Em 2020, eu publiquei dois textos sobre recomendações de leitura sobre magia aqui no site. Nesse período desde então, no entanto, houve tempo para o meu estilo de escrita evoluir, naturalmente, junto com a minha opinião sobre algumas das obras que eu mesmo recomendei nesse momento anterior, fora o surgimento de outros livros que foram publicados ao longo desses últimos 6 anos. Por isso, senti que precisava revisitar o tema e chegar a um formato mais direto, conciso e atualizado.
Duas coisas, antes de mais nada: primeiramente, recomendo que vocês deem uma olhada no último post aqui no site, sobre os tipos de textos esotéricos. Eu trabalho com uma tipologia que reconhece textos de natureza, como eu chamei, mitopoética, teológica, de mecânica esotérica e operacional. E é essa a terminologia que eu vou usar aqui. Em segundo lugar, como já falei anteriormente também, eu não recomendo a maioria dos ditos “clássicos” do ocultismo, pelo menos não para iniciantes, porque eles vão mais confundir o aspirante a magista do que qualquer outra coisa. É preciso construir um repertório robusto antes de chegar a essas leituras, a fim de conseguir separar o joio do trigo.
Também não pretendo sugerir agora fontes primárias mais antigas que são fundamentais, como o Timeu de Platão, o De Mysteriis de Jâmblico ou o Corpus Hermeticum, porque são obras complexas que exigem um estudo profundo e literatura secundária, e a ideia aqui é oferecer uma bibliografia mais acessível. Trataremos disso num outro momento.
Sem mais delongas, pois, vamos às recomendações.

Se você é como eu, talvez alguma leitura acadêmica seja interessante antes de começar a explorar o mundo esotérico por dentro. É útil ter uma visão panorâmica da cena toda, uma ideia de história, principais nomes e correntes, esse tipo de coisa. Para isso, ninguém, na minha opinião, é melhor que o pesquisador Kocku von Stuckrad, autor de Western Esotericism: A Brief History of Secret Knowledge, um resumão da história da tradição ocidental. É um livro curtinho e acessível, que trata desde as tradições gregas, greco-egípcias e judaicas da antiguidade até a Renascença, os maçons, a Teosofia e o New Age. Se eu fosse dar aula de magia em formato tipo de faculdade, seria leitura obrigatória, o primeiro xerox para pegarem na minha pasta. Ainda dentro do âmbito acadêmico, tem mais algumas outras obras que são interessantíssimas também (para quem tem gosto pela coisa, digo)1, embora não obrigatórias. São elas:
- History of Western Astrology: From Earliest Times to the Present (traduzido em português como História da Astrologia: da antiguidade aos nossos dias, pela ed. Globo), também do von Stuckrad. Na medida em que a astrologia tem uma influência tremenda sobre a magia, não tem como negar a importância de entender a sua história;
- A Cultural History of Tarot, de Helen Farley, que oferece não só o que diz no título (o que é útil para separar o tarô das lendas a seu respeito), mas também insere a história do tarô dentro da história do esoterismo no geral, com ênfase no occult revival inglês e francês do final do século XIX;
- História do tarô: um estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo, da Isabelle Nadolny (Pensamento, 2022), que contém uma história mais aprofundada sobre o tema e num livro com um apelo visual mais forte e um estilo menos acadêmico;
- Magic in Western Culture: From Antiquity to Enlightenment, de Brian Copenhaver (que também é o tradutor responsável pela edição mais usada do Corpus Hermeticum em inglês), que faz outra visão geral com ênfase nas bases filosóficas da magia;
- The Cambridge History of Magic and Witchcraft in the West, editado por David J. Collins, com ensaios de autores diversos sobre temas que vão desde a magia na antiguidade até Bizâncio e o mundo árabe medieval, o mundo colonial e pós-colonial;
- Grimoires, de Owen Davies, dedicado ao tema dos manuais mágicos (grimórios), sua história etc;
- Arguing with Angels: Enochian Magic and Modern Occulture, de Egil Asprem – um livro um pouco mais específico, sobre o impacto da magia enoquiana e dos experimentos de Aleister Crowley sobre a cultura esotérica do século XX em diante;
- The Place of Enchantment: British Occultism and the Culture of the Modern, de Alex Owen – também trata da figura de Crowley, o pessoal da Teosofia e afins, pensando no seu impacto sobre a arte e a cultura mais ampla.
