Vou começar aqui com uma breve anedota: o que me levou ao estudo de Cabala, muitos anos atrás, quando eu ainda era ateu(!), não foi um interesse por espiritualidade a princípio, nem magia, mas algo mais bizarro. Os primeiros nomes que me levaram a querer entender o que diabos era isso foram autores de crítica literária – a saber, Walter Benjamin, Harold Bloom e George Steiner1. Tem outros também, mas foi esse trio que marcou a minha formação como estudante de Letras. Eu precisava entender do que era que eles estavam falando e como eu gosto de chegar a fundo nas coisas, não demorou para eu mergulhar de cabeça. Diria, inclusive, que o que corroeu o meu ateísmo de fim de adolescência e me levou para o caminho do misticismo foi isso, somado a um interesse por astrologia (embora fosse a princípio um interesse apenas cultural) que veio com o estudo da Anatomia da Melancolia, de Robert Burton, e por Swedenborg, por conta de sua influência sobre os poetas simbolistas. Mas foi um caminho bem tortuoso, que eu não recomendo, e eu sou da filosofia de tentar ajudar as pessoas a terem um processo mais fácil do que o que eu tive.
Talvez – provavelmente – você queira estudar Cabala por outros motivos mais normais2. Talvez busque a profunda sabedoria espiritual dessa tradição ou até mesmo deseje ver o que tem nela que dá para botar em prática. A questão é que Cabala (ou Cabalá, Kabbalah, Qabbalah etc) é um tema complicado. Tem muita base que você precisa dominar antes de as coisas começarem a fazer qualquer grau de sentido. A ideia deste texto hoje, então, é mostrar esse caminho. Ele segue no rastro de um outro recente – Recomendações de leitura – mas como o assunto aqui é mais profundo, este texto também precisa ser mais profundo, na mesma medida. Em vez de apenas oferecer uma lista de obras, eu acho que é importante comentar cada item mais a fundo e explicar o motivo de eu recomendar que esse processo seja feito na ordem indicada.
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Interrompendo o texto só para avisar que os nossos próximos cursos n’O Zigurate serão: Segredos do Ritual Menor do Pentagrama (curso novo! dia 25/7), Experimentos em Remediação Astrológica (26/7) e Magia angelical: módulo I (28/7 e 4/8). Ementa e inscrições nos respectivos links!
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Importante frisar que aqui vamos falar de Cabala judaica e não da Cabala hermética. Para entender a relação entre essas duas coisas, qual a diferença e o porquê de eu preferir uma à outra, favor conferir este texto anterior.

As bases
Uma coisa é incontornável: Cabala é parte da tradição judaica. Ponto. Tem influências, sim, de outras correntes (neoplatonismo, pitagorismo, sufismo), mas é um fenômeno judaico em seu cerne… e qualquer um que o negue ou é fora da realidade ou age de má fé, seja por antissemitismo ou puro trambique. Por isso, não tem como estudar Cabala sem ter uma noção básica da história e conceitos do judaísmo.
E aí a gente chega na primeira questão polêmica, que é a distinção entre o que é narrativa lendária e o que reconhecemos como fatos históricos mais comprovados. Por exemplo, a nível de narrativa lendária, um homem chamado Moisés (Moshe) libertou os hebreus do Egito, atravessou o Mar Vermelho e passou 40 anos vagando com todo mundo lá no deserto para que a geração seguinte começasse a conquista do Canaã, onde havia um povo pagão, o que está registrado no livro do Êxodo. Moisés também teria sido quem escreveu a Torá. A nível histórico, em termos de registros e evidências arqueológicas, sabemos que isso provavelmente não aconteceu, que a relação social, política e religiosa entre o antigo Israel, o Levante e o Egito era mais complicada do que isso, que Moisés não existiu, pelo menos não como descrito (os egípcios eram bons de burocracia, seria muito surpreendente se a fuga de milhares de escravos não fosse registrada, para começo de conversa) e que a história de composição da Torá é bem mais complexa. Isso não diminui o valor da narrativa, inclusive a nível espiritual, mas algumas pessoas têm uma mentalidade excessivamente literalista, e elas são as primeiras a se agarrar a um tipo de fundamentalismo bíblico que, no limite, leva o indivíduo a existir numa realidade histórica paralela em que a Terra tem apenas seis mil anos e os fósseis foram plantados pelo Diabo para enganar as pessoas. O diálogo com esse pessoal é muito difícil, como vocês podem imaginar.
