Um hino à deusa mesopotâmica da cura e da saúde, Gula

Gula é o nome de uma antiga deusa suméria. Antiga quanto? Bem, seu culto é atestado pelo menos desde o período chamado de Dinástico Arcaico, no terceiro milênio, entre 2600 e 2450 a.C. Sob vários nomes (falaremos disso mais adiante), ela era conhecida em uma série de cidades-Estado, sobretudo Umma, localizada mais ou menos no centro do espaço entre os dois rios, no Iraque, mas também Isin, mais ao norte, onde seria conhecida como Ninisina (Senhora de Isin). Ela desfruta de um pico de popularidade no chamado Período Cassita (1595–1155 a.C.) e seu culto continua firme e forte até o primeiro milênio antes de nossa era, com templos dedicados à deusa em diversas outras cidades importantes da Mesopotâmia como a Babilônia e Ashur, a principal capital dos assírios.

Para resumir os principais atributos da deusa, eu cito aqui o texto de Barbara Böck, autora de The Healing Goddess Gula: Towards an Understanding of Ancient Babylonian Medicine:

Como uma deusa da cura, Gula é chamada de “a grande médica”, “que ressuscita os mortos”, “que dá vida” e “cuida da vida”. Ela o faz por meio de encantamentos aos quais os antigos babilônicos atribuíam o poder da cura, bem como também por meio de plantas medicinais. Havia uma ênfase especial às suas mãos, pois ela é chamada de “Mãe das mãos que acalmam” (ama.šu.hal.bi) e “Mão fiel dos céus” (šu.zi.an.na).

A posição dessa deusa no panteão mesopotâmico é bastante curiosa, porque ela não consta entre os nomes principais, como Anu, Enlil, Ea, Marduk, Shamash, Sîn, Ishtar. Também não há nenhuma grande história mitológica sobre ela de que eu me lembre agora. Apesar disso, Gula era muitíssimo popular e temos uma grande variedade de indícios arqueológicos de seu culto, sobretudo na forma de estatuetas votivas. Aparentemente era um costume as pessoas deixarem no templo à deusa petições na forma de pequenas estatuetas de figuras humanas apontando para partes do corpo que precisassem de cura. Um de seus símbolos era o cachorro, talvez por conta da ideia de que o cão lambe as próprias feridas, o que fez com que ele acabasse sendo associado à cura, e estátuas de cães também eram dedicadas à deusa. Por mais que os antigos fossem bons de herbalismo, numa época anterior a antibióticos e anestésicos é perfeitamente compreensível que houvesse uma grande devoção a uma deusa da cura e da saúde, não é?

É importante frisar ainda que os sumérios e babilônios tinham uma dupla divisão de trabalho nesse sentido. Eles entendiam que havia uma relação entre o mundo espiritual e o mundo físico, por isso tinham especialistas nos dois níveis. O primeiro, chamado ašipu, ou “exorcista”, era o curandeiro espiritual, que expulsava as entidades malignas causadoras dos inúmeros males de que as pessoas sofriam. O segundo era o asu, o médico propriamente, que sabia as preparações herbais necessárias para aplacar os sintomas, tratava de feridas e, pelo visto, parece que às vezes até mesmo fazia cirurgias. Pelos indícios, Gula, com frequência representada com um bisturi, era mais a deusa do asu do que do ašipu, que geralmente invocava, por sua vez, os deuses Asalluhi, Ea e Shamash, porém a colaboração de ambos era crucial para o processo de cura. Numa época como a nossa, em que tanto médicos quanto curadores espirituais sofrem da húbris de achar que podem resolver tudo sozinhos – desde o médico que só passa remédio sem nem saber o que o remédio faz ou como vai afetar o paciente, até o terapeuta holístico antivacina –, esse conceito antigo vale a pena ser considerado.

Porque os antigos tinham uma ideia tão radicalmente estranha para nós da origem das doenças, vale a pena tratar disso brevemente, antes de eu prosseguir com o hino à deusa de fato.

