Sobre os elementos  –  parte III: magia elemental

Um dos textos mágicos mais antigos, talvez o mais antigo, fora do Oriente e seu material dos Upanixades, que põe em prática a teoria dos quatro elementos e utiliza fórmulas para invocá-los, parece ser o comecinho da famosa Liturgia de Mithras, que consta nos PGM (IV. 475–829). Cito-a logo abaixo:

Esta é a invocação do encantamento:
Origem primeira da minha origem, AEĒIOYŌ, primeiro princípio de meu princípio, PPP SSS PHRE, espírito do espírito [ou “ar do ar”, ou “espírito do ar”], o primeiro do espírito em mim, MMM, fogo dado por deus à mistura das misturas em mim, o primeiro do fogo em mim, ĒY ĒIA EĒ, água da água, o primeiro da água em mim, ŌŌŌ AAA EEE, material terroso, o primeiro do material terroso em mim, YĒ YŌĒ, meu corpo completo.

A maneira pela qual eu entendo a magia é como uma aplicação prática de uma teoria metafísica — tais teorias oferecem mapas da realidade oculta, e a magia é uma forma de segui-los para se chegar a algum lugar. É por isso que nós começamos aqui, na parte I deste texto, falando das origens filosóficas da doutrina dos quatro elementos para tratar do mundo físico, depois passamos para o lado mais esotérico na parte II, a fim de que possamos, agora, pensar na parte prática.

Assim sendo, ao se postular a constituição do mundo e do ser humano como uma composição baseada em quatro elementos (ou no arranjo 4+1), que são forças tanto físicas quanto espirituais, é natural que se busque uma forma de acessar essas forças, que parece ser o que encontramos aqui com as palavras bárbaras deste ritual. Tudo começa com AEĒIOYŌ, o nome de 7 letras de Deus que se refere à totalidade do cosmos, com uma vogal para cada planeta, depois uma fórmula para cada elemento: ar (PPP SSS PHRE), fogo (MMM), água (ĒY ĒIA EĒ), e terra (ŌŌŌ AAA EEE), concluindo com a fórmula do “corpo completo” (YĒ YŌĒ), constituído por estes elementos. É um começo adequado para um ritual de autoconsagração como é a Liturgia. Cada fórmula aqui nos lembra os bijas do Oriente e suas equivalências elementais: HAM (éter), YAM (ar), RAM (fogo), VAM (água) e LAM (terra), porém de uma forma menos sistemática e organizadinha. Fora deste ritual, também não tenho conhecimento do uso dessas fórmulas dos PGM em contextos mais isolados de trabalho com os elementos, mas esta não deixa de ser uma possibilidade em potencial para quem está disposto a experimentar.



Materia Prima Lapidis Philosophorum, arte alquímica do manuscrito O Círculo de Ouro e os Rosa-cruz.

Neste texto agora, eu quero deixar claro que não existe um único modo de se trabalhar os elementos, mas, claro, o que eu posso repassar com mais confiança são as coisas que eu mesmo aprendi e sei fazer (e que estejam ao alcance do leitor iniciante), o que inclui as técnicas de Bardon em seu Magia Prática e os rituais da Golden Dawn.

Técnicas herméticas

Primeiro de tudo, para se aprender o método de Bardon de trabalhar os elementos é preciso dominar a técnica da respiração pelos poros, que também ensinada no livro básico da Cura Prânica, do Mestre Choa Kok Sui. Segundo esta técnica, você visualiza, ao inspirar, que é toda a extensão da sua pele, não apenas as suas narinas, que está absorvendo a força vital presente no ar (para mais detalhes, convém conferir os livros em questão). Na sequência, a respiração pelos poros deve ser praticada com a visualização de que você está absorvendo um dos quatro elementos — geralmente recomenda-se começar pelo fogo. As características do fogo, em Bardon, são o calor e a expansividade, por isso você deve imaginar que o universo inteiro está mergulhado numa energia com essas qualidades1 e, então, ao inspirar, imaginar que ela é absorvida pela sua pele e acumulada no seu plexo solar. Você inspira o fogo presente no ar, acumula-o e, ao expirar, devolve o “ar vazio”, por assim dizer.

