A trágica história de Dr. Fausto

Eu sempre fui fascinado pela história de Fausto. Com mais idade, o que me passou a me atrair mais foi a caracterização do personagem feita por Goethe, mas tem algo nessa lenda que encontra ressonância imediata com qualquer um do mundo ocidentalizado — para alguns autores, inclusive, Fausto é quintessencialmente ocidental ou, melhor dizendo, esta sociedade é ela mesma fáustica1. Não por acaso, “vender a alma” é uma metáfora de uso corrente que qualquer um compreende: quando abrimos mão de algo intangível, porém importante (princípios, autenticidade, etc.) em troca de sucesso material, estamos “vendendo a alma”. No mais — e aí entra a questão de toda nossa sociedade ser fáustica — vender a alma, senão toda, pelo menos em partes, faz parte do contrato de base da vida nas sociedades modernas. O fato de que, ao comprar algo inocente como um chocolate ou uma peça de roupa, corremos um risco sério de apoiar, sem querer, trabalho escravo, expropriação de terras indígenas ou qualquer outra atrocidade faz do diabo um rico acionista no capitalismo.

As origens da lenda de Fausto são interessantes, pois trata-se de um mito surgido no começo da idade moderna. O crítico e historiador literário Ian Watt comenta que Fausto representa um dos quatro grandes mitos da individualidade moderna, ao lado do Don Juan, Dom Quixote e Robinson Crusoé. Em algum momento houve um Fausto histórico, chamado Jörg Faust ou Georgius Faustus, do qual temos alguns registros, que variam um pouco em sua caracterização: às vezes ele é um astrólogo competente, às vezes um charlatão ou um necromante temido. Pelo menos um relato ainda o descreve como um “sodomita”. Aparentemente, ele teria sido contemporâneo de estudiosos do ocultismo como o monge beneditino Johannes Trithemius, a quem são atribuídas certas técnicas de conjuração, o médico Paracelso e o grande Cornelius Agrippa. Suas patacoadas mágicas, no entanto, eram mal vistas. Para Trithemius, dizem os autores2, Fausto era um homem vulgar e de pouca erudição, cujos truques baratos ameaçavam levar a opinião popular, numa época do protestantismo ascendente, a se voltar contra os estudiosos desses assuntos mais delicados. Os três autores, inclusive, foram acusados de praticar “magia negra” e as lendas em torno deles (como a do cachorro preto que seria um espírito familiar de Agrippa) se misturaram com a de Fausto. Os rumores foram se acumulando e em algum momento surge a história de que, por ter se envolvido com magia e, por consequência, com o diabo, Fausto pagou o preço de ter sido morto pelo próprio.


Pintura de Joseph Fay (1813-1875), Fausto e Mefisto na Masmorra, 1848

No outono de 1587, surgiu um livrinho de autoria anônima chamado Historia Von D. Johann Fausten dem wietbeschreyten Zauberer und Schwartzkünstler (A História de Johann Faustus, o Notório Feiticeiro e Nigromante), conhecido popularmente apenas como Faustbuch. Longe de ter aspirações literárias, esse livrinho era, na verdade, uma obra de propaganda protestante. Era basicamente um Smilinguido ou um Dudão renascentista. Lutero já teria se pronunciado contra Fausto, descrevendo-o como um bruxo que “chamava Satanás de ‘meu cunhado’”. Os católicos do período já tinham uma relação delicada com a magia, mas os luteranos, em sua iconoclastia e desprezo por rituais, vão ainda além. E pior: começa aí um discurso obscurantista direcionado não apenas contra as ciências ocultas, mas contra toda a ciência. Cito o seguinte trecho, de autoria do próprio Lutero, tirado deste artigo:

Caro amigo, deixa as ciências naturais em paz. Se você não sabe qual poder se encontra em cada pedra, estrela, pedaço de pau, animal ou outra criatura — o conhecimento pelo qual as ciências naturais laboram — então contente-se com o que a sua experiência e bom senso lhe ensinam. Basta para você saber que o fogo é quente, que a água é fria e molhada; que o trabalho do verão é diferente do do inverno e saber como cuidar dos campos e do gado, da casa e das crianças; isso já é conhecimento científico o bastante para você. De resto, considere apenas como poderá obter conhecimento de Cristo; ele vai lhe revelar você mesmo, quem você é e do que você é capaz.