Como podemos observar no artigo de Wiggerman, “The Mesopotamian Pandemonium”, havia uma vasta gama de seres perigosos no imaginário mesopotâmico que podemos traduzir como “demônios” – apesar de alguns pesquisadores preferirem o termo “agente de enfermidades”, em vez disso, para evitar a confusão toda que o cristianismo fez na demonologia. Alguns dos mais famosos incluem as lamashtu, causadoras de morte de crianças e mulheres grávidas; os rabiṣu, “espreitadores”, que habitam cantos escuros e aparentemente causavam epilepsia, os utukku, demônios amorfos que “matam vítimas saudáveis na estepe”, e os etemmu (gidim, em sumério), fantasmas, geralmente de pessoas que não receberam os devidos ritos funerários e por isso acabam voltando ao mundo dos vivos e “encostando” nos vivos. Os nomes dessas várias classes de seres costumam ser mencionados em encantamentos de exorcismo.

Porém, ao mesmo tempo que esses seres seriam os causadores imediatos das doenças, há também o entendimento de que a causa principal seria o desagrado dos deuses. Várias fórmulas antigas falam, em termos poéticos, da fúria do “meu deus e minha deusa” – i.e. os deuses pessoais. Estas divindades menores eram semelhantes aos conceitos do dáimon pessoal grego ou dos deuses lares e penates dos latinos, encarregadas de cuidar de cada pessoa e domicílio, porém certas transgressões poderiam fazer com que eles abandonassem seus protegidos. A partir daí entende-se que estes estariam à mercê dos vários seres sobrenaturais. Por isso, várias preces do tipo shu-illa pedem ao deus invocado para que ele apazigue o coração do deus e da deusa pessoais do suplicante. Esse é o caso que observamos na prece a Gula.

Em algumas situações, entende-se que o causador das doenças e outros malefícios poderia ser um dos deuses maiores, mas essa noção pode chegar muito perto da blasfêmia. Existe um poema famoso chamado Ludlul Bel-Nemeqi (Louvarei o Senhor da Sabedoria), em referência às palavras do seu primeiro verso, mas também conhecido como o “Poema do Justo Sofredor” ou “Jó Babilônico”, em que o nobre Šubši-mešre-Šakkan relata como sofreu todo tipo de infortúnio, desde ser perseguido e expulso da cidade, perder suas posses e sofrer de males de saúde, apesar de nunca ter deixado de cumprir seus deveres religiosos. No fim, ele é restaurado por Marduk, o grande deus da Babilônia, mas no texto de uma das tabuletas, como se lê no segundo capítulo de Babylonian Wisdom Literature, de W. G. Lambert, há uma sugestão curiosa. O texto deixa implícito (eis, diz o autor, o medo da blasfêmia), que o próprio deus teria sido a causa de seus males – daí as comparações com o livro de Jó. O deus dá e o deus tira. O mesmo deus tira e o mesmo deus devolve. É meio complicado.

E isso é para ficarmos só no básico. Existiam também diversos rituais, chamados Namburbi, para combater os efeitos maléficos de um mau presságio, geralmente astrológico, além de rituais contra “bruxaria”, i.e. os atos de magia maléfica (kišpu, uma palavra análoga ao kashaph hebraico) feita contra as vítimas. Em todo caso, com frequência os mesmos lugares comuns aparecem em todas as fórmulas – invocam-se as divindades mais benevolentes, as efígies de demônios ou bruxos são destruídas, o suplicante pede perdão por qualquer transgressão que possa ter cometido, se banha e se purifica, etc, etc.

Uma escultura da deusa Gula, créditos da Wellcome Library, em Londres.

Agora, voltando à deusa Gula, tem mais algumas curiosidades interessantes sobre a deusa ainda, que vale a pena mencionar. Como dito, ela tinha diversos nomes e títulos: dois deles eram belet balaṭi (senhora da vida) e azugallatu (grande médica). Mas entende-se que também era chamada de Ninkarrak, uma deusa misteriosa invocada num trecho do Código de Hammurabi, Nintinuga (senhora que dá vida aos mortos), venerada em Nippur, e Ninisina, a Senhora de Isin. É meio confuso, porque a gente não sabe muito bem quais desses nomes eram apenas títulos ou nomes próprios de fato, e é muito possível que, assim como ocorreu com Ishtar, Gula tenha surgido a partir de um movimento sincrético entre mais de uma divindade. Nós sabemos, por exemplo, que ela foi identificada também com a deusa suméria Bau, venerada em Girsu, apesar de Bau não ter associações com cura. Não temos tantas informações sobre Bau, porém vale mencionar um poema antiquíssimo conhecido como A Canção de Amor de Šu-Sin, às vezes chamado de “o poema de amor mais antigo do mundo”, que é dedicado a essa deusa.

