculos para se chegar ao divino. A literatura sobre as qlifoth na Cabala judaica é, até onde sei, compreensivelmente escassa — eu imagino que seja porque o assunto não é relevante para o cabalista, afinal as cascas não têm uma existência substancial, sua força é derivada dos estilhaços divinos após a Quebra dos Vasos, que devem ser redimidos pelo trabalho de tikkun ‘olam, “reparar o mundo”. Assim, de Lévi a Kenneth Grant, Thomas Karlsson e Asenath Mason, tudo sobre o assunto parece ser de origem estritamente ocidental e, no geral, nessas versões draconianas da Árvore da Morte (ou Árvore do Conhecimento, como eles preferem chamar), observamos os nomes de demônios bem conhecidos em posições-chave, como Satã e Moloch reinando em Thaumiel, a paródia de Keter, e por aí vai. Essa é uma visão comum no meio do satanismo e da magia dracônica. Acontece que a prática qlifótica draconiana tem, na verdade, uma outra pegada que não é bem devocional, mas envolve passar pelas qlifoth e seus demônios rumo a um tipo de experiência mística que não é a união com Deus, mas com algo que estaria supostamente além de Deus, possibilitando a divinização do praticante. Ambicioso, talvez demais, inclusive, e eu tenho minhas dúvidas quanto aos resultados7.


As qlifoth (cascas) no arranjo da Árvore do Conhecimento, do livro do Karlsson

Pensando ainda nessa coisa da questão entre a existência externa das entidades espirituais e sua relação com nossos estados de espírito (com perdão do trocadilho), é importante mencionar uma outra perspectiva, que surge com o Crowley e é depois popularizada pelo modelo psicológico da Magia do Caos: a de que os demônios são apenas aspectos da nossa psique — partes daquilo que, em psicologia junguiana, chamam de “nossa sombra”. Ou seja, demônios reais e “os nossos demônios pessoais”, como se diz na fraseologia comum, seriam a mesma coisa. Crowley diz que a turminha da Goetia não passa de “partes do cérebro humano”, mas é difícil dizer o quanto ele estaria sendo sério ou irônico (um problema tenso na obra do homem). Em todo caso, a moda pegou, e há muitos praticantes de magia, influenciados por Peter Carroll e amigos, que não acreditam na existência independente de espíritos. Tematicamente, essa associação é interessante — afinal, lidar com essas entidades exige que se resolvam questões pessoais íntimas antes, do contrário você corre o risco de ser feito de palhaço. No entanto, no estágio atual da discussão sobre magia, essa postura em sua forma mais estrita me parece difícil de manter, ainda mais quando se leva em conta que os 72 são capazes de ensinar coisas a quem os conjura, e é absurdo você aprender consigo mesmo coisas que você não sabe. Essa confusão, me parece, está alinhada à confusão que o Ocidente faz entre expandir a consciência e entrar em contato com o in/subconsciente.

Ao mesmo tempo, é fato que há um elo entre essas entidades e nossos sentimentos e pensamentos, do contrário a obsessão e comportamentos antinaturais não seriam os sinais de aviso que antecedem a possessão de fato. Não dá para dizer que não, não se trata de um fenômeno da consciência, mas essa é uma redução que pode ser feita para tudo (todos os fenômenos, afinal, são fenômenos da consciência), então no fim não ajuda muito. Ao discutir magia, é importante separar a mente da Mente: anjos e demônios de fato são parte do Nous, a Mente, a pura Consciência do universo que enreda e une todas as consciências, de modo que cada mente individual é como se fosse um nó numa rede. Mas eles não são parte da sua mente, do seu intelecto egoico, como uma pessoa encarnada. Chegar a esse trabalho partindo dessas pressuposições (“ai, não precisa de círculo de proteção, eles são só coisas da minha cabeça!”) é pedir para dar ruim.

Vale lembrar ainda que, mesmo dentro das tradições de grimórios demoníacos, os 72 são os mais populares e talvez os mais importantes, como contraparte dos 72 anjos do maior nome de Deus, mas não são os únicos. Como ilustrado acima, o Grimório Vero inclui figuras como Lúcifer, além de Belzebu e outros menos famosos como Segal (não confundir com Steven Seagal), Humots, Frutimiere, etc. Já a tradição fáustica inclui, é claro, Mefistófeles, mas também Barbuel, Aziabel, etc. Mesmo a magia enoquiana, que se preocupa mais com figuras chamadas de anjos, oferece a possibilidade de colóquio com demônios.

