Abençoando alimentos

A prática de recitar uma breve prece antes das refeições é comum a religiões diversas. Aqui no Brasil, eu mesmo nunca vi esse hábito ser posto em prática, mas em filmes e séries dos EUA a gente vê direto, pessoal para antes de comer para “say grace“. Se você der uma olhada na Wikipédia, tem até uma lista com preces para se fazer antes de comer, conforme não apenas várias vertentes do cristianismo, mas também o judaísmo1, o islã, hinduísmo, budismo e outras religiões.

No caso de religiões que são uma força cultural hegemônica, esse tipo de prece pode muitas vezes virar um mero hábito vazio, algo que se faz por costume. Mas tem fundamento aí. Como diz Damien Echols, em seu livro Ritual, escrito em coautoria com Lorri Davis: “Nos tempos modernos, é comum engolirmos a nossa comida distraidamente enquanto fazemos outras tarefas ao mesmo tempo – assistimos televisão, conversamos com amigos ou trabalhamos no computador. Abençoar o nosso alimento não apenas infunde nele mais chi, ou energia, como também nos lembra de voltar ao presente momento e recordar que tudo que fazemos é um passo na direção da completude da Grande Obra”.

No mais, esse é um hábito importante para cultivarmos a gratidão por todas as forças, humanas e extra-humanas (incluindo deidades, anjos e seres elementares da Terra) envolvidos em nossa alimentação, algo que muitas vezes a gente acaba não valorizando neste mundo de separação entre produção e consumo. Quando abençoamos, nós nos tornamos também mais receptivos a bênçãos. E, né, como eu sempre falo, ninguém gosta de gente ingrata – os espíritos, muito menos2.

Imagem obrigatória de um campo de trigo para falar de comida.

Hoje eu vou compartilhar com vocês, então, algumas formas mais esotéricas de abençoar os alimentos. Como é do meu costume, eu vou oferecer técnicas derivadas de fontes diversas, e aí cada um pode ver o que entra mais em ressonância consigo.

* * *

Interrompendo o texto só para um recado rápido: no dia 4 de julho, das 9h às 18h, em São Paulo, vai ocorrer o curso ALCANÇANDO A UNIDADE COM A ALMA SUPERIOR, com a instrutora sênior de Pranic Healing do Instituto Pranaterapia, Cristina Lunardi. É um curso dedicado à espiritualidade, sem pré-requisitos e repleto de ensinamentos úteis independentemente da sua vertente espiritual. Inscrições e mais informações neste link aqui. Quanto aos cursos d’O Zigurate propriamente, logo mais anunciaremos aqui as turmas de julho também.

* * *

Eu falei do livro Ritual, do Echols e da Lorri. Na seção blessing food do capítulo 5, Echols ensina a seguinte técnica:

Comece inalando várias vezes enquanto visualiza o chi sendo tragado pelo nariz e descendo pelo corpo até os pés. Ele preenche a terra com luz branca. A luz branca se torna mais e mais radiante com cada respiração.
Depois, estenda sua mão direita sobre a comida e, enquanto a luz/energia sobe de volta pelo seu corpo e sai pela sua mão, use os dois dedos, indicador e médio, para cercar o seu alimento com uma luz de chamas azuis, da cor das chamas que saem de um fogão a gás.
Enquanto come, visualize que cada bocado de comida está carregado de luz divina e a veja espalhar-se pelo seu corpo inteiro ao engolir.

Essa técnica é sobretudo uma forma de bênção via energização, que pode ser praticada independentemente de qualquer alinhamento com alguma egrégora específica, por isso é útil para qualquer praticante. Mas é possível somá-la a uma breve prece também, a ser feita antes ou depois da energização3, se você quiser. Nesse caso, recomendo dar um pulo no artigo da Wikipédia, linkado acima, para ver algumas possibilidades.

E aí, quando falamos em preces, estamos falando em símbolos, em visões de mundo específicas que estão, sim, ligadas a tradições, logo a egrégoras. Por isso, para usá-las, embora não seja necessário nenhum tipo de iniciação ou algo do tipo, acaba sendo importante ter alguma conexão ou simpatia, pelo menos, com as doutrinas dessas tradições.