- Eliphas Lévi and the French Occult Revival, de Christopher McIntosh, e Satanism, Magic and Mysticism in Fin-de-siècle, de Robert Ziegler, ambos sobre o ocultismo francês de Lévi, Papus e companhia.
Em termos de leitura acadêmica sobre magia, tem alguns canais no YouTube de pessoas que são desse mundo e oferecem belíssimas introduções sobre temas diversos, com bibliografia, e por isso eu vou recomendar aqui. O principal deles é o ESOTERICA, claro, do dr. Justin Sledge, de quem eu sou fã assumido, mas o Angela’s Symposium da dra. Angela Pucca também é legal, bem como os canais de M. David Litwa (pesquisador sobre hermetismo), do dr. Andrew M. Henry, o Religion for Breakfast, e, em português, da dra. Angela Natel, especialmente as lives dela (nas quais a dra. Inês Barreto, pesquisadora no assunto bruxaria, é uma convidada frequente).

Agora, por mais que a perspectiva acadêmica seja útil e eu tenha um profundo apreço por esse tipo de pesquisa (justamente por dissipar as várias bobagens com que o ocultismo costuma se engajar às vezes), é importante ter em mente que, assim como ninguém aprende a cozinhar só de ler um livro sobre a história ou antropologia da culinária, ninguém aprende a fazer magia com acadêmicos. E se você é um completo leigo e quer algo simples e seguro para começar, eu ainda sou da opinião de que os melhores livros para quem está chegando agora são os do Damien Echols.
Como vocês já devem saber, já que é um caso famoso, Echols foi falsamente acusado de assassinato durante sua adolescência nos anos 90 (parte do grupo que ficou conhecido como The West Memphis Three) e passou 18 anos no Corredor da Morte. Durante esse tempo, ele aprendeu meditação Zen e se aprofundou nos rituais de magia cerimonial do currículo da Golden Dawn, aplicando suas técnicas não só para obter a sua libertação, mas também para manter o seu equilíbrio mental, emocional e espiritual no inferno que é o sistema carcerário. Liberado em 2011, ele tem se dedicado desde então a escrever e falar sobre ocultismo e espiritualidade.
Nos últimos anos, Echols lançou três livros de magia: High Magick: A Guide to the Spiritual Practices That Saved My Life on Death Row (2018); Angels & Archangels: a Magician’s Guide (2020); e Ritual: an Essential Grimoire (2022, escrito junto com sua esposa, Lorri Davis). O High Magick é um livro excelente para iniciantes, porque é, ao mesmo tempo, uma obra de mecânica esotérica, explicando como funciona o mundo sutil em termos de movimentação de energia, e um livro operacional, com técnicas simples de treinamento, manipulação energética, rotina diária e os rituais mais básicos da Golden Dawn, como o Ritual menor do Pentagrama. Inúmeros autores ensinam a fazer esse ritual, claro, mas eu admiro a abordagem de Echols, que vai além da mera repetição automática e busca um entendimento dos seus mecanismos, sugerindo até mesmo certas inovações, ao mesmo tempo em que usa uma linguagem muitíssimo acessível. Os outros dois livros dessa trilogia são interessantes também e recomendáveis, mas aí eu sugiro que sejam lidos em ordem: o Angels & Archangels exige um domínio prévio desses rituais ensinados no High Magick e é uma bela introdução a uma forma simplificada de magia angelical, enquanto o Ritual ensina um monte de técnicas, também simples, para coisas diversas como a criação de escudos áuricos para proteção, práticas para lidar com ansiedade, corte de elos e trabalho com energia no geral2.
