Literalmente desde que eu comecei a escrever no site, antes de O Zigurate ser O Zigurate, eu venho enfatizando a importância de práticas de rotina. Também venho falando cada vez mais sobre hermetismo… bem menos do que o Polyphanes/Sam Block, claro, que já escreveu muitos milhares de palavras sobre o assunto em seu blog e recentemente começou a compilar um tipo de publicação sobre o sistema hermético que ele mesmo pratica e que deve vir à luz em breve. Mas, em todo caso, esse tem sido um tema recorrente aqui também. O tipo de hermetismo que me orienta é da mesma linha que o dele1, i.e. uma prática contemporânea construída a partir das fontes clássicas, sem necessariamente uma continuidade com o que é entendido como hermetismo desde a sua redescoberta pela Europa na Renascença, nem pretensões de reconstrução “tal qual praticado na Antiguidade”. O problema é que esse tipo de prática não chegou a nós já pronta. Há um trabalho em andamento para se produzir uma prática hermética consistente, e esse é um tema que eu também venho explorando.
Um tempo atrás, eu publiquei um texto aqui com algumas preces herméticas e já divulguei também alguns rituais. Teve gente que começou a me perguntar como faz para concatenar essas técnicas de modo a constituir uma prática de rotina, e é disso que eu vou falar hoje. Se você chegou caiu aqui meio de paraquedas e gostaria de ler um conteúdo mais introdutório sobre o assunto, recomendo um texto que eu publiquei no ano passado intitulado O que é o hermetismo?

Primeiramente, vamos listar as técnicas e preces que foram divulgadas aqui n’O Zigurate, bem como suas funções:
- Uma invocação preliminar: invoca as forças da egrégora hermética para abrir os trabalhos;
- A adoração em “Poemandro”: um tipo de prece devocional;
- A prece penitencial: composta pelo Sam Block em inglês e publicada aqui em tradução, um grande “desculpa qualquer coisa”;
- A prece de agradecimento do Asclépio: uma forma de agradecer a Deus e encerrar o trabalho.
Rituais:
- O ritual dos quatro guardiões dos PGM: para demarcar as quatro direções e proteger o espaço;
- A fórmula PSINŌTHER: um mantra de limpeza;
- Rituais com as vogais planetárias: o Chamado dos Sétimos, para sintonização com as energias dos planetas, de uso diário; o trabalho das sete esferas, envolvendo-se com as luzes das cores dos sete planetas, junto do uso de suas vogais; e o ritual para harmonizar o ambiente, entre um ritual planetário e outro.2
Nos cursos eu ensino algumas outras também, incluindo o trabalho com os elementos a partir de voces magicae dos PGM, um ritual para expulsão de forças negativas, uma energização dos corpos sutis, com ênfase nos centros energéticos do corpo e o uso de voces magicae para prosperidade. Mas com o que eu disponibilizei já dá para montar uma sequência bastante robusta.
Se você tiver tempo para uma prática longa, um tipo de sadhana, o que eu recomendo é o seguinte passo a passo:
- Acender uma vela branca e posicioná-la na parede leste do seu espaço. Ao acendê-la, recitar a fórmula: “Eu te conjuro, Ó fogo, dáimon do santo amor, o invisível e múltiplo, uno e onipresente, para que habites esta chama neste momento, reluzente, sem te extinguires, em nome de IAŌ. Sê grande, Ó luz, vem e eleva-te, Ó luz de Deus”.
- Em pé, diante da vela, recitar a prece preliminar.
- Diante da vela, fazer o Chamado dos Sétimos.
- Prosseguir com o ritual dos quatro guardiões. Sentar-se depois, se quiser, para as práticas seguintes.
- Realizar a prece penitencial.
- Cantar 108 repetições do mantra PSINŌTHER NŌPSITHER THERNŌPSI.
- Prosseguir com a energização das 7 esferas.
- Recitar a prece de adoração do Poemandro e meditar.
- Levantar-se e fazer a prece de agradecimento, ajoelhando-se no leste ou no sul, dependendo do horário. Por fim, é recomendável aterrar. Apagar a vela, quando terminar tudo, para reacendê-la na próxima vez.