O mantra OM AH HUM nos caracteres tibetanos.

No budismo Vajrayana, como eu falei anteriormente no post sobre mantras, usa-se o mantra OM AH HUM para abençoar alimentos. Esse é o mantra de limpeza e purificação mais comum nessa tradição, representado como as três sílabas acima nesse padrão de cores, cada uma das quais tem conexão com vários conceitos budistas.

Cito o venerável Lama Zopa Rinpoche (fonte) em resposta a uma pergunta sobre o tema:

A respeito de sua pergunta sobre abençoar alimentos, você recita OM AH HUM e visualiza todos os budas e bodhisattvas abençoando o alimento com as qualidades da santidade do corpo, da fala e da mente. Isso é absorvido pela comida onde ela estiver. Tudo é absorvido pela comida.
Depois recite OM AH HUM.
Visualize então que cada grão e cada parte da comida é um HUM azul e que ali o corpo, a fala e a mente sagrados de inúmeros budas e bodhisattvas estão sendo absorvidos. Então faça isso durante um bom número de malas do mantra (OM AH HUM); quanto mais você fizer, melhor. Os HUMs se tornam grãos ou partículas de alimento.
Depois faça uma prece ao campo de mérito, ao Buda da Medicina, a Tara e Chenrezig (mas em especial ao Buda da Medicina) e reze para que todos os budas e bodhisattvas abençoem o alimento e que nunca dele derive qualquer efeito negativo; que o alimento é purificado de imediato no momento que tocar a boca, purificando de imediato todos os karmas negativos coletados de renascimentos sem sentido, não apenas inveja, mas todas as doenças e males espirituais são purificados. Além disso, reze para que todo despertar da devoção ao guru até a iluminação seja concretizado, que todo despertar seja produzido, sobretudo bodhichitta, trazendo a todos os seres sencientes a felicidade e a paz perfeita neste mundo. Então todos os desejos de felicidade e todos os sucessos – conforme o santo Dharma – são recebidos imediatamente. Todos os desejos de iluminação são concretizados.

Diz o Lama que todo mundo pode fazer essa meditação, não é secreta, nem iniciática. A prática que ele sugere é um pouco mais longa e mais indicada para ser feita antes do preparo do alimento, mas o mantra OM AH HUM recitado três vezes também é usado para a bênção logo antes de comer, como recomenda o venerável Thubten Chodron (link aqui), junto com uma prece de reverência às Três Joias e um momento para cinco contemplações (das causas, condições e benevolência dos outros por meio dos quais o alimento é recebido; a contemplação da própria prática e das tentativas da aprimorá-la; da própria mente e dos cuidados contra os vários venenos; do alimento em si, tratando-o como uma medicina maravilhosa para nutrir o corpo; e do objetivo da natureza búdica, aceitando e consumindo o alimento a fim de chegar a esse objetivo).

Nas tradições mais esotéricas do islã, como eu aprendi com o Patreon do Dr. Ali Olomi, é usado um dos nomes de Allah, Al-Quddus (fonte). Esse nome pode ser traduzido como “o santo” ou “o puro”. Sua raiz semítica triliteral Q-D-S remete a tudo que diz respeito à santidade e a lugares e objetos sagrados4. Sobre esse nome e seu poder, cito o autor:

Al-Quddus é o Nome capaz de purificar tudo isso para realinhar a alma com o espírito. Se você se flagra indo atrás de coisas na vida que não o enobrecem, que não nutrem a sua alma, então é possível que algo talvez esteja desalinhado espiritualmente e al-Quddus possa remediar isso. É a força da cura e remediação para doenças espirituais que transformam nossos desejos e vontades em influências corruptoras, aquilo que as remove do âmbito do natural, do que é dado por Deus e as torna rebaixadas e pervertidas. É a força que nos realinha de modo a não desejarmos nem buscarmos o que não é bom para nós. Assim as nossas vontades, desejos e sedes se alinham com o que é bom para nós.

