Um hino real a Ishtar

A grande deusa conhecida como Ishtar entre os babilônios e Inana entre os sumérios é, de longe, a divindade mais popular do panteão mesopotâmico. Talvez não por acaso, o texto dedicado a ela publicado aqui no ano passado, “Ishtar, deusa do sexo e da guerra (mas muito mais do que só isso)”, seja o segundo texto mais visto de todos n’O Zigurate. Esse texto eu escrevi em celebração ao seu mês, Ululu no calendário babilônico, equivalente a Elul no judaico. Este ano, em comemoração, eu conduzi uma meditação guiada para cerca de 50 inscritos em nosso canal, e agora dedico também mais um texto a esta grande deusa, desta vez contendo um de seus hinos, para que todos possam conhecê-lo e incorporá-lo às suas práticas, se houver interesse.

Acho que podemos dispensar apresentações – as principais informações sobre Ishtar, suas origens, seus símbolos e domínios, bem como sua mitologia, constam no texto anterior, junto com as principais indicações bibliográficas. Nossa ocupação aqui vai ser com um de seus hinos propriamente, conhecido como o Hino do Rei Ammi-ditana a Ishtar. Neste link aqui vocês podem conferi-lo em acadiano, sua tradução para o inglês (por Martin Worthington) e leitura em voz alta por Doris Prechel, da Universidade de Londres. Mas, mais uma vez, como sempre, a minha principal fonte é o volume editado por Alan Lenzi, Reading Akkadian Prayers and Hymns: an Introduction. Há três hinos à deusa neste volume (o que indica o quanto ela era popular), e o de Ammi-ditana, que o próprio Lenzi editou e traduziu, consta sob o título de “Um Hino Real Paleobabilônico a Ishtar” (An OB [Old Babylonian] Royal Hymn to Ishtar), p. 111.

Impressão em argila de um selo cilíndrico do III milênio a.C., que representa a deusa Inana/Ishtar, alada e ornada com uma coroa, dominando um leão.

Ammi-ditana foi o bisneto de Hammurabi, que governou a Babilônia entre mais ou menos 1683 e 1647, com umas quase 4 décadas de reinado pacífico, centrado em enriquecer e ampliar os templos. Como 99% da literatura mesopotâmica, trata-se de uma obra anônima, possivelmente composta por algum sacerdote do templo para celebrar a relação entre o rei e a divindade – que, a julgar pelo milagre que é ter um reinado longo e pacífico naqueles tempos, parece ter atendido às suas preces.

Um elemento característico deste hino em especial é a sua estrutura estrófica bem organizadinha, com 14 quartetos. Cada quarteto, por sua vez, apresenta também uma estrutura bem marcada, no que se chama de estilo sumério. O primeiro verso, por exemplo, diz iltam zumrā rašubti ilātim , “cantai da deusa, a mais reverenciável das deusas”. Ilû ou ilum, em acadiano, é “deus”, e o “t” no final marca o feminino, iltum. O sufixo -am indica o caso acusativo, o que significa que a deusa é o objeto do verbo. Zumrā vem do verbo zamārum, “cantar”, e se encontra no imperativo plural – logo é uma ordem, assim iltam zumrā é “cantai (d)a deusa”. Este verso é repetido quase idêntico depois, mas o objeto “deusa” é substituído pelo seu nome, Ishtar. Entre o segundo e quarto versos da primeira estrofe, observa-se um jogo parecido também, com a sutil diferença de que bēlit nišī, “rainha dos povos”, vira bēlit iššī, “rainha das mulheres” (iššum em acadiano é cognato do šah hebraico, “mulher”). E assim por diante.

Como comentado por Lenzi, este hino oferece uma bela visão geral da divindade com descrições de sua figura e louvores à sua grandiosidade, sua sexualidade, sua amabilidade, sua inteligência e sua personalidade, bem como sua posição no restante do panteão – a maior parte do hino, de fato, é dedicada a essas questões, e apenas as estrofes finais mencionam o rei, Ammi-ditana. Há também alguns paralelos interessantes com a poesia bíblica, sobretudo no que diz respeito ao uso da imagem da boca com mel como referência sexual (que também aparece no Cântico dos Cânticos) e ao lugar-comum da assembleia divina (que eu já comentei no meu texto sobre o monoteísmo), onde a deusa se assenta como uma figura de igual estatura ao pai dos deuses todos, Anu.

