A mecânica esotérica dos oráculos

Vamos falar um pouco de oráculos hoje. O termo, tal como é empregado no jargão ocultista contemporâneo, abrange todo tipo de método divinatório cujo objetivo é obter informações a partir da exploração do mundo oculto. Eu já falei um pouco de alguns dos métodos mais populares atualmente num texto bastante antigo aqui do site, “Escolhendo um oráculo”: cartomancia, geomancia, runas, I-ching etc. Sempre considero que o domínio de alguma técnica oracular é crucial para qualquer um que se pretenda um magista sério, e a ideia daquele texto era justamente falar desses métodos para as pessoas poderem ler e pensar qual tem mais ressonância consigo. Mas ainda não tratei do que considero a base teórica da coisa, para além de um comentário breve, por isso meu objetivo agora é tapar essa lacuna.

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Primeiramente, vamos começar com uma questão acadêmica: profecia, oráculos etc., especialmente na antiguidade, são um tema que já foi amplamente explorado pela literatura. Um nome de quem eu gosto muito se chama Martti Nissinen, autor de Prophets and Prophecy in the Ancient Near East, entre outras obras. Nissinen trabalha com uma distinção interessantíssima entre tipos de práticas divinatórias: elas podem ser ditas “indutivas” ou “não indutivas”. Vamos explicar isso.

Por técnicas indutivas, entenda-se “sistemáticas”: no contexto da antiga Mesopotâmia, entram nessa categoria métodos como a haruspicia, que é quando um animal é sacrificado para se analisar suas entranhas, e a literatura de presságios, que inclui uma forma de proto-astrologia que existia nessa época. Digo proto-astrologia, porque as bases do sistema já estavam aí – o conceito dos planetas, as principais constelações etc. Mas é só no período helenístico que a astrologia como a gente entende hoje seria formulada. Em vez disso, havia algo mais amplo, em que outros fenômenos celestes eram contabilizados (era considerado relevante o primeiro trovão do ano, por exemplo). A análise de sonhos também entra nessa categoria.

Temos muitas tabuletas de argila dessa época contendo uma grande riqueza de material que compila essas informações em termos de “se x, então y”. Se você sonhar com tal coisa, significa que tal coisa vai acontecer. Se o fígado do animal tiver uma mancha em tal lugar, significa alguma coisa, e assim por diante. Ou seja, há um sistema aí. Como explica Bottéro, os antigos povos mesopotâmicos enxergavam o mundo como um livro e haveria um código para se fazer a sua leitura.

Modelo de um fígado ovino de Sippar, período paleobabilônico, 1900 – 1600 a.C. (atualmente no British Museum)

Já o método dito não-indutivo é, digamos, mais freestyle, passando mais pela intuição do intérprete. Aqui entram os profetas e oráculos no sentido mais antigo do termo, que são a principal preocupação do livro de Nissinen que eu citei acima. Quando a gente fala em profeta, geralmente se tem em mente os profetas bíblicos, mas é bom lembrar que essa era meio que uma profissão na antiguidade. Aliás, um dos profetas mais prototípicos do entendimento bíblico, Amós, se destaca justamente porque ele não se identifica como profeta: sua narrativa era a de que ele era apenas um agricultor, mas Deus o visitou e lhe impôs o fardo de pregar sua mensagem. Os profetas profissionais, enquanto isso, eram figuras que entravam em transe e, nesse estado, passavam mensagens que seriam dos deuses. Então, alguém anotava essas mensagens por escrito e levava a carta até a pessoa relevante (no geral uma figura do governo). Hoje em dia, podemos apontar uma semelhança, por exemplo, com as mensagens de entidades incorporadas, mas também com técnicas como scrying. No livro de Nissinen temos diversas tabuinhas antigas contendo registros desses oráculos, o que eu não sei vocês, mas eu acho profundamente fascinante. Recomendo demais a leitura.

