Três amuletos históricos (com explicações)

Objetos imbuídos de forças mágicas e conexões com espíritos são um componente importante de práticas esotéricas em todo o mundo. Eu mesmo já dediquei um texto só sobre o assunto como introdução às ferramentas mágicas e, no mês passado, ministrei um pequeno curso sobre criação de talismãs[1]. Talismãs e amuletos, em resumo, são objetos criados com certos propósitos, que os usuários geralmente carregam consigo ou, em alguns casos, deixam em certos lugares, enterram, etc. Os dois termos são usados, na linguagem do dia a dia, de forma meio intercambiável, mas alguns autores contemporâneos traçam uma distinção técnica, entendendo talismãs como objetos com propósitos mais precisos, que buscam realizar coisas específicas (por exemplo, um talismã para atrair dinheiro ou poder), enquanto amuletos são mais genéricos e com frequência têm um papel repelente ou protetor, para uso diário — vocês podem ler mais sobre isso neste artigo aqui em que o Dr. Stephen Skinner se ocupa de esmiuçar essa terminologia.

Eu acho muito divertido olhar as práticas de tradições diversas, especialmente ao longo da história, e é isso que faremos hoje neste texto. Separei aqui três amuletos (que também podem ser chamados de talismãs, mas se a gente se orientar pelas definições do Dr. Skinner, amuleto seria mais adequado) para mostrar e comentar, o que eu acredito que pode ser interessante não só para praticantes de magia, que podem usar esses exemplares como inspiração, mas também para curiosos e os leitores com um interesse mais histórico mesmo. Vamos seguir pela ordem do mais recente para o mais antigo.

A cornalina com os Sete Símbolos Mágicos

Este é um objeto que eu encontrei ao ler um artigo da pesquisadora Liana Saif, que estuda o Picatrix e magia islâmica no geral, intitulado “Medieval Islamic Amulets, Talismans, and Magic” (neste texto, ela está acompanhada também por Venetia Porter e Emilie Savage-Smith como coautoras), que vocês podem acessar no academia.edu aqui[2]. A legenda diz “amuleto em cornalina inscrita com os ‘Sete Símbolos Mágicos’” e indica que faz parte do acervo do British Museum, adquirido em 1878. Vocês vão reparar que a foto que eu coloquei acima está invertida em comparação com a que vemos no artigo, porque eu imagino que a foto tenha sido fornecida pelo British Museum e não tirada pela autora, já que dá para ver claramente, pelos sete símbolos (já vamos falar deles aqui), que o objeto está de ponta-cabeça .

A cornalina é uma pedra semipreciosa, uma variedade vermelha da calcedônia, com um longo histórico de uso no antigo Oriente Próximo, sendo muito popular, junto com a lápis-lazúli, para manufatura de selos cilíndricos e joias. Não temos uma data e localização para este item específico, mas tudo indica ser um objeto do mundo árabe medieval. A técnica de gravar imagens em pedras é muito difundida na literatura mágica do período, como se vê no Picatrix, mas geralmente as imagens descritas nessas obras são um pouco mais complexas e exigem um tanto de domínio de lapidação para fazer. Traçar alguns risquinhos, por outro lado, é claramente muito mais fácil e acessível.

Agora, qual é desses sete símbolos?

Nesta imagem de um artigo de Lloyd Graham, “The Seven Seals of Judeo-Islamic Magic”, é possível enxergá-los melhor e vemos que a sequência (da direita para a esquerda) é um pentagrama (pode ser invertido ou em pé), três risquinhos verticais com um horizontal em cima, um risquinho curvado, um jogo da velha, quatro risquinhos verticais, um rabisco mais curvado que parece uma assinatura e um rabisco que parece o número 6. Como explica o autor, a ideia básica é a de que essa sequência de caracteres representa o Nome Maior de Deus — não por acaso, com frequência é associado ao rei Salomão, a quem Deus teria conferido a bênção de poder usar um anel com o Seu nome, capaz de controlar os espíritos.

A data mais antiga em que eles dão as caras em itens mágicos é o século VII d.C., emergindo num contexto de talismãs em escrita cúfica e depois não só na magia islâmica, como também judaica cabalística, com alguma variação. Dizem as autoras que até hoje eles são populares em talismãs do Senegal, feitos em papel. O Shams al-Ma’arif, outro grimório importante, atribuído ao sábio al-Buni, geralmente traduzido como “O Sol do Conhecimento” ou “Sol da Gnose”, oferece uma descrição um pouco mais poética do que a que eu dei, em que os símbolos são comparados a letras árabes, que vocês podem conferir no artigo da Drª. Saif ou do Dr. Graham. A origem desses símbolos é misteriosa, mas Graham identifica semelhanças com um amuleto em pedra do período neo-assírio (séc. X-VI a.C.) com uma inscrição em sumério para proteção contra espíritos malignos. Nesse contexto, é muito provável que a cornalina que vemos acima, cujas dimensões são menores que 2 cm x 2 cm e por isso cabe fácil no bolso, seja um amuleto de proteção.