Para começar, Bardon recomenda fazer isto sete vezes, depois seguir com o exercício reverso de inspirar o ar normalmente e expelir o elemento também pelos poros, também sete vezes (importante não andar por aí cheio de um dado elemento acumulado, faz mal). Deve-se começar assim, depois ir ampliando aos poucos, até um máximo de 30 repetições — eu particularmente recomendo o uso das falanges dos dedos ou um mala pequeno para a contagem. Uma vez que você se acostume a fazer isto com um dos elementos, você pode ir prosseguindo para os outros, sempre imaginando suas características no espaço ao seu redor e em seu corpo, depois de inalado — a característica do ar é ser leve, da água é ser fria e da terra é ser pesada.

Uma questão que é importante frisar, porém, é que, num primeiro momento, você não vai estar absorvendo e expelindo o elemento de verdade, mas apenas usando a sua imaginação. Por esse motivo, ainda não dá para usar esses exercícios para feitiçaria, a aplicação de magia com propósitos práticos. No entanto, conforme você segue praticando e exercitando a sua capacidade de imaginar as qualidades e efeitos do elemento, junto com essa sensação cada vez mais vívida, em algum momento o princípio do elemento deverá começar a vir junto e, a partir de então, você vai estar de fato manipulando o elemento em si — para mais detalhes sobre essa explicação, eu recomendo ler, em paralelo com o Magia Prática, também o A Bardon Companion, do Rawn Clark.

Como tudo em Bardon, é preciso ter paciência e seguir praticando com cada elemento por vez. Uma vez dominado o trabalho com o fogo, por exemplo, você pode inspirar para concentrar o elemento na sua mão e então usá-lo para produzir algo como uma chama invisível. Se você ou alguém do seu convívio tiver a sensibilidade energética apropriada, é inclusive possível passar a mão sobre a chama e senti-la também2. Se você ainda não tiver essa sensibilidade, esfregue as mãos e aperte o centro da palma que você vai usar para sentir (é o ponto do chakra das mãos) e faça esse exercício de concentrar a chama na mão direita, por exemplo, e passar a esquerda para tentar localizá-la. Não desanime se não conseguir nas primeiras vezes, é preciso persistência. Quando você ou outra pessoa for capaz de sentir, temos aí um sinal de que você está manipulando a energia do elemento de verdade (parabéns!), e é aí que dá para começar a fazer coisas.

Uma prática que Bardon ensina e depois o Jason Miller comenta, em The Sorcerer’s Secrets, é a “magia do espaço”, isto é, preencher e impregnar espaços físicos, como uma sala, com um dado elemento. Para isso, basta acumulá-lo no seu corpo e projetá-lo ou então puxá-lo diretamente do éter para o espaço em questão (o que exige mais experiência). Miller conta uma anedota divertida de uma festa que ele deu uma vez em casa, em que ele preencheu cada cômodo com um elemento, depois observou a reação das pessoas: as que estavam no espaço impregnado com terra ficaram preguiçosas, sentadas no sofá, vendo TV; as do espaço com água estavam tendo conversas emocionalmente profundas; as do espaço com ar tinham conversas intensas sobre política; e as do espaço com fogo estavam “fazendo bom uso do colchão”. Estes, é claro, são apenas alguns usos possíveis — um espaço com fogo também pode ser utilizado para ampliar a motivação e criatividade, não apenas sexo, e água para acalmar os ânimos (mais tarde no livro ele reconta ter usado água para facilitar dar uma notícia ruim a um parente), e assim por diante. Só tome cuidado para lembrar de dissipar a energia depois, porque, segundo Bardon, o elemento tende a permanecer indefinidamente ou até segunda ordem, e essa permanência continuada é ruim, pois causa desequilíbrios e pode atrair elementais traiçoeiros e outros seres dos mundos invisíveis. Porém, se você estiver tentando atrair e trabalhar com elementais ou fazer outros trabalhos mágicos que envolvem os elementos (como, por exemplo, rituais com o tarô usando um dado naipe dos arcanos menores), há muita utilidade em preparar o espaço anteriormente com uma projeção do elemento adequado.


De novo, os pentagramas de invocação e banimento para cada elemento.

Uma outra forma de sintonizar um espaço com um elemento é por meio do ritual de que falamos anteriormente, o Ritual Maior do Pentagrama para Invocação, da Golden Dawn, ou Greater Invoking Ritual of the Pentagram (GIRP)3. A vantagem deste ritual é que ele já vem pronto e não é preciso treinar durante várias semanas como no programa do Bardon. Porém há bastante coisa para se decorar e é recomendável que você já domine o banimento do Ritual menor do Pentagrama (LBRP) antes.