O ponto que eu mais acho curioso é que, quando pegamos o que a gente chama de oráculo hoje, temos aí uma arte divinatória que combina as duas coisas. Vou tomar a geomancia como exemplo: na geomancia, o processo todo de gerar a carta geomântica tem duas etapas. Na primeira, o geomante entra num transe leve e marca a terra ou areia com um pedaço de pau1. Depois, já de volta à lucidez, ele conta as marcações, o que vai produzir as primeiras quatro figuras do jogo, que geram as demais via algoritmo. E aí com a carta pronta, ela pode ser interpretado conforme um rico sistema simbólico. Ou seja, há uma primeira etapa não-indutiva, seguida de uma indutiva. Nesse modelo eu vejo, com ou sem recomendações explícitas de transe, o esquema básico de todos os oráculos modernos, incluindo o tarô e as runas: uma primeira etapa com a aplicação de alguma ferramenta para gerar um conjunto de símbolos, aparentemente aleatórios, como resposta a uma pergunta e uma segunda etapa em que esses símbolos são analisados. É bastante sofisticado, em termos de tecnologia mágica, a meu ver. Métodos puramente indutivos eu acho que tendem, no limite, a produzir um tipo de paranoia meio contraproducente, porque, né, tudo pode ser um sinal e filtrar o conteúdo legítimo do ruído é difícil. Já os métodos não-indutivos exigem um preparo tremendo da parte do praticante para sustentar o transe e emitir mensagens coerentes. A combinação das duas coisas é um desenvolvimento maravilhoso quando se para para pensar.

Ferramenta geomântica (fonte: Wikimedia Commons)

Agora, vamos deixar para trás o discurso acadêmico para adentrarmos o esoterismo propriamente. Antes de mais nada, quem acompanha O Zigurate há tempos já sabe do meu posicionamento, mas, sim, eu entendo toda prática oracular como um tipo de magia, especialmente quando estamos lidando com esses métodos mistos de indutivo e não-indutivo. É usar o meio oculto para obter informações a que você não teria acesso por métodos mundanos. Não existe nenhum mecanismo a nível físico que explique como você obtém respostas para questões complexas pela manipulação de cartas, dados e afins. Essa explicação só existe dentro de um discurso explicitamente mágico, esotérico, espiritual, ocultista – como você quiser chamar.

Há, sim, usos não-oraculares de ferramentas oraculares, que seriam mais lúdicos, digamos. Nisso entraria, por exemplo, o exercício meio teatral de tirar uma carta para o dia e adotar temporariamente um comportamento que remeta a essa carta ou fazer uma tiragem de tarô e construir uma história a partir dela, esse tipo de prática. Mas isso não é a mesma coisa, óbvio. É como ter um carro na garagem e usá-lo para deitar no banco, ouvir o rádio, ligar os faróis, o ar-condicionado etc. Nada disso constitui dirigir, uma prática que tem uma mecânica própria, recomendações e habilidades específicas. Logo as coisas que vamos falar aqui e os cuidados que já mencionamos anteriormente (parte I e parte II) não se aplicam nesses casos. Agora, se você quer usar as suas ferramentas para avaliar uma situação concreta, fuçar a vida alheia ou fazer previsões, eu acho que é uma extrema má fé botar essas funções na conta da psicologia.

Em “Teoria mágica para leigos”, eu comentei que, segundo o meu entendimento, as coisas que acontecem em nossa realidade material são desdobramentos de processos dos planos sutis: são padrões energéticos que se cristalizam e manifestam, um conceito que não é nenhuma novidade na literatura esotérica. E aí eu disse:

Quando consultamos um oráculo, o que o oráculo faz é captar esses padrões em certas áreas de nossa vida e traduzi-los em termos de um repertório simbólico preestabelecido: as runas, as cartas de tarô, as figuras geomânticas.