É. Pesado, né. Sobre o elo entre as duas coisas, conhecimento esotérico e científico, Copenhaver comenta o seguinte: “A magia também promete poder e até mesmo onipotência divina, e nisso repousa sua modernidade. Os adeptos da magia renascentista, fazendo suas barganhas fáusticas, sofrerão mutações e virão a se tornar os virtuosos da Revolução Científica. As chamas do poder primevo aquecerão as máquinas modernas, e será a magia que atiçará as chamas.”

A partir daí dá para entender que a grande transgressão de Fausto é a ambição por esse conhecimento que é tanto esotérico quanto científico e… bem, nesse sentido ele é apenas um indivíduo normal da modernidade incipiente. São os conselhos de Lutero aqui que são uma aberração e uma afronta à curiosidade e engenhosidade humana3.

Em todo caso, o Faustbuch, contendo as aventuras de Fausto e a sua moral obscurantista óbvia, se tornou imensamente popular. Até hoje espetáculos de fantoches, uma tradição comum das terras germânicas, sobre a história de Fausto são populares na Alemanha. Primeiro na Holanda, depois na Alemanha, essas primeiras peças aconteceram em 1626, inspiradas por grupos de artistas ingleses. Nesse finzinho de século acontece uma troca interessante entre o mundo germanófono e a Inglaterra, pois em 1592, apenas 5 anos após sua aparição, o Faustbuch é traduzido para o inglês por um tal Gentleman P. F. com o título The Historie of the damnable life, and deserved death of Doctor Iohn Faustus. Neste mesmo ano, o dramaturgo elisabetano Christopher Marlowe, contemporâneo e então rival de Shakespeare (pelo menos até ser morto numa briga de bar), lê esse livrinho e logo compõe e leva aos palcos sua peça The Tragical History of the Life and Death of Doctor Faustus, mais conhecida apenas como Dr. Faustus.

Foi Marlowe, com seu talento dramático (ele não é reconhecido como rival de Shakespeare à toa) quem concedeu ao personagem as características que entendemos como fáusticas. O enredo básico de sua peça é simples: Fausto é um estudioso de extrema inteligência, erudição e talento, mas também arrogância (pense num Dr. Estranho renascentista). Diferente de outros personagens trágicos mais típicos, Fausto é de origem humilde, mas sua inteligência e um certo grau de mobilidade social do período permitiram que ele se tornasse um grande estudioso, porém desdenhoso das principais disciplinas clássicas, Lógica, Medicina, Direito e Teologia, consideradas insuficientes. Sua ambição o leva ao estudo da magia e ao pacto demoníaco — e tem uma cena bastante detalhada em que Fausto descreve o círculo mágico, com direito a fórmulas em latim e tudo:

Sint mihi dii Acherontis propitii! Valeat numen triplex Jehovoe! Ignei, aerii, aquatani spiritus, salvete! Orientis princeps Belzebub, inferni ardentis monarcha, et Demogorgon, propitiamus vos, ut appareat et surgat Mephistophilis Dragon, quod tumeraris: per Jehovam, Gehennam, et consecratam aquam quam nunc spargo, signumque crucis quod nunc facio, et per vota nostra, ipse nunc surgat nobis dicatus Mephistophilis!4


O frontispício da edição de 1620 de Dr. Faustus, com a gravura representando a cena de conjuração de Mefisto

Uma vez que Mefistófeles aparece, Fausto solicita que ele o sirva, com a vênia de Lúcifer, seu mestre, durante 24 anos, para realizar todos os seus desejos. Em troca, sua alma será de Lúcifer, para ampliar seu reino. Mefistófeles leva a mensagem a Lúcifer e ambos se encontram no escritório de Fausto, onde o contrato é assinado com sangue. Ao longo de 24 anos, então, Mefistófeles o serve… mas a serventia desse serviço é questionável. Quando interrogado sobre os mistérios do universo, as respostas são bobagens, e, por mais que Mefisto o auxilie em suas aventuras e lhe conceda várias dádivas, como o poder da invisibilidade (que ele usa para atormentar o Papa) e um encontro com a sombra de Helena de Troia, Fausto não faz nada que preste com o seu tempo. Ele desperdiça esses 24 anos e, ao final, é levado pateticamente pelos diabos. 