Eu já mencionei nos hinos anteriores (a Marduk, Ea e Gula) que o livro de Lenzi contém o texto em cuneiforme, sua transcrição, o texto normalizado e a tradução para o inglês. A transcrição marca o valor, sinal por sinal, de cada caractere, que pode ser fonético ou não, por isso só é de interesse para os acadêmicos da área. Sendo assim, eu copio abaixo apenas o texto normalizado, já plenamente pronunciável. A tradução é de minha autoria e, de novo, não tem maiores propósitos poéticos ou acadêmicos, sendo apenas para ajudar na compreensão. Como eu sempre anuncio, há uma versão musicada deste hino pelo Lyre Ensemble, com Stef Conner, que pode ser acessado aqui (e é bonita demais).

A versão musicada por Conner, porém, inclui apenas metade da canção, com os primeiros 7 quartetos, encerrando no verso kabtat amāssa elšunu habtatma (“Sua palavra é respeitada e prevalece sobre a deles”). Eu pessoalmente prefiro utilizar essa parte já musicada para cantá-lo em minhas próprias práticas, pois já ter uma melodia facilita bastante e deixa o hino mais agradável e não tão monótono quanto aquele estilo de salmodia que eu utilizo nos outros hinos (e quem me ouviu entoá-los nas meditações e no canal do Telegram já conhece). Considerando que as últimas 4 estrofes se concentram na relação entre Ammi-ditana e a deusa, o que não é tão interessante para o praticante contemporâneo, acaba não sendo uma grande perda elas não terem sido musicadas, e o hino funciona bem assim nesse formato encurtado. Mas eu incluo, claro, o poema todo abaixo.

Um Hino Real Paleobabilônico a Ishtar

iltam zumrā rašubti ilātim
litta’id bēlit nišī rabīt Igigî
ištar zumrā rašubti ilātim
litta’id bēlit iššī rabīt Igigî

šāt mēleṣim ru’āmam labšat
za’nat inbī mīkiam u kuzbam
Ištar mēleṣim ru’āmam labšat
za’nat inbī mīkiam u kuzbam

šaptīn duššupat balāṭum pīša
simtišša ihannīma ṣīhātum
šarhat irimū ramû rēšušša
baniwā šimtāša bitrāmā īnāša šit’arā

eltum ištaša ibašši milkum
šīmat mimmami qātišša tamhat
naplasušša bani bu’āru
bāštum mašrahu lamassum šēdum

tartāmī tešmê ritūmī ṭūbī
u mitguram tebêl šīma
ardat tattadû umma tarašši
izakkarši iniššī inabbi šumša

ayyûm narbiaš išannan mannum
gašrū ṣīrū šūpû parṣūša
Ištar narbiaš išannan mannum
gašrū ṣīrū šūpû parṣūša

šāt in-ilī atar nazzāzuš
kabtat amāssa elšunu habtatma
ištar inilī atar nazzazzuš
kabtat amāssa elšunu habtatma

šarrassun uštanaddanū siqrīša
kullassun šâš kamsūši
nannārīša illakūšim
iššū u awīlum palḫūšī-ma

puḫriššun etel qabûša šūtur
ana Anim šarrīšunu malâm ašbassunu
uznam nēmeqim ḫasīsam eršet
imtallikū šī u ḫammuš

ramû-ma ištīniš parakkam
iggegunnîm šubat rīšātim
muttiššun ilū nazuzzū
ipšiš pīšunu bašiā uznāšun

šarrum migrašun narām libbīšun
šarḫiš itnaqqīšunūt nīqašu ellam
Ammiditana ellam nīqi qātīšu
maḫrīšun ušebbi lî u yalī namrāʾī

išti Anim ḫāmerīša tēteršaššum
dāriam balāṭam arkam
mādātim šanāt balāṭim ana Ammiditana
tušatlim Ištar tattadin

siqrušša tušaknišaššum
kibrāt erbêm ana šēpīšu
u napḫar kalīšunu dadmī
taṣṣamissunūti anīrīšu

bibel libbīša zamār lalêša
naṭûm-ma ana pīšu siqri Ea īpussi
ešmē-ma tanittaša irīssu
libluṭ-ma šarrašu lirāmšu addāriš

Ištar ana Ammiditana šarri rāʾimīki
arkam dāriam balāṭam šurkī
libluṭ

(tradução)

Cantai da deusa, a mais reverenciável das deusas,
Louvada seja a rainha dos povos, a grandiosa entre os Igigi!
Cantai de Ishtar, a mais reverenciável das deusas,
Louvada seja a rainha das mulheres, a grandiosa entre os Igigi!