E falando em teoria e prática, eu não posso tocar no assunto livros de magia e espiritualidade sem recomendar os de Pranic Healing, escritos pelo Master Choa Kok Sui, o autor filipino que foi o fundador da escola. Dentro do Pranic Healing existem alguns tipos diferentes de cursos, chamados de pilares. No pilar de cura propriamente, eles seguem uma sequência: Nível Básico; Nível Avançado; Psicoterapia; Cristais; e Autodefesa Psíquica. E para cada um desses cursos, há um livro correspondente. Para quem faz os cursos, é recomendável ter o livro também para consultar depois, mas mesmo que você não tenha feito nenhum deles, o Ciência da Cura Prânica3 e o Autodefesa Psíquica Prática são leituras que eu acho cruciais, com um impacto imenso para a nossa forma de pensar e praticar magia (sobre isso, vide esse outro texto aqui). Ciência da Cura Prânica é o livro do Nível Básico e ensina as técnicas fundamentais da escola e a introdução ao funcionamento do mundo energético, com explicações sobre anatomia energética e as funções de cada chakra, enfatizando sua atuação sobre o corpo físico. Já Autodefesa Psíquica Prática é uma coletânea de técnicas para proteção em vários contextos, que são simples e podem ser aplicadas mesmo que você não tenha feito os cursos. Para entrar mais a fundo no tema de chakras, pensando também nas suas funções psicológicas e espirituais, você pode ir atrás de Os chakras e suas funções. As edições mais antigas dos livros de Pranic Healing foram editadas pela editora Ground, mas hoje quem cuida disso é a EBEI (Editora Brasileira de Estudos Interiores). Os livros não substituem a experiência que é fazer os cursos, mas são ótimos para estudar e entender essas questões. A abordagem do Master Choa é direta, clara e sem rodeios.
E ainda dentro da escola do Pranic Healing, tem um livro excelente que não é do fundador da escola, mas de um dos oito mestres que foram seus discípulos, o Master Stephen Co. O título é Your Hands Can Heal You, que foi publicado originalmente em 2003 e saiu em português sob o título Suas mãos podem curá-lo (ed. Pensamento, infelizmente esgotado, mas dá para achar usado). A proposta desse livro é ser prático e ensinar técnicas para serem usadas no dia a dia, inclusive pensando naquilo que me é muito caro que é a construção de uma rotina diária. Nele, encontramos conteúdo sintetizado dos três primeiros livros dos cursos do pilar de cura, mas aplicado para a autocura, incluindo técnicas para sentir energia, limpeza de aura, chakras, objetos, espaços, energização e meditação, além de protocolos para tratar de várias condições e alguns temas básicos de karma e espiritualidade. A escrita do Master Co é também extremamente acessível para iniciantes.
Entrando mais a fundo no tema de entendimento do mundo invisível, tem outras obras que eu recomendo dentro desse gênero de mecânica esotérica, mas são mais teóricos, sem a dimensão operacional. Uma sugestão, talvez um pouco inusitada, é o Monsters: an Investigator’s Guide to Magical Beings, do John Michael Greer. Nele, Greer pretende apresentar a perspectiva de um ocultista aos fenômenos de contatos com seres estranhos, de vampiros a criptídeos e OVNIs, mas é uma ótima introdução ao conceito dos planos sutis, porque ele explica direitinho o que são os planos etérico, astral, mental e espiritual, bem como seus habitantes. Para entrar mais a fundo nessa pesquisa, aí é o caso de ir atrás dos livros da segunda onda da Teosofia (não Blavatsky, mas do pessoal do século XX) em que esses conceitos são desenvolvidos, como: Thought-Forms (Formas de Pensamento), de Annie Besant e Charles Leadbeater, e os livros de Arthur Powell, The Etheric Double (O Duplo Etérico), The Astral Body (O Corpo Astral) e The Mental Body (O Corpo Mental). Todos esses volumes saíram em português pela editora Pensamento. No entanto, preciso deixar o aviso de que todos esses nomes são figuras meio… complicadas. Greer, por ter dado uma guinada política bizarra nos últimos tempos, e Powell por ter sido um europeu da virada do século e por isso profundamente racista (zero surpresa aí, infelizmente). É preciso discernimento, nesse sentido, ao ler os livros dele.
