A substituição de componentes mágicos

Quem acompanha O Zigurate há algum tempo já reparou que muito raramente eu passo alguma receita pronta de magia prática. Via de regra, eu prefiro falar das coisas em linhas gerais e oferecer material para que cada um possa construir seus rituais com base naquilo que já pratica. Para quem ainda não faz nada, dá para ir catando umas informações aqui e ali para ter uma ideia do caminho que você quer seguir e ir aos poucos estruturando uma rotina que faça sentido para você. Acho que essa é a abordagem mais viável para um veículo aberto como este.

Eu não costumo ensinar os rituais que eu mesmo faço por alguns motivos. Um deles é o fato de que eu tenho uma tendência cerimonial que pode parecer chata para quem não gosta desse estilo de magia. Depois, o que funciona comigo pode não funcionar com todo mundo: o que eu faço no sistema do Franz Bardon depende dos exercícios realizados em cada etapa do seu Magia Prática, que precisam ser feitos em sequência, por exemplo, mas o pior é que a maior parte do meu trabalho mágico diz respeito ao panteão e egrégora da antiga Mesopotâmia com os quais eu venho desenvolvendo uma relação ao longo dos últimos anos. Eu acredito que a força desses rituais derive dessa relação, e aí é aquela coisa, né, o panteão ao qual você é atraído depende de inúmeros fatores, e é uma via de mão dupla — nem todas as forças que a gente gostaria que nos atendesse de fato nos atende quando são chamadas. Por isso eu tenho um tanto de receio em repassar receitas prontas: mesmo que elas sejam seguidas à risca, tem essa possibilidade de não dar certo e eu não quero ser responsável por isso.

Justus van Bentum (1670 – 1727), “Explosão no Laboratório do Alquimista”

Depois tem um último fator, que é o assunto deste texto específico e é irritante demais: as pessoas têm tara, parece, em substituir as coisas. Você pode oferecer uma receita simplicíssima, com materiais que dá para encontrar barato no supermercado (digo, na medida do possível, né, o mercado está pela hora da morte), tipo vela branca, água, sal, papel e caneta, folha de louro, essas coisas, e ainda assim alguém vai aparecer querendo substituir (ou, pior, omitir) um dos componentes. Eu entendo quando você precisa trocar um item meio absurdo como o infame cinto de pele de leão da Goécia, mas as pessoas exageram.

E eu acho isso extremamente frustrante, até mesmo porque é o tipo de coisa que nem sempre dá para responder. “Posso trocar x por y?” Olha, poder você pode, eu não sou sua mãe, mas, dependendo do que você está fazendo, não tem como saber de antemão o efeito que isso vai ter. Ou, pior, você sabe que não vai dar certo, diz isso e a pessoa que perguntou reage mal.

Os casos mais gritantes dizem respeito à substituição de ingredientes de materia magica, mas às vezes é pior ainda. Muito se diz das pessoas que têm interesse por Goécia, para voltar nesse exemplo, mas não gostam do paradigma abraâmico em que esse sistema se constrói, aí querem substituí-lo por outra coisa, geralmente trocando as menções aos nomes de Deus e de Jesus por referências pagãs. E, assim… eu não vou nem dizer que não é possível, porque eu mesmo não tenho experiência direta com Goécia ainda e porque, se podemos acreditar em Jake Stratton-Kent, as raízes dessas práticas vêm de lá dos Papiros Gregos Mágicos, que são uma obra de um contexto “pagão”[1], mas é fato que, quando se arrisca isso, você se flagra num território virgem, ainda não mapeado. Inúmeras pessoas já fizeram evocação goética nos moldes tradicionais e é possível se orientar pela experiência delas. Testar uma técnica experimental como essa é muito mais arriscado e, via de regra, se você precisa perguntar para alguém sobre isso (ainda mais alguém na internet), você claramente não está preparado.

E, olha, eu não sou purista, nem de longe. A Maíra é testemunha do quanto eu estou sempre testando umas práticas experimentais aqui em casa. Eu reconheço que as tradições mágicas são uma coisa viva e não atribuo qualquer autoridade suprema aos grimórios ou algo do tipo. Aliás, esse é um assunto interessante, porque, como se diz, a tradição mágica no Ocidente é uma tradição interrompida. Graças à obra dos governantes romanos e seus sucessores, a Igreja, a magia foi relegada à clandestinidade, e isso teve um impacto tremendo na preservação e transmissão de conhecimentos mágicos. Tudo, é claro, sempre foi meio oculto, em parte porque, quando você faz feitiços para os outros por dinheiro, você não quer revelar os segredos do seu ofício a qualquer um, mas existe uma diferença séria aí entre “só posso revelar isso para os iniciados, até pelo bem das próprias pessoas que podem pegar isso e fazer mau uso” e “se isso cair em mãos erradas, vai eu e o livro pra fogueira”. Essa situação cria um clima, no mínimo, bem ruim para trabalhar. Se os escribas já cometiam erros copiando textos seguros, imagina com grimórios.

