O papel da crença na magia

Para começarmos já sem meias palavras: “crença” é um termo infeliz, como quero demonstrar neste texto. Apesar disso, é um termo que insiste em volta e meia aparecer nas discussões esotéricas, por motivos que, como veremos, parecem um tanto equivocados — pelo menos, da forma como eu vejo. Eu sei que talvez isso incomode algumas pessoas e eu não gosto de criar polêmica barata, mas é algo que me incomoda e sinto que eu deveria falar sobre isso.

Mas por que infeliz? Bem, para começo de conversa, o substantivo “crença” e os verbos “crer” e “acreditar” são ambíguos. Há dois contextos, totalmente diferentes, em que eles são usados.

O primeiro contexto é, para dar um exemplo, quando você sai de casa, olha o céu fechando, o vento úmido e diz, “Hm, creio que vai chover”. É um uso banal do verbo e sinônimo de “achar”, que serve para fazer declarações que são um pouco mais pessoais e menos enfáticas do que o fatalista “vai chover”. Nessa situação, você está usando a sua capacidade racional e intuitiva para estabelecer uma previsão do futuro, mas não pressupõe qualquer opinião forte ou envolvimento emocional sobre a possibilidade de chover ou não. Você sabe que há certos sinais que prenunciam chuva, identifica esses sinais no céu e julga que há uma chance de isso acontecer. Sequer é preciso dedicar mais do que cinco segundos de atenção ao assunto. Nós fazemos isso o tempo inteiro, e é sempre um misto de um processo racional e intuitivo, levando em consideração nossas experiências prévias, o que sabemos sobre o mundo, lógica e o famoso gut-feeling[1] para moldar as nossas ações de acordo. É o modo normal de se engajar com o mundo.

O outro contexto é para falar de absurdos, coisas que contrariam o consenso sobre o real e que, por isso, exigem um esforço ativo dos crentes para afirmar a realidade da coisa em questão: “fulano acredita em fadas/fantasmas/duendes/alienígenas”. Nesse uso, na 3ª pessoa, quase sempre há, em relação ao que está sendo descrito, um tom de desconfiança, quando não deboche. Se eu digo “segundo alguns evangélicos, o retorno dos judeus a Israel vai dar início aos eventos que culminarão no Apocalipse”, a frase tem um tom relativamente neutro, por mais que eu não esteja me identificando com a situação. Agora se eu digo, “esses evangélicos acreditam que…”, eu já estou me separando do que está sendo descrito e apresentando a coisa como uma bizarrice (o que, é de fato, nesse caso). É uma palavra que constrói um cercadinho, como o de um zoológico. Quando falamos na crença dos outros, na melhor das hipóteses, quando é uma crença inócua e não um delírio que quase lançou o mundo em guerra nuclear, é como um animal exótico protegido sob risco de extinção. Se alguém afirma “eu respeito a sua crença”, o que está sendo dito é algo como “no fundo, eu a acho ridícula, mas, por qualquer motivo jurídico ou social, não posso falar mal, e é inofensiva o suficiente para não me afetar”. Se você precisa dizer “eu respeito a sua crença”, você está, na verdade, a um passo de desrespeitá-la.

Em termos do discurso esotérico, dá para entender o porquê de esse segundo uso de “crença” ser um problema. Magia, a conjuração de espíritos, a invocação de deuses, trabalho energético — tudo isso é entendido pelo consenso ocidental como bobagem, coisas que não existem, porque o modelo de realidade materialista dita que não podem existir. É o esperado, portanto, que o termo seja usado contra nós: “essa gente doida acredita em magia”.

Óbvio que eu reconheço que a prática mágica é uma coisa excêntrica, por isso não posso rechaçar demais os materialistas por pensarem assim. Porém, o problema é deles — não sou eu que preciso lidar com a vida sem as ferramentas que o esoterismo me deu, e se alguém acha que é ridículo, bem, paciência, direito deles. Mas, quando as pessoas do meio falam em crença, aí temos um problema, especialmente porque 1) muita gente é da opinião de que crença é um elemento fundamental para a magia e 2) é, com frequência, uma forma bastante preguiçosa de se encerrar um debate.