Ou seja, se eu pergunto de emprego para o tarô, por exemplo, e o que sai é a carta da Torre com o 5 de ouros, fica aí a sugestão de que vai dar merda e o consulente pode ir para o olho da rua. O que está acontecendo é que esses padrões estão no ar – meio como aquele vento úmido que prenuncia chuva – e o sistema do tarô os traduz em termos da linguagem simbólica do tarô. A geomancia tem um outro repertório com o qual dá para falar mais ou menos a mesma coisa. O I-ching e as runas também. Então, como é que isso se dá?

Bom, a primeira coisa aqui é que existe uma semelhança crucial entre o uso do oráculo e os fenômenos que chamamos de clarividência (um tema de que já tratamos antes também). Essa semelhança se dá no sentido de que ambos utilizam o mesmo centro energético do corpo.

Na escola do Pranic Healing, há o entendimento que há um centro energético (chakra) localizado no meio da testa – chamado adequadamente de chakra da testa ou “terceiro olho”. Ele com frequência é confundido com o ajna, que se situa próximo dele, entre as sobrancelhas, mas há uma diferença crucial entre os dois: o ajna trata do intelecto, do processamento de informações a nível mental, a lógica e o raciocínio. A testa e a coroa captam informações, no entanto, dos planos mais sutis: a coroa, pelo fenômeno da apreensão direta, aquele tipo de informação que você simplesmente sabe (chamada de “intuição superior”); e a testa pela clarividência. A comunicação com seres espirituais, tanto quanto o uso de oráculos, vai igualmente envolver a atividade desse chakra. Quem está dentro da escola e aprendeu a avaliar energia com as mãos não precisa engolir o que eu digo, mas pode averiguar essa informação pessoalmente.

Ilustração clarividente do chakra da testa.

Certo, o que isso significa, portanto? Saber qual parte de nossa anatomia energética está envolvida na prática oracular é importante, porque nos permite entender o que devemos trabalhar para melhorarmos como oraculistas. Existe uma parcela de pessoas que trabalha com oráculos equivocadamente, como se fosse uma prática apenas mundana. Não quero me repetir sobre o quanto isso é uma bobagem – temos também um guest-post da Sara Emiliano que saiu aqui faz um tempo, com o título de “O Saber e o Sentir na prática oracular” que entra nisso em detalhes. Há um elemento intuitivo, querendo ou não, que parte do envolvimento desse centro energético.

Ou seja, práticas de limpeza não são apenas para a sua ferramenta e ambiente, mas sobretudo para o seu sistema. Um oraculista com o chakra da testa limpo e energizado vai ter uma capacidade de interpretação mais afiada do que um que tem esse chakra sujo e enfraquecido – essa condição afeta diretamente a relação sinal/ruído. Aliás, oraculista que passa mal de jogar com frequência é por isso também: a testa fica congestionada e/ou exaurida e pode dar tontura, tremedeira e afins. Já vi até caso de desmaio. Se você quer trabalhar com isso, é extremamente recomendável ter um terapeuta energético que cuide de você de tempos em tempos e/ou dominar por conta um bom repertório de técnicas de limpeza. No mais, os chakras da coroa e testa partilham da mesma raiz, o que significa que as práticas espirituais de conexão com o Sagrado e o Divino, bem como os estudos de literatura esotérica, fortalecem os dois2.

Passando a limpo, então: os padrões energéticos dos planos sutis determinam o que acontece na realidade material. É através do chakra da testa que é possível fazer a leitura desses padrões e traduzi-los em termos que a sua mente consciente possa entender. Alguém que esteja no nível de um grande mestre espiritual e tenha desenvolvido esse chakra, junto com a coroa, a um grau superlativo obtém a capacidade de ler o mundo energético com a facilidade de quem lê um livro. Essa dádiva é o que chamam de um siddha (“realização”) e tem um nome, Prapti, um dos oito grandes siddhis (mahasiddhis) do Tantra.

É evidente que pessoas com esse grau de desenvolvimento não precisam de métodos oraculares, nem da transmissão de espíritos, porque elas apreendem tudo diretamente. Quem está no caminho espiritual às vezes pode ter esses vislumbres, mas não vai ser sempre, nem algo sob controle. E, embora seja bom aspirar chegar a esse nível um dia, ter essa consciência, a meu ver, serve para nos fazer admirar ainda mais o quanto métodos oraculares são úteis e democráticos em disponibilizar o acesso a habilidades que raríssimas pessoas possuiriam normalmente.