Nesse sentido, eu acho importantíssimo começar os estudos com uma visão histórica geral. Um ótimo livro para isso se chama From Mesopotamia to Modernity: Ten Introductions to Jewish History and Literature, de David E. Fishman e Burton L. Visotzky. Sobre a questão dos povos bíblicos, tem o Biblical Peoples and Ethnicity: An Archaeological Study of Egyptians, Canaanites, Philistines, and Early Israel, 1300-1100 B.C.E., da Ann E. Killebrew. Tem outros livros acadêmicos que vocês podem conferir sobre o tema, mas esses foram os que eu consultei pessoalmente e que recomendo por isso. Se esse material for cabeçudo demais, existem bons vídeos de figuras em quem eu confio, como, por exemplo, o canal da Angela Natel, no YouTube, que também oferece cursos sobre o tema, e o canal da Juliana Cavalcanti. Em inglês, cito de novo o ESOTERICA, do Dr. Justin Sledge, que tem simplesmente uma playlist de 14 vídeos de introdução ao misticismo judaico, começando com a história do período bíblico.
Com essa noção em mente, entendendo o que diabos significam termos como o “Primeiro Templo”, “Exílio da Babilônia”, “Segundo Templo” e “diáspora”, “dinastia dos hasmoneus” e os “manuscritos do Mar Morto”, dá para começar a tentar uma leitura da Bíblia Hebraica, conhecida entre os cristãos como Antigo Testamento. Sobre esse assunto, eu já escrevi um texto aqui no site, inclusive com sugestões de qual tradução ler (link aqui). É uma série, na verdade, que eu gostaria de retomar em algum momento. Sem essa familiaridade com o material bíblico, 90% das referências cabalísticas ficam sem sentido. Quando um autor fala que Abraão representa a séfira de Chesed, Isaac a de Geburah e Jacó a de Tiffereth, o mínimo que a gente faz é saber quem foram essas personagens, não é mesmo? Os próprios nomes das sefiroth, aliás, derivam de um versículo bíblico.

Por fim, eu acho que vale a pena começar a estudar um pouco de hebraico bíblico, pelo menos o suficiente para se familiarizar com o alfabeto, com algo da gramática do idioma (vocês sabiam que o hebraico bíblico é uma língua VSO, i.e. em que o verbo vai no começo da frase?) e vocabulário básico. Enfim, com isso em mente, dá para começar a pensar em ler os primeiros textos cabalísticos de fato.
E dê graças que eu não falei para ir atrás do Talmude também, porque aí seriam anos e anos de estudo (porém ter alguma familiaridade com o conceito, pelo menos, é sim desejável).
Fontes cabalísticas primárias e secundárias
Assim começa um dos livros mais fundamentais da tradição:
Com 32 caminhos místicos de Sabedoria, gravara Yah, o Senhor das Hostes, o Deus de Israel, o Deus vivo, Rei do Universo, El Shaddai, Misericordioso e Gracioso, Elevado e Exaltado, que habita a eternidade, cujo nome é Santo – Ele é altivo e santo – e Ele criara o Seu universo com três livros (sefarim), com texto (sefer), com número (sefar) e comunicação (sippur).
Dez Sefiroth de nulidade (belimah) e as 22 letras de fundação: três mães, sete duplas e doze simples.
Dez Sefiroth de nulidade no número dos dez dedos, cinco opostos a cinco, com uma aliança singular precisamente no meio, na circuncisão da língua e na circuncisão do membro. Dez Sefiroth de nulidade: dez e não nove, dez e não onze. Entende com Sabedoria, sê sábio com entendimento, examina-as e sonda com elas.
Este é o Sepher Yetzirah (o Livro da Formação) que constitui, junto com o Sepher HaBahir (o Livro da Iluminação) e o Zohar (Esplendor), meio que o grande trio da literatura cabalística. Eu vou tratar deles agora em ordem.