Outro material extremamente interessante são os textos do curso Quareia (link aqui), organizado especialmente por Josephine McCarthy, com ajuda do Frater Acher. O Quareia é um sistema moderno e completo de magia, dividido em três níveis (Aprendiz, Iniciado e Adepto, cada um dos quais tem vários módulos e cada módulo tem uma série de lições) e ensinado gratuitamente. O sistema em si não é para todo mundo – a Josephine é enfática em sua postura contra o uso de magia de manifestação, por exemplo, e praticar outros sistemas de magia em paralelo também não é recomendado. No entanto, mesmo que você não o pratique e mesmo que não concorde com a Josephine, que tende a ter certas opiniões fortes às vezes, é sempre esclarecedor ler o que ela tem a dizer sobre vários tópicos. Recomendo em especial os módulos de Aprendiz 3, 6 e 10, Dynamics of Creation, Types of Beings e Understanding Destruction; os módulos 5, 6 e 9 de Iniciado, Deities and the Magician, Angels and Demons in Depth e Working with the Spirits of the Land; e o módulo 4 de Adepto, The Arbatel and Planetary Magic, que mostra os resultados de quando a dupla destrinchou esse grimório clássico. Se você estiver procurando livros, eu recomendo fortemente dela o The Exorcist’s Handbook e o Magic of the North Gate, ambos os quais tratam de maneira mais longa de assuntos tocados no Quareia.
Todas essas obras que eu citei tiveram um forte impacto no modo como eu formulo hoje o meu entendimento da magia e do mundo sutil. Talvez seja importante frisar que essas recomendações não devem ser entendidas como endossos acríticos – imagino que vocês já tenham entendido isso, mas vale enfatizar. Os títulos que eu cito são porque eu considero úteis, mas não significa que sejam infalíveis (até porque, como eu admiti, existem obras problemáticas). Sugiro que cada praticante veja o que consegue aproveitar dessas obras para esboçar o seu próprio entendimento de como funciona o mundo invisível, conforme a sua experiência. Não estamos lidando aqui com seita (em que uma dada visão de mundo precisa ser comprada de forma monolítica e sem questionar), mas com experimentação.

Ainda sobre o tema de livros para iniciantes, de todos os clássicos do ocultismo, que eu geralmente não recomendo, a única exceção é a obra de Franz Bardon. Já dedicamos outros textos para falar dele, por isso serei breve. O seu sistema de magia é exposto numa trilogia publicada em alemão entre 1956 e 1957. O primeiro e o mais importante se chama Der Weg zum wahren Adepten. Ein Lehrgang in 10 Stufen. Theorie und Praxis, literalmente O caminho do verdadeiro adepto. Um curso em 10 lições. Teoria e Prática. Na tradução em português da editora Ground, o título ficou como Magia Prática — o Caminho do Adepto. Em inglês é conhecido como Initiation into Hermetics. Bardon também oferece certas explicações em termos de mecânica esotérica e muitas práticas, formando um curso em dez lições. O problema é que existem traduções do Bardon para o português em formato e-book na Amazon que foram feitas de maneira amadora ou usando tradução automática. Aí não dá. Por isso é melhor vocês irem atrás do texto publicado pela Ground, seja em sebo ou em PDF, ou então da tradução inglesa. Os outros livros dele Die Praxis der magischen Evokation (A Prática da Evocação Mágica) e Der Schlüssel zur wahren Quabbalah (A Chave da Verdadeira Cabala) exigem que você avance primeiro no primeiro livro, que serve de base, antes de serem praticados, mas suas reflexões teóricas também são valiosíssimas. Infelizmente eu não sei se tem uma tradução decente deles para o português4.
Um outro autor por quem eu desenvolvi um grande apreço nos últimos tempos é alguém que atende pelo nome de Nineveh Shadrach – e não é só porque nós dois somos devotos de Ishtar. Shadrach entende de magia árabe e combina esses conhecimentos com uma abordagem sincrética que muito me agrada. Junto com Frances Harrison, ele publicou Magic That Works (Ishtar Publishing) que tem um título engraçado, mas é também um sistema de treinamento em magia teúrgica concentrada nas práticas do dito Oriente Próximo, abrangendo paganismo mesopotâmico, magia islâmica e Cabala. Tem várias coisas interessantes que eu aprendi nesse volume, especialmente no que diz respeito à magia angelical. É outro caso em que, mesmo que você não pratique o sistema dele, tem coisas profundamente inspiradoras. Ele também tem outros livros, como Occult Encyclopedia of Magick Squares, Love, Healing, Prosperity through occult powers of the alphabet e Magic Squares and the Tree of Life, mas esses são de interesse mais específico.
