Os quadradinhos mágicos dos quatro elementos

Esta foi uma descoberta que eu fiz recentemente — ou uma surpresa que eu tive, melhor dizendo — , enquanto ouvia a uma palestra no YouTube, “Magic and the Occult in Islam: Ahmad al-Buni and his Shams al-Marif”, ministrada pelo prof. Saiyad Nizamuddin Ahmad no Warburg Institute em 2013 (link aqui). O assunto da palestra é autoexplicativo: o Prof. Ahmad fala desse grimório clássico da tradição da magia árabe chamado Shams al-Marif, atribuído ao sábio sufi do século XIII Ahmad ibn ‘Ali al-Buni. Entre as muitas coisas que ele explica sobre esse volume, aparecem os quadradinhos mágicos dos quatro elementos, que serão o tema deste texto. Sendo o tipo de coisa que me fez acender uma lâmpada aqui, logo senti que era meu dever trazer esse material aos meus leitores e comunidade como um todo, já que não parece ser um assunto dos mais conhecidos.

Quem tem alguma familiaridade com o modo como quadradinhos mágicos são usados no ocultismo ocidental certamente vai entender o motivo da minha surpresa e urgência em compartilhar essas ideias. Para quem não tem essa familiaridade, convém dedicarmos algumas palavrinhas para explicar do que é que eu estou falando aqui.

De Lo Shu às kameot

Primeiramente, o que são quadradinhos mágicos?

A Wikipedia trata do assunto como parte do que se chama de “matemática recreativa” (pervertidamente, na minha opinião, pois é como falar em drogas recreativas, mas a matemática é uma das drogas mais pesadas que tem). Em termos simples, são arranjos de números em tabelas. Há quadradinhos de vários tipos, mas o mais comum é obedecer às regras de: 1) os números, dados em sequência, não se repetirem; e 2) a soma dos números em cada linha e coluna (e a principal diagonal também) darem o mesmo valor, chamado de “constante mágica”. O quadradinho mágico mais famoso é um de 3×3, conhecido como arranjo de Lo Shu, como vemos abaixo:

Fonte.

(Há variações dessa fórmula, no entanto. Vamos ver isso daqui a pouco.)

Se você pega esse arranjo e olha uma linha qualquer, como a do meio, você vai ver que sua soma, 3+5+7, dá 15, o que vale para todas as linhas… e colunas também (4+3+8, etc). Mesmo a principal diagonal, 4+5+6, dá 15, apesar de isso não valer para as diagonais “quebradas” como a sequência 9+7+8 ou 3+1+2 (quadrados mágicos que mantêm a constante mesmo nessas outras diagonais recebem o nome de quadradinhos diabólicos… ou pandiagonais, o que é bem menos divertido).

Agora o nome “quadradinho mágico” é uma descrição muito engraçada, porque, para a maioria dos matemáticos hoje, acredito, o “mágico” aqui é um adjetivo como o que vemos para qualificar uma “lanterna mágica” ou “rodo mágico”. Isto é, indica apenas uma demonstração de qualidades impressionantes — no caso, da matemática. No entanto, historicamente, não vou dizer que eles tiveram conotações ocultas sempre e desde o início, mas elas são sim bem frequentes. Não posso falar da perspectiva de tradições como o daoísmo, em cujo contexto essas práticas provavelmente se originam (vide o caso do Lo Shu), mas de uma perspectiva ocidental mesmo, o conceito não é difícil de inferir a partir das tradições que nos foram legadas de numerologia, geometria sagrada e pitagorismo. A perfeição das relações numéricos reflete a perfeição divina.

Para uma história da origem e aplicação desses construtos matemáticos impressionantes, convém conferir uma obra como a Encyclopaedia of the History of Science, Technology, and Medicine in Non-Western Cultures, de Helaine Selin, que dedica diversas páginas ao assunto no contexto chinês , indiano e islâmico. Foi a partir do mundo islâmico, onde são chamados de wafq al‐a’dād, “disposição harmoniosa dos números”, que eles foram importados para a Europa do final do medievo e começo da Renascença. Alguns quadradinhos famosos, por exemplo, são os que aparecem na obra Melencolia I de Albrecht Dührer (o mesmo que a editora 34 usa na primeira página de todos os livros que eles publicam e que dá nome à editora) e na catedral da Sagrada Familia, que é um caso curioso pois representa um quadradinho mágico que não segue as regras mais típicas. Há um TED Talk no YouTube, com o Dr. Michael Daniels (link aqui) que explica a lógica por trás dos quadradinhos, compara alguns quadradinhos famosos e ensina inclusive como construir um do zero.