Kiss of the Muse, arte de Alex Grey

Magia e crença

Mas, espera, como assim crença não é um elemento fundamental para a magia?

Bem, nisso temos o problema da confusão dos dois sentidos. No primeiro sentido do termo, mais fraco, é óbvio que a crença faz parte da prática, porque é como a gente funciona para tudo. Estamos o tempo inteiro avaliando nossos arredores e elaborando hipóteses sobre os eventos do mundo com base no que sabemos e sentimos. Imagine alguém que todos os dias pega um ônibus no mesmo ponto. Se você chega para essa pessoa enquanto ela está parada, esperando o ônibus, e pergunta se ela acredita que o ônibus vai chegar, ela provavelmente vai ficar meio atordoada e responder algo como “por quê? aconteceu alguma coisa?”. É óbvio que ela acredita, sim, senão não estaria esperando o ônibus lá, mas a ideia do segundo sentido, de que é necessário fazer um esforço ativo para acreditar no ônibus, sequer passou pela sua cabeça. 

Como eu entendo a questão, essa é a lógica para a maioria dos praticantes mais experientes de magia que eu acompanho. As coisas estranhas, que são impossíveis ou irreais para os materialistas, viram parte do seu cotidiano. Há um total de zero investimento psíquico ou emocional em crer nesse caso, a coisa simplesmente passa a fazer passivamente parte da forma como você vê o mundo.

A noção de que é preciso fazer um esforço ativo para acreditar na magia ou para se acreditar num sistema mágico específico, porque é algo tão contrário a tudo que nos dizem sobre a realidade é, ela mesma, sintomática. Não por acaso, podemos identificar (ou pelo menos eu identifico) suas origens na Magia do Caos, o sistema ou metassistema mágico do cético por natureza. Para o caoísta do começo dos anos 1980, a única coisa que explicaria como é que correntes tão distintas como, por exemplo, a Cabala prática, o Hoodoo e a magia daoísta podem todas funcionar, apesar de terem como base cosmologias e filosofias concorrentes, seria o poder da crença. Para um caoísta old school prototípico, a magia de um praticante de uma tradição qualquer funciona porque ele acredita tanto naquele conjunto de símbolos que consegue enganar o seu subconsciente o bastante para que ele opere milagres… mais ou menos como aqueles shows de proezas que as pessoas realizavam sob hipnose no começo do séc. XX. Eu entendo que essa foi a conclusão a que eles conseguiram chegar nos anos 80 e 90 para entender toda magia que desviasse do modelinho fechado da Cabala hermética que dominava a cena oculta inglesa do período e eu não quero me repetir aqui, porque já critiquei o suficiente esse pensamento no meu texto anterior sobre Magia do Caos, mas tem alguns erros a mais aí.

Segundo essa hipótese, um cabalista consegue fazer magia cabalística porque acredita que canaliza a energia de Deus por meio das letras hebraicas e nomes divinos, e esse furor da crença permite que ele faça o que faz. Mas se os símbolos em si não importam, então, uma vez que se chega a essa conclusão que o que importa é a crença, pra que alguém iria se ater aos termos restritivos desses sistemas pré-estabelecidos? Por que se dar ao trabalho de estudar as letras hebraicas, os vastos e complexos volumes do misticismo judaico e seguir o seu código de conduta? O Frater U. D., em seu High Magic[2], um dos expoentes do caoísmo dos anos 90, diz, mais de uma vez, que “um magista escolhe sua crença como um cirurgião escolhe suas ferramentas”, mas, se não existe nada de mais substancial na crença, o que impede você de criar a sua própria e construí-la de acordo com o que é mais conveniente? Um sistema mágico escatológico que fosse criado com base na ideia de que você atrai prosperidade toda vez que coça o saco (pois saco = fertilidade, claro!), que atrai amor quando arrota e que é preciso parar de tomar banho para não mandar a sua sorte embora pelo ralo seria muito popular, aposto, entre certos meios da internet deficientes em higiene básica, pois não exige esforço nenhum, só crença. Ele também seria, do meu ponto de vista, completamente inútil… mas, claro, nada te impede de testar (de preferência longe de mim).