Eu já falei do Sepher Yetzirah, o Livro da Formação, em duas ocasiões neste site (no texto sobre as correspondências do tarô e sobre o Bardon). Em resumo, é um texto supercurto, porém denso, e difícil de datar, que pode ter sido composto em qualquer momento entre o século I e o século X d.C. Sua principal preocupação é com a exploração dos significados esotéricos das letras hebraicas (por isso a importância de se familiarizar, pelo menos, com o alfabeto). Via de regra, esse livro costuma ser descrito como protocabalístico, porque o termo Cabala é mais específico, reservado para tratar da tradição do misticismo judaico nas regiões da França, Alemanha e Provença do medievo em diante.
No Yetzirah temos a primeira ocorrência do termo “sefiroth”, um neologismo aparentemente conectado ao conceito de contagem (letras samekh, peh, resh). O livro ainda não explica o que seriam as sefiroth (quem vai fazer isso serão os outros autores), nem diz seus nomes, mas já nos informa que são dez ao todo. Por isso são 32 caminhos místicos de sabedoria: 10 sefiroth mais as 22 letras hebraicas. No mais, segundo Kaplan (já vou falar dele), esse material pode ser lido como um texto descritivo, falando da origem da Criação, mas também como um texto instrutivo, ensinando técnicas meditativas. Nesse contexto seria o caso de ler não “gravara Yah”, mas “grave Yah”, com o verbo no imperativo, de modo que as metáforas de gravar ou entalhar seriam, na verdade, descrições imaginativas, instruindo o praticante quanto ao que ele deve visualizar.
O texto na íntegra, em tradução inglesa, pode ser acessado no site Sefaria e em vários outros. Mas, como eu falei e vocês mesmos podem ver, é um texto denso, apesar de breve, e sem alguém para nos guiar pelos seus segredos, fica parecendo que ele não tem pé nem cabeça. Por isso, a grande edição de referência do Yetzirah, em inglês, é uma com tradução e extensos comentários, feita pelo rabbi Aryeh Kaplan (1934 -1983) — ele próprio sendo uma figura bastante fascinante, um físico que virou rabino aos 30 anos, com interesse em Cabala, e morreu bizarramente jovem, após traduzir muita coisa inédita para o inglês. Esse volume, chamado Sefer Yetzirah: the Book of Creation, foi publicado pela Samuel Weiser, uma das gigantes do esoterismo americano… e que tem um dos comentários mais divertidos na descrição da Amazon, onde se lê que é um manual meditativo para “ajudar no desenvolvimento de poderes telecinéticos e telepáticos” (!). Longe de oferecer apenas comentários acadêmicos, Kaplan, ele mesmo um cabalista, oferece uma interpretação luriânica do material, com apontamentos sobre a natureza de Deus e da existência conforme essa vertente, além de instruções meditativas.
Essa edição foi traduzida para o português e publicada por aqui pela Editora Sêfer como Sêfer Ietsirá: O Livro da Criação — Teoria e Prática. Por conta de certas questões que envolvem o apoio um certo país, eu recomendo, no entanto, que vocês procurem esse livro usado em sebos ou outras fontes.

Aryeh Kaplan também traduziu e comentou o Bahir, o segundo livro da nossa lista. O Bahir é um livro mais longo e, em certo grau, mais complexo. Ele se apresenta como a obra de um sábio do século I, Nehunya ben HaKanah, mas é evidentemente posterior – durante um tempo entendia-se que seria do cabalista francês Isaac, o Cego, do século XIII, mas hoje acredita-se que seria de um círculo esotérico anônimo dessa mesma época. Diferente do Yetzirah, que se apresenta como uma série de proposições enigmáticas, o Bahir é um texto mais exegético, comentando trechos bíblicos com um viés esotérico, como se pode observar já no parágrafo de introdução:
Disse o Rabino Nehuniá ben HaKana:
Relata certo versículo (Jó 37:21): “E agora não se vê a luz, o céu é luminoso” (Bahir)… [Deus envolve-se em assombrosa majestade]”. Diz, todavia, outro versículo (Salmos 18:12): “Ele fez das trevas o Seu esconderijo”. Está, também, escrito (Salmos 97:2): “Nuvens e trevas O envolvem”. Trata-se de aparente contradição. Surge um terceiro versículo e reconcilia os dois. Está escrito (Salmos 139:12): “Mesmo a treva não é treva para Ti. A noite reluz qual o dia – luz e treva são o mesmo”.