Um prato de porcelana do século XVIII com um quadradinho mágico inscrito no centro. Fonte. Ele não tem necessariamente a ver com o tema principal deste texto, mas eu achei bonito.

Quadradinhos mágicos dos planetas

Agora, indo da matemática recreativa e da arte para o ocultismo propriamente, as formas mais cristalizadas de quadradinhos mágicos usadas na tradição esotérica ocidental são as que aparecem em Agrippa, no livro II da Filosofia Oculta, onde surgem associados aos 7 planetas da astrologia clássica — nessa função eles são muitas vezes chamados também de kameot, da palavra em hebraico para “amuletos” (singular kamea; o termo em hebraico é feminino). Em Agrippa, seguindo a chamada ordem caldeia dos planetas, o quadrado de 3×3 no arranjo de Lo-Shu, cuja constante é 15 e soma total 45, foi associado ao planeta Saturno; o de 4×4, a Júpiter; o de 5×5, a Marte; o de 6×6 ao Sol (cuja soma total dá… 666); o de 7×7, a Vênus; o de 8×8, a Mercúrio; e o de 9×9, à Lua. Não sabemos bem ao certo de onde Agrippa tirou essas associações, mas elas são úteis no sistema que ele expõe, porque é com base nesses quadradinhos que são traçados os sigilos de diversas entidades planetárias presentes nessa obra ao se transcrever seus nomes em hebraico e utilizar as equivalências numerológicas da guemátria, uma técnica comum do ocultismo.

Esse sistema de Agrippa acabou casando perfeitamente com as associações traçadas pela Cabala hermética posterior, tal como praticada pela Golden Dawn, para a qual as associações numéricas se combinam com atribuições planetárias feitas às 10 sefiroth da Árvore da Vida, de modo que a 3ª sefirah, Binah, fica sendo equivalente a Saturno (que tem um quadradinho de 3×3); a 4ª sefirah, Chesed, a Júpiter, e assim por diante até Yesod, a 9ª sefirah, associada à Lua. Para quem tem facilidade com o inglês, o perfil Foolish Fish, no YouTube, tem um vídeo introdutório ao assunto (link aqui).

A última sefirah Malkut, que a Cabala hermética entende como o mundo físico, fica sem atribuição planetária, sendo o domínio do mundo sublunar, onde agem os elementos… apesar de que, na atribuição da Árvore da Vida de Athanasius Kircher (aquela que aparece em Evangelion), Malkut está associada à Lua. Houve também quem postulasse um quadradinho de 10×10 para Malkut, como Aaron Leitch, por exemplo. E alguns autores, como David Rankine e Sorita D’este, em Practical Planetary Magic, já arriscaram traçar quadradinhos ainda maiores que isso para planetas transaturninos (11×11 para Urano, 12×12 para Netuno e 13×13 para Plutão)… mas aí já entramos no território da magia experimental.

O sistema de Agrippa e da Golden Dawn, que passou a ser o método canônico do ocultismo por aqui, é eficaz e funcional, mas eu acho sempre produtivo uns exercícios em quebrar um pouco essa hegemonia. Recentemente teve um post também de um perfil bastante interessante no Instagram, o Rota 32 Astrologia, de Iago Pereira, em que ele questiona a atribuição numerológica da magia planetária em Agrippa e autores subsequentes — o post, em várias partes, se encontra na página do seu Apoia-se). Como ele argumenta, a lógica que opera aqui é um tanto arbitrária, numerologicamente falando, e há outros sistemas possíveis além deste, como o de Trithemius, baseado na obra aritmética de Pseudo-Jâmblico. Embora isso não invalide o sistema de Agrippa e da Golden Dawn, esse exercício de oferecer alternativas é interessantíssimo, até porque existe uma tendência ao bitolamento mágico que faz com que muitos magistas entendam essa lógica como a única possível e verdade absoluta, quando claramente não é o caso.

Uma página de Agrippa, em latim, mostrando os quadradinhos de Saturno e Júpiter, bem como seus sigilos e de suas entidades.

Quando estudamos as técnicas no Oriente Próximo, aliás, podemos observar o quanto a abordagem ocidental aos quadradinhos mágicos é simplificada. Como se pode ouvir no final da palestra do prof. Ahmad, o sistema mágico e numerológico que se desenvolveu por lá era notavelmente mais complexo, existindo uma infinidade de quadradinhos mágicos possíveis — um praticante desse tipo de magia, por exemplo, ao receitar um quadradinho mágico como talismã, poderia levar em consideração a numerologia do nome do cliente, além de poder construir quadradinhos com base em nomes divinos. Dá para ter um gosto dessa complexidade num livro como o Occult Encyclopedia of Magick Squares, de Nineveh Shadrach. Por isso, eu acho que podemos aprender muito retomando o contato com esse tipo de material, como o do Shams al-Marif.

