Armadilhas comuns na magia

Essa é uma questão que sempre surge na discussão sobre magia: a magia é perigosa? O pessoal mais sensacionalista vai falar que sim, com ares meio conspiratórios – afinal o que mais tem por aí é gente que mexeu um pouco com práticas mágicas, fez merda, se assustou e se arrependeu, depois se converteu e agora sai por aí falando que é tudo coisa do diabo e que você vai para o inferno se fizer uma simpatiazinha. Mas também tem gente que, por um misto de ignorância e bravata, puxa demais para o lado oposto e induz as pessoas a meterem o garfo na tomada.

Não tem como contornar o fato de que a prática mágica traz, sim, alguns perigos. Mas também o que não tem perigo nesta vida, não é mesmo? Cozinhar tem perigos. Dirigir tem perigos. Sexo tem perigos. Mas as pessoas não deixam de fazer essas coisas por conta dos riscos, pois elas entendem que os benefícios são maiores. Em vez disso, a gente compreende que esses riscos existem e toma certas medidas para tentar mitigá-los. Muitas vezes, são coisas simples, óbvias e intuitivas, tipo usar cinto de segurança. É disso que vamos falar hoje. A princípio eu pensei em dar a esse texto o título de “perigos comuns da magia”, mas achei que seria sensacionalista demais. Em vez disso, optei por armadilhas, porque é essa a questão, no fim das contas, né? A armadilha é especialmente perigosa quando não é vista, quando você não sabe que ela está lá.

Lá vai, então, uma breve lista de algumas armadilhas que são as mais prováveis de um magista encontrar em seu caminho (especialmente no começo), bem como as medidas para evitá-las.

Arte de Ron Spears para a carta Hapless Researcher (Pesquisador Desafortunado) de Magic: the Gathering

Falta de higiene energética

No século XIX, a ordem da Golden Dawn desenvolveu o famoso Ritual menor do Pentagrama (RmP). Nas primeiras décadas do século XX, então, com o fim da ordem original, as instruções para esse ritual começaram a vazar e a circular entre o público em geral, graças aos esforços de figuras como Dion Fortune e Israel Regardie. Realizado direitinho duas vezes por dia, todos os dias, conforme as indicações, o RmP é um ritual competente de limpeza. É o equivalente a um banho breve diário e, não por acaso, um milhão de livros de ocultismo contemporâneos começam ensinando o RmP. É um clichê do gênero.

Mas aí temos alguns problemas: 1) o RmP muitas vezes é a única prática de limpeza que esses magistas iniciantes aprendem, desprezando técnicas “populares” como defumações e banhos de ervas; 2) ele é, como eu falei, o equivalente a um banho breve diário. Se você cair na lama, metaforicamente falando, vai precisar de algo mais forte para limpar. Só que o pior problema é 3) o RmP levou a uma concepção da ideia do “ritual de banimento” como trabalho preliminar, baseado na sua estrutura. Como resultado, foram criadas inúmeras variações, muitas das quais não têm a mesma eficácia do original – ou, pior, não têm eficácia nenhuma.

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Em tempo, falando no RmP, vou interromper este texto rapidinho para avisar que, este mês, teremos a turma de estreia do curso Segredos do Ritual Menor do Pentagrama (dia 25/7). Depois também vem Experimentos em Remediação Astrológica (26/7) e Magia angelical: módulo I (28/7 e 4/8). Ementa e inscrições nos respectivos links!

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Nesse caso, se o iniciante estiver confiando toda sua higiene energética nesses rituais de banimento falsificados, então é basicamente a mesma coisa que não fazer nada de limpeza. E isso é um problema, porque higiene energética não é apenas um hábito nascido de algum tipo de “paranoia ocidental com pureza”, como alguns ocultistas equivocadíssimos podem pensar, mas algo que se encontra em inúmeras tradições do mundo inteiro e é importante, porque, sem isso, a energia suja se acumula, atrapalha todo tipo de prática e atrai seres hostis. Enfim, não preciso falar mais disso. Já tem alguns textos sobre o assunto aqui no site. Eu bato sempre nessa tecla: é crucial que todo iniciante domine, logo no começo, alguma técnica de limpeza energética. Mais que uma, de preferência. Rituais, mantras, banhos, defumações, bate-folhas, Pranic Healing. Todo mundo que já tem alguma prática e passa a cuidar melhor da própria limpeza observa uma melhoria palpável no próprio desempenho mágico.