Como é a regra com os rituais da GD, os rituais chamados “menores” são gerais, enquanto os “maiores” são específicos. Por esse motivo, há cinco versões do RMP (com o M maiúsculo para “Maior”) ou GIRP, uma para cada elemento e uma que usa todos os elementos, cuja função é a da “Visão do Sagrado Anjo Guardião”, um tipo de trabalho preliminar para o contato com o SAG. Para facilitar, eu vou ensinar aqui esta versão que usa todos eles, então você só precisa isolar a parte desejada para invocar um elemento só. Para explicá-lo, a minha referência é o blogue do Scott Stenwick, aqui.

Primeiro, você começa virado para o leste com a Cruz Cabalística, como sempre. Até aí tudo bem. Se você já fez o Ritual menor do Pentagrama logo antes para limpar e proteger o espaço, não precisa repetir, pode já emendar um no outro.

Agora, na direção leste você vai invocar o elemento do ar, como é a equivalência clássica dos elementos a nível microcósmico no sistema da Golden Dawn. Para isso, primeiro você vai traçar o pentagrama de invocação do elemento do espírito ativo (canto inferior direito e subindo para a ponta esquerda), visualizando-o na cor lilás e vibrando a fórmula EHEYEH. Na sequência você faz o gesto de abertura do véu. Então você traça o pentagrama de invocação do ar (começa na ponta superior direita, vai para a esquerda e continua), visualizando-o na cor amarela e vibrando a fórmula YHWH. Encerra fazendo o gesto ritualístico do ar (os gestos estão logo abaixo).


Os gestos rituais, em ordem: abertura do véu, ar, fogo, água e terra.

Feito isto, você vai se virar para o sul, à direita, para invocar o fogo. De novo você repete o pentagrama do espírito ativo, a fórmula EHEYEH e a abertura do véu, seguido agora do pentagrama de invocação do fogo (começa em cima e desce para a ponta inferior esquerda), visualizando-o na cor vermelha e vibrando a fórmula ELOHIM. Encerra fazendo o gesto do fogo.

Agora vai para o oeste, a direção da água. De novo, segue a mesma lógica de invocar o elemento do espírito e depois o elemento em questão, mas agora é o pentagrama do espírito passivo (começa na ponta inferior esquerda e sobe para a ponta direita), visualizado na cor roxa e vibrando a fórmula AGLA. Repete-se o gesto da abertura do véu e então desenha-se o pentagrama da água (começa na ponta superior esquerda e vai para a direita), visualizado na cor azul e vibrando a fórmula EL. Encerra fazendo o gesto da água.

Por fim, chegamos à direção norte, da terra, repetindo a parte do espírito passivo, sua fórmula e gesto do véu e finalizando com o pentagrama de invocação da terra (começa na ponta superior e desce à ponta inferior esquerda) em cor verde ou preta e fórmula ADONAI, seguido do gesto da terra.

Para encerrar, você fecha o círculo. Se quiser, pode terminar com a invocação dos arcanjos normalmente, como se faz no RmP, mas Scott não inclui este passo, e conclui com a Cruz Cabalística de novo. Se você quiser trabalhar com apenas um elemento, em vez de desenhar todos os pentagramas, você vai seguir apenas os passos indicados para a invocação daquele elemento em todas as direções — por exemplo, no caso do fogo, você vai fazer o pentagrama de invocação do espírito ativo seguido do pentagrama do fogo em todas as direções, não apenas no sul. Se for trabalhar com um só elemento, como Scott instrui, você não vai concluir com a invocação dos arcanjos, mas eu sou da opinião, após ter lido o Echols e praticado parte de seu trabalho angelical, de que é adequado concluir invocando o mesmo arcanjo (no caso do fogo, Miguel) em todas as direções.

Ufa, e é isso! Sim, é um ritual meio complicadinho, bastante coisa para memorizar, e eu entendo que poucos hoje têm paciência para esse tipo de prática. Mas há vantagens, pois é um ritual forte e sintoniza o espaço para o que quer que você precise fazer depois. Você pode manipular a energia elemental4 diretamente, por exemplo, e direcioná-la a um talismã, você pode invocar os arcanjos dos elementos ou evocar, usando uma bola de cristal ou outro instrumento, os reis elementais de que eu falei no texto anterior.

