Quem acompanha O Zigurate sabe que eu não gosto de publicar receitas prontas de magia. Já publiquei rituais de rotina, preces e elementos para rituais maiores, reflexões e análises sobre magia prática e outras coisas, mas receita mesmo eu acho complicado. Primeiramente, porque cada um tem uma mão de magia diferente, e duas pessoas podem obter resultados divergentes com um mesmo ritual. Depois tem os problemas de que, muitas vezes, um feitiço exige etapas prévias que, por sua vez, renderiam um texto por si só, e os rituais costumam estar associados a uma egrégora específica com a qual nem todo mundo tem ressonância. Mas o pior problema é a própria natureza das redes sociais como o lugar em que a interpretação de texto vem para morrer: basta dar uma olhada nos comentários do Tudo Gostoso. As pessoas não sabem lidar com receita de comida sem querer inventar moda. É mil vezes pior com magia, porque se você fizer um ritual que é o equivalente de arroz queimado com feijão azedo, a maioria das pessoas não têm a capacidade de percepção para entender que a receita deu errado.
Dito isso, este é um caso em que eu acho que há potencial para fazer mais bem do que mal. Via de regra, as emoções são uma coisa complicada de lidar, e um auxílio para processar tristeza, raiva, medo e outros sentimentos eu acredito que seja sempre bem-vindo, ainda mais neste mundo distópico em que a gente vive. A ritualística tem algumas peculiaridades, mas não é excessivamente complexa, nem exige ingredientes caros ou inacessíveis. E é um trabalho de baixa tensão, por assim dizer: os efeitos dele são microcósmicos (interiores) e, caso haja algum erro operacional, é fácil de desfazer sem maiores prejuízos. No mais, é um bom exercício para quem está aprendendo antes de lidar com rituais mais sérios.
O que eu vou ensinar para vocês é a fazer um talismã lunar de magia astrológica. Magia astrológica é o trabalho com as energias e seres associados aos planetas, estrelas etc. Dentro desse esquema, a Lua é o principal corpo celeste (“planeta”) que trata de questões emocionais. Concentrando essa energia num talismã, podemos ter aí uma ferramenta útil para ajudar com cura emocional, com o processamento de sentimentos, desapego e equilíbrio interno.

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E falando em Magia Astrológica, estamos com VAGAS ABERTAS para o módulo II este mês (dias 29 e 30), informações e inscrições aqui. Também temos vagas para o módulo II de Magia Angelical (aqui, nas terças do começo de setembro) e para o curso Magia para Leigos (aqui, dia 25/8). E Maíra estará oferecendo, mais uma vez, o NÍVEL BÁSICO DE PRANIC HEALING no Instituto Pranaterapia São Paulo (inscrições no site dela, aqui, dias 5 e 6 de setembro). Pronto, dado o recado, pode continuar a leitura agora.
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Sem mais delongas, peguem papel, cola e tesoura sem ponta1, então, e vamos lá.
Preparativos
Para esse talismã, você vai precisar de: um papel, uma caneta de tinta lilás, um pequeno punhado de camomila e um saquinho de pano branco ou lilás. O papel e a camomila obviamente serão colocados dentro do saquinho, por isso tenha esse fato em mente na hora de ver a quantidade de camomila e o tamanho do papel. Eu uso muito esses saquinhos de veludo de joia, que você acha fácil para comprar e em muitos lugares eles dão de cortesia junto com pedras, anéis, pingentes e coisas assim.
Para o ritual, você vai precisar de: duas velas (uma branca e uma lilás)2, um incenso de vareta mesmo3 (pode ser de camomila, papoula/opium, lírio, jasmim, cânfora etc), outro papelzinho e caneta, mais um copo com alguma bebida associada à Lua (leite de vaca, leite/água de coco ou vinho branco). Obviamente ajuda também ter os devidos acessórios: castiçais e porta-velas para as velas queimarem em segurança, um incensário, isqueiro e tal. Acho bom ainda ter um papel com as preces e invocações por impresso, a não ser que você seja do teatro e tenha muita facilidade em decorar tudo (não é necessário, no entanto). Um outro item opcional é um pequeno sino.