É importante resolver isso logo no começo, porque, assim como um mau hábito, tipo fumar, o acúmulo de sujeira energética pode não ter um efeito catastrófico logo de cara, mas sim um efeito cumulativo que vai ser sentido lá na frente. Mesmo uma sujeira superficial pode se tornar encruada, dificultando o processo de mudança interna e amplificando as piores tendências da personalidade do praticante.

“Limpeza pra quê? eu tô ótimo!” (arte de Alex Grey)

Exaustão energética

Eu confesso que não tive boas instruções sobre manipulação energética quando estava começando. Pelo contrário, muita coisa eu precisei aprender por conta, na marra – e eu falo bastante de Pranic Healing por aqui, porque foi depois que eu descobri a escola, graças à Maíra, que eu pude ter um salto real na minha prática. Foi a diferença entre bater uma pedra na outra para fazer fogo e ter um maçarico (mais sobre isso no texto Benefícios de Pranic Healing para magistas).

E aí, bem, o que acontecia? Não raro eu ia fazer algum ritual com algum propósito específico, um feitiço ou consagração de um talismã, e depois sentia um imenso cansaço. É difícil de descrever, porque não era um cansaço físico, como após fazer exercícios, mas um cansaço energético – é o que a gente chama de depleção prânica, uma falta de energia para fazer as coisas. Geralmente passava depois de uma sessão de 20 minutos de pranayama, mas era sinal de que tinha alguma coisa ali para melhorar, porque o motivo desse cansaço era o fato de eu estar usando a energia dos meus próprios corpos energéticos nos trabalhos (que é uma das primeiras coisas que a gente aprende a evitar no curso básico de Pranic Healing).

De novo, esse efeito não é catastrófico na hora, mas sabe o que acontece quando a gente faz isso com regularidade? A sua imunidade vai pras cucuias e não é raro você fazer ritual e depois ficar doente. Por isso é importante dominar as devidas técnicas energéticas ainda no começo do seu aprendizado.

Mas tem um outro tipo ainda mais pernicioso de exaustão. É comum a gente ser atraído à magia pelas possibilidades da feitiçaria, usar magia de resultados para melhorar as condições de nossa vida. Nada de errado com isso e inclusive tem um texto aqui sobre as formas de feitiçaria adequadas para principiantes. O problema é quando as pessoas só querem saber disso, sem buscar qualquer prática de conexão espiritual. O que acontece nesse caso é que um tipo de reserva energética mais profunda e mais sutil é usada, de nossa energia espiritual. E, ao usá-la sem que haja reposição, sem receber o sustento espiritual da energia divina que desce pelo chakra do coroa, uma hora essa reserva acaba e aí você não vai mais ter força para realizar nada. Por sorte, isso também é fácil de evitar (vide o nosso exercício de conexão espiritual), mas já vi casos seríssimos.

Contato com espíritos perigosos

De novo, temos textos sobre o assunto aqui, a partir da segunda parte do texto sobre os tipos de seres: nem todos os seres do mundo espiritual são amigáveis e interessados no seu bem-estar. Alguns querem sugar sua energia, manipular você ou simplesmente te destruir. A melhor forma de atrair larvas, parasitas e kiumbas é – adivinha? – não cuidar da própria higiene energética e cultivar sentimentos e comportamentos destrutivos… o que boa parte da população faz, infelizmente. Mas existem casos mais graves e mais específicos à vida de quem mexe com magia.