Essa sequência deve, de preferência, ser feita usando um móvel como um altar, onde vai ficar a vela, porque a ideia é que o altar vai ancorar as energias a longo prazo, em vez de permitir que elas se dissipem. Isso, com o tempo, cria algo como um “espaço sagrado”, um refúgio, que é ideal para fazer todo tipo de trabalho, por não ser afetado pelas ondas das vicissitudes emocionais do dia a dia. Você também pode usar um traje especial para os rituais, como uma túnica, uma estola ou algo do tipo, que vai igualmente se tornar “magnetizada”, como dizem nos textos mais antigos, com as práticas repetidas. Mais sobre isso, eu falo nos meus cursos, especialmente o de Introdução Prática à Magia.
O espaço deve estar limpo antes de qualquer coisa. É recomendável fazer uma faxina e utilizar defumações, banho de chão, bate-folhas e/ou borrifos de álcool líquido com cânfora, alfazema líquida ou água de Flórida para a limpeza.
O tempo de meditação deve ser definido conforme a sua experiência com a prática. Se você nunca meditou, sente-se confortavelmente e comece com 5 minutos, marcados no relógio (seja inteligente e utilize um alarme suave). Depois você pode ir aumentando aos poucos. Vinte minutos diários é um bom objetivo. Se você não sabe como meditar, recomendo as instruções do Rudá.
As etapas 2 e 4 do ritual invocam a presença da egrégora no seu campo e no seu espaço, protegendo-o e delimitando-o como um espaço sagrado. A repetição vai firmar essa energia, de modo que, após um tempo de prática, não será mais necessário fazer o ritual dos guardiões todos os dias, e a sua frequência pode ser reduzida para uma vez por semana, só para manter firmes as proteções. É interessante observar que as etapas 3 e 4 seguem em direções opostas (uma é anti-horária e a outra horária), gerando um vórtice, que é produtivo em termos de movimentação de energia.
As etapas 5 e 6 são etapas de purificação: a prece penitencial desentranha sujeiras profundas causadas por nossas ações, e o mantra vai limpar as energias que estiverem na superfície, por isso eu recomendo que as duas etapas sejam feitas nessa sequência e não ao contrário.
As etapas 3 e 7 tratam do trabalho com os planetas, harmonizando a energia planetária a princípio e depois infundindo a sua aura com ela, de modo equilibrado. A energização vem depois da limpeza, para não dar combustível às energias impuras, mas antes da meditação, porque a meditação em quietude vai ajudar a absorver essas energias – e ao meditar limpo, energizado e conectado (graças à prece), é mais fácil entrar em contato com as esferas superiores da existência, por assim dizer. O momento após a meditação também é útil para se fazer afirmações e contemplar os valores da egrégora, as tais das virtudes herméticas: o Conhecimento de Deus (Gnose), o Júbilo, a Continência, a Perseverança, a Justiça, a Generosidade, a Verdade, o Bem Supremo, a Vida e a Luz.
Como o hermetismo é naturalmente sincrético e inclusivo, você pode incluir um momento para devoção aos seus deuses, com oferendas, como incenso, e preces ou hinos antes ou depois da etapa 8, mesmo que eles não sejam do panteão greco-egípcio. O aterramento no fim não é necessariamente uma técnica hermética, mas é importante para voltar ao estado de consciência normal.
O que eu recomendo é copiar as preces e rituais num arquivo do Word, depois mandar imprimir e encadernar para usar nos rituais. Ninguém precisa decorar tudo. Se quiser, pode transcrever para um caderninho à mão também.
A quem tem interesse em se aprofundar no hermetismo, eu acho que vale testar essa rotina e observar como você se sente depois. Se, depois de testar e ver que funciona, que a prática lhe trouxe conexão e quietude interior, você sentir vontade de firmar um compromisso um pouco mais intenso, é possível aprimorar a prática incluindo uma imagem de Hermes Trismegisto no seu altar. Eu consegui encontrar essa imagem abaixo em alta resolução (graças a um usuário no Flickr que tirou foto da igreja em que está essa arte). Basta abri-la, baixá-la e imprimi-la na gráfica mais próxima para depois colocá-la num porta-retrato em seu altar3.