Se você tiver um lugar em que você faz seus rituais rotineiramente, é lá que você vai fazer esse talismã, usando o seu altar. Se não tiver, aí pode fazer na sua sala mesmo ou onde for mais prático (não pode banheiro e não recomendo fazer no quarto). Você vai limpar a mesa (fisicamente) para usá-la como um altar temporário e fazer as devidas limpezas (agora energéticas) no ambiente antes do ritual. Defumação com sálvia, palo santo ou um bom incenso, bate-folhas, aspersão de água lustral, rituais de limpeza, Pranic Healing – o que tiver no seu repertório, você usa para garantir que o espaço vai estar o mais adequado possível para a operação. Recomendo ainda que você tome um banho antes do ritual (de preferência um banho de sal fino ou, se você entende de banho de ervas, um banho de ervas de limpeza suave) e use roupas limpas ou a sua túnica de rituais, se tiver. Para esse ritual, são especialmente indicadas roupas brancas ou de cor lilás.
Há alguns símbolos envolvidos aqui. Na vela lilás, você vai usar uma ponta rígida para gravar na cera os seguintes caracteres:

(deite a vela de modo que a crescente na imagem fique perto da base e desenhe os símbolos assim, da esquerda para a direita, de baixo para cima na vela)
No primeiro papel descrito, você vai imprimir ou desenhar manualmente a tabela numérica abaixo:

Esse é o quadradinho mágico (kamea) da Lua. Em cima dele, você vai desenhar um rabisco contendo o propósito do talismã sigilado (eu vou explicar depois o que tem aí, não se preocupe) conforme o método clássico. Para isso, você vai prosseguir da seguinte maneira:
- Faça um ponto com a caneta nos números 30, 2, 10, 20, 80, 1;
- Trace uma linha reta do ponto do número 30 para o número 2;
- Continue ligando os pontos em ordem até chegar no 1. Trace um risquinho ali;
- Trace o símbolo abaixo (chamado de “pré-sigilo”) de modo que a ponta direita dele termine no ponto do número 30:

Ilustrando o processo, a coisa toda vai ficar mais ou menos assim:

Por fim, tem o segundo papel, em que você vai desenhar o sigilo abaixo, de preferência numa segunda-feira:

(pode usar a mesma caneta lilás que usou para fazer o outro rabisco, ou pode usar outra caneta também, lilás ou preta.4)
E isso conclui os preparativos. Não é difícil, né?
Timing
A parte chata de tudo que envolve magia astrológica é que esses rituais dependem do céu. No caso, estamos trabalhando com a Lua, por isso esse é o planeta que precisamos observar, obviamente.
Há dois signos em que a Lua está especialmente eficaz (o termo do jargão astrológico é “dignificada”). São eles Câncer, seu signo de domicílio, e Touro, sua exaltação. Para esse trabalho em especial, Virgem e Peixes também são signos adequados. A primeira etapa para marcar a data do ritual é, portanto, observar o ciclo da Lua. Como temos quatro signos aceitáveis dentre doze, temos uma janela tranquila aí. Por sorte, a Lua é rápida e passa por todo o zodíaco todo mês. Assim, se você perder a oportunidade num desses ciclos, sempre tem o próximo. Não é que nem Júpiter, que só vai ter a força que teve entre 2025 e 2026 daqui a vários anos.
A segunda etapa é um pouquinho mais chata. Eu já falei aqui anteriormente: cada dia da semana está associado a um dos sete planetas clássicos e cada hora do dia também. O dia da Lua é segunda-feira (daí o nome Monday em inglês). O modo mais fácil para um iniciante acertar o timing desse ritual seria, portanto, ver uma segunda-feira em que a Lua estiver num desses signos. Para quem entende um pouco mais de astrologia, é possível marcar o ritual na hora astrológica da Lua, seja na segunda-feira ou outro dia. É possível fazer esse cálculo manualmente, mas a melhor opção é baixar um bom aplicativo para o seu celular como o Planetary Hours. Importante frisar que a precisão das horas planetárias depende do local onde você está. Alguém em São Paulo e em Oslo num mesmo dia não vão ter as mesmas horas.
Por fim, a gente precisa dar uma olhada no que pode ter de impeditivo, o que é um pouco mais trabalhoso, porque você vai ter que olhar o mapa astral da hora do ritual. Para isso, recomendo muito conferir sites como o Astro-seek ou o Astrotheme.