Para se construir um talismã de fogo, por exemplo, um método simples pode ser sigilar o seu intento (seja por meios à moda de Spare ou com o quadrado mágico da Lua) e traçá-lo num papel com o formato e cor do tattwa do elemento em questão — no caso, um triângulo vermelho. Comece o ritual com o RmP, depois o RMP do fogo, chame o arcanjo Miguel (e/ou o Rei Djin) e direcione a energia ao talismã. Uma boa técnica para movimentar a energia é repetir o nome divino do fogo, ELOHIM, como um mantra e então selar o talismã traçando sobre ele o pentagrama do fogo. Decorar o espaço com as cores adequadas ou queimar incensos de plantas ligadas ao elemento (no caso do fogo, o alecrim e a canela são boas pedidas) facilita as coisas. O uso de acessórios também é bem-vindo, seja na forma das ferramentas clássicas da Golden Dawn ou da Wicca, ou utilizando outras representações mais básicas como a vela para o fogo, a água de um cálice ou vasilha para água, uma pena como ar e sal como terra. Eu mesmo gosto muito de combinar magia elemental com magia do tarô, pois cada naipe dos arcanos menores oferece várias possibilidades práticas para além das ideias mais óbvias das funções dos elementos — água pode ser usada para magia ligada a confortos e prazeres mundanos, via 9 de copas, por exemplo, e o fogo para saúde, via 6 de paus, uma carta muito desejável em tiragens sobre doença e recuperação.

Para quem tem essa pegada mais da magia natural, é possível ir além e trabalhar bastante com plantas e cristais. Todos os cristais geralmente têm alguma conexão com o elemento terra — por virem da terra, óbvio —, mas alguns têm conexão com outros elementos também como é o caso da obsidiana e o elemento fogo ou o quartzo rosa e a água. No entanto, vale a pena lembrar que cada planta ou cristal costuma ter propriedades além do elemento e é importante levar isso em consideração.

Para quem tem interesse no trabalho com os reis elementais, recomendo de novo os posts no blogue do Scott Stenwick, em que ele dá o passo a passo para se evocar os reis Djin, Paralda, Nicksas e Ghob, incluindo seu sigilo, o que pode ajudar muito se você pretende trabalhar com esses seres. Stenwick também tem uma sequência de posts sobre o que ele chamou de “O Caminho da Iniciação”, uma série de rituais que combinam conjuração e meditação (pathworking) buscando ser iniciado primeiro nos domínios dos elementos (na ordem inversa de sutileza: terra, água, ar e fogo), depois em cada séfira, começando com Malkut, o que, aos poucos, leva o neófito por um caminho poderoso de desenvolvimento espiritual. De novo, os reis elementais têm um papel importante nesse caminho, e eu recomendo muito a leitura do blogue do Stenwick para quem quer que tenha interesse no sistema da Golden Dawn ou Thelema.

Vale lembrar ainda que Stenwick emprega nesses rituais as orações dos elementais, que constam na obra de Éliphas Lévi, Dogma e Ritual da Alta Magia (você pode conferi-las online, clicando aqui, apesar de o autor deste pdf não atribuir sua autoria direito). Estas orações são poderosas e também podem ser empregadas em invocações e consagrações, além dos nomes divinos já vistos.

A importância do equilíbrio elemental

Há mais de um sentido possível quando falamos em “equilíbrio elemental” e acredito que seja necessário alguma elucidação aqui.

Num primeiro nível, como dito antes, existe o equilíbrio referente ao seu mapa astral — alguém que não tenha nenhum planeta em água, por exemplo, vai precisar lidar com as questões deste elemento com um pouco mais de cuidado do que alguém com vários planetas. Isto já está bem estabelecido, creio.

Mas temos ainda um segundo nível, referente ao “uso” dos elementos, por assim dizer, que eu já vou comentar. E, por fim, temos o equilíbrio num grau superior, que diz respeito ao refinamento do caráter que não é o objetivo final do trabalho mágico, mas é um pré-requisito importante para o trabalho nos níveis mais elevados.