Em segundo lugar (e isso é o mais dramático), é possível obter resultados, pelo menos com certos sistemas, mesmo descrendo. E é possível cometer erros técnicos mesmo estando crente de que você estava prosseguindo corretamente. Ambas as coisas já fizeram parte da minha própria experiência, aliás. 

O ponto em que a crença pega é que muito da literatura caoísta diz respeito a trabalhar com deuses, e aí o caoísta médio, de background ateu ou ex-cristão, precisa fazer um esforço para acreditar que os deuses existem — pelo menos, como dizem, durante o ritual, e aí depois você pode voltar a descrer, o que é um tiro no pé, porque impede que uma relação devocional mais profunda e poderosa se desenvolva. E, de novo, temos um erro conceitual aí, pois esse esforço para crer só é necessário porque a ideia de que eles não existem foi previamente entranhada, junto com a ideia de que a magia é impossível e que é bobagem. Logo, o verdadeiro trabalho inicial não deve ser no sentido de crer ativamente, mas sim de se desfazer dessa bagagem prévia e entrar no seu espaço ritual aberto, livre de expectativas e maus hábitos mentais (meditação ajuda muito nisso, aliás). Nesse estado, é possível observar o que acontece a partir de então. Você pode fazer um puja a Ganesha, por exemplo, com a oferenda certinha e repetição de mantras, sem necessariamente um forte investimento de crença nele, e eu te garanto que algo vai acontecer… o que você não pode fazer é pensar “ah nada disso é real mesmo, vou fazer qualquer coisa e foda-se” ou se autossabotar porque não consegue fazer a sua monkey mind parar de falar que isso é bobagem e que Ganesha não existe. Só foca no ritual e vai.

A ideia de que os deuses precisam que você acredite neles tem uma data e local de nascença: a Galileia do começo da era cristã.

Crença e cristianismo

A primeira vez que eu li a palavra “ateu” em uma obra da antiguidade foi na Eneida, de Virgílio, livro VIII, usada para caracterizar o personagem Mezêncio, descrito como um tirano cruel. O termo, porém, não era de todo adequado: foi a forma que Odorico Mendes, tradutor maranhense do séc. XIX, encontrou de verter a expressão latina contemptor divum, “que despreza os deuses”. É óbvio que não faria o menor sentido Mezêncio ser ateu na acepção moderna: a Eneida é uma obra épica em moldes clássicos, onde os deuses interagem com a humanidade com alguma frequência. Em vez disso, a sua impiedade repousa no fato de que ele os despreza, em oposição ao pio Eneias, protagonista do poema. Para um pagão antigo, a relação com os deuses nunca se baseou em crer na sua existência ou não, mas no dever de honrá-los e reconhecer sua divindade. O rei Penteu, em As Bacantes, de Eurípedes, é atormentado pelo deus Dioniso, não por negar que ele exista (Dioniso interage com ele o tempo inteiro, como que você nega algo que está bem na sua frente?), mas porque se recusa a reconhecer sua divindade, por se tratar de um deus estrangeiro.

O momento em que a crença se torna importante para a religião é quando Cristo aparece, e o motivo para isso é que o cristianismo exige que você aceite o impossível (o meu segundo sentido de crença, portanto). As religiões anteriores não exigiam que você acreditasse nos mitos literalmente e nem pensasse nos deuses como indivíduos que de fato ocupam este mesmo plano da existência. No entanto, para ser cristão é preciso acreditar que 1) um Deus onipotente teve um único filho, que 2) encarnou e morreu na cruz para nos salvar de nossos pecados e, depois, 3) ressuscitou. Mesmo que, em 99% do tempo, você seja um materialista, é preciso abrir essa brecha para o milagre da ressurreição. Sem essa crença, não tem salvação, simples assim. Houve, claro, aqueles que, no princípio do cristianismo, tentaram amenizar essa dissonância concebendo várias possibilidades cristológicas, como a do docetismo, a ideia de que a forma física de Cristo era, na verdade, uma ilusão. O que aconteceu com essas ideias antigas foi que elas foram formalmente condenadas pela Igreja como heresias. E a forma como as autoridades lidaram com isso foi mandando esse pessoal com “essas crenças erradas” para a fogueira. 