Não faça esse ritual numa data de eclipse. Não faça esse ritual se a Lua estiver fazendo conjunção ou um aspecto difícil (quadratura, oposição) com os maléficos (Saturno e Marte) – o que significa, em termos amplos, evitar os momentos em que esses planetas estão no mesmo signo que a Lua ou em signos da mesma modalidade. Por exemplo, se você for fazer com a Lua em Câncer, é bom olhar para ver onde está Marte – se estiver em Câncer também ou em Áries, Libra ou Capricórnio (todos signos cardinais), é melhor não fazer, porque Marte vai ferir a Lua nesses signos, por assim dizer. O mesmo vale para Saturno (que, no momento, está no começo de Áries). Ao fazer o ritual com a Lua em Touro, evitar Marte/Saturno em Touro, Leão, Escorpião ou Aquário (signos fixos). Ao fazer com a Lua em Virgem/Peixes, evitar Saturno e Marte em Virgem, Peixes, Sagitário ou Gêmeos (signos mutáveis). Se conseguir marcar a hora do ritual para o momento em que a Lua estiver no ascendente, no meio do céu ou na casa 3 (sua casa de júbilo), melhor.
Esse trabalho pode ser feito tanto na lua crescente quanto na minguante. Na crescente, você enfatiza a sua intenção de aumentar o seu equilíbrio emocional. Na minguante, você enfatiza a intenção de se purificar dos sentimentos que incomodam (eu pessoalmente acho a minguante até melhor nesse caso).
Quem tem mais experiência com magia astrológica, vai saber escolher a eletiva adequada5. Para quem é iniciante, essas são as recomendações básicas para você não criar um talismã com o efeito contrário ao desejado6. Mas, como eu falei: caso você erre e faça o ritual num dia ruim, é fácil de desfazer sem grandes prejuízos. Quando você encontrar um dia e hora adequados, aí marque no calendário e deixe tudo pronto para o dia.
O que eu posso sugerir aqui, de forma ampla, ainda em 2026, seriam os seguintes dias. Segundas: 30 de novembro (Lua em Virgem), 28 de dezembro (Lua em Virgem). Nesses dias o ritual pode ser feito a qualquer hora entre o raiar do dia até o raiar de terça.
Em dias que não são segunda: 1 e 2 de setembro (Lua em Touro), 10 de setembro (Lua em Virgem), 24 e 25 de setembro (Lua em Peixes), 29 de setembro (Lua em Touro), 4 de outubro (Lua em Câncer); 7 de outubro (Lua em Virgem), 22 de outubro (Lua em Peixes), 31 de outubro (Lua em Câncer)… e assim por diante. Nesses dias, é preciso conferir o horário planetário conforme a sua localização. E, por favor, olhem o mapa da hora do ritual para ver se não tem mais nada que possa atrapalhar. Eu tentei descartar as eletivas com impeditivos muito óbvios, mas estou falando aqui em termos bem gerais e é possível que algo tenha me escapado.
O passo a passo
Certo, então, chegou o dia de fazer o seu talismã: você já limpou o espaço e tomou seu banho. Monte o altar colocando as duas velas, o incenso, o copo com a bebida e o sigilo do planeta (pode dispô-los na forma que for mais agradável à vista para você). Num cantinho, deixe separados os outros itens: a camomila, o saquinho e o quadradinho mágico (eu gosto de usar uma tigelinha para isso). Se você gosta de trabalhar magicamente com música, seja para entrar no clima antes ou durante o ritual, eu recomendo a opção óbvia que é “Clair de Lune”, de Debussy.
Na hora marcada, você vai parar diante do altar, fechar os olhos e fazer quatro ciclos de respiração pausada. Então acenda a vela branca, recitando a seguinte fórmula: “Eu te conjuro, Ó fogo, dáimon do santo amor, o invisível e múltiplo, uno e onipresente, para que habites esta chama neste momento, reluzente, sem te extinguires, em nome de IAŌ. Sê grande, Ó luz, vem e eleva-te, Ó luz de Deus”.
Com a vela acesa, recite a invocação preliminar:
Ao Supremo Divino, o teu santo nome, em reverência, eu invoco agora: IAŌ AŌI ŌIA AIŌ IŌA ŌAI. Eu te glorifico, deus dos deuses, que trouxeste ordem ao universo, PSINŌTHER, que és a alma dos deuses, tu a quem pertence a eterna procissão dos céus, pela qual fora estabelecido teu nome de sete letras para a harmonia das esferas: AEĒIOYŌ. Eu te invoco, Ó Aion eterno e autoengendrado, que sozinho manténs a criação de todas as coisas, a quem ninguém compreende, a quem os deuses veneram, cujo nome nem mesmo os deuses podem pronunciar. Eu te invoco como os deuses te invocam. Eu te invoco como as deusas te invocam. Eu te invoco como os ventos te invocam. Eu vos invoco, divino Aion, divino Agathos Daimon, divino Poemandro, todos os grandes deuses, anjos e arcanjos da hierarquia cósmica, mestres sagrados, nosso mestre Hermes Trismegisto, nossos mestres Apolônio, Orfeu, Petosíris, Salomão e meu próprio dáimon pessoal, a vós eu saúdo e rogo por vossas bênçãos, vossa misericórdia, proteção, sabedoria e poder, para estes ritos.