Quando utilizamos um método que não é puramente intuitivo, no geral os padrões energéticos dos planos sutis são traduzidos para um sistema simbólico, que vai dar uma estrutura para a mensagem. No caso da bibliomancia, que é um método oracular que usa livros para extrair deles uma frase aleatoriamente como resposta à pergunta, temos, em vez de um sistema de símbolos mais restrito, o uso de linguagem natural mesmo3 e ampla exploração de ambiguidades e pluralidades de sentido. Mas a bibliomancia tem umas limitações. Usar um repertório simbólico baseado em certos conceitos arquetípicos tende a oferecer a possibilidade de responder a uma gama mais ampla de perguntas, e todos os grandes sistemas oraculares trabalham com um dado repertório: as 16 figuras da geomancia, as 78 cartas do tarô, as 24 runas, os 64 hexagramas do I-Ching. No entanto, não é todo livro que oferece respostas para qualquer pergunta.

A questão é que, como o que possibilita a função oracular da consciência humana é um chakra e não os métodos em si, você não precisa recorrer a métodos tradicionais e bem estabelecidos para responder às suas perguntas. Qualquer sistema simbólico serve. Jason Miller, em The Sorcerer’s Secrets/Real Sorcery, comenta da vez que ele fez um workshop em que os alunos experimentaram com leitura de M&M’s jogados num pentagrama, com a interpretação da posição dos M&M’s e suas cores em relação com os elementos em cima do símbolo; e no curso de Sensibilização Oracular, da Ju Ponzi, ministrado anos atrás, ela mostrou como usar as cartas do jogo Dixit como oráculo. Você pode, inclusive, facilmente criar seu próprio oráculo modificando cartas de baralho comum.

Por que então aderir a métodos tradicionais, em face a tantas possibilidades? A meu ver, a vantagem de buscar um método mais bem estabelecido é justamente por essa estabilidade e pelo acúmulo de conhecimento ao longo dos séculos. Se eu elaboro um oráculo próprio, eu estou por conta, vou ter que acumular esse conhecimento sozinho a partir das minhas experiências, o que é um processo lento e demorado.

Mas tem mais uma vantagem que diz respeito ao último assunto que eu gostaria de abordar aqui. É uma pergunta que me fazem com frequência e que a única pessoa que eu vi tratar do tema de forma mais explícita foi a Josephine McCarthy4: Quando você faz uma pergunta ao tarô (ou outro oráculo, mas essa questão é especialmente importante no caso do tarô), quem é que responde?

Essa pergunta é muito interessante, porque o tarô, claro, não passa de 78 lâminas de papelão. É tão mágico em essência, a princípio, quanto uma caixa de encomenda que chega pelos correios. E aqui precisamos citar um outro conceito esotérico que é o de egrégoras. Como vimos no texto sobre os tipos de seres, egrégoras são uma estrutura:

Quando temos um foco de força espiritual, como a energia de uma deidade, tem-se uma estrutura egregórica que ou surge espontaneamente ou é construída de propósito, com a função de organizar e facilitar o acesso àquela energia. Isso é porque é preciso que o indivíduo seja excepcional para ter um contato direto com uma consciência divina – são os grandes profetas, sábios e xamãs. Para a maioria de nós, esse acesso é intermediado por símbolos e fórmulas referentes à deidade, como nomes divinos, hinos e mantras – e tudo isso é armazenado na egrégora.

Quando eu trabalho com a geomancia, eu acesso, portanto, a egrégora da geomancia, a qual, por sua vez, vai ter conexões com outras estruturas egregóricas conectadas com o hermetismo etc. O mesmo vale para o I-ching e as egrégoras taoístas, as runas com as egrégoras das deidades nórdicas e os vários métodos divinatórios das religiões de matriz africana (búzios, ifá etc) com as egrégoras dos orixás5. Logo, a solução para essa pergunta, dentro desses contextos, é simples: são os espíritos que trabalham dentro da egrégora em questão que respondem.