Composto num misto de hebraico e aramaico, ele foi traduzido e comentado para o inglês também por Aryeh Kaplan. A tradução para o português foi feita por Maria Regina Nogueira e vocês podem conferi-la na edição da Polar Editorial, O Bahir – O livro da iluminação.
Por fim, o Zohar… ah, o Zohar. Esse é o mais importante e principal dos textos cabalísticos, atribuído a Shimon bar Yochai, outro sábio do século II d.C., mas publicado no século XIII pelo cabalista espanhol Moshe de Leon. O Zohar é imenso e constitui diversos volumes de um texto em aramaico complexo, abstruso, poético e repleto de calques e neologismos. Nele encontramos vários gêneros textuais, entre narrativas fabulosas (como a narrativa famosa, do começo do primeiro texto, em que as letras hebraicas se apresentam para Deus para que ele escolha qual delas vai começar a Criação), exegese e poesia. Por conta do tamanho e da complexidade dessa obra, uma boa introdução é o volume O Zohar – O livro do esplendor, também da Polar Editorial, que apresenta uma seleta de trechos escolhidos pelo rabino Ariel Bension. Uma tradução completa e cuidadosa vem sendo empreendida ao longo dos últimos anos pelo tradutor Diego Raigorodsky (acredito que ele esteja, a essa altura, no 11º volume da série).
Para complementar os estudos do Yetzirah, do Bahir e do Zohar, eu recomendaria ainda alguns outros estudos acadêmicos sobre Cabala. E, de novo, na playlist do ESOTERICA, tem vídeos sobre esses três livros.
A Cabala e o seu Simbolismo, de Gershom Scholem, é um clássico, que temos em tradução para o português também (ed. Perspectiva). Scholem foi o responsável por trazer a Cabala à atenção do mundo acadêmico e da pesquisa séria numa época em que ela era considerada uma mera superstição vergonhosa. Nesse livro, ele faz uma introdução com um forte viés histórico, pensando sobretudo na relação entre o judaísmo e o mito e buscando entender o fenômeno mais amplo do misticismo em geral e o misticismo judaico em particular, obviamente, que é a corrente em que a Cabala se insere. Eu recomendo tudo que esse homem produziu, aliás, mas esse volume é curto e um dos mais acessíveis, tanto em termos de prosa quanto de facilidade de encontrar em livrarias e sebos. Para um estudo mais aprofundado, tem também o volume intitulado simplesmente Cabala (ed. Chave). No geral, tudo que você puder ler do Scholem vai valer a pena.
Para quem pode ler em inglês, temos alguns livros excelentes nesse idioma. Cito:
- An Introduction to the Kabbalah, de Moshe Hallamish (SUNY Press), que faz uma apresentação dos principais conceitos cabalísticos, como a ideia dos quatro mundos (Atzilut, Briah, Yetzirah, Assiah), as sefiroth, a Árvore da Vida, a origem do mal etc.
- The Early Kabbalah, de Joseph Dan (Paulist Press), um estudo da emergência da tradição cabalística, com capítulos dedicados a alguns dos principais nomes e seletas de fontes primárias;
- From the Depths of the Well: an Anthology of Jewish Mysticism, editado por Ariel Evian Mayse (Paulist Press), uma outra seleta de material cabalístico comentado, que vai desde os primeiros cabalistas explorados no volume de Dan até o círculo de Luria e místicos modernos;
- The Poetry of Kabbalah: Mystical Verse from the Jewish Tradition, editado por Aminadav Dykman, tradução e comentário de Peter Cole (Yale University Press), outra antologia de círculos e épocas diversas, mas com ênfase na poesia;
- Há muitos títulos interessantes na bibliografia de Moshe Idel: Enchanted Chains: Techniques and Rituals in Jewish Mysticism, sobre as técnicas cabalísticas, evidentemente; Kabbalah: New Perspectives, um estudo mais amplo sobre misticismo judaico e história; e dois livros só sobre a obra de Abraham Abulafia, Language, Torah, and Hermeneutics in Abraham Abulafia e Abraham Abulafia’s Esotericism: Secrets and Doubts.
