Um hino a Sîn, deus da Lua

A gente, por inúmeros motivos, tem uma tendência tão grande de instintivamente associar a Lua ao feminino que talvez seja surpreendente descobrir que os povos do Antigo Oriente Próximo tinham divindades lunares masculinas. No Levante, no panteão cananeu, ele se chamava Yarikh (uma das palavras para Lua em hebraico é o cognato yerah ou yareach, inclusive, e é possível que a cidade bíblica de Jericó, Yerikho, fosse dedicada ao deus); já os outros povos semitas, como amorreus, assírios e babilônios, tinham o deus Sîn ou Suen, e os sumérios, um deus chamado Nana ou Nanna.

Não sei se em algum momento rolou um sincretismo mais geral na região toda, mas na mesopotâmia Sîn e Nana já eram reconhecidos como um mesmo deus desde muito cedo, sendo o santo padroeiro da cidade suméria de Ur. Era comum que as pessoas ostentassem nomes teofóricos, isto é, se chamarem “deus tal o abençoa/ouve sua prece, etc”, e o deus da Lua faz uma aparição no nome de um rei de mais ou menos 2000 a.C. que ficou famoso por ter atribuído a ele um dos primeiros poemas de amor que se tem notícia, o rei Shu-Suen (literalmente “a mão de Sîn/Suen”). O nome do sacerdote e escriba responsável por compilar o Épico de Gilgamesh também traz o selo do deus, Sîn-leqi-uninni (“Sîn aceitou/aceita minha prece”), bem como o rei assírio Senaqueribe (Sîn-aḫḫē-erība, “Sîn substitui os irmãos”) – e já que estamos falando de figuras famosas do mundo antigo, apesar de não trazer o nome do deus, a sacerdotisa e poeta Enheduana também consta entre os grandes adoradores dessa divindade, tendo sido a alta sacerdotisa de seu templo em Ur.

Imagem do deus Sîn e atendentes, com uma crescente lunar, de um selo cilíndrico

Como dito, Sîn era o deus dessa cidade, mas era comum que a influência dos deuses mesopotâmicos fosse muito além das muralhas dos locais onde ficavam seus principais templos. No caso de Sîn, a coisa vai tão longe que em 2014, em Israel, no mar da Galileia, foi desenterrado um monumento megalítico de 5000 anos que, acredita-se, seria atribuído ao deus – a 29 km de uma cidade chamada Beit Yerah, “casa da Lua”. Os elos entre a divindade lunar e as narrativas bíblicas se cruzam de novo no livro do Gênesis: consta que Abraão teria nascido em Ur, mais especificamente “Ur dos caldeus”, como é a expressão exata. Agora, a identificação entre a cidade bíblica de Ur e a cidade histórica de Ur na Mesopotâmia não é uma certeza, e há debates nos meios acadêmicos, mas não deixa de ser uma possibilidade. Ainda mais curioso é que Terah, o patriarca bíblico que é o pai de Abraão, é nativo de Harran… outra cidade sagrada ao deus Sîn, localizada no sul da Turquia, próxima a Edessa (hoje Urfa). Harran tem uma história profundamente interessante, que vai da idade de bronze até o medievo, e parece que eles seguiram praticando uma forma de sua religião astrológico-politeísta nativa, mas influenciada pelo hermetismo, mesmo após a chegada do islã, sendo conhecido como os “sabeus” – sobre esse assunto fascinante, eu recomendo imensamente o livro de Tamara M. Green, City of the Moon God: Religious Traditions of Harran, da editora Brill.

Certo, eu comecei o texto aqui falando do culto a Sîn, mas não disse nada ainda do deus em si. Primeiro de tudo, seu lugar no panteão: Sîn é um deus de grande importância, frequentemente aparecendo nas listas de principais divindades, apesar de não parecer ter uma maior participação nos mitos. É o filho primogênito de Enlil, chefe do panteão sumério, e de sua esposa Ninlil. O que pode ser surpreendente para nós, mais uma vez, é que ele é o pai de Shamash, o deus do Sol – nossa perspectiva tende a pôr o Sol como principal corpo celeste e os outros planetas como seus subordinados, mas os sumérios parecem colocar essas noções de ponta-cabeça. Com sua esposa, a deusa Ningal/Nikkal, ele também gera a deusa Inana/Ishtar, pelo menos em algumas genealogias (em outras, ela é filha de Anu). Sîn, Shamash e Ishtar formam juntos um tipo de trindade celeste, que os acadêmicos chamam de “divindades astrais”, cujos símbolos aparecem com frequência na arte dos relevos mesopotâmicos.