Sobre o uso dos elementos, eu entendo a questão da seguinte forma: quando nos engajamos numa atividade criativa, por exemplo, estamos fazendo uso do nosso fogo. A parte mais detalhista e demorada do trabalho de escrever é uma atividade ligada ao ar, mas a inspiração para um poema ou um romance deriva do fogo, e o mesmo vale para outras artes, como a música ou artes plásticas. Essa energia, no entanto, não é infinita: quem trabalha com isso e precisa consistentemente produzir, tirar coisas do nada, sabe que, dependendo do ritmo imposto, uma hora acaba-se sofrendo de uma exaustão. E, pior, essa exaustão muitas vezes não é apenas um cansaço e inabilidade de produzir, mas vem acompanhada de um desgosto generalizado pela vida. Tudo vira um grande “meh” — um efeito colateral dessa depleção do elemento fogo.

O fogo também tem a ver com a sexualidade e, nesse sentido, não é de se estranhar, por mais problemático que o conceito seja hoje, que tantos artistas tivessem “musas” — o termo a princípio se referia às deusas que falavam através do poeta, como se observa na épica grega, mas com o tempo passou a ser entendido como uma pessoa, geralmente uma mulher, que inspira as obras. Os trovadores tiveram as mulheres de seus senhores, dentro do esquema do “amor cortês”, Dante teve Beatriz, Petrarca teve Laura e assim por diante. Pensando por esse viés, é como se fosse usada a fagulha do desejo amoroso para alimentar a produção artística5, sobretudo quando a relação não era consumada.

Igualmente os outros elementos também podem se consumir com excesso de atividades ligadas aos seus domínios — o ar com o trabalho intelectual, a água com o desgaste emocional (como o que aflige a todos os brasileiros desde 2018), e a terra, creio, com o esforço físico de fato. Há atividades que ajudam a restaurar essa perda energética — o descanso, o entretenimento, etc. — , mas o praticante de magia tem um outro truque na manga.


A Árvore da Vida na Cabala Hermética

Outro dos rituais célebres da Golden Dawn, quase tão amplamente praticado quanto o RmP, é o chamado de Pilar Médio. Neste ritual, em resumo, você visualiza esferas de luz em certas partes do corpo, vibra fórmulas em hebraico, e depois faz circular a energia. Na sua coroa, você visualiza uma esfera de luz branca e vibra a fórmula EHYEH. Depois a luz desce para a garganta, onde brilha com uma luz de cor de lavanda, acompanhada pela fórmula YHWH ELOHIM. Na sequência, ela desce ao plexo solar, cor vermelha e fórmula YHWH ELOAH VEDAATH, e ao púbis, cor azul, fórmula SHADAI EL CHAI. Por fim, ela desce até os pés, em cores terrosas (geralmente verde ou marrom), com a fórmula ADONAI HAARETZ. Para quem quiser uma descrição um pouco mais passo a passo do ritual, sugiro olhar no site da Llewellyn ou, para mais detalhes ainda, o capítulo de High Magick do Damien Echols sobre o assunto.

Cada um desses pontos equivale a um chakra (coroa, garganta, plexo, sexual, básico6) e a uma sefiroth no arranjo antropomórfico da Árvore da Vida (Kether, Daath, Tiffereth, Yesod, Malkut), de onde deriva seu nome, pois entre o Pilar da Misericórida, à direita, e o da Severidade, à esquerda, fica o Pilar Médio. Cada sefiroth tem um nome divino tradicionalmente associado e é daí que este ritual deriva suas fórmulas. Uma das muitas coisas que ele faz é limpar um pouco (para uma limpeza mais profunda é preciso usar outras técnicas, como as da Cura Prânica) e energizar esses pontos, também infundindo-os com energia elemental, de acordo com a cor visualizada: espírito, ar, fogo, água, terra. Realizado todos os dias, é possível evitar esse esgotamento, e eu mesmo gosto de realizá-lo também depois de ter um dia estafante de trabalho.