Como comenta Ian Watt, o Dr. Fausto representa, em muitos aspectos, seu criador, Marlowe. Marlowe também teve origens humildes e acesso à educação por conta de uma bolsa de estudos que lhe rendeu o título de Bacharel em Artes em 1584. Se o mundo medieval apresentava uma estrutura social mais rígida e religiosamente codificada, o mundo moderno incipiente que surgia então prometia uma maior mobilidade social. Trata-se, diz Watt, de uma sociedade que “pressupõe que cada indivíduo deveria ter as mesmas oportunidades iguais tanto para escolher sua carreira quanto para tentar realizá-la tanto quanto for capaz”, mas que, no entanto, não conseguiu absorver os estudiosos que formou (um problema que nós acadêmicos reconhecemos como dolorosamente contemporâneo). A frustação de Fausto é, em grande medida, a frustração do próprio Marlowe e sua tragédia é a tragédia do individualismo. Apesar de a condenação de Fausto cumprir o protocolo esperado, o que há de subversivo é a implicação de que a justiça divina representada é, na verdade, injusta. Diz Watt:

Ela é injusta pelos mesmos motivos pelos quais a maioria de nós acha que a vida é injusta: porque os castigos parecem maiores que nossos crimes; porque não sentimos que cometemos “crimes” de verdade; ou talvez porque, desde a infância nunca fomos persuadidos por completo de que nossas demandas sobre a vida não são razoáveis. A não ser que acreditemos também no inferno e na imortalidade da alma, Fausto representa na imaginação o homem que é castigado por querer ter tudo  —  assim como todo mundo.

Considerando que, para resumir grosseiramente, é a injustiça cósmica que fornece o material para o trágico, é essa injustiça divina pela ótica protestante que compõe o elemento trágico de Fausto. Sem isso, temos apenas a história moralista de um homem que pecou e foi merecidamente punido por isso.


Cena do filme Lekce Faust, mostrando Fausto com um círculo de proteção e o sigilo de Mefisto, retirados do grimório Magia Naturalis et Innaturalis. Acontecem algumas coisas estranhas depois de ele fazer a conjuração, mas o importante é ficar dentro do círculo.

Bem, essas questões são interessantes, mas nosso foco aqui neste site costuma ser mais magia e esoterismo e menos análise literária e social. Pois a magia em Marlowe, internalizando os preconceitos protestantes, tem um papel muito pequeno. Diz Mefistófeles a Fausto, quando este tenta comandá-lo, que comandar demônios pela magia, à moda salomônica, é impossível e que na verdade o que o atraiu a ele foi ter renunciado seu batismo, o que faz com que os demônios instantaneamente se aproximem. Mas, antes mesmo do lançamento do Faustbuch, grimórios faústicos apareceram no mundo germanófono, atribuídos ao bruxo lendário. Para quem está familiarizado com as obras de natureza salomônica, como a Ars Goetia ou o Grimorium Verum, esse tipo de literatura mágica não oferece grande novidade: você tem lá os seus círculos mágicos, os nomes dos demônios, de acordo com seu cargo na hierarquia infernal, seus sigilos e longas fórmulas que apelam aos vários nomes de Deus. O mais famoso destes grimórios se chama Magia Naturalis et Innaturalis: Oder dreifacher Höllenzwang, letztes Testament und Siegelkunst (Magia Natural e Antinatural: a tríplice coerção do inferno, o último testamento e os sigilos da arte), composto em 1505 originalmente, mas os manuscritos que temos datam de 1849. Ele pode ser acessado e lido no site Holy Books (link aqui), o que eu recomendo muito, mesmo que você não saiba alemão, porque tem ilustrações maravilhosas. Óbvio, como não podia faltar, lá podemos ver representações do famoso Mefistófeles e seu sigilo. De resto temos também amuletos, na forma de pantáculos, uma grande ênfase em Cabala e a presença de elementos de magia planetária, como os sigilos dos planetas, inteligências e espíritos que encontramos em Agrippa. 