Kudurru babilônico, um tipo de pedra pesada usada para demarcar território, cujo texto continha um contrato. Dentre as imagens das várias divindades, destaca-se, na parte de cima, os símbolos dos três deuses, Shamash, Sîn e Ishtar.

Sobre seus domínios e símbolos: o mais óbvio é a crescente lunar, formando como se fosse um par de chifres. Não por acaso, Sîn era representado também como um touro ou como um vaqueiro – tem um textinho sumério cujo sentido nos é misterioso que lista todas as suas vacas, inclusive, numa provável alusão à imagem das estrelas como o gado do deus. Há uma atribuição aí dele como um deus da fertilidade, por conta dessa imagem do gado e possivelmente pela relação entre os ciclos da Lua e os ciclos menstruais das mulheres. Temos preces mágicas do começo do segundo milênio que o invocam para auxiliar mulheres em trabalho de parto.

Outro de seus domínios é o dos oráculos, cuja lógica há de ser mais reconhecível a nós, por conta das associações que as práticas mágicas posteriores traçam entre a esfera lunar e técnicas mediúnicas e divinatórias. Mas este é um papel que ele com frequência divide com Shamash, o deus solar, de cujo olhar nada escapa, segundo os textos (com quem Sîn também divide o papel de deus que passa leis e dá sua assinatura como testemunha), e Adad, o deus das tempestades que é considerado o senhor da profecia. Tudo que diz respeito à Lua – um corpo celeste de grande importância nos textos de augúrios e presságios mesopotâmicos – é domínio de Sîn, e nesse sentido ele também pode ser considerado um tipo de deus da contagem do tempo, na medida em que era a Lua que determinava os meses do calendário babilônico. Não por acaso também, seu número místico era 30, uma referência aproximada aos 28 dias de um mês/ciclo lunar.

Como aconteceu com os outros deuses desta série de textos que eu comecei a publicar este ano (Marduk, Ea, Gula, Ishtar), o que vamos ver agora é mais um shu-illa, uma prece do erguer das mãos, que se encontra no volume Reading Akkadian Prayers and Hymns: an Introduction, editado e organizado por Alan Lenzi para a Society of Biblical Literature, uma leitura que eu, de novo e de novo, recomendo imensamente para todos os interessados neste assunto. O livro contém o texto em cuneiforme, sua transcrição, o texto normalizado e a tradução para o inglês. A transcrição marca o valor, sinal por sinal, de cada caractere, que pode ser fonético ou não, por isso só é de interesse para os acadêmicos da área. Sendo assim, eu copio abaixo apenas o texto normalizado, já plenamente pronunciável. A tradução é de minha autoria e, neste caso, não tem maiores propósitos poéticos ou acadêmicos, sendo apenas para ajudar na compreensão.

O grande motivo de eu ter escolhido este texto específico para postar hoje é porque tivemos, na semana passada, um eclipse lunar, e o hino aqui menciona este tipo de ocorrência: “Por conta dos males de um eclipse lunar, que aconteceu no mês tal e no dia tal, / E os males de presságios e augúrios, desagradáveis e desafortunados / Presentes em meu lar e por toda a terra, / Os grandes deuses te indagam e tu dás teu conselho”. É o que é chamado de fórmula attalû e, ao que parece, dados os vários manuscritos diferentes que sobreviveram, pelo comentário de Lenzi, essa fórmula é uma inserção dos escribas para modificar o texto de modo a aplicá-lo especificamente para quando ocorrem eclipses.