A sequência dos elementos no Pilar Médio parece acompanhar a ordem mais típica de aplicação dos elementos nos rituais de nyasa orientais, que prescrevem o elemento Akasha para os chakras superiores, ar no cardíaco, fogo no plexo, água no sexual e terra no básico. Porém, como Christopher Wallis comenta em seu texto sobre os chakras, essa prescrição não é dogmática e pode ser alterada. Infelizmente não conheço o suficiente dos rituais de nyasa para comentá-los mais a fundo, mas há algumas variações desse tipo de prática aqui no Ocidente mesmo, que utilizam inclusive arranjos distintos. Jason Miller, em The Sorcerer’s Secrets, ensina o “ritual do pilar e das esferas”, como ele o chama, que utiliza a fórmula IAO e um arranjo que aplica o quinto elemento na região da cabeça, ar na garganta, água no peito, fogo no plexo e terra no períneo. Já o Sam Block, em seu blog, criou um ritual chamado de “Via Elementorum” concebido com base especialmente no sistema geomântico, que trabalha com os elementos indo dos mais sutis aos mais densos, com fogo na cabeça, ar na garganta e peito, água no abdome e terra nas partes inferiores (esse também é o arranjo preferido por Bardon). Eu pretendo falar mais a fundo desses rituais num texto futuro, pois há questões sutis nessas diferenças de arranjos, mas, por ora, qualquer uma dessas versões terá efeitos benéficos na manutenção energética dos elementos.

Agora, para encerrar, vamos falar brevemente do terceiro nível. A primeira coisa que Bardon exige do iniciante que começa a ler o seu livro, antes mesmo de aprender qualquer coisa sobre manipular os elementos, é um exercício de introspecção, que ele chama de “espelho da alma”. Bardon pede que se faça, com sinceridade, uma lista das suas qualidades e defeitos, que depois devem ser atribuídos aos elementos. Logo no capítulo de abertura ele trata dessas relações: por exemplo, o fogo fornece as qualidades de “atividade, entusiasmo, estímulo, determinação, audácia, coragem, força criativa, zelo”, mas os defeitos de “voracidade, ciúme, paixões, irritação, agressividade, intemperança, impulso destruidor”. Já terra confere “atenção, generosidade, modéstia, afetividade, seriedade, docilidade”, entre outras coisas positivas e, no negativo, “indiferença, derrotismo, timidez, falta de participação, inflexibilidade e indolência”.

É evidente que estas questões dizem respeito ao primeiro nível do equilíbrio elemental já comentado, dos elementos no mapa astral. Mas, conforme praticamos e nos desenvolvemos, a tendência é que essas qualidades sejam transmutadas. Bardon ainda fala apenas em termos de introspecção e autossugestão para o desenvolvimento deste trabalho, mas as práticas de uma rotina mágica diária que incluem rituais como o RmP e o Pilar Médio, além de processos mais profundos de limpeza (de novo, como a que é oferecida pela Cura Prânica) facilitam e potencializam imensamente o processo. Não se trata de uma coisa automática, do tipo “você faz esses exercícios e a sua personalidade acaba sendo alterada por si só”, mas isto acelera os resultados ao trabalhar constantemente o equilíbrio elemental no segundo nível, além da limpeza e proteção (tanto contra influências externas quanto contra a própria sujeira que nós mesmos produzidos) e a conexão espiritual. Mantido com afinco e seriedade, uma mudança para melhor há de ser esperada, o que permite chegar às etapas superiores do caminho espiritual com maior segurança7.

Outras práticas

Falamos muito aqui de Bardon e suas aplicações dos elementos para a magia do espaço, mas há outras técnicas ainda que ele ensina em seu livro, como o treino dos dedos para conceber rituais baseados em mudras para uso em público, a criação de seres elementais artificiais e a comunhão com salamandras, silfos, ondinas e gnomos. Tais técnicas, no entanto, são mais avançadas.

Outro livro interessante que trata dos elementos é o de Dolores Ashcroft-Nowicki, Manual Prático de Magia Ritual. Dolores trabalha também nessa linha de magia ocidental de verve hermético-cabalística e ensina várias coisas como a direção dos pentagramas, o ritual do Pilar Médio e como consagrar talismãs e ferramentas, sendo uma belíssima introdução ao assunto, como já recomendado anteriormente.

Por fim, minha última recomendação por ora é o Practical Elemental Magick: Working the Magick of the Four Elements in the Western Mystery Tradition, de Sorita d’Este e David Rankine. Trata-se de um livro breve que também toca nas principais questões de magia com os elementos, mas já divorciada da tradição da Golden Dawn. A dupla chega a ensinar um ritual chamado de “Pirâmide Elemental” cujo propósito me parece bastante semelhante ao do Ritual Maior do Pentagrama, porém é mais simples e não envolve Cabala.