É muito estranho pensar nisso, mas essa foi uma época em que aquilo que você pensava no seu âmago, mesmo que não tivesse qualquer impacto sobre a forma como se praticava a religião, tornou-se uma questão de vida ou morte. A perseguição religiosa não era novidade no mundo antigo — os gregos e romanos já perseguiam os judeus, por exemplo — , mas sempre houve outras questões envolvidas, que eram étnicas, políticas e materiais. 

A gente esquece disso hoje, provavelmente porque a Reforma (que só aconteceu porque a conjuntura política foi muito propícia para que Lutero escapasse da fogueira) abriu as porteiras para todo tipo de interpretação do cristianismo, não importa o quão bizarra — tipo a ideia de que Jesus voltou na forma do Inri Cristo. Como comenta G. R. Evans, em A Brief History of Heresy, “os cristãos de hoje podem muito bem descobrir que, sem o saber, são na verdade arianos ou nestorianos ou monotelistas eutiquianos e que não seriam capazes de declarar a sua fé em Cristo em termos que a Igreja, ao longo dos séculos, aceitaria como ortodoxos”. Mas aí o estrago epistemológico já estava feito.

Desde que existem cidades, sempre existiram templos para servir de intermédio entre a população e o divino, mas a criação de uma instituição capaz de regular o pensamento em larga escala, sobre um amplo território, e condenar quem pregasse a mais irrelevante divergência foi uma inovação (e das mais nefastas). Na Antiguidade pagã, observa-se todo tipo de crenças, ou suposições feitas sobre os deuses. Há discussões sobre o que exatamente define um deus (em oposição a outras categorias de seres extrafísicos), qual a melhor forma de oferecer sacrifícios a eles (e o porquê de eles precisarem, ou não, de oferendas), qual a melhor forma de distinguir os grupos de deuses e quais deuses são na verdade um mesmo deus, e assim por diante. Todas essas questões são importantes, claro, porém secundárias — nenhuma delas aponta para a negação da religiosidade. São nuances da fé, e o seu debate serve como uma forma de manifestação da criatividade humana (não por acaso, muita teologia já foi feita na forma de poesia e arte no geral) e para enriquecer a cultura religiosa. Quando os cristãos suprimiram esse debate afirmando uma única forma correta de pensar o divino, na minha opinião, eles fizeram mal não apenas ao cristianismo, como também a todo o modo ocidental de pensar a religiosidade no geral. 

Mas por que estou falando tanto do cristianismo? Justamente porque foi aí que a crença individual se tornou um conceito importante, a ponto de ser motivo de condenação. E veja que não é possível nem mesmo falar em “pensamento judaico-cristão” (um conceito que muitos judeus consideram aberrante, com razão), porque a crença não é um elemento crucial, nem natural ao judaísmo.

Como comenta G. R. Evans, a partir do séc. XVI começou a surgir alguma ideia de tolerância entre cristãos, de que essas diferenças de nuance teológica não são divergências fundamentais, mas persiste a noção de que é preciso e relevante comprar um pacote fechado de crenças. O fato de que alguns caoístas operam por esse mesmo método para trabalhar com a magia aponta para uma herança involuntária desse modo cristão de pensar.

O termo crença usado para encerrar discussões

Por fim, para não nos alongarmos demais, tem o uso de crença tal como ele aparece às vezes em debates sobre práticas mágicas. A situação: pessoa A fala de uma certa técnica, e a pessoa B diz que essa técnica é inválida por algum motivo. A pessoa A responde “bem, essa é a sua crença”… e morre aí a discussão.