Al-Quddus é o nome divino, portanto, associado à elevação física e espiritual, purificações, limpezas, exorcismos e a obtenção de estados espirituais. Astrologicamente, ele tem ressonância com o planeta Júpiter. Para mais informações, incluindo as várias aplicações desse nome, recomendo de novo o Patreon do autor. Você também pode ir atrás do livro Os 99 Nomes de Deus, de Al-Ghazali.

Para abençoar o alimento antes de consumi-lo, como ensina o dr. Ali Olomi, recita-se então o nome YA-QUDDUS três vezes em cima do prato. Ele não comenta, pois imagino que, enquanto muçulmano, fique subentendido, mas entendo que isso viria depois das outras preces islâmicas costumeiras que acompanham a refeição como dizer bismillah (fonte) ou Allahumma barik lana fima razaqtana waqina azaban-nar (fonte).5

Uma outra bênção interessante, a gente encontra na obra de Nineveh Shadrach. Em Magic That Works, escrito em co-autoria com Frances Harrison, os autores ensinam a seguinte prece:

Ó Elat (Deusa), eu te agradeço por me fornecer esse sustento. Que eu tenha a capacidade de dar sustento aos desvalidos entre os Teus filhos assim como tu me deste sustento. Eu peço tua bênção sobre este alimento (ou bebida) para que Tua Luz possa adentrá-la, que eu possa adentrar a Tua Luz e ela em mim. Ó anjo Rafael, preenche a substância física deste alimento (ou bebida) com a força espiritual da Luz do Reino da Rainha dos Céus. Que ela sustente meu corpo e nutra a minha alma com seu maná mágico. Assim nutrido de Luz, eu alcançarei cada vez mais os arrebatamentos dos Céus e celebrarei os júbilos da Terra.

Shadrach é uma figura um pouco peculiar, porque sua abordagem é radicalmente sincrética: o sistema ensinado nesse livro bebe de fontes árabes (aparentemente ele mora no Ocidente hoje, mas sua família vem da Arábia Saudita), e ele recorre ao sufismo, à Cabala e à devoção aos deuses mesopotâmicos (a menção à Rainha dos Céus ali é a ninguém menos que Ishtar, a quem Shadrach também é devoto). Enquanto brasileiros, eu acho que todos conseguimos compreender também esse impulso à mistura, mas imagino que algumas pessoas mais radicalmente monoteístas e ortodoxas possam se ofender. Em todo caso, embora eu seja menos audacioso nas misturas que eu faço, acho a prece dele muito bonita e tenho simpatia pela sua prática.

Por fim, como vocês sabem, eu mesmo tenho a minha prática pessoal com o panteão mesopotâmico e também tenho desenvolvido um sistema de mantras à moda desse trabalho com nomes divinos (as palavras em árabe, hebraico e acadiano, afinal, trabalham muitas vezes com as mesmas raízes)6. E assim, eu cheguei a uma fórmula que é breve e eficaz:

il nurī – ilu qašdu – ilu rēmēnû
il nurī – ilu qašdu – ilu rēmēnû
il nurī – ilu qašdu – ilu rēmēnû
ina akali napišta šukun
narbīka lušāpi dalīlīka ludlul

he-am

(tradução: “deidade da luz, deidade pura, deidade misericordiosa / que neste alimento (lit. ‘pão’) haja força vital / e eu seguirei louvando tua divindade / que assim seja”)7.

Em termos práticos, eu recomendo que, ao fazer uma dessas preces, você as recite sempre que possível em voz alta e gesticulando na direção do prato. Se estiver numa situação social e bater a vergonha de fazer todo o gestual e falar em línguas estranhas, você pode recitar baixinho ou mentalmente e apontar discretamente com a mão por debaixo da mesa. A bênção do Echols eu entendo que também é possível fazer com a mão embaixo da mesa ao comer em restaurantes e outros lugares públicos.