Por conta dessa confusão toda, há vários esposos propostos para Gula: Pabilsag, Ningirsu e Ninurta. Pabilsag, o deus caçador associado à constelação de Sagitário, era o marido de Ninisina, já Ningirsu era o senhor da cidade de Girsu, esposo de Bau, e o deus guerreiro Ninurta era venerado em Nippur. Sendo todos esses deuses filhos de Enlil, eles também acabaram sincretizados em algum grau.

Por fim, vale mencionar que, apesar de cada divindade ter uma área de atuação específica, por vezes eram invocadas em encantamentos que não necessariamente teriam a ver com essa área estreita. Existe um encantamento, citado por Erica Reiner em Astral Magic in Babylonia, e que eu menciono em meu texto sobre magia astrológica, que invoca Gula para consagrar um talismã na forma do que talvez seja uma pulseira ou colar de contas, contendo diversas pedras mágicas, com o propósito de proteção jurídica – a função do talismã é proteger quem o usa contra um adversário que o esteja processando, por exemplo. O ritual de consagração deve ser feito com oferendas e voltando-se à “estrela do Bode”, que é como os acadianos chamavam Vega, ou Alpha Lyrae, a estrela mais brilhante da constelação de Lira, que é a constelação de Gula.

Quanto às minhas práticas, eu passei a procurar esta deusa quando comecei a estudar Cura Prânica com a Maíra, mas não é que uma coisa tenha a ver com a outra necessariamente. O que acontece é que é um costume prefaciar as sessões de cura com invocações de seres excelsos e celestiais (o arcanjo Rafael, a cura de Deus, é um dos grandes favoritos), e, como esse é o meu panteão, fazia sentido eu me aproximar dessa divindade com a intenção de desenvolver o meu potencial como curador. E, no contexto atual, em que estamos finalmente nos vacinando (eu tomei a primeira dose há poucos dias), me pareceu apropriado ajudar a disseminar o nome desta divindade particularmente benevolente – não por acaso, seu hino a chama de “mãe misericordiosa” e “senhora exaltada, que intercede pelos humilhados”. Para quem tem interesse no panteão mesopotâmico, para além dos deuses mais populares, o culto a Gula é muitíssimo recomendável.

Assim como eu fiz com o hino de Marduk e o de Ea, eu estou compartilhando com vocês agora mais um encantamento chamado de shu-illa, uma “prece do erguer das mãos”, que tipicamente era estruturada de modo a conter um trecho inicial de louvor à divindade, listando seus vários atributos notáveis, os pedidos do devoto e um encerramento com o desejo de que todos os deuses celebrem também o seu poder ou prometendo venerá-la para sempre. Este hino foi traduzido e comentado por Alan Lenzi e se encontra em seu livro Reading Akkadian Prayers and Hymns: an Introduction, que ele mesmo editou e organizou para a Society of Biblical Literature. O livro contém o texto em cuneiforme, sua transcrição, o texto normalizado e a tradução para o inglês. A transcrição marca o valor, sinal por sinal, de cada caractere, que pode ser fonético ou não, por isso só é de interesse para os acadêmicos da área. Sendo assim, eu copio abaixo apenas o texto normalizado, já plenamente pronunciável. A tradução é de minha autoria e, de novo, não tem maiores propósitos poéticos ou acadêmicos, sendo apenas para ajudar na compreensão.

De novo, eu recomendo imensamente o livro de Lenzi, além do livro de Barbara Böck, para quem quiser conhecer essa divindade assombrosa. Os outros livros mencionados também ajudam a entender como funcionava a mentalidade babilônica no que diz respeito à magia e à cura.

Shu-illa a Gula

Gula bēltu šurbūtu ummu rēmēnītû āšibat šamê ellūti
alsīki bēltī izizzīm-ma šimî yâti
ešēki asḫurki kīma sissikti ilīya u ištarīya sissiktaki aṣbat
aššum dīni dâni purussâ parāsi
aššum bulluṭu u šullumu bašû ittīki
aššum eṭēra gamāla u šūzuba tīde
Gula bēltu šaqūtu ummu rēmēnītû
ina maʾdûti kakkabī šamāmī
bēltu kâši asḫurki ibšâki uznāya
maṣḫata muḫrīnnī-ma leqē unnīnīya
lušpurki ana ilīya zenî ištartīya zenīti
ana il ālīya ša šabsū-ma kamlu ittīya
ina bīrī u šuttī ittanaškanam-ma
palḫākū-ma atanamdaru
Gula bēltu šurbūtu ina amat qibītīki ṣīrti ša ina Ekur šurbât
u annīki kīnim ša lā enû
ilī šabsu litūra ištartī zenītu lissaḫra
il ālīya ša šabsū-ma kamlu ittīya
ša īziza linūḫa ša īguga lippašra
Gula bēltu šurbūtu ṣābitat abbūt enši
ana Marduk šarri ilī bēlu rēmēnû
abbūtī ṣabtī qibî dameqtī
ṣulūlki rapšu tayyartūki kabtu libšanim-ma
gimil dumqi u balāṭi elīya šuknī-ma
narbīki lušappi dalīlīki ludlul