Seres mais perigosos exigem métodos complexos para serem contatados e a maioria das pessoas nunca conseguiria esse contato normalmente. Mas o que acontece? Autores sem escrúpulos divulgam sigilos e rituais sem nenhum discernimento ou preocupação com a segurança de quem está lendo. Aí um desavisado vai lá, compra um livro tipo um Goetia Pathworking da vida, que oferece um acesso muito torto a esse sistema, sem nenhuma proteção, e se ferra inteiro. Ou aprende a cultuar Lilith via vídeos de TikTok. Ou decide, de farra, que vai invocar Cthulhu. Às vezes a pessoa tem mais sorte do que juízo e não dá em nada1, mas é uma roleta russa.

Um espírito de boas de conjurar, bem tranquilinho (arte Cthulhu Rising, de Diana Franco).

Esses casos são bem mais complicados, porque é relativamente fácil lidar com seres parasíticos contraídos sem querer em situações convencionais. Qualquer limpeza poderosa já dá conta. Agora quando você abre de propósito a sua porta para seres destrutivos, vai um esforço tremendo para fechá-la, desfazer o estrago e limpar tudo. Se é que dá para limpar. É mais um exemplo de um problema cujas consequências são graves, mas a prevenção é simples: com um pouco de pesquisa, não é difícil ver o porquê de certas forças espirituais serem perigosas – e o trabalho com elas, indesejável. Quando, por exemplo, um bando de gente sem referência decide cultuar como deusa um ser que sempre foi descrito como demônio em sua própria mitologia original, usando argumentos de má fé ou as vozes da própria cabeça para defender a divindade da tal figura, eis aí um sinal claríssimo. Um mínimo de bom senso rende muito.

Vampirismo

Ainda sobre o tema de ocultistas inescrupulosos, vou contar um causo: eu já conheci mais de uma pessoa que foi vítima de um certo influencer da magia (influencer é uma praga mesmo). Elas pagaram para participar de trabalhos que seriam de prosperidade e ele as instruiu a realizarem um certo ritual, mas no fim todas acabaram com a vida travada. Eu tive, no entanto, a oportunidade de analisar o ritual que ele passou para as vítimas e, curiosamente, muitos componentes ali eram de fato eficazes em termos de magia de prosperidade – sigilos e correspondências de magia astrológica com Júpiter, em resumo. Mas havia sigilos suspeitos, um gráfico e outro sonoro, personalizados e construídos segundo os métodos clássicos de magia do caos, logo muito difíceis de decodificar para entender qual seria a intenção comunicada ali. A vítima do golpe não percebe, mas é nisso que se encontra o comando para pegar toda a energia de prosperidade que ela vai gerar com esse trabalho e transferi-la para o sujeito. E, como é um ritual que você mesmo está fazendo, não tem muita defesa: você está abrindo as portas para o picareta fazer o que ele quiser: é, em resumo, o equivalente astral a um backdoor ou cavalo de Troia.

Como eu falei, dois casos disso chegaram na gente já, com o mesmo influencer. Mas essa figurinha desprezível não é a única, claro. Tem muito magista por aí que vive disso, pessoal que faz rituais coletivos, vende talismãs, “cursos iniciáticos” ou compartilha servidores já pensando em aproveitar a energia dos desavisados. Vai achando que existe uma comunidade no meio ocultista, que não é um ninho de cobras…

E isso expõe um problema mais grave: sim, a gente só deve fazer magia com quem for confiável, mas como determinar em quem dá ou não para confiar? Ao contrário do perigo anterior, a pesquisa sozinha não dá conta e, embora certas figuras ostentem sinais evidentes de que não dá para confiar nelas, mesmo assim os golpes continuam acontecendo (sério, eu até hoje não acredito que um certo satanista, hoje evangélico e nazista, que era um óbvio palhaço conseguiu engambelar toda a cena do ocultismo brasileiro um tempo atrás. Vergonhoso demais).