Uma visão teórica antiga, do século XVII, elaborada pelo médico e geomante Robert Fludd (1574 – 1637), dizia que, durante o transe geomântico, a nossa mente, por estar desacoplada das suas funções racionais, consegue acessar o espírito do mundo (a anima mundi)6, logo seria essa a voz por trás das cartas geomânticas. Infelizmente, embora eu mesmo gostasse dessa hipótese no passado e ateste para a utilidade do transe mágico, há certas ocorrências que me parecem que a contradizem, sobretudo a questão de botar as respostas na conta da anima mundi. Nunca me esqueço do caso de um sujeito de um grupo de geomancia do Facebook que perguntou, só para testar o oráculo, se ele devia se matar. O fato de que o jogo que saiu para ele foi extremamente positivo, um grande sim, você deve se matar, vai ser ótimo, constitui para mim uma forte sugestão, pelo menos, de que há consciências intermediárias nesse processo – e que, não só isso, como elas também têm um senso de humor e pouquíssima paciência para palhaçada. Não é uma consciência abstrata, fria e impassível. A infeliz experiência da Dion Fortune com o oráculo, registrada em seu Autodefesa psíquica, bem como a opinião de geomantes contemporâneos como o dr. Al Cummins, aponta ainda mais para o envolvimento de espíritos.

O pulo do gato é que, em termos de egrégoras oraculares, o tarô (a cartomancia como um todo, na real) é uma exceção: todos os outros métodos mistos de indutivo e não indutivo mais famosos são métodos que foram concebidos, desde o princípio, como oráculos. Já o baralho, tanto o normal quanto o tarô, começa a sua história como um jogo de entretenimento.

Isso tem um impacto, evidentemente, na experiência. Por um lado, essa egrégora menos firme torna a ferramenta mais flexível e, não por acaso, existem várias formas de se jogar tarô: existe quem jogue pelo sistema da Golden Dawn, em que o tarô é submetido à supervisão do anjo HRU; existe quem jogue encostado com guias espirituais de religiões brasileiras, no geral ciganos e pombogiras; existe quem jogue com o auxílio de outras egrégoras, e existe quem jogue simplesmente à moda caralha. É possível ainda usar o baralho para comunicação com espíritos durante conjurações. Isso não se aplica com runas, por exemplo. Quem joga runas vai trabalhar com o panteão nórdico, óbvio. Eu não vou jogar runas invocando o panteão mesopotâmico e lendo o jogo na chave interpretativa dos mitos desses deuses, porque não só não faria o menor sentido como seria potencialmente perigoso.

No mais, o tarô oferece uma maior variação interpretativa e até mesmo “sotaques” que variam de acordo com o baralho usado. Toda pessoa que joga tarô tem certas cartas que saem em certos contextos que significam algo específico para ela: não são significados prontos, de livro ou livreto, mas uma linguagem que foi construída entre o baralho e a pessoa, num contexto de experiência direta. E ainda tem aquilo do “ah, esse baralho gosta de responder tal e tal tipo de pergunta”, “esse baralho é meio mal educado” etc. Essa variação, para bem ou para mal, é possibilitada por essa questão egregórica e, a meu ver, não é observada com métodos mais bem estabelecidos. Em contrapartida, o tarô é especialmente vulnerável a influências externas. Sem os devidos cuidados, qualquer coisa pode sequestrar a leitura sem que a pessoa sequer se dê conta7. De novo, a Josephine é uma das poucas pessoas que fala disso. Um jogo sequestrado por seres parasíticos vai buscar maximizar a exaltação emocional tanto do cartomante quanto do consulente para se alimentar dessa energia. E jogar com tarólogos bichados, sem higiene energética, é pedir para se contaminar também.