Outros grimórios fáusticos incluem o Praxis Magia Faustiana (1527) e o mais breve Mirakul-Kunst und Wunder-Buch (A Arte dos Milagres e o Livro Maravilhoso, 1540). O quanto esses grimórios emprestam uns dos outros ou se contradizem é, no entanto, um assunto que exige pesquisa, mas a presença de Mefistófeles, personagem demoníaco de etimologia obscura que entra para o imaginário europeu pela primeira vez com a lenda de Fausto, é uma constante. O Mirakul-Kunst tem uma tradução para o inglês, feita por Karl Hans Welz, sob o título The Black Raven Doctor Johannes Faust’s Miracle and Magic Book or also called The Threefold Coercion of Hell, disponível online como uma página preservada pelo Internet Archive. Não posso garantir a qualidade dessa edição, porém, e reitero que é tudo meio confuso nessa área, mas vale a pena conferir, porque temos material interessante, como umas fórmulas em uma língua desconhecida (Osola mica rama lamani, diz a citação geral de todos os espíritos) e uns talismãs.

Como relata Owen Davies em Grimoires: A History of Magic Books, ninguém menos que Goethe, que colecionava grimórios, tinha um grimório fáustico em sua biblioteca. A gente não sabe se ele chegou a brincar disso — sabemos que ele tinha interesse em astrologia, como todo bom romântico, mas daí a praticar essas coisas é um salto meio grande — mas, em todo caso, é possível que esse material tenha influenciado cenas como a de conjuração de espíritos no começo do seu próprio Fausto.

Pintura de Johann Peter Krafft (1780-1856), Fausto na Manhã de Páscoa, mostrando a cena em que Fausto quase toma o veneno

Goethe começa a escrever Faust: Eine Tragödie ainda na década de 1770, mas este primeiro volume sai apenas em 1808. Goethe passou literalmente o resto da vida dando continuidade à história, vindo a falecer em 1832, quando sai, numa edição póstuma, a segunda parte do seu Fausto. Na primeira parte temos um enredo mais direto: aludindo à história de Jó, em que Satã aposta com Deus que conseguirá fazer Jó blasfemar, temos um prólogo no Céu em que um diálogo semelhante acontece, e então vemos o Dr. Fausto em seu escritório, lamentando-se. Seu monólogo de abertura é antológico:

Ao cabo de escrutar co’o mais ansioso estudo
filosofia, e foro, e medicina, e tudo
até a teologia… encontro-me qual dantes;
em nada me risquei do rol dos ignorantes.
Mestre em artes me chamo; inculco-me Doutor;
e em dez anos vai já que, intrépido impostor,
aí trago em roda viva um bando de crendeiros,
meus alunos… de nada, e ignaros verdadeiros.
O que só liquidei depois de tanta lida,
foi que a humana inciência é lei nunca infringida.
Que frenesi! Sei mais, sei mais, isso é verdade,
do que toda essa récua inchada de vaidade:
lentes e bacharéis, padres e escrevedores.
Já me não fazem mossa escrúpulos, terrores
de diabos e inferno, atribulados sonhos
e martírio sem fim dos ânimos bisonhos.

Mas, com te suplantar, fatal credulidade,
que bens reais lucrei? gozo eu felicidade?
Ah! nem a de iludir-me e crer-me sábio. Sei
que finjo espalhar luz, e nunca a espalharei
que dos maus faça bons, ou torne os bons melhores;
antes faço os bons maus, e os maus inda piores.
Lucro, sequer, eu próprio? Ambiciono opulência,
e vivo pobre, quase à beira da indigência.
Cobiço distinguir-me, enobrecer-me, e vou-me
co’a vil plebe confuso, à espera em vão de um nome.
E chama-se isto vida! Os próprios cães da rua
não quereriam dar em troco desta a sua.

Só falta recorrer às artes da magia.
No espírito há poder; na voz cabe energia,
que a transforma em cominando. Então, consociada
a palavra ao querer, talvez lhe seja dada
força para arrancar com soberano império
à natureza avara o íntimo mistério.

(tradução de António Feliciano de Castilho. Fonte)

Este trecho é fenomenal. O desespero de Fausto é palpável e, de novo, imediatamente reconhecível aos acadêmicos. Seus estudos não fizeram dele, nem de seus alunos pessoas melhores (pelo contrário!), nem mais felizes, nem ricas. É um lamento doloroso e que prefigura a crise existencial pela qual a Europa modernizada viria a passar em breve, com o diagnóstico do niilismo feito por Nietzsche e o modo como a Primeira e a Segunda Guerra puseram em xeque o entusiasmo pelo progresso, pela racionalidade e pela ciência. O que lhe resta é não a religião, mas o ocultismo, o estudo da magia. 