E embora eu mesmo não me identifique como bruxo, tem alguns autores da bruxaria por quem eu tenho apreço. São eles:
- Ivo Dominguez Jr., autor de Four Elements of the Wise (o melhor livro que eu conheço sobre a magia dos quatro elementos clássicos);
- Frater Barrabbas, autor de Talismanic Magic for Witches (um livro sobre magia astrológica), Elemental Powers for Witches e Spirit Conjuring for Witches, que trata dessas interseções entre bruxaria e magia cerimonial;
- Christopher Orapello e Tara-Love Maguire, autores de Besom, Stang and Sword (em português Um guia à bruxaria tradicional: a vassoura, o cajado e a espada, ed. Madras), que faz isso mesmo que diz no título em português;
- Sara Mastros, autora de Introduction to Witchcraft e The Sorcery of Solomon (um livro sobre os pantáculos da Clavicula Salomonis).
Na sequência, saindo um pouco do domínio da magia introdutória e passando para o tema de espiritualidade e desenvolvimento espiritual, tem alguns livros que eu gostaria de comentar. Espiritualidade é um tema amplo e, claro, geralmente as pessoas vão falar disso a partir da sua experiência dentro de uma dada corrente. Sendo assim, essas obras são também livros introdutórios sobre essas correntes em si, mas entendo que são mais do que isso e excelentes referências para orientar uma prática não apenas mágica, mas espiritual. Naturalmente, aqui a gente sai um pouco do âmbito da mera mecânica esotérica para adentrarmos o território do diálogo entre mitopoética e teologia.
- Alcançando a unidade com a alma superior, do Master Choa Kok Sui – que trata da questão da espiritualidade a partir da perspectiva do Pranic Healing (e é o livro que corresponde ao curso de mesmo nome na escola);
- Tantra Illuminated de Christopher Wallis (publicado em português como O Tantra Iluminado pela editora Tilakam), que parte da perspectiva do Tantra Shaiva Não Dual;
- Profound Buddhism, de Kalu Rinpoche – budismo Vajrayana;
- The Practical Art of Divine Magic, de Patrick Dunn – da teurgia com base em deidades pagãs, sobretudo gregas;
- Theurgy: Theory & Practice, de P. D. Newman – também aborda o tema da teurgia, com uma ampla gama de referências herméticas e neoplatônicas;
- Innerspace: Introduction to Kabbalah, Meditation and Prophecy, do Rabbi Aryeh Kaplan – obviamente uma obra cabalística;
- The Sufi Path of Knowledge, de William C. Chittick – sufismo;
- Na trilha dos orixás: Sabedoria ancestral e caminhos de axé no mundo contemporâneo, de Ernesto Xavier (ed. Goya) – religiões de matriz africana (ênfase no candomblé).
No mais, as minhas recomendações sobre leitura a respeito do hermetismo (Corpus Hermeticum etc) entraram no texto introdutório sobre o tema, e logo mais eu vou soltar aqui outro texto só sobre como estudar Cabala. E, falando de espiritualidade, tem também um canal do YouTube que eu amo que é o da Vedanta Society of New York, contendo palestras do Swami Sarvipryiananda.