Tem uma prece que pode ser feita diante dela como uma forma de conexão com o mestre: “Trismegisto, que minha alma não seja privada da grande visão divina. Pois tudo te é possível enquanto mestre do cosmos: ACHAI PHŌTHŌTHŌ AIĒ ĒIA AIĒ AIĒ EIŌ THŌTHŌ PHIACHA”4. Na sequência, então, você realiza uma prostração no chão. Essa etapa pode ser incluída após a etapa 2, com a prece preliminar, e pode ser repetida, se você quiser. Mas, reitero: esse é um compromisso a mais para quem tem interesse em aprofundar a prática. Não é obrigatório.
Agora, tem o problema de que muitas pessoas não têm tanto tempo disponível de uma vez para uma prática mais extensa. Se for mais cômodo, você pode dividi-la em duas etapas, uma de manhã, ao acordar, e outra à noite, ao voltar do trabalho.
Sequência noturna:
- Acender a vela branca, recitando a fórmula.
- Prece penitencial.
- Cantar 108 repetições do mantra PSINŌTHER NŌPSITHER THERNŌPSI.
- Prece de agradecimento.
- Aterrar, apagar a vela.
Sequência matinal:
- Acender a vela branca, recitando a fórmula.
- Recitar a prece preliminar.
- Se tiver tempo, invocar os quatro guardiões e/ou fazer o Chamado dos Sétimos.
- Prosseguir com a energização das 7 esferas.
- Prece de adoração do Poemandro e meditação.
- Aterrar e apagar a vela.
Assim, você já começa o dia se energizando e se alinhando às forças da egrégora hermética por meio da invocação preliminar. Depois, ao voltar do trabalho, as limpezas dão conta de tirar a sujeira acumulada durante o expediente para dormir bem.
Se a sua agenda for muito apertada, você pode fazer uma rotina mais completa cerca uma vez por semana e manter uma rotina diária simplificada de 15 minutos:
- Acender a vela branca, recitando a fórmula.
- Prece preliminar.
- Chamado dos Sétimos.
- Cantar 108 repetições do mantra PSINŌTHER NŌPSITHER THERNŌPSI.
- Prece de adoração do Poemandro e meditar durante 5 minutos.
- Aterrar e apagar a vela.
E é isso. Uma prática de rotina, feita com constância, tem a capacidade de estabelecer a conexão com a egrégora das práticas, limpar e desenvolver os corpos e, se a tradição for genuína, aprofundar a conexão com o Divino. E aqui agora temos uma prática de rotina puramente radicada no hermetismo. Eu gosto muito do hermetismo, por vários motivos, e como digo no outro texto, sua filosofia é meio como o sistema operacional das minhas práticas. Imagino que tenha outras pessoas como eu que acompanham O Zigurate, por isso compartilho esse material, que vocês podem agora compilar num .pdf e imprimir para usar em casa. E a tendência agora é que a tradição cada vez mais caminhe para constituir um sistema mágico coerente e autocontido.
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- A grande diferença é que o meu trabalho espiritual pessoalmente também lida com a devoção a deidades mesopotâmicas – por isso talvez “sabeu” fosse um bom rótulo para defini-lo, dado o que vimos em textos anteriores (como em al-Razi e nas preces planetárias dos sabeus em al-Tabari). Porém, como o trabalho com essas deidades não é para todo mundo, eu separo as coisas na hora de ensinar e entendo que, embora os dois sistemas funcionem bem juntos, eles são independentes. ↩︎
- Há um texto mais antigo também que eu anunciei como um ritual de banimento. Esse texto é mais antigo. Embora eu não diga que não se deve fazer esse ritual, eu tenho tido cada vez menos interesse em promover práticas que imitam rituais em estilo Golden Dawn. Por esse motivo, não o incluo aqui. ↩︎
- Você também pode comprar o talismã de Hermes Trismegisto do Christopher Warnock, se tiver aí uns 400 dólares sobrando. Trabalhar com o retrato em papel fotográfico é um pouco mais barato. ↩︎
- Quanto às origens desta fórmula: a invocação parte do “Discurso sobre a oitava e a nona”, texto iniciático hermético encontrado em Nag Hammadi. As voces magicae são dos PGM, de uma fórmula ligada a Thoth que, como vocês podem observar, constitui um palíndromo. ↩︎