Quanto a mim, eu tenho um grupo pequeno de pessoas por quem eu ponho a mão no fogo, pessoas cuja índole e domínio mágico eu atesto. Mas, claro, eu não espero que as pessoas na internet confiem em mim irrefletidamente também. Da minha parte, o que eu posso fazer é sempre demonstrar o meu conhecimento e a minha boa vontade, os princípios éticos que orientam meu trabalho, e quem tiver interesse no meu trabalho pode ver a minha perspectiva por via do site e conversar com meus alunos e clientes. Via de regra, no entanto, convém sempre desconfiar a princípio e considerar a sua confiança numa ou outra personalidade um bem a ser entregue com muito cuidado.

Visão inadequada

Esse é mais difícil de explicar. Por um lado, a nossa crença pessoal ao fazer um trabalho é irrelevante. Você pode, em tese, invocar deuses sem “acreditar” neles ou sem esperar que o trabalho funcione (é improvável, mas pode acontecer, ainda mais num primeiro momento). Porém, quanto mais você mexer com magia, mais você vai ter experiências estranhas… e, se você não tiver uma forma de integrá-las à sua visão de mundo, se tentar varrer tudo para debaixo do tapete psíquico (“deuses não existem, são apenas arquétipos/formas-pensamento/aspectos da minha psiquê”, “a magia é psicológica”), isso vai gerar uma dissonância cognitiva que só piora conforme as coisas avançam. A questão é que, diferente da dissonância cognitiva meramente mundana – resultante de ser, por exemplo, um funcionário público de orientação política neoliberal, – esse tipo de dissonância, com o tempo, vai rasgar a sua consciência no meio, e não vai ser bonito. Em contrapartida, se você estiver conduzindo o trabalho direitinho, o resultado vai ser uma expansão de consciência que vai permitir entender coisas que você não conseguia entender anteriormente.

Eu não quero dizer com isso que exista uma visão adequada, no entanto. Existem várias perspectivas possíveis sobre a vida espiritual, tanto que delas resultam tradições diversas. Mas existem visões que são, sim, inadequadas. Uma visão religiosa do tipo dogmático, por exemplo, com ideias rígidas do que é lícito ou ilícito (“eu vou pro inferno se fizer uma simpatia?”, “a minha religião é a única correta”), muitas vezes é incompatível com a magia, tanto quanto a visão de um ateu-cético-materialista. É de se imaginar que um ateu-cético-materialista não iria querer nada com esse tipo de coisa, mas a gente se surpreende com o quanto não é o caso… alguns até inventam de atender com oráculo. E aí, de duas uma, ou você revê os seus conceitos (e práticas) ou você vai tomar na cabeça. Dependendo da situação, a melhor coisa que a pessoa faz é parar tudo mesmo e viver uma vida apenas mundana.

“O aprendiz de feiticeiro sem querer solta o dragão da garrafa onde o feiticeiro havia conseguido apreendê-lo”, ilustração da Mary Evans Picture Library.

Tentar práticas avançadas demais

Em alguns rolês mágicos, iniciações e graus podem ser, às vezes, uma mera formalidade, fruto apenas da organização mundana mesmo. Em escolas espirituais sérias, no entanto, iniciações e graus têm uma função importante para proteger os praticantes e evitar que iniciantes realizem rituais e meditações que eles não vão ter a capacidade de suportar.

Em outros momentos eu já falei sobre o desenvolvimento do corpo energético. É isso que a gente faz quando tem uma prática diária e, com o tempo, os nossos corpos sutis se tornam mais fortes, logo capazes de lidar com quantidades maiores de energia, o que idealmente deve ser acompanhado de um processo de purificação interna. Sem isso, as chances de dar merda são altíssimas.