(tradução)

Ó Gula, senhora exaltada, mãe misericordiosa, que habita os céus diáfanos
Eu te invoco, minha senhora, aproxima-te e ouve-me!
Eu te procuro, eu me volto a ti, como à bainha do meu deus e minha deusa, eu me agarro à tua bainha
Porque julgar o caso, passar um veredito,
Porque restaurar e manter o bem-estar, tudo isso está dentro do teu poder,
Porque tu sabes salvar, poupar e resgatar.
Ó Gula, senhora sublime, mãe misericordiosa,
Entre as miríades de estrelas dos céus,
Ó Senhora, a ti eu me volto, meus olhos prestam atenção a ti.
Recebe minha oferenda de farinha, aceita minha prece.
Permita-me enviar-te ao meu deus pessoal e minha deusa pessoal furiosos,
Ao deus da minha cidade, furioso e irado comigo.
Por conta dos oráculos e sonhos que me acossam,
Eu me flagro com medo e constantemente ansioso.
Ó Gula, senhora exaltada, por meio da palavra de teu comando augusto, supremo em Ekur,
E tua aprovação garantida, inalterável,
Que o meu deus furioso retorne a mim, que minha deusa furiosa se volte a mim em benevolência,
Que o deus da cidade furioso e irado comigo
Que se encontra em fúria, acalme-se; que se encontra inflamado, seja apaziguado.
Ó Gula, senhora exaltada, que intercede pelos humilhados,
Com Marduk, rei dos deuses, senhor misericordioso,
Intercede! Diz-lhe uma palavra amigável!
Que o teu amplo dossel protetor e teu nobre perdão estejam comigo.
Concede-me que eu volte à graça e vida,
Que eu proclame tua grandeza e faça ressoar teu louvor!

Estatueta votiva em esteatito de um médico de Lagash dedicada à deusa Gula/Ninisina, durante o período do rei Sumu-El (1894-1866 a.C.)

* * *

Explicações finais: o texto em acadiano utiliza as marcações acadêmicas:

  • as vogais com macrons, ā, ē, ī, ū, indicam vogais longas;
  • o “s” com um diacrítico em cima, š, é um som chiado, como o shin hebraico, nosso “ch” ou o “s” de final de sílaba de carioca;
  • o “h” com um diacrítico embaixo, , é um som gutural, como o “ch” alemão em Bach, equivalente ao chet hebraico;
  • o “s” com um diacrítico embaixo, ṣ, é o “s” enfático, como o tsade hebraico, que costuma ser pronunciado como “ts” ou “tz” (tipo “putz”);
  • e, por fim, o “t” com um diacrítico embaixo, t, é o “t” enfático também, como o tet hebraico, mas este é o tipo de som que apenas quem tem muita familiaridade (ou que de fato é nativo) com línguas semíticas consegue reconhecer e pronunciar direito.

E, de bônus, mais uma vez, eu ofereço um trechinho do hino na escrita cuneiforme original, retirado do volume de Lenzi. Aqui lemos os dois dos últimos versos: ṣulūlki rapšu tayyartūki kabtu libšanim-ma / gimil dumqi u balāṭi elīya šuknī (Que o teu amplo dossel protetor e teu nobre perdão estejam comigo. / Concede-me que eu volte à graça e vida). Vocês vão reparar que eu omiti a última sílaba do verso (ma), mas isto é porque essa partícula tem um papel sintático que não tem um equivalente exato um português, geralmente servindo para ligar duas frases. No hino, ela liga esse verso ao último, mas como eu estou separando só o pedido aqui, é mais correto omitir o ma. As possíveis aplicações talismânicas desses dois versos são claras, acredito.

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