A magia enoquiana é o sistema de conjuração angelical que surgiu a partir dos experimentos de John Dee e Edward Kelley no século XVI. Nele fala-se em cacodemons (como se distingue, em grego, os dáimons simplesmente dos demônios, caco- significando “feio”, “perverso”), os seres mais simplórios que podem ser contatados por esse método. Os “anjos” enoquianos são seres dotados, não de uma identidade estável e monolítica, mas sim composta, modular, com base nas letras que constituem seus nomes. Assim, os anjos mais básicos têm nomes de quatro letras, como Aira, um anjo menor de cura; já as figuras de posição mais alta na hierarquia, como Lavavoth, um dos reis angelicais, chegam a oito. Os cacodemons, no entanto, têm nomes de apenas três letras, como Xai, a contraparte demoníaca de Aira. Assim sendo, entende-se que são criaturas de poder puro, mas desequilibrado, profundamente estúpidas, desprovidas de grande inteligência, consciência e poder de comunicação. Como diz Benjamin Rowe, tais criaturas “não detêm segredos de qualquer natureza, sendo meros feixes de forças elementais”, o que os separa dessas figuras aristocráticas como os 72. Por esses motivos, trabalhar com eles é muito perigoso, semelhante a lidar com animais selvagens, e a literatura sobre o assunto é escassa. Entender os cacodemons não é tão útil para a nossa discussão sobre demônios no geral, haja vista que são entidades específicas de um sistema bem fechado, mas pode ajudar ao fornecer mais palavras-chaves para o campo semântico do demoníaco em geral. Os demônios babilônicos que causam doenças e espreitam dos cantos são igualmente animalescos em comportamento e, por vezes, em representação imagética.

Por fim — e essa para mim é a interpretação mais curiosa — , temos a leitura de John Michael Greer no livro Monsters: An Investigator’s Guide to Magical Beings, que exige uma explicação a mais. Na teosofia e em muito da cultura mágica posterior, adota-se um modelo que recorta o mundo oculto em quatro níveis: etérico, astral, mental e espiritual. O nível etérico é o mais próximo do físico, e fenômenos lá podem ser sentidos aqui, como o caso de ilusões e quimeras, sentimentos estranhos ligados a assombrações como frio súbito e arrepios, e a manifestação de Poltergeists; o nível astral é onde se originam os sentimentos e é o mundo visitado durante os sonhos (e em viagem astral, óbvio); o mental é o reino dos conceitos em seu estado puro; e o espiritual é o mais próximo da fonte divina, de onde se originam os anjos. Segundo Greer, os demônios seriam, na verdade, seres de um nível menos sutil, abaixo do físico — ou seja, nós aparecemos para eles da mesma forma como fantasmas, seres do etérico, aparecem para nós. Sua existência se dá como sobrevivências de mundos anteriores destruídos — e, segundo a Cabala, como lemos em Aryeh Kaplan, vários mundos foram feitos e desfeitos até que as sefiroth de Chesed, Misericórdia, e Geburah, Severidade, fossem equilibradas por Tiffereth, a Beleza — , uma leitura que eu acho curiosamente semelhante à versão babilônica e que é coerente também com a visão qlifótica. De algum modo, porém, esses seres conseguiriam estabelecer contato conosco por via do meio astral, motivo pelo qual é pela manipulação dos nossos sentimentos que eles nos tentam… mas apenas se dermos uma brecha para isso.

* * *

Acredito que este seja um panorama amplo e resumido das várias perspectivas sobre essas entidades. Como se pode ver, não há nada que se pareça, nem de longe, com um consenso. Se as pessoas que chegaram a esse texto o fizeram com certezas e saíram com dúvidas, então meu trabalho está feito, acredito — tal como Tom Zé, eu só estou explicando pra te confundir.