Isso, acredito, conclui a nossa introdução ao trabalho com os elementos. É bastante texto (é o terceiro já!), mas ainda estamos apenas arranhando a superfície deste material. Uma das coisas que me fascinam no trabalho mágico é a criatividade no que diz respeito às possibilidades de trabalho com cada conjunto simbólico, e dada a profusão de símbolos e técnicas, é certo que qualquer praticante há de encontrar aqui pelo menos um conjunto deles que faça sentido para si e possa incorporar à sua prática.

* * *

[1] Atenção, porém: como comenta Rawn Clark, você deve evitar visualizar o elemento fogo como chamas. A chama é apenas uma manifestação do elemento e aqui você deve trabalhar com ele puro, apenas como uma luz de cor vermelha e sensação expansiva e quente.

[2] Na Cura Prânica, mas também no material de outros autores, incluindo Echols e Greer, trabalha-se a sensibilização das mãos para sentir melhor a energia diretamente. Um curador prânico típico treina essa sensibilidade para medir os graus de energização e limpeza dos chakras, mas é uma técnica que pode ser aplicada para muita coisa e quanto maior a sensibilidade, mais detalhes do elemento a pessoa vai sentir. No começo você pode apenas sentir que tem algo lá na sua mão, mas depois dá para perceber com mais nitidez as dimensões e as qualidades da projeção. Apesar de a escola não trabalhar com os elementos, suas técnicas para medição e projeção de energia são extremamente úteis aqui.

[3] Como já dito no texto sobre banimentos, o RmP mais popular é a forma de banimento deste ritual e existe a sua forma de invocação, mas não é tão utilizado atualmente. No caso do ritual maior, a forma mais comum é a de invocação, para sintonizar o espaço com os elementos. Existe também a forma de banimento do ritual maior, mas tem funções mais restritas. O equivalente thelêmico do GIRP é o Liber V vel Reguli.

[4] Só uma questão besta de língua portuguesa, mas eu estou ciente de que “elemental”, como o corretor aqui faz questão de avisar, não está dicionarizado em português (o correto seria “elementar”). Porém, trata-se de uma palavra de uso corrente do jargão mágico e não sou eu quem vai contrariar isso. Além do mais, em alguns sistemas, como em Bardon, um elemental e um elementar são coisas diferentes.

[5] Em termos de chakras, a explicação para esse fenômeno repousa no fenômeno da ligação direta entre chakras, no caso a conexão entre o chakra sexual, ligado à sexualidade e à criatividade no mundo físico (i.e. reprodução), e o chakra da garganta, ligado à criatividade intelectual, o que inclui a criação de obras de arte. O uso da energia sexual sobressalente para atividades criativas e intelectuais é, inclusive, uma possibilidade bem conhecida dos praticantes de magia energética.

[6] Na verdade, o Pilar Médio joga a visualização do último ponto de energia sob os pés, mas os pés, pernas, braços e mãos estão subordinados ao chakra básico.

[7] Um exemplo é o trabalho com a kundalini. Despertar a kundalini sem o trabalho prévio de autopurificação amplifica os defeitos da personalidade e leva a efeitos colaterais terríveis, inclusive no plano físico.

3 comentários Adicione o seu

  1. evelyne disse:

    oi abstr, bom dia! parabéns pelo texto! impecável, como sempre.
    Nessa parte “Para se construir um talismã de fogo, por exemplo, um método simples pode ser sigilar o seu intento (seja por meios à moda de Spare ou com o quadrado mágico da Lua)” existe um motivo específico para o quadrado ser da Lua?
    Abraços!

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    1. fraterabstru disse:

      Boa tarde, Evelyne! Muito obrigado!
      A resposta para esta questão é dada pelo Scott nos posts do blogue dele. A Lua é a última etapa antes da manifestação das coisas no mundo material (como eu comentei no texto sobre a Lua), é um tipo de receptáculo que recebe as energias superiores, gesta e produz aqui no mundo sublunar. Na Cabala hermética, ela equivale a Yesod na Árvore da Vida, também a última etapa antes de Malkut, que a Cabala hermética entende como o mundo material, por isso, de todos os planetas, é ela quem exerce um poder mais imediato sobre todas essas energias daqui embaixo, o que inclui os elementos.

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      1. evelyne disse:

        aaaa, entendi. Muito obrigada pela resposta! 😉

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