Não é à toa que a gente não tem, por exemplo, um exemplar que preste da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago. Existem alguns manuscritos, nenhum dos quais é o original, no entanto, e em vários momentos todos eles divergem entre si, apesar de os exemplares das bibliotecas de Wolfenbüttel e de Dresden serem considerados os mais fidedignos. E mesmo um grimório classicão como o Heptameron, atribuído a Pietro d’Abano, tem uns erros bizarros. Outro dia eu estava ouvindo um podcast, e acho que é o Dr. Al Cummins quem comenta isso como um erro de transcrição, que o livro instrui o magista a queimar enxofre como incenso de Saturno — queima de enxofre produz dióxido de enxofre, que é usado para fabricar ácido sulfúrico e, como é de se esperar, faz muito mal à saúde. Seguir essa instrução à risca provavelmente vai resultar em você tendo que encerrar o ritual antes da hora por não conseguir respirar.

E depois tem outras pegadinhas e códigos. Eu já falei disso no meu texto sobre os PGM, mas há um papiro (PGM XII. 401-44) em que temos uma legenda do que significam os nomes de certos ingredientes exóticos, dentre os quais eu destaco os seguintes:

  • Sangue de cobra: hematita
  • Lágrimas de babuíno: sumo de endro
  • Esterco de crocodilo: solo etiópico
  • Sêmen de leão: sêmen humano
  • Sangue de Hefesto: losna
  • Uma águia: alho silvestre
    etc…

E um ritual como o do anjo Kalmiyah, no Sefer HaRazim, que exige o sacrifício de um filhote de leão, só pode ser um código para alguma coisa (só não sabemos bem ainda o quê).

Então, isso é para dizer que eu reconheço que há situações em que, sim, precisamos fazer substituições e fazer uso de nosso bom senso. O purismo irrefletido não é uma boa abordagem quando você está lidando com material antigo. Dito isso, ao longo dos últimos cem anos a tendência mudou e diversos nomes vêm se esforçando para tornar a magia mais acessível. Mesmo o Crowley, uma figura não necessariamente democrática, diz logo no começo do Magick Without Tears que a magia é para todos. Afirma Crowley: “Eu escrevi este livro para ajudar o Banqueiro, o Pugilista, o Biólogo, o Poeta, o Marinheiro, o Merceeiro, a Garota da Fábrica, o Matemático, o Taquígrafo, o Jogador de golfe, a Esposa, o Cônsul — e todo o resto — a realizar-se perfeitamente, cada um em sua própria função adequada”. O Bardon, igualmente, publica o seu Magia Prática para possibilitar que qualquer um possa se tornar um adepto, independente de ter acesso ou não à iniciação de alguma ordem. E o Mestre Choa Kok Sui, fundador da Cura Prânica, também estabelece essa disciplina nos anos 1980 a fim de que seja praticável por qualquer um sem precisar abandonar um estilo de vida moderno. Há algum tempo tem bastante gente fazendo o trabalho de disponibilizar material para práticas mágicas e espirituais no geral, com base não apenas na repetição (falha) de papagaio, mas na prática e na síntese de princípios. Por esses motivos, quando figuras assim repassam uma receita simples, se você é um iniciante, é de bom tom tentar segui-la da melhor forma possível.

Da forma como eu enxergo a questão, a magia é muito parecida com a culinária. Alguns comparam a magia com a ciência, o que eu entendo, mas acho meio positivista demais, e outros com a arte, o que é mais adequado, na minha opinião, mas ainda assim é uma analogia bem limitada. Sim, a magia faz uso da estética como um de seus elementos (um assunto de que eu gostaria de tratar no futuro), mas há liberdades na literatura, nas artes visuais e na música que não são possíveis na magia. Os extremos da literatura conceitual (como Kenneth Goldsmith), do ready-made e do dadaísmo ou da música de John Cage (pense no infame 4’33”) são viáveis dentro das possibilidades modernas, porque convencionou-se que, nas artes, gerar discussão, reflexão e confronto é mais importante do que prazer e harmonia ou qualquer aplicação prática ou moral (o que deixaria alguém como Aristóteles de cabelo em pé). E, veja bem, eu não digo isso como um tipo de crítica negativa às artes modernas (eu mesmo já cometi literatura conceitual e traduzi um livro sobre o assunto), pois há um motivo para essa mudança de ênfase, possivelmente fundamentada numa oposição à supremacia do entretenimento — o que, em todo caso, não é um assunto para tratarmos aqui neste espaço. Mas é importante reconhecer o fenômeno, independente dos juízos de valor.