Temos algumas possibilidades nesse caso. É possível que a técnica da pessoa A de fato tivesse problemas, que foram apontados pela pessoa B — por exemplo, brincar de incorporar pomba-gira dentro do próprio quarto ou conjurar espíritos da Goécia sem círculo. Mas é também possível que a pessoa B estivesse equivocada, seja pelo dogmatismo de achar que uma variação possível e válida está errada apenas por ser diferente do que ela conhece, seja porque a pessoa B aprendeu algo que ela entende como verdade absoluta quando é apenas superstição. Tem vários exemplos clássicos disso, tipo a ideia de que se você faz cura esotérica, você não pode cobrar (o palhaço do Samael Aun Weor propaga essa); de que você não pode comprar seu primeiro tarô, ele tem que ser presente; ou então que não pode acender vela em casa, porque atrai espírito ruim. Mas outros casos são mais sutis, e eu já vi muita gente surtando na internet se você fala em tomar banho com sal para limpeza[3]. 

E existe ainda a possibilidade de as pessoas A e B terem aprendido suas práticas a partir de tradições totalmente diferentes, que tratam de um mesmo assunto sob óticas distintas. Nesse caso, às vezes de fato uma tradição está objetivamente errada, mas com frequência o que acontece é que elas usam vocabulários diferentes e igualmente válidos. A questão da simbologia das cores, por exemplo, é um problema por isso, porque o sentido de cada cor varia demais de uma tradição para outra.

Em nenhum dos casos, no entanto, a crença tem qualquer papel no processo. O uso da cor azul para trabalhar com Júpiter, por exemplo, na magia astrológica, funciona não porque eu pessoalmente acredito que a cor azul está associada a Júpiter, mas porque existe um sistema com essa convenção, ao qual as forças que reconhecemos como jupiterianas (podemos falar em termos de espíritos e energias) respondem. Ao mesmo tempo, existem certas técnicas que não são confinadas a um sistema específico — como usar sal para limpeza ou colocar a língua no palato, uma prática bem conhecida do Qi-gong e da Cura Prânica, que facilita a circulação da energia pelo corpo e que pode ser incorporada facilmente em práticas energéticas ocidentais. De vez em quando esbarra-se em certas coisas que são verdades sobre o funcionamento do mundo oculto independentes do restante do conjunto de símbolos que constitui o vocabulário de uma tradição… e são ainda mais independentes de você acreditar nelas ou não.

Talvez por ser tabu, o tema da magia maléfica costuma estar embrenhado em discursos sobre crença, tanto do lado de quem lança a maldição quanto de quem recebe. Do lado da vítima, existe um discurso que diz que quem não acredita em magia está imune a maldições… o que só é verdade num sentido muito, muito limitado. Essa pessoa pode até estar imune aos efeitos psicológicos de achar que foi amaldiçoada (que aflige muita gente paranoica no meio mágico, é verdade) ou de encontrar um boneco espetado com umas velas pretas na porta de casa, o que qualquer palhaço pode fazer como pegadinha. Mas o cético está, na verdade, é muito vulnerável a qualquer um que saiba o que está fazendo, porque não vai ter nenhuma proteção que uma pessoa mais religiosa poderia ter, nem método para diagnosticar ou combater os efeitos da praga.