Para quem tem interesse em magia cerimonial, evocação e grimórios, eu não posso não citar a obra de Stephen Skinner. O homem é pesquisador, tradutor e magista e uma das maiores referências da área. É pensar em qualquer grimório da tradição salomônica que você possa imaginar, que geralmente a melhor edição vai ser a dele. Recomendo demais ainda a leitura da sua tese de doutorado, Magical Techniques and Implements present in Graeco-Egyptian Magical Papyri, Byzantine Greek Solomonic Manuscripts and European Grimoires: Transmission, Continuity and Commonality. Outros nomes importantes incluem Joseph Peterson, outra grande figura da tradução e edição de grimórios clássicos como o Heptameron, o Arbatel e outros; David Rankine, autor de Claves Intelligentiarum, sobre o trabalho com inteligências planetárias, e Claves Spirituum, sobre evocação no geral, além de vários outros livros; Rufus Opus, autor de Seven Spheres, que trata do trabalho teúrgico de comunhão com os anjos dos sete planetas por meio de um sistema adaptado com base em Trithemius (excelente introdução ao tema); e Frater Ashen Chassan, autor de Gateways Through Stone and Circle e Gateways Through Light and Shadow, dois volumes sobre evocação de espíritos, também de inspiração em Trithemius.
(Menciono esses nomes como Skinner e Peterson, mas não vou incluir grimórios nesta lista, porque não são leituras também que eu recomende de imediato. É o tipo de coisa que vale a pena conferir depois que você já tiver experiência).
E, claro, como eu falo muito em magia astrológica, não posso não citar algumas obras dentro desse assunto:
- Secrets of Planetary Magic, de Christopher Warnock, talvez o livro mais acessível com receitas simples de talismãs imagéticos dos sete planetas e muitas informações sobre correspondências e timing astrológico (Warnock também tem livros sobre o trabalho com as mansões lunares e estrelas, signos e constelações. Recomendo, mas é melhor trabalhar com isso depois de pegar experiência com formas mais simples de magia astrológica);
- Planetary Magick – The Heart of Western Magick, de Melita Dennings & Osborne Phillips, que trata da prática dentro da perspectiva da ordem Aurum Solis e traz uma cacetada de informação;
- Practical Planetary Magic, de Sorita D’Este & David Rankine, que tem uma abordagem mais simplificada à prática (destaque para o ritual do heptagrama deles, para sintonização com forças planetárias);
- (no mais, o Seven Spheres, o Talismanic Magic for Witches e o Claves Intelligentiarum também entram nessa categoria).5
Para praticantes com alguma experiência, eu recomendo quase tudo na bibliografia do Jason Miller: The Sorcerer’s Secrets é excelente pela sua riqueza de técnicas e entendimento do mundo oculto (e sua versão relançada e atualizada, Real Sorcery, é melhor ainda); Protection & Reversal Magick é um dos melhores livros sobre proteção (recentemente foi publicado em português sob o título Magia de Proteção e Reversão, pela editora Nova Senda); Financial Sorcery é extremamente minucioso em sua abordagem à magia de prosperidade, não apenas ensinando rituais para ganhar dinheiro, mas apresentando estratégias eficazes; e The Elements of Spellcrafting é também interessante para quem gosta de entrar nos detalhes da construção de rituais. O seu Consorting with Spirits, que é uma introdução ao trabalho com espíritos, tratando de questões importantes tipo “o que acontece quando eu chamo uma entidade?”, é outro livro que eu considero fundamental.
E aqui entram obras diversas que eu não consegui encaixar em nenhuma outra categoria:
- Low Magick e My Life With the Spirits, de Lon Milo Duquette. Valem imensamente pelos relatos das anedotas de Duquette e sua prosa bem-humorada, mas também pelos insights (os capítulos do Low Magick sobre o exorcismo da escola seriam outro exemplo de leitura obrigatória na minha faculdade de magia)6;
- Living Spirits, de B. J. Swain, um autor que me lembra muito o Jason Miller em sua abordagem. Aqui ele trata, em teoria e prática, do contato com vários tipos de seres, de elementais e fadas a anjos e demônios;
- Rituais com Ervas, de Adriano “Erveiro” Camargo, que é minha referência de magia natural;