Ela que é a excitação, trajada em voluptuosidade,
Adornada com frutos, encantos e beleza,
Ishtar que é a excitação, trajada em voluptuosidade,
Adornada com frutos, encantos e beleza.

Seus lábios pingam mel, sua boca é vida,
Sorrisos florescem em seu rosto
Ela é resplandecente, a graça pousa em sua cabeça,
Belas suas faces, seus olhos brilham e reluzem.

A deusa pura, que comanda o conselho,
Que detêm os destinos de tudo em suas mãos,
Vê-la traz alegria,
E a dignidade, o esplendor, os lamassu e shedu.

Do amor, da sedução, do prazer,
E da harmonia, ela é a deusa.
A jovem abandonada encontra nela uma mãe,
Será invocada entre os povos, chamado o seu nome.

Quem pode rivalizá-la em sua glória?
Seus poderes são vastos, supremos e radiantes.
Ishtar— Quem pode rivalizá-la em sua glória?
Seus poderes são vastos, supremos e radiantes.

Ela é proeminente entre os deuses,
Sua palavra, respeitada, e prevalece sobre a deles.
Ishtar, proeminente entre os deuses,
Sua palavra é respeitada e prevalece sobre a deles.

Ela é sua rainha, eles discutem seus pronunciamentos,
Todos se ajoelham diante dela.
Visitam-na em sua luminosidade,
Homens e mulheres a temem.

Em sua assembleia, seu discurso é supremo,
Ela se assenta como um igual a Anu, seu rei.
É bem-versada em entendimento, saber e visão,
Juntos tomam as decisões.

Juntos ocupam o santuário,
No templo, a morada dos júbilos.
Os deuses aparecem diante deles,
Seus ouvidos se atentam a seus comandos.

Seu rei, o favorito, amado de seu coração,
De novo e de novo ofertou-lhe puras oferendas.
Ammi-ditana, com as puras oferendas em mãos,
Em sua presença, os satisfez com cervos e touros cevados.

Ela intercedeu com Anu, seu marido,
Pedindo-lhe longa vida.
Incontáveis anos de vida a Ammi-ditana,
Ishtar deu-os e concedeu-os.

Por seu comando, ela faz curvar-se a ele
Os quatro cantos da terra a seus pés.
E todo o mundo habitado
Ela cingiu ao seu jugo.

O desejo de seu coração, seu cântico favorito,
É digno de sua boca; seu discurso é o de Ea.
Ao ouvir seu louvor, ela se regozijou,
E disse, “Que ele viva! Que seu rei o ame para sempre!”

Ó Ishtar, a Ammi-ditana, o rei que te ama,
Concede uma vida longa e duradoura!
Que ele viva!

***

Explicações finais: há três ocorrências vocabulares que exigem algum comentário. Primeiro, temos o termo Igigi, que distingue uma categoria de divindades, geralmente entendidas como os deuses celestiais, em oposição aos ctônicos (os juízes Anunna ou Anunnaki). Depois, tem uma menção aos lamassu e shedu, que são espíritos alados, representados como touros com asas e rostos humanos. Entende-se que os lamassu são a versão masculina desses espíritos, ao passo que os shedu são femininos, mas shedu às vezes também aparece com um sentido nocivo, como espíritos malignos, dependendo do contexto, e é cognato do hebraico shed (“demônio”). Em todo caso, Ishtar detém poder sobre todos eles, segundo o hino.

De resto, vale apontar que o texto em acadiano utiliza as marcações acadêmicas:

  • as vogais com macrons, ā, ē, ī, ū, indicam vogais longas;
  • o “s” com um diacrítico em cima, š, é um som chiado, como o shin hebraico, nosso “ch” ou o “s” de final de sílaba de carioca;
  • o “h” com um diacrítico embaixo, , é um som gutural, como o “ch” alemão em Bach, equivalente ao chet hebraico;
  • o “s” com um diacrítico embaixo, ṣ, é o “s” enfático, como o tsade hebraico, que costuma ser pronunciado como “ts” ou “tz” (tipo “putz”);
  • e, por fim, o “t” com um diacrítico embaixo, t, é o “t” enfático também, como o tet hebraico, mas este é o tipo de som que apenas quem tem muita familiaridade (ou que de fato é nativo) com línguas semíticas consegue reconhecer e pronunciar direito.

Em tempo, quem tiver interesse em adquirir uma gravação da meditação que foi conduzida na semana passada, com a invocação da deusa e visualizações, eu disponibilizei um formulário neste link. Em breve teremos mais notícias também no que diz respeito a uma publicação futura de poesia suméria dedicada a Inana/Ishtar, fiquem de olho!

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