Depois de se familiarizar com o material principal, eu acho que dá para começar a estudar obras menos badaladas. Um livro que teve um tremendo impacto sobre o ocultismo ocidental, por exemplo, foi o Shaarei Orah (Portais de Luz), de Joseph Gikatilla (1248-1305), que foi lido pelo cabalista cristão Johann Reuchlin. Trata-se de um estudo profundo sobre os nomes de Deus e a Árvore da Vida. Ele pode ser lido em inglês, no site Sefaria, ou neste outro link, sob o título Gates of Light, traduzido e comentado pelos rabbis Amiram Markel e Yehudah S. Markel.
Outro livro com um nome parecido, mas com outra ênfase, é o Shaarei Kedusha (Portais da Santidade), do discípulo do lendário Isaac Luria, Chayim Vital (1542-1620). Trata-se de um volume com instruções sobre a formação da figura do Justo (Tzadik). Ele é interessante, a meu ver, especialmente pelas suas reflexões a respeito de anatomia espiritual, com a conexão entre a constituição do nefesh, o cumprimento dos deveres espirituais e os quatro elementos (vou falar mais sobre isso em breve). Ele pode ser lido em tradução inglesa de Fabrizio Lanza pela editora da Providence University sob o título Shaarei Kedusha: Gates of Holiness.
Por fim, Aryeh Kaplan, de novo, em seu Meditation and Kabbalah (ed. Weiser), nos fornece uma ótima introdução a técnicas cabalísticas de meditação conforme fontes primárias, inclusive ao método extático de Abraham Abulafia para conquistar dons proféticos de que já falamos anteriormente aqui no site. Esse livro saiu em português, também pela editora Sefer, com o título Meditação e Cabalá.
E, ah, já que eu falei de canais no YouTube, tem dois canais de cabalistas que eu conheço, em português, que vale recomendar: o canal do Yair Alon e o canal do Pinchas.
Da teoria à prática
Bom, vamos supor agora que você queira não apenas entender a parte teórica da Cabala, mas praticá-la também… ou, pelo menos, entender como se pratica. Deixo o aviso desde já de que a aplicação de Cabala prática é motivo de polêmica. Entre judeus mesmo, é uma questão controversa – e se você for estudar a história da coisa, desde o fiasco que foi o caso do falso messias Shabbatai Zvi, no século XVII, pessoal passou a levar isso bem mais a sério. Entre não judeus, então, nem falo nada. Mas eu não estou aqui para falar do que as pessoas podem ou não fazer e sim para indicar bibliografia. E lá vamos nós.
De novo, reitero que não vou citar livros de Cabala hermética, que costumam ser o que é mais fácil de encontrar por aí, mas apenas livros que tratem de práticas radicadas nos fundamentos genuínos da Cabala judaica.
Cito, de novo, o Meditation and Kabbalah, de Aryeh Kaplan, que tem esse viés prático, e o Sepher Yetzirah Magic, de David Rankine (Hadean Press) que eu pessoalmente já resenhei aqui n’O Zigurate mesmo, em 2021. O que eu acho interessantíssimo no livro de Rankine é como ele pega os fundamentos do Yetzirah e os põe em prática, por exemplo, elaborando um ritual de rotina para consagração e purificação e meditações sobre as letras hebraicas para fortalecimento do corpo energético3. Outro livro que eu recomendo é o Qabbalistic Magic: Talismans, Psalms, Amulets, and the Practice of High Ritual, de Salomo Baal-Shem, que inclusive tem um capítulo muito bom de magia com salmos.