Num lado mais mágico de fato e menos acadêmico, outro autor que discute esses símbolos e os utiliza na prática é Nineveh Shadrach, em Magic That Works — no ritual de consagração do capítulo 5, por exemplo, ele recomenda gravá-lo numa vela e, na imagem abaixo, do cap. 8, vemos uma tabela de 7×7 com permutações desses símbolos, constituindo o que ele chama de Lunar Tablet of the Great Name:

O autor nos instrui a construir essa tabela em madeira com tinta preta contra um fundo branco — para cada planeta, as tabelas são diferentes e mudam também as cores usadas. Esse objeto, por sua vez, é deixado no altar durante a recitação da fórmula de conjuração da Lua. A lógica aqui é que cada um dos sete símbolos equivale a um planeta e a ordem padrão os arranja de acordo com a sequência dos 7 dias da semana. Assim, o primeiro símbolo, do pentagrama, é equivalente ao Sol e ao domingo, o segundo, com os três riscos verticais e um horizontal, à Lua e à segunda-feira, e assim por diante. Para cada tabela dessas, a lógica é começar no ponto superior direito (onde você começaria a escrever em árabe) e preenchê-lo com o símbolo do planeta, depois prosseguir de acordo com a ordem típica até preencher toda a tabela. Eu entendo que essa interpretação, no entanto, não é necessariamente tradicional (até pode ser, mas prefiro não presumir), mas é perfeitamente legítima e funcional, e seu Magic that Works, apesar do nome engraçado, é uma leitura das mais interessantes para quem pratica qualquer tipo de magia com um pé no Oriente Próximo.

O amuleto de Seth e os quatro arcanjos

Este é divertido e mais um caso do acervo do British Museum (os caras pilharam tudo mesmo, né). Eu esbarrei nele ao ler o artigo “Archangels, Magical Amulets, and the Defense of Late Antique Miletus”, de Rangar H. Cline (link aqui), que trata de umas inscrições mágicas do século IV ou V d.C. no antigo teatro da cidade de Mileto (hoje território da Turquia), nas quais se observa a invocação de sete arcanjos. O autor traça comparações com outros objetos mágicos já conhecidos, essas pedras gravadas em formado oval, com o argumento de que as inscrições em questão seriam uma invocação desse poder protetor no âmbito não pessoal, mas cívico — como se toda a construção do teatro, ou pelo menos suas paredes, fosse talismanizada.

Temos aqui mais uma gravação em pedra do começo da era cristã (século III mais ou menos), que era comum na época, apesar de o autor não descrever qual seria a pedra em questão. O que é interessante nesse caso é o grau de sincretismo das forças invocadas, o que não deve surpreender ninguém já familiarizado com a teologia curiosa dos Papiros Mágicos Gregos, mas que é sempre interessante de observar. No centro temos a imagem do deus egípcio Seth, carregando um ankh e um mangual, à sua esquerda a sequência AEĒIOYŌ e à sua direita o nome IAŌ. Cercando essa imagem, vê-se os nomes dos anjos Miguel, Gabriel, Uriel e Suriel e no verso seis caracteres mágicos, também comuns à magia dos PGM e derivados. IAŌ, Ιαω, iota-alfa-ômega, como bem se sabe, é uma transliteração antiga, pré-tradução da Septuaginta, do nome YHWH para o grego, sendo usada extensivamente como fórmula mágica em diversos rituais dos PGM. Já a sequência AEĒIOUŌ são as sete vogais gregas[3] equivalentes aos sete planetas, na ordem clássica Lua-Mercúrio-Vênus-Sol-Marte-Júpiter-Saturno, além de representar um nome divino por si só, como vemos na Liturgia de Mithras.

Como comenta o autor, “a aparição de arcanjos por si só não deve servir para identificar uma dada inscrição como ‘cristã’. Em vez disso, a invocação dos arcanjos enquanto poderosas forças intermediárias fazia parte da koiné mágica da antiguidade tardia, primeiro via a diáspora judaica e talvez por meio de contato com o cristianismo”, uma opinião que encontra eco no estudo de J. C. Arnold sobre o culto ao arcanjo Miguel na antiguidade, The Footprints of Michael the Archangel. Por fim, ele conclui que “quando se trata de magia de proteção, a eficácia é mais importante do que a ortodoxia”, uma declaração que, para nós, enquanto brasileiros, é impossível contrariar.

