Um hino ao deus Marduk

Aproveitando o ensejo da aproximação do Akitu, o Ano Novo Babilônico, eu gostaria de compartilhar com vocês este material original dos cultos mesopotâmicos da antiguidade. Trata-se de um hino a Marduk — o principal deus celebrado no Ano Novo — chamado de shu-illa, uma “prece do erguer das mãos”, que era realizada pelo rei, em meio a libações, abluções e nuvens de incenso, com propósitos mais mágicos do que litúrgicos (de fato, o texto começa com a descrição šiptu, “encantamento”), buscando obter os favores da divindade e afastar todo mal.

Marduk, como dito antes, a princípio era um deus menor da Babilônia, filho de Enki/Ea. Seu nome era grafado AMAR.UTU, dois logogramas sumérios que podem ser traduzidos como “bezerro do sol” ou “bezerro da tormenta”, o que, como os autores comentam, pode ser um caso de etimologia popular, conforme os sumérios adaptaram um nome não nativo ao seu sistema de escrita. As pesquisas sugerem que seu nome fosse pronunciado Marutuk ou Marutu na época, sendo depois reduzido para Martuk/Marduk. Em hebraico, ele é chamado de Merodach, e Mardochaios em grego. Seus domínios originais são misteriosos, podendo ser um deus da justiça, dos raios ou da escavação de canais (uma atividade importante para os mesopotâmicos). Durante um período chamado de paleobabilônico (entre 2000 e 1600 a.C.), ele começa a se fundir com um deus chamado Asalluhi, outro filho de Enki/Ea e deus da magia e do exorcismo, invocado em rituais para expulsar espíritos malignos, de modo que, dentro de alguns séculos, essa identificação já estava completa.

É também neste período que começa a ascensão de Marduk, concomitante com a ascensão política da Babilônia sob Hamurabi, que se consolida alguns séculos depois quando é composto o Enuma Elish, o épico babilônico da criação. Quando chegamos no primeiro milênio a.C., Marduk já era honrado como o principal deus da religião babilônica, chamado muitas vezes apenas pelo nome Bēl, “Senhor”, tomando o lugar antes ocupado pelo chefe do sumério, Enlil. Seu templo na Babilônia era o chamado E-sagila ou E-sag-il, “a casa da cabeça erguida”, sendo o governante do zigurate E-temen-an-ki, “a casa das bases do céu e da terra”. Sua esposa era Zaparnitu, também chamada Saparnitu ou Saparnit, uma deusa sobre a qual infelizmente sabemos muito pouco, e seu filho era o deus escriba Nabû. Astrologicamente, Marduk é associado (já em seu próprio culto original e não nos tabelões de ocultistas modernos) ao planeta dāpinu (“o heroico”), que é Júpiter.

O hino que eu divulgo abaixo foi traduzido e comentado por Kyle Greenwood e se encontra no livro Reading Akkadian Prayers and Hymns: an Introduction, editado e organizado por Alan Lenzi para a Society of Biblical Literature, uma leitura que eu recomendo imensamente para todos os interessados neste assunto. O livro contém o texto em cuneiforme, sua transcrição, o texto normalizado e a tradução para o inglês. A transcrição marca o valor, sinal por sinal, de cada caractere, que pode ser fonético ou não, por isso só é de interesse para os acadêmicos da área. Sendo assim, eu copio abaixo apenas o texto normalizado, já plenamente pronunciável. A tradução é de minha autoria e, neste caso, não tem maiores propósitos poéticos ou acadêmicos, sendo apenas para ajudar na compreensão.


Uma representação, em uma edição antiga, de uma estátua cúltica de Marduk, do século IX a.C., com o dragão mušḫuššu

Shu-illa a Marduk

gašru šūpû etel Eridu
rubû tizqāru bukur Nudimmud
Marduk šalbābu murīš E-engura
bēl E-sagil tukulti Bābili
rāʾim E-zida mušallim napišti
ašarēd E-maḫtila mudeššû balāṭi
ṣulūl māti gāmil nišī rapšāti
ušumgal kališ parakkī
šumka kališ ina pī nišī ṭāb
Marduk bēlu rabû ilu rēmēnû
ina qibītīka kitti lubluṭ lušlim-ma luštammar ilūtka
ēma uṣammaru lukšud
šuškin kitti ina pīya
šubši amāta damiqti ina libbīya
tīru u nanzāzu liqbû damiqtī
ilī lizziz ina imnīya
ištarī lizziz ina šumēlīya
ilu mušallimu ina idīya lū kayyān
šurkam-ma qabâ šemâ u magāra
amāt aqabbû kīma aqabbû lū magrat
Marduk bēlu rabû napištī qīša balāṭ napištīya qibi
maḫarka namriš atalluka lušbi
Ellil liḫdūka Ea lirīška
ilū ša kiššati likrubūka
ilū rabûtu libbaka liṭibbū

(tradução)

Poderoso, resplandecente senhor de Eridu,
Príncipe supremo, o primogênito de Nudimmud
Sábio Marduk, que traz celebração a E-engura,
Senhor de E-sagila, fortaleza da Babilônia,
Amado de E-zida, que protege a vida,
Proeminente de E- maḫtila, que revigora a saúde.
Guardião da terra, salvador das massas,
Senhor sem rival de todos os santuários,
Doce é teu nome nos lábios das pessoas em toda parte.
Marduk, grão senhor, deus misericordioso,
Por teu decreto zeloso, que eu viva e tenha saúde, que eu louve tua divindade.
Que eu obtenha sucesso em tudo que planejo.
Que a verdade esteja em minha boca.
Cria uma boa palavra em meu coração!
Que os cortesões intercedam em meu nome.
Que meu deus fique à minha direita,
Que minha deusa fique à minha esquerda.
Que meu deus protetor esteja sempre ao meu lado.
Dá-me a capacidade de falar, ouvir e obedecer.
Que a questão de que eu falo seja aceita como eu a exponho.
Marduk, grão senhor, concede-me a vida.
Que eu seja plenamente satisfeito em caminhar radiante à tua frente.
Que Enlil regozije-se contigo, que Ea exulte contigo.
Que os deuses do universo te abençoem.
Que os grandes deuses satisfaçam teu coração.

* * *

Explicações finais: o texto em acadiano utiliza as marcações acadêmicas:

  • as vogais com macrons, ā, ē, ī, ū, indicam vogais longas;
  • o “s” com um diacrítico em cima, š, é um som chiado, como o shin hebraico, nosso “ch” ou o “s” de final de sílaba de carioca;
  • o “h” com um diacrítico embaixo, , é um som gutural, como o “ch” alemão em Bach, equivalente ao chet hebraico;
  • o “s” com um diacrítico embaixo, ṣ, é o “s” enfático, como o tsade hebraico, que costuma ser pronunciado como “ts” ou “tz” (tipo “putz”);
  • e, por fim, o “t” com um diacrítico embaixo, t, é o “t” enfático também, como o tet hebraico, mas este é o tipo de som que apenas quem tem muita familiaridade (ou que de fato é nativo) com línguas semíticas consegue reconhecer e pronunciar direito.

E, de bônus, para encerrar, só por curiosidade e/ou para propósitos talismânicos (eu conheço bem meu público, afinal) segue o trechinho dos versos 10 a 12 em cuneiforme, “Marduk, grão senhor, deus misericordioso, / Por teu decreto zeloso, que eu viva e tenha saúde, que eu louve tua divindade. / Que eu obtenha sucesso em tudo que planejo”.

He-am!

(“que assim seja”, em sumério)

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