Agora vamos rezar cada um dos itens sobre o altar. Toque o incenso e recite: “O que está em cima é como o que está embaixo e o que está embaixo é como o que está em cima, para realizar os milagres de uma única realidade”. Depois repita esse processo tocando a camomila e o copo com a bebida.
Toque a bebida e recite três vezes: PSINOTHER NOPSITHER THERNOPSI. Visualize uma chama branca sobre o copo, depois declare: “Ei-la, purificada, abençoada e multiplicada, esta oferenda, que eu dedico aos espíritos lunares”.
Estenda os dedos indicador e médio da sua mão direita. Com eles, trace no ar sobre o incenso o pré-sigilo, igual o que está presente no talismã:

Visualize-o na cor lilás. Enquanto traça esse desenho, entoe a vogal “A”: Aaaaaaaaaaahhhhhhh. Na sequência, acenda o incenso e deixe a fumaça se espalhar bem.
Isso conclui as preliminares e agora vamos começar a invocação da energia lunar propriamente. Com os mesmos dois dedos estendidos, toque o sigilo da Lua sobre o altar. Feche os olhos, ainda tocando o sigilo, e imagine que você está, não na sua sala, mas num templo sobre o mar, de noite, com a Lua brilhante acima. Mantenha essa visualização durante algum tempo, respirando devagar. Ao abrir os olhos, imagine a Lua ali ainda e o espaço sendo preenchido por uma luz lilás.
Se tiver um sino, pode tocá-lo nove vezes. Do contrário, estale os dedos nove vezes. Agora você vai recitar a seguinte invocação:
Ó senhor da ciência, também suave, temperado, rei formosíssimo e sempre constante na fé, cuja natureza não despreza o deleite e o gozo! Tu, senhor, a quem é submisso todo mandato e o núncio do mandato, doutor dos conselhos, que deténs concórdia e retidão entre sete espíritos, cuja interposição ofusca o lume dos outros espíritos – enquanto a tua conjunção com algum deles toma a malícia do mau e aumenta a benevolência do bom. Como és o primeiro de todos eles, a ti com toda devoção da mente eu suplicante rogo que me atendas abertamente e sem demora.
Recitada a invocação, acenda a vela lilás. É possível que, se você tiver sensibilidade, você sinta nessa hora uma mudança na energia do espaço. Se não sentir nada, pode repetir a invocação mais uma ou duas vezes para garantir.
Agora é hora de se dirigir às forças da Lua e declarar a sua intenção. Diga:
Pelos mandos de Aión, eu vos conjuro, Ó forças da Lua – IAŌ AŌI ŌIA AIŌ IŌA ŌAI. Por todas as presenças sagradas aqui invocadas, eu vos conjuro. Eis o espaço que eu preparei para vós, na hora propícia e auspiciosa, com vela, incenso e libação em vossa homenagem. Rogo-vos: vinde, rápido e sem demora, Ó KHEKHAMPSIMM. Com aspecto gentil e solícito, em paz e poder, vinde rápido e sem demora. Que as bênçãos das deidades lunares, dos seres angelicais, teletarcas e dáimones estejam sobre este rito. E rogo aos dáimones lunares para que venham avivar este talismã que estou criando agora: que este talismã fortaleça o meu corpo emocional, que ele me ajude a obter equilíbrio interno e a processar e purificar meus sentimentos de modo a cultivar, cada vez mais a minha paz de espírito. Em reverência, gratidão e plena fé, eu agradeço. Que assim seja.
Feito isso, monte o talismã fisicamente: coloque a camomila, depois o quadradinho mágico (pode dobrar se ele não couber inteiro). Feche o saquinho e o leve até a fumaça do incenso.