Na cena seguinte, Fausto conjura um elemental, mas toma um esporro dele. Enquanto medita no que lhe foi dito, seu aluno Wagner, a quem ele detesta (há também um Wagner desprezível no Fausto de Marlowe), o interrompe. Fausto considera o suicídio com um frasco de veneno, mas desiste ao ouvir os sinos que anunciam a Páscoa. Na sequência, os dois, Fausto e Wagner, seguem para passear pela cidade. Um cachorro preto o segue, que logo depois, de volta aos seus aposentos, se revela ser o demônio, Mefistófeles. O pacto feito difere muito do de Marlowe: em vez de ter um período fixo de tempo, Mefistófeles servirá a Fausto até ele ter um momento feliz, que ele desejasse que durasse para sempre. Será nessa hora que ele cairá morto e Mefistófeles levará sua alma.

Como o demônio logo vê, isso não será uma tarefa fácil. Ele o leva para uma taverna, mas a convivência com os bêbados apenas aborrece o doutor. Então a dupla visita uma bruxa que restaura a juventude de Fausto. Na sequência, ele se apaixona por Margarete (ou Gretchen), a quem ele seduz, com o auxílio de Mefistófeles. Fausto, no entanto, no verdadeiro modo boy lixo, engravida Gretchen e ela, enlouquecida (hoje diríamos ser um caso de depressão pós-parto), comete infanticídio, matando a criança afogada. Ela é presa e condenada à morte. Nesse ínterim, Mefistófeles leva Fausto à Walpurgisnacht, uma verdadeira noite orgíaca de sabbath que ocorre na véspera do dia de Santa Valburga, quando bruxas, demônios e outros seres encantados se reúnem nas montanhas. Nas cenas finais da tragédia, Fausto desce à masmorra onde Gretchen está presa para salvá-la, mas ela se recusa. Ao fim, ela é executada, mas sabemos, por uma voz que o anuncia, que sua alma foi salva.


Pintura de Fritz Roeber (1851-1924), Walpurgisnacht.

Isto conclui a Parte I. Fausto: Parte II é outra coisa completamente diferente. Sem um enredo mais amarrado, o que temos é uma sequência de cenas psicodélicas divididas em 5 atos, nas quais Fausto visita o Imperador do Sacro Império Romano e salva suas finanças, com a ajuda de Mefisto, depois viaja ao mundo mitológico da antiguidade clássica e tem muitas outras aventuras até os momentos finais, quando Mefistófeles assassina o casal de velhinhos Báucis e Filêmon, que precipita o fim da peça. Já um homem poderoso, dotado de grande capacidade técnica (ele é capaz de represar o mar com diques, tomando a terra para si, onde constrói um castelo), Fausto enfim vivencia o altruísmo e o desejo de melhorar a vida de seus súditos e, por um loophole legal (ele finalmente tem o momento prometido, mas é ligado à sua redenção, como explica esse textinho), ele acaba sendo salvo.

Sinto muito pelo spoiler de um texto de quase 200 anos, mas, como fica claro, o enredo aqui é o de menos. Não tem nada que eu possa dizer que faça jus à grandiosidade que é o Fausto de Goethe. Não por acaso é uma das maiores obras da literatura mundial e fornece inclusive um olhar profundamente revelador sobre a condição humana na modernidade.