E olha que eu ainda deixei de lado questões mais cabeludas de hierarquia demoníaca e da relação entre os muitos demônios famosos, como Satã, Lúcifer e Belzebu, às vezes vistos como uma coisa só, às vezes diferenciados, e sua presença em práticas diversas como a bruxaria sabática, que se vale de imagens e referências luciferianas encontradas nas representações populares da bruxaria britânica11, e o Hoodoo, com seu Black Man of the Crossroads. Na falta de experiência pessoal de comunicação com essas entidades (a minha prática é mais teúrgica), eu só posso especular qual seria a visão mais correta, mas, se me permitem essa especulação, eu chutaria que deve haver uma miríade de seres, em geral sublunares, dotados de ego e habitantes dos mundos inferiores (para utilizar o mapa cosmológico mais típico que divide o mundo em celestial/superior, médio e ctônico/inferior), que são compreendidos como “demônios”. Dentre esses seres, alguns são animalescos, predatórios e parasitas, enquanto outros são mais complexos, sutis, refinados, até mesmo úteis, mas sempre tentadores, sempre dotados daquela aura de perigo que é o motivo do imenso apelo que essas entidades têm, desde a Antiguidade até hoje.

Para quem tem algum interesse prático no assunto e não mera curiosidade, eu recomendo muita cautela. É importante estudar os textos com atenção e uma perspectiva crítica (como com quase todo material da Golden Dawn, há erros na versão mais famosa de Crowley e Mathers da Goetia, melhor ir atrás do material do Skinner) e, mais ainda, obter primeiro o contato com o seu Sagrado Anjo Guardião ou outro guia espiritual. Para quem fica impressionado fácil, para quem assistiu Hereditário e está com medo que o rei Paymon venha ligar o seu forninho de madrugada, pode ficar tranquilo, que esse pessoal é aristocrático demais para vir perder tempo com a gente (muitas vezes nem quem monta toda a parafernália para chamá-los tem resposta, imagina alguém que só ficou sabendo que existe porque viu em um filme…12). Manter o seu ambiente e seu campo pessoal limpos e protegidos contra pestes menores e mais abundantes é um conselho mais produtivo de um modo geral, porém isso não é tão interessante, claro, quanto imaginar que você está sofrendo ataque de uma celebridade do mundo oculto.

* * *

[1] A situação é mais complicada ainda… daímon, em grego (depois daemon em latim), descreve um monte de coisa. Em um sentido, a palavra se refere ao que entendemos como espíritos, com exceção dos espíritos dos mortos (sombras), a não ser que eles sejam daimonizados após a morte, o que entendia-se que era uma possibilidade. Em Platão, no Banquete, eles são descritos como seres intermediários entre o mundo humano e o mundo divino, mas historicamente, sobretudo em fontes mais antigas como Homero, a linha que separa um dáimon de um theoi (deus) era tênue. Por dáimon às vezes entende-se também o seu dáimon pessoal, mais ou menos na linha do Sagrado Anjo Guardião ou Eu Superior, apesar de esses termos não serem bem sinônimos. E, só para complicar ainda um pouco mais, o ocultista Nick Farrell em seus escritos faz um uso extremamente específico do termo daemon para se referir às formas astrais intermediárias dos deuses criadas e utilizadas por cada magista para fazer sua conexão com essa energia divina (fonte aqui e aqui). [

[2] A discussão sobre os Asuras é complicada, porque com frequência eles aparecem como figuras belicosas que batalham contra os Devas, estes sendo as entidades benevolentes mais próximas do que compreendemos como deuses, apesar de alguns Asuras serem benévolos também. No entanto, em textos mais antigos parece que alguns Devas são chamados de Asuras, possivelmente porque a palavra pode derivar de uma raiz para “senhor”. Algumas traduções os chamam de “Titãs”. Tem uma história famosa no Chandogya Upanixade em que Indra, rei dos Devas, e Vairochana, rei dos Asuras, estudam com um sábio a fim de aprender o que é o Si-Mesmo, o Atman. O sábio lhes dá a princípio uma doutrina falsa, a doutrina materialista de que o Atman é igual ao corpo físico, a fim de que percebam o erro e estejam dispostos a estudar a questão mais a fundo, mas apenas Indra se dá conta do estratagema, enquanto Vairochana aceita essa doutrina ao pé da letra e a ensina aos outros Asuras.