- Ritual Offerings, organizado por Aaron Leitch, uma coletânea de textos de autores diversos sobre um assunto importante;
- The Tao of Craft: Fu Talismans and Casting Sigils in the Eastern Esoteric Tradition, da Benebell Wen, uma introdução a algumas práticas da magia taoísta, sob uma perspectiva moderna;
- Livros de e sobre fórmulas verbais e encantamentos no geral: Incantation and Enchantments, de Donald Tyson; Ancient Spells and Incantations: Echoes of Magic Through the Ages & Across Cultures, de Enid Baxter Rice; e 108 fórmulas mágicas para o seu dia a dia: da antiguidade, idade média e idade moderna, de Swami Manuel.7

Por fim, vou me desviar um pouco do foco central desse texto para recomendar algumas obras de ficção. A magia real é, obviamente, muito distinta de como ela costuma ser retratada na ficção, por isso não recomendo se inspirar nesse tipo de material para aprender magia de fato, mas não acho que isso seja um problema. Exigir realismo em representação de magia seria, de fato, um outro nível de filistinismo. A questão é que a ficção oferece uma oportunidade única para brincar com os conceitos e explorar temáticas, o que é mais valioso do que qualquer preocupação com verossimilhança. Aliás, uma das coisas que a magia mesmo faz é trabalhar a nossa interioridade, o que é, por acaso, o domínio da arte. A construção de um repertório cultural decente, a meu ver, devia ser parte da educação de qualquer aspirante a magista. No mais, sem brincadeira, tem mais magia em alguns desses livros do que em muitas obras badaladas de ocultismo por aí:
- O Asno de Ouro, de Apuleio, um romance picaresco da literatura latina do começo da era cristã sobre um homem que namora uma bruxa e acaba transformado em asno até ser salvo pelo culto de Ísis… é uma obra cômica, mas que serviu de base para o modelo da literatura hagiográfica posterior;
- Os Contos da Cantuária (Canterbury Tales), de Geoffrey Chaucer, e O Decamerão, de Boccaccio – ambas obras constituídas por várias narrativas medievais, muitas das quais lidam com astrologia, feitiçaria e talismãs;
- A Divina Comédia, de Dante Alighieri – não precisa de explicação. Não é incomum a percepção por aí de que o poema de Dante representa um tipo de representação estética de uma experiência gnóstica;8
- MacBeth, A Tempestade e Sonhos de uma noite de verão, de Shakespeare – as peças mais mágicas do bardo inglês, representam elementos importantes do folclore de bruxaria e da magia solomônica renascentista;
- O Paraíso Perdido, de John Milton – o épico responsável por dar origem ao luciferianismo por via do puro poder poético;
- Os Faustos: tanto a tragédia de Christopher Marlowe, A Trágica História do Doutor Fausto, quanto a maravilhosamente bizarra peça romântica de Goethe, Fausto – Partes I e II (existe uma família de grimórios fáusticos, aliás, e o próprio Goethe tinha um deles em sua biblioteca. Ao longo da peça, há rituais de conjuração de espíritos elementais, a criação alquímica de um homúnculo etc);
- Os poemas proféticos de William Blake, The Book of Urizen, Vala, Jerusalem etc – as obras narrativas alucinadas em que Blake desenvolve o seu próprio sistema mítico;
- Ondina (Undine), de Friedrich de la Motte Fouqué – uma novela do romantismo alemão sobre um cavaleiro que se casa com um espírito elemental das águas (tem representações interessantíssimas, aliás, de uma perspectiva da natureza que poderíamos chamar de “animista”);
- Manfred, de Lorde Byron – outra peça estranha, centrada num clássico anti-herói romântico que interage com uma variedade de espíritos;
- Prometeu desacorrentado (Prometheus Unbound), de Percy B. Shelley – um poema dramático utópico sobre a vitória de Prometeu sobre Zeus e a regeneração política da humanidade;
- Frankenstein, de Mary Shelley – geralmente inserido no gênero de ficção científica, há um detalhe que escapa à maioria dos leitores que é o fato de Victor ser leitor de Paracelso e Agrippa;
- Carmilla, de Sheridan Le Fanu – uma novela breve, famosa por ser um dos clássicos da literatura de vampiros, mas que diverge de outras obras por apresentar uma perspectiva mais espiritual do fenômeno;
- Gaspard de la Nuit, de Aloysius Bertrand, obra de poemas em prosa (vista como uma pioneira no gênero), muitos dos quais têm temáticas místicas e alquímicas;