Resumindo, então: o ser humano tem uma função oracular embutida, que lhe é conferida pelo chakra da testa. Ao cuidar de sua higiene energética, limpando e energizando seu sistema, com o estudo de oráculos e literatura esotérica, bem como outras técnicas mágicas, como preces, rituais e mantras, esse chakra é fortalecido8. Quanto mais forte ele estiver, melhores as capacidades do oraculista, até o grau máximo dos poderes de apreensão direta.

Para quem ainda não está nesse nível (99,99% da humanidade), o método mais eficaz é recorrer a um repertório simbólico que vai traduzir os padrões dos planos sutis em termos de uma linguagem que a nossa mente é capaz de analisar e entender. Os métodos mais estabelecidos, nesse caso, oferecem uma egrégora na qual diversos espíritos operam, o que tem certas vantagens. Porém, com o devido cuidado é possível utilizar métodos com egrégoras menos estabelecidas (como a cartomancia) ou até mesmo sistemas novos e improvisados. Em todo caso, cuidar do chakra da testa é imprescindível.

É, gente, eu sei que as coisas que eu falei aqui podem soar meio esquisitas, tipo “vou fazer uma explicação” e aí eu vomito vários termos que a maioria das pessoas não vai ter como verificar. No entanto, longe de querer obscurecer o discurso em torno desse fenômeno, eu quero é oferecer possibilidades para facilitar as coisas na prática. Afinal, se você vai no freestyle e não tem um modelo do que está acontecendo com uma dada prática, não tem como aprimorá-la. Para quem não sabe aonde vai, qualquer caminho está valendo. Porém, quem tem recursos para testar, como o pessoal do Pranic Healing, pode facilmente conferir o que eu digo. E, de novo, quem é oraculista ou aspirante vai observar que trabalhar o chakra da testa e, no caso do tarô, ter os cuidados de que já falamos antes (limpeza, consagração e ritualística) não só melhora as suas capacidades de leitura como também torna a prática mais segura.

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  1. Estou usando aqui o exemplo da geomancia mais clássica. Hoje é comum se usar moedas, dados etc em vez de bater na terra. Também aviso que não cito o I-ching como exemplo, que é mais antigo, apenas por uma questão de familiaridade. ↩︎
  2. Para entender mais sobre o chakra da testa e outros centros energéticos, recomendo a leitura dos livros do Mestre Choa, em especial Os chakras e suas funções. ↩︎
  3. Não que a linguagem natural não seja um sistema de signos, mas é um sistema muito mais delicado em termos de produção de sentido. ↩︎
  4. Ela dedica um capítulo sobre o assunto em seu Tarot Skills for the 21st century. ↩︎
  5. Sobre esses métodos, aliás, eu não vou falar muito, porque o acesso a eles é mais restrito. ↩︎
  6. Vocês podem acessar isso no artigo “Robert Fludd’s Theory of Geomancy and His Experiences at Avignon in the Winter of 1601 to 1602”, de C. H. Josten, no Journal of the Warburg and Courtauld Institutes (1964). Sim, é um mecanismo parecidíssimo com o que a gente vê na teoria por trás da magia de sigilos. ↩︎
  7. De novo cito a geomancia como contra-exemplo. O dr. Al conta da vez que ele jogou para uma pessoa que estava fazendo um monte de magia maléfica e isso estava interferindo com o jogo. O próprio sistema tem um mecanismo embutido de segurança para esse tipo de situação e afins, um aviso de “tem boi na linha” (rubeus ou cauda draconis como primeira mãe). ↩︎
  8. Entre os sufi, invoca-se o poder do nome de Allah, an-Nur (a luz). Como consta no Patreon do Dr. Ali Olomi, a invocação Ya Nur recitada um número de vezes (às vezes 100 ou 256) remove a nuvem da dúvida e da obsessão, permite enxergar com clareza, ter sonhos verdadeiros e “ver coisas maravilhosas”. Eu mesmo avaliei e esse nome tem um efeito fortalecedor perceptível sobre esse chakra. ↩︎

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