Enquanto defuma o talismã, movendo-o no sentido horário sobre a fumaça, você vai cantar a vogal A, igual fez ao traçar o sigilo sobre o incenso, depois recitar a fórmula: “IO KHEKHAMPSIMM! O Sol é o pai, a Lua é a mãe, o vento o carregou em seu ventre, a terra é sua nutriz. A-Ê-É-I-Ô-U-Ó-A IAÓ.” Repita essa sequência nove vezes, sempre movendo o talismã sobre a fumaça enquanto isso.
Por fim, sopre sobre o talismã e o leve ao seu peito. Fique com ele ali durante alguns segundos, depois o deposite sobre o altar. Está feito. Toque o sino ou estale os dedos 9 vezes para marcar esse momento.
Agora é a hora do encerrarmos. Recite:
Ó poderosos espíritos da Lua, porque fostes diligentes em atender ao meu chamado, eu vos agradeço e vos dou a licença para partirem. Retornai ao local de onde viestes sem que mal algum seja feito a qualquer ser vivente. Ide com as bênçãos divinas e que haja sempre paz entre nós. Que assim seja. (pausa) A todo e qualquer espírito que tenha sido atraído e aprisionado por este ritual, eu vos liberto agora também, que vão em paz. Todos os portais abertos por este ritual estão sendo fechados agora.
Termine com um exercício de aterramento. E, pronto, o ritual está concluído.
Deixe o talismã sobre o altar pelo menos até o incenso terminar de queimar, depois você pode carregá-lo consigo. Deixe as velas queimarem em segurança (não ponha fogo na sua casa, por favor) e, depois que tudo tiver terminado, jogue a bebida fora na frente de casa ou num lugar que tenha terra, mato etc. Não jogue na pia, nem no vaso sanitário. O papel com o sigilo usado no ritual eu recomendo guardar numa pastinha.
Um último comentário operacional: eu acho desejável manter uma certa postura (a nível interno e externo) para o melhor efeito do ritual. Pense que o ritual é uma performance, só que para uma plateia (normalmente) invisível. Você não precisa decorar todas as etapas, nem os textos, pode levar uma colinha, mas é bom entender o passo a passo e ter lido tudo antes para se familiarizar com o que vai ser dito e evitar perder o embalo do ritual com enroscos e travadas, especialmente quando chegar a hora de recitar as palavras doidas voces magicae. Em termos de sentimentos, eu recomendo ir com a maior tranquilidade possível, sem medo, nem ansiedade (não tem por que ter medo, não tem nada de sinistro aqui). Quem tem mais experiência vai conseguir entrar no clima sem maiores dificuldades, porque já tem costume. Quem não tem, bom… aí pode precisar de um pouco mais de tempo a fim de resetar a cabeça e sair do modo mundano, com as preocupações e estresses do dia a dia, para entrar no modo de concentração. Fazer mais exercícios de respiração ajuda, bem como o banho anterior e a visualização dos corpos sutis. O ideal é que você consiga se desligar completamente do que está acontecendo no mundo externo durante uns 20 minutos (recomendo colocar o celular no modo avião, inclusive) para se conectar com o momento presente.
Modo de usar, manutenção etc
Você pode usar esse talismã no corpo, seja no bolso da sua calça, dentro do sutiã ou mesmo numa bolsa ou mochila. Pode dormir com ele, se quiser7. Recomendo usar, por exemplo, ao fazer uma sessão de terapia ou tê-lo direto consigo se estiver passando por um momento difícil. Quando a coisa apertar e você estiver com muita tristeza, medo, raiva, frustração, leve-o ao peito e intencione para que ele absorva esses sentimentos difíceis. Quando não estiver precisando tanto, pode guardá-lo numa gaveta ou deixá-lo no seu altar.
Sempre que usá-lo, é importante limpá-lo também, já que ele vai processar sentimentos que são o que a gente entende como energia suja. Para a limpeza, eu recomendo o uso de alfazema líquida. Compre um frasquinho desses de loja de macumba mesmo e coloque num borrifador. Dê uma meia dúzia de borrifadas diárias quando estiver usando. Se você conhece as técnicas de limpeza do Pranic Healing, pode aplicar a varredura localizada para limpar, em vez disso.