Nesse sistema mais ocidental, não existe nenhum quadradinho associado aos elementos. Scott Stenwick, por exemplo, que é um praticante experiente de magia inserido na tradição da Golden Dawn/Thelema, ao trabalhar com os elementos recomenda o uso do quadradinho mágico de 9×9 da Lua, por ser a Lua o planeta responsável por fazer essa ponte entre os quatro elementos do nosso plano inferior aqui embaixo e o mundo celestial das outras esferas planetárias (eu já falei disso no meu texto sobre a Lua). Ao utilizar os quadradinhos mágicos para construir sigilos dos nomes dos reis elementais Djin, Paralda, Nicksa e Ghob, utilizados para sua conjuração num contexto cerimonial, Stenwick faz tudo usando o quadradinho lunar.

Daí se pode reparar que essa noção dos quadradinhos dos elementos não é das mais populares, do contrário ele não precisaria recorrer a um método tão complicado e que abre tanta margem para discussão: por que não usar um quadrado 10×10 de Malkut, como faz Aaron Leitch? Por que não distribuir os elementos de acordo com as qualidades dos planetas? E assim por diante.

Uma página do Shams al-Marif mostrando um talismã famoso, contendo um quadradinho mágico ao centro, o que eu acredito que seja a letra ha repetidamente e o nome de Allah.

Isso, é claro, não deve ser uma surpresa, porque o Shams al-Marif continua sendo um livro bastante inacessível no Ocidente. Este manual clássico de astrologia e magia astrológica e misticismo das letras árabes atribuído ao sábio al-Buni e cujo título pode ser traduzido como “O Sol do Conhecimento” ou “Sol da Gnose”, é um dos grandes livros de magia do período, ao lado do Ghayat al-Hakim, o “Objetivo do Sábio”, ou Picatrix. Diferente do Picatrix, no entanto, que foi logo traduzido para o latim na corte de Alfonso X e chegou ao público europeu, o Shams até hoje não tem tradução para as línguas ocidentais, apesar de sua imensa popularidade ainda no mundo árabe – quem eu sei que trabalha com talismãs do Shams é o astrólogo Christopher Warnock (vide seu site), que tem conexões com círculos sufis, mas no geral é um livro cujo conteúdo nos chega muito pingado. Diz o prof. Ahmad que ele chega a ser bem mais popular por lá do que o Picatrix, inclusive, que é muitíssimo mais usado por aqui. A Dra. Liana Saif, no artigo que eu citei no meu texto anterior sobre amuletos históricos, também fala bastante do Shams.

Quadradinhos mágicos dos elementos

Sem mais delongas, então, eis aqui os quatro quadradinhos mágicos do fogo, do ar, da água e da terra, tal como constam no Shams:

A lógica é explicada no vídeo do Prof. Ahmad, mas a imagem fui eu que construí com minhas habilidades no Paint. Temos os quadradinhos com os números, em caracteres hebraicos e em caracteres do alfabeto árabe.

O quadrado de Lo Shu, como se pode observar, também conhecido como a kamea de Saturno em Agrippa, aqui ficou sendo equivalente ao quadradinho do elemento terra — uma associação que não é de todo estranha aos geomantes e praticantes da magia da Golden Dawn[1]. Mas as outras três possibilidades representam quadradinhos mágicos igualmente válidos, todos corretamente construídos e dotados da mesma constante. Agora como é que cada um deles tem associação com um dado elemento? A lógica aqui também não é arbitrária.

Cada uma das quatro direções no quadrado está associada a um elemento, do seguinte modo:

Esta distribuição, por sua vez segue a lógica, até onde eu pude compreender, de começar pelo fogo, o elemento mais sutil, depois ar, água e terra, como é a ordem canônica da geomancia. O fato de ele começar em cima, depois seguir para a direita antes de ir para a esquerda, reflete a sequência da escrita em árabe, que vai da direita para a esquerda, como o hebraico.

Estabelecida essa equivalência, o que faz com que cada quadrado seja diferente é o ponto onde eles começam: a casa do fogo é a do centro da linha superior, logo o quadrado do fogo coloca o número 1 ali (e todo o restante do quadrado se desenvolve matematicamente a partir dessa decisão). Vocês podem observar que isso se aplica para todos os quatro quadradinhos.