Agora da parte de quem lança tem o problema que é achar que é possível fazer essas coisas com completa impunidade. Eu entendo que o meio ocultista ocidental teve uma onda de reação contra a ideia da Lei Tríplice, tal como propagada pelos wiccanos, bem como toda a postura irritante de um tipo de wiccano mais caricatural que é muito próxima da que se observa num pessoal mais New Age paz e amor, geralmente meio hipócrita. Aí a lógica passa a ser de que, se essa gente mala fala para não rogar praga, aí sim que eu vou rogar praga mesmo, pau no cu deles! Bem, eu já falei sobre isso no meu texto sobre como complementar sua magia de prosperidade, em que admito a minha falta de compreensão sobre o assunto do karma e justamente por isso a minha relutância em jogar fora esse conceito e tratar todos os sábios que já falaram disso como se fossem idiotas. E eu reitero o que eu digo lá, que eu já vi mais de um caso de gente que pesou a mão em sair rogando praga por aí e acabou surtadaço. É muita ingenuidade, após você ter acesso ao mundo invisível e a toda uma lógica até então oculta, presumir que as ações não têm consequências. E, pior, a tentativa de conciliar essa visão mais hex-positive com o fato de que muita gente adere à Lei Tríplice concebeu a aberração cognitiva que é afirmar que “só volta para você se você acreditar que volta”. De novo, eu volto ao meu exemplo da crença em atrair prosperidade coçando o saco. Se é só acreditar, então não tem a menor necessidade de desenvolver as melhores técnicas e nem de tomar precauções, basta pensar positivo.

É. Segura agora esse efeito ferradura em que o caoísta se encontra com o New Age. E é irônico, porque o Phil Hine, em Condensed Chaos, afirma que a excelência técnica é um dos princípios do Caos. Mas claramente não dá para ter as duas coisas.

Por esses motivos, falar em tradições (e, talvez, sistemas) é muito mais relevante do que crença, porque a crença pode ser individual e idiossincrática, ao passo que as tradições são maiores que os indivíduos. É claro que é muito complicado afirmar que uma tradição (ou sistema) está equivocada, mas acontece e você pode ver o resultado diretamente na vida das pessoas que a praticam. Ao tratar tudo com a cerca de zoológico em torno do animal exótico que é o termo “crença”, não tem como ninguém melhorar a própria prática, porque não tem como questionar o que funciona ou não, o que é supérfluo e o que é essencial.

Mas, reconheço, é um ótimo modo de se encerrar uma discussão com gente chata na internet.

* * *

[1] Nós gostamos de fingir que somos criaturas perfeitamente racionais e tomamos decisões com base na lógica, mas o fato é que, se você se orientar inteiramente pela lógica, você nunca mais vai conseguir tomar uma decisão na vida. Tem uma história muito interessante sobre isso, de um homem que perdeu a capacidade de processar sentimentos após sofrer dano cerebral e isso virou a vida dele do avesso nesse sentido (link aqui).

[2] Como eu disse anteriormente, eu ainda gosto desses livros do Frater U. D. para iniciantes pela quantidade de material que ele apresenta para incorporar à sua prática, mas com frequência discordo de como ele entende o funcionamento da magia.

[3] Segundo essa superstição, o sal tiraria as energias boas junto com as ruins. No entanto, é uma prática comum na Cura Prânica o banho com sal fino (não grosso, porque arranha demais a pele), esfregando-o nos pontos onde se localizam os chakras. A Cura Prânica é uma escola extremamente séria, fundamentada desde o começo na ideia de que ninguém deveria seguir as palavras do seu fundador, o Mestre Choa Kok Sui, de forma irrefletida, e dotada de ferramentas para medição que permitem averiguar as coisas e não apenas se orientar por achismos. Eu mesmo sou testemunha do poder das técnicas dessa escola.

1 comentário Adicione o seu

  1. Nivartan disse:

    Estava assistindo esses dias um vídeo do Mário Sergio Cortella intitulado: o importante é saber o que importa. Quando leio seu texto compreendo o ponto em que, na maiorias dos casos, o elemento por si só já realiza a sua função, como, por exemplo, o sal. Não importa se você acredita ou não, o Sal vai realizar um descarrego energético no seu campo magnético. Mas como você também pontuou, munir-se das ferramentas com qual o magista tem afinidade garantirá melhores resultados para a sua prática mágica. Mesmo sendo religioso, também não gosto de quem detém a verdade sobre as práticas mágicas. O que é certo e errado? Tem gente que faz milagre rezando o terço, tem gente que fala (verbo) e acontece. Eu acredito que o importante é ter coerência e abertura para entender outros pontos de vista. A magia não é posse de ninguém. É muito bom ver essa sua reflexão aqui. Obrigado pelo texto. Grande abraço.

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