O que é um exemplo de uma prática avançada? Bom, não é legal eu falar disso justamente por questões de segurança (aí eu falo qual é e as pessoas vão lá fazer justamente para me contrariar), mas acho que não faz mal eu mencionar que o caso mais comum é a kundalini yoga. Se for conduzida de forma equivocada, sem devido preparo e/ou por um professor sem as devidas qualificações, essa prática dispara a famosa síndrome de kundalini, um fenômeno bem conhecido, que causa de tudo, desde erupção cutânea até “marés de azar” e surto psicótico. Por isso, é importante levar a sério quando certas práticas forem descritas como avançadas. Tem muito disso no budismo Vajrayana, meditações que exigem iniciação/empoderamento (wang) e podem ter consequências graves se o indivíduo decidir ir lá e fazer na louca sem passar pelo devido processo (e até mesmo com iniciação e tudo o mais, tem que ter MUITO cuidado). Não seja esse tipo de pessoa. Eu sei que, às vezes, falar que não se pode fazer uma dada prática é o tipo de coisa que dá vontade de fazer, nem que seja só pela transgressão e para ser do contra, mas tem casos em que essa recomendação está lá por motivos de preservação.

Mexer com magia de destruição

Essa é uma das grandes armadilhas que pegam os principiantes, especialmente os solitários. O sujeito começa uma prática, obtém alguns resultados e se empolga. Tradições e correntes sérias vão avisar para cuidar com o ego, mas mesmo esses casos não são imunes ao perigo de se achar o maior mago vivo desde John Dee. Logo a magia lhe sobe à cabeça, o sujeito se sente poderosão e, um belo dia, acontece de alguém lhe encher o saco, tipo um chefe cretino que faz ficar no serviço depois do horário. E ele pensa, “bom, me pegou num dia ruim, vou é lhe ensinar uma lição” e vai atrás da vela preta.

Isso é o equivalente de alguém que tenha começado uma arte marcial e decida sair por aí descendo porrada nos outros. Ele pode até dar sorte a princípio de pegar um pessoal de fato indefeso. Mas uma hora aparece alguém que é inesperadamente mais forte do que ele ou então tem um domínio maior do que o dele numa arte marcial. E aí ele chega achando que só vai bater, mas acaba apanhando também. Ou, pior, a vítima pode estar armada e/ou ter amigos que não vão deixar barato. Essa analogia é clara? Eu espero que sim, porque ela me parece óbvia, mas evidentemente não é… do contrário, não teria tanta gente tonta no rolê mágico que defende sair por aí fazendo demanda a torto e a direito, como se fosse brincadeira.

E aí tem os problemas de lidar com a energia destrutiva em si, que também é uma capacidade que as pessoas vastamente superestimam em si mesmas. O efeito Dunning-Kruger é verdadeiro demais. Se você tiver uma prática de elevação espiritual, você não vai ser compatível com essas forças (o tipo de energia destrutiva mais popular é infernal2) e vai precisar “descer” até elas – é Bardon quem comenta, se não me engano, que isso é possível, mas não é legal, não é divertido, não é agradável. Agora se você for compatível com essas energias, tanto pior, porque se conseguir acessá-las com a devida técnica, você nunca mais vai se livrar delas. É como pedir favor para gente perigosa. Destruir uma pessoa não é fácil e por isso tem um preço alto que você não vai pagar só acendendo uma meia dúzia de velas, nem matando bicho. Dependendo do caso, o que eles querem você não vai querer dar em troca. Mas aí como que fala para esse povo depois para ir embora da sua casa?

“Ai, eu faço banimento”… que é o equivalente a aparecer num tiroteio com uma pistola d’água.

Sim, palavras de sabedoria de um joguinho de Super Nintendo de 30 anos atrás (Final Fantasy IV). As ilustrações do texto de hoje estão especialmente nerdola, eu sei.

Eu reconheço que nem todo tipo de ataque mágico surge do ego, de um desejo mesquinho de ferrar o outro por pouca merda. Tanto que o que mais me perguntam é sobre a questão de fazer magia para atacar políticos fascistas e outras figuras nefastas3. Infelizmente acessar essas figuras é difícil. Se você não consegue chegar perto delas direito no plano físico sem tomar um chega-pra-lá de um guarda-costas, você também não consegue chegar perto delas nos planos sutis. Mais do que isso, eu não vou falar por recomendação do departamento jurídico, risos.