Inúmeras outras obras de arte foram produzidas depois derivando sua inspiração do mito de Fausto e suas versões em Marlowe e Goethe. O romântico alemão Heinrich Heine foi o autor de um poema-balé chamado Der Doktor Faust: Ein Tanzpoem (1846); a modernista Gertrude Stein escreveu o libreto Doctor Faustus Lights the Lights (1938); Fernando Pessoa compôs seu Fausto: Tragédia Subjetiva, deixado inacabado, e Paul Valéry escreveu o poema Mon Faust (1946). No lado da prosa, Fausto serviu de inspiração para Wilde para compor o seu Retrato de Dorian Gray (1891); para Bulgákov, em O Mestre e Margarida (1928, 1940), que cria uma das representações mais divertidas do diabo com o Sr. Woland; e, claro, para o Doktor Faustus (1947) de Thomas Mann, que aplica o tema do pacto na história do compositor genial fictício Adrian Leverkühn. Na música também, ninguém menos do que Liszt, Schumman, Wagner e Mahler compuseram obras sinfônicas inspiradas pela história. No cinema, uma grande quantidade de filmes sobre Fausto foram produzidos. Temos adaptações de material textual prévio ligado mais diretamente à história de Fausto, como Faust – Eine deutsche Volkssage, filme mudo de 1926, que acompanha o enredo da Parte I do Fausto de Goethe, o Doctor Faustus, de 1967, que adapta a versão de Marlowe, com o famoso casal Richard Burton e Liz Taylor como Fausto e Helena de Troia, ou Doktor Faustus, de 1982, baseado no romance de Mann. E aí temos as adaptações mais meta, como o filme húngaro Mephisto, de 1981, baseado no romance do mesmo nome sobre um ator na Alemanha pré-Segunda Guerra que encontra sucesso fazendo o papel de Mefistófeles enquanto os nazistas assumem o poder, ou o filme tcheco Lekce Faust, de 1994, que apresenta uma versão surreal da história com aspectos metateatrais e o uso de fantoches gigantes.

Por fim, algumas considerações pensando a questão toda pelo viés de um praticante de ocultismo. Partindo dessa perspectiva, o mito de Fausto aponta para os limites da magia, os limites da técnica. Eu sempre insisto aqui que a feitiçaria deve complementar os esforços mundanos: não é porque você está recebendo cura por métodos espirituais e energéticos que você vai parar de tomar seus antibióticos ou outros remédios, não é porque você tem um talismã de proteção que vai deixar de usar um cinto de segurança. Isso é estupidez. É possível obter sucesso no que quer que você deseje apenas pelos meios mundanos, mas esse sucesso pode ser ampliado, acelerado ou facilitado com magia. Tudo cai no âmbito da técnica, que serve ao desejo ou à vontade. O mito de Fausto nos pergunta então: para quê? Qual é o fim de jogo? Se a magia não fizer parte de um processo de desenvolvimento espiritual, o que implica um refinamento ou descoberta da vontade, uma jornada como aquela pela qual passa o Fausto goethiano, ela também acaba servindo a uma lógica materialista cujo único propósito é o hedonismo que uma hora acaba se esgotando (pense no drama da vida estética, como descrita por Kierkegaard) ou a autorreplicação, a geração do lucro pela geração do lucro, o absurdo. É o tipo de problema que se apresenta a qualquer magista ou ocultista, em algum momento do seu caminho, e que é importante servir de tema para meditação antes que se chegue ao ponto do desespero e da crise existencial.

* * *

[1] O polêmico Oswald Spengler, autor de A Decadência do Ocidente, numa análise que é influente e fascinante, mas datada e mais poética do que científica, que acredito que ninguém leve a sério academicamente mais, distingue entre os conceitos de civilizações apolíneas (gregos e romanos), mágicas (judeus do período bíblico, primeiros cristãos e o mundo árabe) e fáusticas (ocidental a partir do século X). Marshall Berman, em Tudo que é sólido desmancha no ar, apesar de partir de uma perspectiva muito distante da de Spengler, tanto de metodologia quanto ideologicamente, também entende o mito de Fausto como fundamental para entender a modernidade e faz uma análise marxista reveladora do Fausto de Goethe. Por fim, vale mencionar que eu disse cultura ocidentalizada e não apenas ocidental. É difícil descrever o sul global como parte do mundo ocidental (até mesmo porque as populações prototipicamente ocidentais não o reconhecem como tal), mas a influência econômica e cultural é inegável.

[2] As minhas fontes neste texto são principalmente Ian Watt, Myths of Modern Individualism; Owen Davies, Grimoires: A History of Magic Books; e Brian Copenhaver, Magic in Western Culture: From Antiquity to the Enlightenment

[3] Nisso podemos identificar talvez uma das origens para o obscurantismo que é um problema sério na vida contemporânea, que se alicerça em noções de que certos conhecimentos são perigosos (sobretudo para a salvação) ou inúteis (o que afeta especialmente as disciplinas mais teóricas), combinadas com uma bela dose de conspiracionismo.

[4] Um detalhe divertido sobre o Dr. Fausto é que há vários relatos da época de que demônios teriam se manifestado e assistido a encenações da peça. Assim como Macbeth, de Shakespeare, Dr. Fausto tem uma fama de peça amaldiçoada.

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