Esse talismã é feito de papel e ervas, por isso não vai durar para sempre. Dependendo da qualidade da ritualística, ele pode aguentar aí uns bons dois anos. Depois disso, pode ser que o objeto não sustente mais a energia. Caso queira desfazê-lo por esse ou qualquer outro motivo, basta acender uma vela branca, agradecer a todas as forças envolvidas no ritual, dispensá-las e desmontar o talismã. Queime o papel com o quadradinho mágico, devolva a camomila para a natureza, e o saquinho pode ser jogado no lixo normal mesmo (ou reutilizado para criar esse mesmo talismã de novo).
Se você perder o talismã, eu recomendo fazer o ritual de agradecimento, dispensa e despedida, mas pedindo desculpas também pelo vacilo. Nesse caso, eu não recomendo fazer outro imediatamente: como estamos lidando com coisas de espiritualidade, a perda de um objeto mágico pode ter um motivo mais profundo, e aí convém oracular. Às vezes é porque ele cumpriu o seu papel, mas pode ter outro motivo. Há de se atentar aos sinais.
Por fim, você pode criar esse talismã para dar para amigos. Para isso, você vai incluir, durante o ritual, a menção ao nome da pessoa que vai recebê-lo na parte da declaração de intenção e mais uma etapa adicional depois: antes de encerrar, visualize que o talismã está conectado a você por meio de uma mangueira que parte da altura do seu plexo solar. Estenda a mão e a imagine como uma faca, então desconecte esse cabo com um gesto de corte. Isso vai desligar você do talismã. Ao entregá-lo para a pessoa, dê instruções para que ela se sente com o talismã por alguns minutos para se conectar com ele, antes de enfiá-lo no bolso e esquecer que ele existe.
Explicações e considerações finais
Se você quer só a receita e o modo de usar, isso tudo já foi dado acima. Mas, claro, eu valorizo a transparência e acho importante oferecer as minhas fontes ao ensinar um ritual, ainda mais dentro de um sistema mágico tão open source (ou open sorcery). Do contrário, seria possível estar colocando qualquer coisa nos sigilos e fórmulas, inclusive coisas muito suspeitas (vide os casos que eu já falei sobre vampirização e backdoor energético). Por isso, vamos lá.
Todos os itens materiais do ritual são o que a gente chama de correspondências planetárias. Dentro do hermetismo, a gente entende que os objetos carregam, simbolicamente, a assinatura de forças superiores – o que está em cima é como o que está embaixo, afinal. As correspondências reforçam a coerência de um ritual, logo o tornam mais forte. A camomila e os incensos e bebidas mencionados, bem como a roupa branca, são correspondências lunares. É possível reforçar o ritual incluindo outras ainda, como um pano ou toalha de mesa brancos ou ungir a vela com os devidos óleos essenciais. As pedras da Lua são a selenita e o quartzo branco ou transparente, logo é possível incluir uma dessas pedras roladas no altar durante o ritual ou usar um anel, pulseira ou japamala dessas pedras no corpo. O metal da Lua é a prata, por isso a inclusão de objetos de prata também é pertinente. O arcano lunar do tarô é A Sacerdotisa, além das figuras Via e Populus na geomancia. E assim por diante.
(No mais, a camomila, além da correspondência lunar, tem também um simbolismo mágico equivalente às suas propriedades mundanas – ou seja, se é uma flor usada em chás para acalmar, também cabe usá-la em trabalhos mágicos que operam dentro desse âmbito.)
Para todos os objetos incluídos como correspondências, eu recomendei rezar com a fórmula “O que está em cima é como o que está embaixo e o que está embaixo é como o que está em cima, para realizar os milagres de uma única realidade” – a qual, vocês devem lembrar, deriva da Tábua de Esmeralda de Hermes Trismegisto, o que é coerente com o fato de estarmos trabalhando dentro da egrégora hermética explicitamente. Outro verso desse texto também é citado na fórmula de consagração do talismã.
Em termos de correspondências mais abstratas, temos a vogal alfa, em grego, que explica o porquê de entoarmos o som de “A” com frequência ao longo do ritual, e o número 9, conforme consta na tradição desde o Shams al-Marif até Agrippa. Por isso as nove repetições da fórmula, os nove toques do sino/estalos etc. E o quadradinho mágico da Lua é uma tabela de 9×9, cujos números vão de 1 a 81. Mais sobre quadradinhos mágicos no texto sobre os quadradinhos dos elementos.