Assim como o exemplo do quadrado de Lo Shu dado no começo do texto, eu ofereci aqui os quadradinhos elementais com os números e também os caracteres em hebraico e árabe. O motivo para isso é que, em termos práticos de construção de talismãs, eu acho sempre mais interessante (e aqui o pessoal do Grabovoi que me perdoe) recorrer a alfabetos, ainda mais alfabetos dotados de uma tradição de misticismo de suas letras, do que números, e assim quem quiser experimentar a prática de magia elemental com essas ferramentas só precisa copiá-los.

Eu mesmo não testei as aplicações dessa descoberta ainda, mas as possibilidades, em teoria, são bastante evidentes. Para quem não entende muito bem do assunto dos elementos na magia, eu dediquei uma série de textos ao assunto no começo deste ano, falando das origens da doutrina, sua aplicação no pensamento esotérico e prática na magia, que vocês podem conferir caso tudo aqui esteja muito nebuloso.

Para dar um exemplo, acredito que seria possível utilizar esses quadradinhos, traçando-os com as devidas cores, para talismãs dos elementos, além de servir talvez como bases mais adequadas para criar sigilos para evocação dos reis elementais e outras figuras do tipo. Por exemplo, usando a transliteração proposta por Scott Stenwick para os nomes dos reis elementais (que também poderia ser debatida, porque não é todo nome que dá para escrever facilmente em hebraico), chegaríamos aos seguintes esquemas:

Sigilos de Djin, Paralda, Nicksa e Ghob, utilizando os quadrados do Shams e as transliterações de Stenwick

Como dito, eu não tive tempo e oportunidade ainda para testar essas aplicações na prática, por isso ainda estamos no terreno da especulação, mas, considerando o quanto Agrippa bebe das fontes islâmicas, seria estranho se não funcionasse.

Agora, pensando nas aplicações talismânicas mais simples: se você precisa de mais ânimo, inspiração e energia, que são atribuições clássicas do elemento fogo, talvez seria útil criar um talismã com o quadrado mágico do fogo (eu criaria com as letras árabes) num papel vermelho ou num papel branco com tinta vermelha, então defumá-lo com incenso de alecrim ou canela, que são plantas tipicamente ligadas a esse elemento. Se você pratica a magia da Golden Dawn, também daria para prefaciar esse ritual com o Ritual Maior do Pentagrama, e assim por diante. Para esse propósito, seria mais prático e acessível a um iniciante do que usar o quadradinho mágico do Sol ou outra magia solar — que, como qualquer talismã astrológico, tem certas regras meio chatinhas de seguir[2]. O mesmo se aplicaria para usar o quadradinho de ar para melhorar seu foco nos estudos ou sua sociabilidade, o de água para tratar de questões emocionais e o de terra para prosperidade. Outra possibilidade em potencial ainda seria não construir os talismãs pensando em seu uso contínuo, em contato com o corpo, como é a ideia mais comum de se usar talismãs, mas para “disparar” sua intenção, talvez queimando o papel com o talismã, no caso do fogo, ou enterrando-o no caso da terra — Bardon fala de um tipo de magia nessas linhas acho que no oitavo grau do Magia Prática, e a técnica também não é incomum no Picatrix.

Eu só não tenho muita certeza ainda de qual seria o timing mais indicado para criação desses talismãs elementais (diferente de como é na magia astrológica, aqui não temos fontes muito claras), mas acredito que se orientar pelo elemento do signo da Lua pode ser uma abordagem válida. Na dúvida, sempre dá para perguntar para o tarô. De novo, é algo que precisa ser testado, mas acredito que é um teste que valeria muito a pena fazer, e eu mesmo pretendo brincar com isso em breve. Se alguém tiver experimentado e quiser compartilhar seus resultados, vocês sabem onde me achar.

* * *

[1] Nas atribuições do tarô da Golden Dawn, o arcano O Mundo cumpre uma jornada dupla de trabalho, sendo ao mesmo tempo a carta de Saturno (por ser representando pela letra tau nesse sistema) e a carta da terra (que é o elemento que fica sobrando no Sefer Yetzirah). Na geomancia, a figura tristitia, que tem terra como o único elemento ativo, por isso é representante desse elemento, é uma figura saturnina, junto com carcer.

[2] Uma regrinha chata, por exemplo, nesse caso, é a de que é complicado para quem tem o Sol debilitado no mapa astral (por estar em Libra ou Aquário, seus signos de detrimento e queda, ou por estar numa casa ruim ou mal aspectado) criar talismãs solares sem antes passar por algum processo de remediação ou estabelecimento de uma relação mágica com entidades solares. Além disso, magia solar fica debilitada também quando o Sol passa pelos signos de Libra e Aquário. Um talismã elemental, em tese, não teria essas restrições.

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