Eclipses eram eventos agourentos para os antigos – uma interrupção do ciclo natural das coisas, por isso sempre houve tanto empenho para aprender a prevê-los matematicamente. É compreensível que este tipo de hino, usado como uma fórmula mágica, teria um uso específico para mitigar os efeitos negativos dos eclipses – o que já tem precedentes na magia mesopotâmica, com os rituais nambûrbi usados para mitigar presságios astrológicos negativos no geral. É possível usar este mesmo hino hoje para esse propósito, mas é preciso operar algumas modificações para isso: o original diz “dia tal do mês tal”, de modo que o “tal” (annanna em acadiano) é substituído na prática pela data em questão. Como não sabemos como eram pronunciados os numerais (porque nunca eram escritos por extenso), a melhor opção é substituir todo o verso ina lumun attalî Sîn ša ina arḫi annanna ūmi annanna iššakna pela opção mais simples ina lumun attalî Sîn agāmi, pois agāmi é como se diz “hoje” em acadiano, ou ina lumun attalî Sîn ša ina šamšālim (“ontem”). Para usar o hino normalmente apenas como louvor ao deus, esses versos da fórmula attalû podem ser omitidos.

Um outro problema textual semelhante ocorre em outros dois pontos: no 20º verso, que menciona como o trigésimo dia é o dia de seu oráculo, problemático porque, de novo, não sabemos como se pronunciavam os números babilônicos; e no verso 25, onde aparece uma menção a um objeto desconhecido. Por esse motivo, esses dois versos também podem ser omitidos. O verso 22 identifica a pessoa que pronuncia o hino, o rei Shamash-shum-ukin, irmão de Assurbanípal. Nesse caso, você pode substituí-lo pelo seu nome, omitir a menção ao nome ou omitir o verso completamente. Porque temos uma versão final menos limpa do texto do que os outros que eu apresentei aqui, eu estou indicando os versos problemáticos com itálicos, assim você pode evitá-los ou modificá-los conforme a necessidade.

Outro detalhe interessante, enfim, é a menção, no final, ao deus Anzagar, uma divindade um tanto obscura, descrito como “deus dos sonhos” – um possível antecessor de Morfeu! A prática de encubação de sonhos e oráculos oníricos era comum na magia mesopotâmica, e algo do tipo parece estar acontecendo aqui, de novo reforçando a relação entre a Lua e esse tipo de prática. E, para encerrar, vale mencionar que para este shu-illa também temos instruções rituais, apesar de não serem claras (o texto está danificado e há partes obscuras). Porém, do que dá para entender ali, é possível observar a recomendação de recitar três vezes o hino, tendo preparado antes um altar/mesa de madeira de tamargueira, com 12 folhas de tomilho, 12 folhas de gergelim, tâmaras, farinha, bolos, mel, manteiga ghee, cerveja e um incensário queimando resina de zimbro. É claro que não é viável reunir todos esses materiais, mas a gente faz o que dá. Volta e meia me perguntam quais são as oferendas adequadas para deuses mesopotâmicos, e aqui vemos várias possibilidades para o deus Sîn.

Sem mais delongas, então, o hino em si!

Shu-illa a Sîn

Sîn nannāru šūpû ašarēd ilī
Sîn eddeššû munammir ukli
šākin namirti ana nišī apâti
ana nišī ṣalmāt qaqqadi uššurū šarūrūka
namrat ṣētka ina šamê ellūti
šarḫat dipāraka kīma Girra ḫimiṭka
malû namrirrūka erṣeta rapašta
šarḫa nišū ugdaššarā ana amāri kâta
Anum šamê ša lā ilammadu milikšu mammam
šūturat ṣētka kīma Šamaš bukrīka
kamsū maḫarka ilū rabûtu
purussû mātāti šakin ina maḫrīka
ina lumun attalî Sin ša ina arḫi annanna ūmi annanna iššakna
lumun idāti ittāti lemnēti lā ṭābāti
ša ina ekallīya u mātīya ibšâ
ilū rabûtu išallûkā-ma tanaddin milka
ašbū puḫuršunu uštammû ina šaplīka
Sîn šūpû ša E-kur išallûkā-ma tāmīt ilī rabûti
bibbulu ūm tāmittīka pirišti ilī rabûti
UD.30.KÁM isinnaka ūm tašīlti ilūtīka
Namraṣīt ēmūq lā šanān ša ilammadu milikšu mamman
anāku Šamaš-šum-ukīn aradka
alsīka bēlī ina qereb šamê ellūti
asruqka širiq mūši ella
aqqīka rēštâ šikara dašpa
ina GIŠ.GÁN.LAGAB qudduši sumka azkur
kamsāku azzaz ašēʾ kâša
egerrê dumqi u mīšari šukun elīya
ilī u ištarī ša ištu ūmī maʾdūtu isbusu elīya
ina kitti u mīšari lislimū ittīya
urḫī lidmiq padānī līšir
umaʾʾir-ma Anzagar ili ša šunāti
ina šāt mūšim lipaṭṭira arnīya
lušlim šērtī lūtallil anāku
ana dārâti dalīlīka ludlul