O sigilo rabiscado em cima do quadradinho mágico tem duas partes. A primeira é o chamado pré-sigilo, uma técnica usada pela Aurum Solis que consiste em um símbolo unicursal que aqui está sendo usado como um tipo de prefixo ou DDD do sigilo propriamente (vocês vão observar que ele é traçado sobre o incenso também). A segunda parte é a intenção exprimida na forma de números. Para isso, recorremos ao hebraico, que é conveniente por ter um sistema numerológico bem fundamentado e com um longo histórico de uso na tradição. O que acontece é que a gente parte de um frase, representando o nosso desejo, e cada caractere nela tem um valor numérico, logo a frase pode ser expressa em forma de uma sequência de números. Esse método é conhecido pelo nome de técnica aiq beker.
No caso, partimos da frase: liby yerupa (לבי ירפא). Leb é “coração” em hebraico, uma palavra usada desde antigamente com o sentido figurado para falar dos sentimentos – e isso com o sufixo possessivo da primeira pessoa singular, liby, “meu coração”. Yerupa é uma forma do verbo lerape, “curar”. No caso, usa-se o que em hebraico moderno é o tempo futuro, mas em hebraico bíblico é entendido como o aspecto imperfeito, que descreve não um acontecimento que aconteceu e acabou, mas algo que vai acontecer, está acontecendo ou que se repete – logo, é o recomendável para um talismã de uso contínuo. Ou seja, podemos traduzir a frase como “meu coração é/será/está sendo curado”. Passando-a para números: 30 (lamed) – 2 (bet) – 10 (yud) – 200 (resh, reduz para 20) – 80 (peh) – 1 (álef). Se você olhar no quadradinho, vai ver que são esses os pontos tocados pelo sigilo, nessa ordem, após o pré-sigilo que, como eu falei, serve de DDD.
Por fim, o sigilo que fica no altar é o de Agrippa, cap. 22 do livro II da sua Filosofia Oculta, e os caracteres na vela vêm do Picatrix. As frases recitadas durante o ritual derivam da Tábua de Esmeralda, como dito, e das preces planetárias dos sabeus em Al-Tabari. Essa mistura de referências de fontes diversas é extremamente comum na magia astrológica, mas vocês vão observar que tudo aqui está dentro ainda do campo do hermetismo, que durante muitos anos foi a base da magia planetária enquanto tradição, desde o período greco-egípcio até a ascensão do islã e a renascença europeia. Por esse motivo, existe a possibilidade ainda de prefaciá-lo com outras práticas herméticas, conforme o que já vimos anteriormente aqui no site.
O passo a passo do ritual segue uma ordem bastante lógica, acredito: começamos com uma abertura, invocando as forças basilares da egrégora hermética, e rezamos cada objeto do altar para que ele cumpra sua função da melhor forma possível. Na sequência, abrimos o portal da Lua, por assim dizer, e nesse contexto a defumação com a fórmula recitada serve para consagrar o talismã – de fato, é uma das técnicas de consagração de talismã das mais antigas de que temos registro. Feito isso, agradecemos e encerramos.

Para quem é iniciante, eu recomendo fortemente que siga essas instruções à risca. Praticantes experientes podem realizar alterações, pois se trata de um ritual bastante flexível, contanto que se valham do bom senso. Por exemplo, a invocação dos sabeus pode ser substituída pela invocação planetária do Picatrix ou por salmos (148, seguido dos versículos 9 a 16 do salmo 1198). No Patreon do Dr. Ali Olomi, há preces planetárias aos anjos da tradição islâmica para consagração de talismãs, e a prece de Gabriel/Jibrail pode ser repetida nove vezes no lugar da fórmula que eu ofereci… ou então, em tese, daria para usar 108 repetições do mantra em sânscrito OM CHANDRAYA NAMAHA. Também é possível usar o hino órfico à Lua, mas aí eu prefiro usar como invocação, porque acho longo demais para recitar nove vezes na consagração. Quem tem um trabalho prévio com deidades lunares, como Selene ou Ártemis no panteão grego, Sîn no mesopotâmico, Máni no panteão nórdico ou outro, pode invocá-las na abertura dos trabalhos. E é possível adaptar o ritual inteiro para um roteiro nos moldes da Cabala hermética da Golden Dawn: Ritual Menor do Pentagrama para abrir (no modo de invocação, não banimento), seguido do Ritual Menor do Hexagrama (idem) e o Ritual Maior do Hexagrama para a Lua/Yesod como sintonização, depois traçar o hexagrama da Lua com a fórmula SHADAI EL CHAI em cima do talismã nove vezes (pode-se usar uma ferramenta como uma varinha para isso, em vez da mão, aliás, e inserir o talismã dentro de um triângulo). Encerrar com a Cruz Cabalística apenas, não o RmP, para não descarregar o talismã recém-criado9.