E olha que eu nem tratei da questão de karma, porque sei que muita gente não leva a sério. O karma pode demorar para se manifestar e aí as pessoas não ligam o lé com o cré se algo que elas fazem hoje der frutos daqui a 30 anos. O meu ponto é que nem precisa disso. Teve um caso que eu conheci de um moleque que estava com a vida travada, simplesmente porque não parava de atacar a própria mãe (com quem ele morava junto, para piorar) com magia sabor Goetia de um desses livros Gallery of Magick da vida. O querido transformou a própria casa no equivalente oculto de uma trincheira da Primeira Guerra Mundial e não entendia porque estava com os caminhos fechados.

Em vez de pensar em atacar, a minha recomendação é se concentrar na defesa, firmar o contato com seus guias e protetores, trabalhar a sua própria energia. Seja você o alvo inadvertidamente forte que pega otário de surpresa.

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Enfim, esses são alguns dos perigos, das armadilhas, de mexer com magia, especialmente para principiantes. Conforme a gente pega experiência, a natureza dos problemas muda de figura, mas esses são os que eu acredito que sejam os mais comuns num primeiro momento.

E agora, um último comentário: as pessoas têm uma ideia meio estereotipada do que são as consequências negativas da magia. Elas acham que é fazer o ritual e aí tudo começar a dar errado do nada, tipo a casa do sujeito pegar fogo, ele sair correndo e ser atropelado, depois cair um raio em cima dele enquanto está na maca para entrar na ambulância. Esse tipo de resposta imediata e inequívoca pode sim acontecer4, mas não é o mais comum.

O que mais se vê é um processo de desgraçamento gradual até o sujeito acabar arruinado em todos os níveis com o tempo. O dinheiro acaba e ele não arranja emprego, nem clientes, nada que ele faz dá certo, a saúde fica uma tristeza, a pessoa se vê sozinha e isolada, com a saúde mental completamente destruída e o coração cheio de frustração, amargura, arrogância e raiva impotente (com frequência exprimida em redes sociais sem nenhum filtro). Às vezes alguns desses elementos estão presentes (especialmente o último), mas a pessoa ainda tem dinheiro e por isso se acha bem sucedida… até ela não ter mais nem isso também. Então, quando alguém encher a boca para falar que não precisa se limpar ou que pode sim fazer demanda à vontade, convém desconfiar. Às vezes a pessoa está simplesmente há tanto tempo chafurdando na própria imundície que, claro, ela nem sente mais o cheiro.

Eu sei que a gente soa muito chato quando fala dos cuidados com a magia. Sei que tem um pessoal cuja abordagem à magia eu descreveria como aula de pintura de dedo no jardim de infância, como se a vida espiritual fosse mais um campo artístico para expressar a criatividade. Trazer atenção para a questão de limites e consequências, nesse contexto, é visto como jogar água no chopp da galera. Mas existem outros meios de autoexpressão – literatura, música, pintura – que são mais seguros. E, como eu falei, muitas vezes medidas simples, o equivalente esotérico de lavar a mão, usar cinto de segurança e não beber e dirigir, já evitam uma imensa dor de cabeça.

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  1. Os motivos de às vezes “não dar em nada” pode ter a ver com bom karma ou os protetores da pessoa. A questão é que essa proteção não dura para sempre. ↩︎
  2. Destruição com energia divina também é possível, mas é mais difícil de acessar/manejar e os efeitos tendem a ser limitados, porque não é você quem define o que vai acontecer com o alvo. E mesmo assim há consequências. ↩︎
  3. E tem também a situação do famoso “fazer justiça com as próprias mãos”, que rende muita gritaria online e, por isso, eu acho delicado demais para discutir abertamente. ↩︎
  4. Para um exemplo desse caso, recomendo, aliás, o vídeo do Wellington, do canal De Monge a Mago no YouTube, sobre a vez em que ele foi mexer com os cacodáimones enoquianos. ↩︎

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