É por isso, então, que eu digo que a magia é como culinária, uma outra forma de arte com menos liberdades. É possível apresentar 4 minutos e meio de silêncio, interrompido apenas pelos ruídos da plateia, como uma peça musical, ou produzir um disco de puro barulho como o Pulse Demon, do Merzbow. No entanto, se você vai cozinhar, o mínimo do mínimo é que o seu prato seja comestível. Se você produz um prato com cogumelos venenosos, arsênico, vidro moído ou bosta, pura e simples, o que você está fazendo não é culinária, mas alguma outra coisa. O ser humano tem muita tolerância a muita comida estranha, e há casos extremos como o casu marzu e o hákarl que demonstram alguns dos extremos da culinária, mas há limites ainda assim. Do mesmo modo, não importa o quanto o seu ritual seja esteticamente impressionante, se ele não funciona, se ele não faz nada ou, pior, faz o o oposto do que era para fazer, simplesmente não é magia (ou, pelo menos, não é magia eficaz).

E há outra dimensão em que essa analogia se aplica ainda. Quando a gente não sabe cozinhar, é imperativo seguir a receita. Quando você pega um pouco mais de experiência, é possível pensar em substituições, mas só alguém que realmente domine a coisa sabe construir seus pratos sem seguir receita alguma, orientando-se apenas pelo seu conhecimento, intuição e domínio das ferramentas. Se você não sabe o que está fazendo, substituir um ingrediente por outro arrisca arruinar o prato. A magia funciona na mesma linha… só que não tem a opção de não comer o que você cozinhou e pedir delivery em vez disso. E aí, quando dá ruim, é preciso consultar alguém que manje de verdade para desfazer. A Maíra tem umas histórias ótimas da época em que ela estava no Instituto Pranaterapia no Rio de Janeiro e volta e meia chegava gente que havia se fritado por conta de trabalho mal feito com a kundalini (que um outro espaço, New Age, conduzia bem à moda caralha a algumas quadras dali). E, claro, todo mundo que trabalha em terreiro já atendeu o pessoal que fez uns rituais sem pensar direito e se fodeu.

De novo, isso não quer dizer que não é possível substituir componentes em rituais, mas é preciso experiência, domínio do sistema em questão e, de preferência, algum contato do outro lado, como os seus guias, o Sagrado Anjo Guardião ou algo do tipo. No mais, eu recomendo alguma humildade, antes de tudo. O mundo esotérico é vasto. Sempre vai ter algo que escapa do seu domínio, e aí, se você quiser brincar disso, você pode reconhecer a própria ignorância, ficar quietinho e ouvir o que as pessoas experientes têm a dizer ou você pode espernear — “não, porque eu sou um maçom de nível 69, fui consagrado como Ipsissimus no Templo do Unicórnio Dourado, não vou perder meu tempo sendo tratado como iniciante”. Depois que você dominar a técnica, aí sim você pode experimentar, até porque você vai saber o que fazer caso o experimento não dê certo. Essa é uma coisa que parece óbvia, mas, pelo tanto de perguntas que vemos por aí sobre isso, claramente não é — e, a julgar pelos comentários do site Tudo Gostoso, é um problema de que a magia e a culinária partilham.

* * *

[1] “Pagão” vai aqui entre aspas porque a base religiosa dos PGM é o culto politeísta a uma grande quantidade de deuses gregos, egípcios e tudo mais, no entanto havia a noção de que todos os deuses eram subordinados a uma divindade suprema e transcendente (como costuma ser a postura do hermetismo). Além do mais, havia presença também de elementos abraâmicos, como nomes divinos judaicos, anjos e, em alguns casos, até mesmo Jesus.

1 comentário Adicione o seu

  1. Claudio Pereira disse:

    Uma turma pequena é a de magistas, que estudam bioenergia, visualização, formas-pensamento, hermetismo, a ligação prânica entre o Homem e o Universo, e assuntos correlatos. E há uma turma grande que não passarão de copiadores de fórmulas/receitas.

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