Se você se interessou por essa prática, deixo aqui mais uma vez o lembrete de que temos um curso n’O Zigurate de Magia Astrológica. Este ano eu ofereci o módulo I faz uns meses, já temos data para o módulo II (ver o recado no começo do texto) e é possível obter acesso às gravações do módulo que já foi ministrado. Com o conhecimento do curso, fica fácil adaptar esse modelo de ritual para qualquer outra função que a Lua é capaz de desempenhar (trocando o sigilo e alterando a declaração de intenção, é possível consagrar um talismã em papel com o quadradinho mágico para encontrar uma boa casa ou apartamento para se mudar, por exemplo) ou para qualquer outro planeta. Para os iniciantes, eu deixo aqui a receita desse talismã, porque, como falei, é o mais simples e seguro. Porém, consoante com a minha filosofia de ser contra a magia fast-food, ela é não uma receita fechada, mas sim uma porta de entrada para o que pode ser a constituição de um repertório mais robusto.
No entanto, devo deixar um último “porém” ainda: este é um talismã para cuidar de questões emocionais. Sendo assim, ele é uma ferramenta, um auxílio, não uma panaceia. Não espere milagres e não espere que ele substitua terapia ou os processos de introspecção e trabalho interno. O talismã pode ser um catalisador para esse processo, e eu o recomendaria para todo mundo que está começando na magia e ainda não chegou naquele ponto do trabalho interno de equilibrar seus elementos.
Mas, se você gostar do efeito, mesmo que ache que é só placebo, eu sou da opinião de que convém mergulhar a fundo em práticas mais completas. E para isso eu vou sugerir, mais uma vez, a escola do Pranic Healing: já no nível I (básico), a gente aprende técnicas úteis para aliviar situações difíceis sem precisar observar o céu ou realizar rituais elaborados, e no nível III temos ferramentas para desintegrar formas-pensamento e elementais negativos, cortar elos (o famoso “divórcio energético” que as pessoas vendem por aí) e proteger-se com escudos energéticos, que fazem toda a diferença para obtermos uma estabilidade emocional verdadeira e duradoura. Quem pratica Cura Prânica (especialmente quem está começando) pode se beneficiar desse talismã também, já que em momentos de exaltação emocional, apenas segurar um talismã é mais fácil do que começar uma sessão de autocura, mas o ideal é que, com o tempo, com o hábito de limpeza e purificações, e mudanças internas, o praticante chegue a um estado de equilíbrio sem a necessidade de um objeto como um talismã.
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- Me digam que vocês lembram também desse lugar-comum dos antigos programas da TV Cultura. ↩︎
- Se você não tiver uma vela lilás, pode usar uma outra vela branca no lugar, que vai se distinguir da primeira por conta dos símbolos que serão gravados nela. Porém, para facilitar o entendimento do texto, eu vou continuar me referindo a essa segunda vela como a “vela lilás”. ↩︎
- Prefira incensos de marcas melhores, não os de lojinha de 1,99. Boas marcas incluem Ananda, Nirvana, Fênix etc. Se você tiver um defumador ou algo tipo, melhor ainda, claro ↩︎
- Para o rabisco sobre o quadradinho numérico, eu gosto de usar canetas com a ponta mais grossa e uma ponta mais fina para o sigilo lunar. ↩︎
- Achar uma boa eletiva é uma arte e cada pequeno ajuste conta para tornar o talismã mais forte. Nesse caso, no entanto, como é um trabalho de baixa tensão, eu não acho que valha a pena ralar para encontrar uma eletiva muito perfeitinha. ↩︎
- Por exemplo, se o talismã for feito com a Lua em Escorpião ou Capricórnio, não vai ser legal. ↩︎
- Como esse é um talismã lunar e não vai nenhuma pedra em sua confecção, ele não deve atrapalhar o sono. ↩︎
- Para a explicação quanto ao uso desses versículos em específico, conferir o meu curso de Magia Astrológica. ↩︎
- É possível também criar talismãs análogos dentro de outros sistemas mágicos… mas sobre isso eu não posso falar, porque o sistema que eu domino mais é o de magia astrológica, claro, e acho que é o mais acessível, porque não precisa de nenhum trabalho anterior, iniciação etc. ↩︎