Enfim, essas são apenas algumas formas de se fazer a bênção dos alimentos. Como sempre, eu não tenho a menor pretensão de falar em termos de “essas são as únicas opções”8, mas sim a intenção de demonstrar algumas das coisas que dá para fazer. Eu acho interessante a bênção do alimento, porque é algo que a gente pode fazer de espiritual que não fica contido dentro do espaço dos nossos rituais e meditações, mas incorporado ao dia a dia9. Embora essa separação entre, por exemplo, a hora de meditar e todas as outras coisas que a gente faz possa ter uma utilidade didática num primeiro momento (pois é mais fácil obter a consciência espiritual num espaço separado para isso e em silêncio), qualquer praticante espiritual vai lhe dizer que um dos grandes objetivos da prática é a espiritualização de tudo que a gente faz. E isso representa um pequeno passo nessa direção.

* * *

(Obrigado pela visita e pela leitura! Se você veio parar aqui n’O Zigurate e gostou do que viu, não se esqueça de se inscrever em nosso canal no Telegram neste link aqui. Anunciamos lá toda vez que sair um post novo, toda vez que abrirmos turmas para nossos cursos e todo tipo de notícia que considerarmos interessante para quem tem interesse em espiritualidade, magia e ocultismo. Se quiser se informar a respeito dos cursos, meditações e atendimentos de Pranic Healing no Instituto Pranaterapia São Paulo com a Maíra, o site dela é https://www.mairadosanjos.com.br/. Também estamos no Instagram (@ozigurate e @pranichealermaira) e Blue Sky (ozigurate.bsky.social e pranichealer.bsky.social).)

* * *

  1. O artigo da Wikipédia acaba não entrando muito em detalhes quanto às preces judaicas, mas você pode conferir as principais delas no site Chabad.org. ↩︎
  2. Um benefício adicional é a redução de danos, quando comemos algo que possa fazer mal ou que seja um alimento mais denso, como carne de porco ou camarão. ↩︎
  3. Eu prefiro antes, para abrir a coroa e garantir o fluxo de energia divina para a energização. ↩︎
  4. Em hebraico, para comparar, temos palavras como qodesh, “santidade”, qiddesh, “santificar”, muqdash, “devotado”, etc. ↩︎
  5. Existem práticas com outros nomes divinos, recitados, por exemplo, enquanto se prepara os alimentos, com propósitos específicos, mas aí vocês podem conferir nos outros posts do dr. Olomi. ↩︎
  6. Explicando as fórmulas em questão, exemplares dessa proximidade: como já vimos, Al-Rahim tem o mesmo significado e raiz que rēmēnû, “misericordioso”, sendo ilu rēmēnû o modo como Marduk é chamado em uma de suas invocações; qašdu, “puro, sagrado” tem a mesma relação com quddus em termos de raiz e significado; e nūr(û/î) é luz, tanto em acadiano quanto em árabe. ↩︎
  7. Como pronunciar essas palavras, aproximadamente: il nurii, ílu cashdu, ílu reemeenu, ina ákali napíshta shukun, narbíika lusháapi dalíiliika lúd-lul. rê-am. ↩︎
  8. Eu queria muito incluir aqui uma opção brasileira dentro das tradições afro-indígenas. Imagino que seja possível abençoar o alimento com uma prece a Oxóssi, o Orixá caçador que traz o alimento à mesa e é o senhor da fartura – o Pai Paulo de Oxalá tem um texto neste link com o oríkì de Oxóssi e uma reflexão sobre a fartura e como Oxóssi transforma o ato de comer em gesto sagrado, o que faz todo o sentido com o que estamos apresentando aqui. Porém, não sou besta de recomendar nada dentro de uma tradição em que eu ainda sou iniciante sem conferir antes se a prática é corrente, se tem o endosso de alguma figura de autoridade e se tem alguma contraindicação. ↩︎
  9. Por fim, algo sobre a questão do hábito: pode ser que aconteça de você ler este texto, começar a fazer com empolgação e chegar a abençoar algumas refeições antes de esquecer. Está tudo bem, não se sinta mal por isso. Continue fazendo quando lembrar e você vai pegar o hábito em algum momento. Pode usar o alerta do celular ou algo assim para lembrar de fazer, se for o caso. ↩︎

Deixe um comentário