- Äxel, de Villiers de l’Isle-Adam, uma peça simbolista cujo protagonista é um estudioso do rosacrucianismo, que rejeita todos os mundos possíveis, incluindo o mundo do comércio tanto quanto o mundo do ocultismo (a edição em português saiu pela editora da UFPR);
- Mestre e Margarida, de Bulgákov – também pela temática diabólica;
- Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa – pela questão do pacto, obviamente;
- O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco – minha introdução ao tema da Árvore da Vida cabalística;
- Angels and Insects, de A. S. Byatt – uma coletânea de duas novelas, a primeira das quais trata de uma sessão espírita e de conceitos de Swedenborg;
- As sete luas de Maali Almeida, de Shehan Karunatilaka, um romance contemporâneo do Sri Lanka sobre política, guerra e o pós-vida;
E é isso, gente. Futuramente, eu posso vir a atualizar esse texto conforme outras obras interessantes forem publicadas e cheguem às minhas mãos, mas eu acho que já está de bom tamanho por ora. Para o completo iniciante que caiu de paraquedas e se sente um pouco oprimido pelo número de recomendações, eu formaria uma bibliografia básica concisa com o von Stuckrad, dois livros do Master Choa, pelo menos (Ciência da Cura Prânica e Alcançando da unidade com a alma superior), o Monsters do Greer e o Formas de Pensamento, o Consorting with Spirits, o Exorcist’s Handbook e o Four Elements of the Wise. Assim é possível ter uma visão geral sólida sobre a magia, energia, o mundo oculto e os espíritos que não é dogmática, nem ingênua, sem se comprometer necessariamente com uma única tradição específica e o seu modo de fazer as coisas.
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- Recentemente, foi publicado também um livro intitulado História da Filosofia Oculta, do filósofo francês Sarane Alexandrian (1927 – 2009), pela editora Veneta. Eu menciono aqui em nota de rodapé porque me parece uma possível alternativa interessante em português, mas não tive tempo ainda de conferir. Pretendo dar uma olhada assim que possível. ↩︎
- Nos últimos anos, o caminho espiritual do Echols o levou a se afastar um pouco desse tipo de magia. Ao que tudo indica, ele tem se interessado mais por Zen e artes marciais, tendo deixado rituais complexos no passado para se concentrar no tema da presença. Seu livro mais recente, incorporando essa filosofia, The Alchemy of the Broken Blade, sai em setembro deste ano . ↩︎
- Esse livro também já saiu em edições mais antigas com outros títulos como A antiga ciência e arte da Cura Prânica, Milagres da Cura Prânica e, no ebook Kindle, A ciência e arte antiga de Pranic Healing. Apesar dos nomes diferentes, é o mesmo livro. ↩︎
- Para quem quer seguir o currículo de Bardon, pode ser interessante ir atrás da literatura secundária. Recomendações de livros de bardonistas que elucidam seu método estão no texto sobre o autor, linkado no parágrafo. ↩︎
- Em português, eu sei que tem o Magia planetária, da Rebecca Beattie que saiu pela editora Pensamento, mas ainda não tive a oportunidade de conferir. Menciono aqui porque é uma obra que disponível em nosso idioma. Assim que eu puder dar uma olhada também, eu devo atualizar este texto. ↩︎
- No mais, Duquette é uma boa referência para thelemitas e interessados na magia da Golden Dawn, mas não pretendo tocar nesse assunto neste post. ↩︎
- Livros de fórmulas são interessantes, não porque eu acho que essas fórmulas sejam eficazes por si próprias sem treinamento, mas podem ser utilizadas produtivamente por magistas que tenham desenvolvido pelo menos uma prática básica, além de servirem de inspiração para rituais e outras fórmulas. ↩︎
- Aproveitando o tema de literatura do fim do medievo e começo da renascença, poderíamos incluir também os poemas The Faerie Queene (1590–1596), de Edmund Spenser, e Orlando Furioso (1532), de Ariosto, além da obra em prosa Le Morte d’Arthur (1485), de Thomas Malory, mas aqui eu preciso ser honesto e confessar que só estou incluindo as obras que eu mesmo tenha lido inteiras. Em tempo, As mil e uma noites, com seus djinns e feiticeiros, também caberia nessas recomendações. ↩︎