Mas o grande nome contemporâneo da Cabala prática é Jacobus Swart, discípulo de William Gray e cofundador da ordem Sangreal Sodality. No seu blog mesmo, Kabbalah and Self-Creation, tem bastante material, mas o destaque aqui mesmo vai para a sua série de livros chamada de “Shadow Tree Series”, composta pelos volumes The Book of Self Creation, The Book of Sacred Names, The Book of Seals and Talismans e The Book of Immediate Magic. Esses livros são um tesouro para qualquer um interessado no assunto, na medida em que tocam em temas como nomes divinos e talismãs, como se pode ver. Eles são, no entanto, um pouco inacessíveis, tanto por serem caros e não existir edição brasileira, quanto pelo fato de que mesmo os PDFs que se encontra por aí serem incompletos, em sua maioria.
Se você quiser conferir fontes históricas, existe um grimório cabalístico medieval chamado Brit Menucha, de Avraham ben Yitzchak, de Granada, que inclui descrições dos mundos superiores e trechos sobre conjuração de anjos. Ele está disponível em inglês sob o título Brit Menucha – Covenant of Rest (Providence University, de novo)… mas infelizmente, eu confesso, é avançado demais para mim.
E existem livros que não são necessariamente cabalísticos no sentido mais verdadeiro do termo, mas pertencem a uma verve mais antiga e até mesmo meio paralela de magia judaica, com conexões com as técnicas dos PGM e afins. Entre eles cito o Sepher HaRazim, o Livro dos Mistérios, do século IV, ao qual eu já dediquei um texto aqui no site, e o Charba de Moshe, a Espada de Moisés, outro grimório fascinante da mesma época mais ou menos, envolvendo um ritual para a recitação de uma fórmula complexa, chamada de “a espada de Moisés” propriamente, que confere o poder de realizar vários feitiços. O Sepher HaRazim está disponível em inglês, em tradução e comentário de Michael Morgan, mas existe uma tradução em português do rabbi Yair Alon (autopublicada sob o título de O Livro dos Segredos). Para a Espada de Moisés, idem. E Harold Roth, em The Magic of the Sword of Moses (Weiser) oferece uma adaptação desse livro para torná-lo praticável num contexto contemporâneo4.
…e isso conclui as minhas recomendações de leitura para o estudo de Cabala.
Muitas pessoas têm interesse pelo tema – o que é justo, pois é um tema fascinante, mesmo que você não tenha interesse em magia – mas não sabem por onde começar. Com essas indicações, a intenção é oferecer a essas pessoas uma orientação nesse sentido, tendo em mente o que há de mais legítimo e genuíno nesse campo, para que ninguém caia nas bobagens de um Samael Aun Weor da vida ou algo do tipo. Seguindo esse cronograma de estudos, acredito que seja possível começar a entender um pouco de Cabala dentro de cerca de uns dois anos.
Deixo claro que, obviamente, não tenho a menor pretensão de exaurir o assunto, que tem muita coisa ainda que eu mesmo desconheço e que essa é uma lista incompleta, que há de continuar incompleta, pela própria natureza da complexidade do tema. Mas eu pretendo, de quando em quando, voltar aqui para incluir um ou outro item que tenha me escapado ou chegado à minha atenção depois. Em todo caso, esse material já é suficiente, com certeza, para uma vida inteira.
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- No texto de Benjamin sobre a tarefa do tradutor, que todo mundo lê em qualquer curso sobre tradução literária, eu lembro que tinha algumas referências, ainda que meio veladas, ao misticismo judaico, e ele próprio foi amigo próximo de ninguém menos que Gershom Scholem. Nos livros de Bloom foi onde eu encontrei pela primeira vez termos cabalísticos como tzimtzum, e Steiner se vale frequentemente de referências místicas em seu Depois de Babel. Vale lembrar ainda que foi nessa época que eu li O pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, um romance estruturado em dez capítulos temáticos conforme as dez sefiroth. ↩︎
- Havia também, para mim, uma dimensão pessoal nessa busca, que tem a ver com a minha própria ancestralidade. Mas, como dito, é algo pessoal e prefiro não falar disso publicamente. ↩︎
- Há uma tradução para o português desse livro, mas é, de novo, por uma editora que eu não gosto, por isso sequer citarei o seu nome. ↩︎
- Para estudos sobre essa vertente mais antiga da magia judaica, recomendo: Jewish Magic and Superstition: A Study in Folk Religion, de Joshua Trachtenberg, e Ancient Jewish Magic, de Gideon Bohak. ↩︎