A Bênção Sacerdotal de Ketef-Hinnom

Em 1979, dois amuletos foram descobertos no sítio arqueológico de Ketef Hinnom, na cidade velha de Jerusalém, datados de 600 a.C., duas folhas de prata que, ao serem desenroladas, revelaram um texto escrito em paleo-hebraico em letras minúsculas. Esses objetos hoje estão no Museu de Israel, em Jerusalém. Diferente das pedras entalhadas que vimos acima, esse tipo de amuleto é um pouco mais simples, consistindo em uma fina folha de metal — no caso, prata — na qual você escreve o que for escrever, depois enrola e guarda geralmente num tubo que é pendurado no pescoço ou no braço. Uma prática semelhante se observa nos PGM e no Sepher HaRazim.

Neste caso, o que é surpreendente é uma combinação de fatores. O primeiro e menos chocante, mas ainda assim fascinante, é o fato de que esses objetos foram encontrados num cemitério, o que não é lá muito ortodoxo e pode indicar uma preocupação com a proteção do corpo e, o que mais importante, do espírito do falecido (de novo, a eficácia é mais importante do que a ortodoxia). Práticas como essa eram comuns no antigo Oriente Próximo. O texto do amuleto número 2, gravado com um stilus fino como um fio de cabelo, diz o seguinte:

Que ele seja abençoado por YHWH; O guerreiro, que repele o mal
Que YHWH te abençoe e te guarde, 
Que YHWH faça resplandecer o Seu rosto sobre ti e te conceda graça e te dê paz.

 
Quem tem alguma familiaridade com o texto bíblico vai reconhecer essa fraseologia como sendo mais ou menos a mesma que encontramos posteriormente na chamada Bênção Sacerdotal (Birkat Kohanim) em Números 6:24–26:

Que o Eterno [YHWH] te abençoe e te guarde; Que o Eterno faça resplandecer o Seu rosto sobre ti e te conceda graça; Que o Eterno volte para ti o Seu rosto e te dê paz.

A prática dessa bênção remonta ao período do Segundo Templo, sendo acompanhada por um gesto específico, e ainda é parte dos serviços religiosos, especialmente do judaísmo ortodoxo, em todas as manhãs em Israel e nas datas mais importantes fora de lá.

Vendo assim, a princípio não tem nada de mais, né, talismãs e amuletos com frases bíblicas são o arroz com feijão de toda comunidade religiosa… só que esse objeto, 500 anos mais antigo do que os Manuscritos do Mar Morto, é anterior a qualquer outra inscrição bíblica que tenha sobrevivido de lá para cá. Ele é certamente anterior à redação final do livro de Números como parte da Torá no século V a.C., apesar de que boa parte da Torá deriva de material textual dos séculos anteriores. E isso é que é o mais irônico aqui, como conclui o Dr. Justin Sledge, num episódio de sua série sobre magia e misticismo judaico, “Isso significaria que o exemplo mais antigo da Bíblia Hebraica já recuperado é um aparato mágico… Eu acho isso profundo quando pensamos na história da magia. Significa que a magia é anterior, em termos de cultura material, tudo mais que conhecemos da Bíblia Hebraica”. Para quem quiser saber mais sobre o assunto, eu recomendo imensamente essa série de vídeos do seu canal, Esoterica, e também um artigo (desta vez em português, de M. Grenzer, no site de periódicos da PUC-PR) sobre o texto do amuleto e da Bênção Sacerdotal.

* * *

Enfim, espero que esses exemplos sejam tão interessantes para vocês quanto são para mim. São aquelas coisas que nos aproximam do mundo antigo, não pela via da história dos grandes acontecimentos e indivíduos importantes, mas pela cultura material anônima do cotidiano, do que é que as pessoas de fato faziam, revelando-nos um relance de como eram suas vidas. É claro que há uma aplicação prática também — é uma dúvida comum entre iniciantes como fazer para criar rituais e amuletos de proteção, e exemplos históricos podem ser iluminadores nesse sentido —, mas essa aproximação com o passado é, para mim, o verdadeiro fascínio por trás desses objetos.

* * *

[1] Tenho planos para ministrar uma terceira turma em breve. Fiquem de olho no nosso canal do Telegram.

[2] Na verdade, apesar de aparecer no site como se fosse um artigo, esse texto é o capítulo 21 do volume I de A Companion to Islamic Art and Architecture, editado por Finbarr Barry Flood e Gülru Necipoğlu.

[3] O sistema mais utilizado no rolê mágico para equivalência entre as sete vogais gregas clássicas e as nossas vogais atuais é alfa=A, épsilon=Ê, eta=É, iota=I, ômicron=Ô, upslion=U ou Ü, e ômega=Ó.

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