[3] Pois é, você pode entender o Gênio do Aladdin ou os gênios dos desenhos dos Looney Tunes como demônios, se quiser. É assim que consta nas 1001 Noites.

[4] Sobre a questão da possessão e problemas com djinns, bem como sobre o quanto exorcismos são mal ou bem vistos no islã, tem um texto muito interessante na PS Mag sobre uma cidade afastada, em Omã, que sofre regularmente com esse problema (link).

[5] Enoque, Enoch ou Hanokh foi um patriarca bíblico de tempos antediluvianos que foi levado vivo aos céus no livro do Gênesis, onde, diz-se o folclore e tradição mística, foi metamorfoseado no anjo Metatron (o profeta Elias mais tarde também é arrebatado e transformando no anjo Sandalfon). O Livro de Enoch, famoso por sua descrição dos anjos caídos, é atribuído a ele, mas, por não ser canônico, apesar de muito famoso no começo da era cristã, muitos poucos fragmentos em aramaico, grego e latim sobreviveram. A versão mais completa do manuscrito está em etiópico (Ge’ez).

[6] O salto daí para as nossas igrejas neopentecostais de hoje não parece ser difícil.

[7] Com todo respeito a quem é desse rolê, eu tenho sérios problemas com a vida e obra de Karlsson. Se a gente julgar as coisas pelo resultado que elas dão, no caso do Karlsson, bem… o primeiro problema é que ele é, digamos, ideologicamente suspeito. Acho que não há de ser surpreendente que muita gente do satanismo tenha afinidades com nazismo ou ideologias afins (como é o caso infame da ONA e da Joys of Satan), então cuidado. E, em segundo lugar, ele há uns meses se batizou na Church of Sweden, ainda por cima. Parece o caso clássico do ex-feiticeiro que virou crente, e é absolutamente lamentável.

[8] Eu sei que é engraçado falar nesses termos, quando não temos certeza nem mesmo da existência histórica de Salomão. Mas é fato que o mito fundamenta o ritual e por isso é importante levá-lo a sério, compreendido como mito.

[9] A obra de Blake, para além das Canções de Inocência e Experiência, constitui uma mitologia própria e muito complexa com entidades inteiramente originais e uma espiritualidade bastante herética (acredita-se, por exemplo, que ele fosse adepto de práticas de misticismo sexual, como o próprio Crowley, apesar de oficialmente ele ser contra o ocultismo). Para quem tem interesse, eu recomendo ler O Matrimônio do Céu e do Inferno, O Livro de Thel e O Livro de Urizen, para começar, nesta ordem. Os comentários de Harold Bloom, apesar dos pesares, também são muito úteis.

[10] Os satanistas com maior visibilidade são o pessoal da Church of Satan, de Anton LaVey. LaVey não é uma figura muito querida, no entanto, nos círculos esotéricos porque ele basicamente não acredita em magia para além da sugestão psicológica. Eles utilizam muito a sua visibilidade para promover o que seria um suposto “verdadeiro satanismo” com uma aura constrangedora de superioridade, mas é óbvio que isso é uma bobagem tremenda, porque isso de “verdadeiro satanismo” não existe. O satanismo de LaVey não passa de um ateísmo pós-cristão mais pungente com uma moral randiana. Eu reconheço que eles têm feito um trabalho interessante de ativismo contra fundamentalistas religiosos nos EUA, mas ninguém do rolê esotérico da mão esquerda costuma ter muito respeito pela Church of Satan, pelo menos não hoje. Nesse sentido, o Temple of Set, fundado por dissidentes da CoS, costuma ser mais interessante.

[11] Para dar um exemplo dessa relação, a prática de recitar o Pai Nosso ao contrário é famosa por ser recomendada por Paul Huson, em Mastering Witchcraft (1970). É evidente que essa técnica é interessante para satanistas também.

[12] Mas, antes que alguém diga qualquer coisa, calma que isso também não significa que é seguro sair desenhando o sigilo deles à toa por aí. Eles mesmos podem não vir, mas nada garante que alguma outra coisa não venha também.

(Este texto foi publicado originalmente em meu Medium, em duas partes, em 15 e 22 de junho de 2020)

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