(tradução)

Ó Sîn, luminar resplandecente, mais proeminente dos deuses!
Ó Sîn, tu que te renovas perpetuamente, que ilumina as trevas
E fornece luz ao povo abundante!
Ao povo de cabeça negra [os sumérios], tu lanças teus raios,
Teu aspecto claro é radiante nos céus imaculados
Tua tocha é magnífica, que queima como Girra [deus do fogo]
Tua luminosidade reverenciável preenche toda a vasta Terra.
Com orgulho, o povo disputa para admirar tua luz.
Ó, Anu dos céus, cujo conselho está além da capacidade de todos,
Teu aspecto radiante é supremo, como o de Shamash, teu filho.
Os grandes deuses se ajoelham diante de ti,
A decisão das terras é tomada diante de ti,
Por conta dos males de um eclipse lunar, que aconteceu no mês tal e no dia tal,
E os males de presságios e augúrios, desagradáveis e desafortunados
Presentes em meu lar e por toda a terra,
Os grandes deuses te indagam e tu dás teu conselho,
Eles se assentam em assembleia e discutem a teus pés.
Ó Sîn de Ekur, resplandecente, eles te indagam, e tu dás o oráculo dos deuses
O dia da lua nova é o dia do teu oráculo, o segredo dos grandes deuses,
O trigésimo dia é o teu festival, o dia de celebrar tua divindade,

Ó Namraṣīt, sem rival em tua força, cujo conselho ninguém é capaz de aprender,
Eu, Shamash-shum-ukin, teu servo,
Ofereci a ti a pura oferenda noturna de farinha
Fiz as libações da melhor cerveja e mel,
Com o GIŠ.GÁN.LAGAB consagrado, eu aqui invoco teu nome,
Eu então te invoco, meu senhor, em meio aos céus imaculados,
Ajoelhado e em pé, eu te procuro.
Diz para mim uma sentença oracular propícia e justa,
Que meu deus e minha deusa, há dias furiosos comigo,
Pela verdade e justiça, façam as pazes comigo.
Que meu trajeto seja favorável, que meu caminho seja direto.
Eu então mando Anzagar, deus dos sonhos,
Que ele absolva meus sonhos à noite,
Que eu me torne íntegro, que eu seja purificado de meu castigo,
Que eu proclame teus louvores para sempre!

* * *

Explicações finais: o texto em acadiano utiliza as marcações acadêmicas:

  • as vogais com macrons, ā, ē, ī, ū, indicam vogais longas;
  • o “s” com um diacrítico em cima, š, é um som chiado, como o shin hebraico, nosso “ch” ou o “s” de final de sílaba de carioca;
  • o “h” com um diacrítico embaixo, , é um som gutural, como o “ch” alemão em Bach, equivalente ao chet hebraico;
  • o “s” com um diacrítico embaixo, ṣ, é o “s” enfático, como o tsade hebraico, que costuma ser pronunciado como “ts” ou “tz” (tipo “putz”);
  • e, por fim, o “t” com um diacrítico embaixo, t, é o “t” enfático também, como o tet hebraico, mas este é o tipo de som que apenas quem tem muita familiaridade (ou que de fato é nativo) com línguas semíticas consegue reconhecer e pronunciar direito.

De bônus, mais uma vez, eu mostro para vocês também como fica o verso 32 em cuneiforme, urḫī lidmiq padānī līšir, “Que meu trajeto seja favorável, que meu caminho seja direto”, como consta em Lenzi. Esse trechinho pode ser usado em talismãs ou objetos do tipo.

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