Os quatro elementos da alma em Bardon e Chayim Vital

Alguns meses atrás aqui no site, nós tratamos da questão do que eu chamei pelo nome de “mudança interna”. Como dito, essa prática de refinamento do caráter é importante para todo mundo que busca algum tipo de sentimento de realização na vida, mas é especialmente crucial para quem pratica magia e tem uma vida espiritual. E, dentro de várias correntes, esse processo tende a ser feito sob a orientação do conceito dos quatro elementos clássicos. O texto de hoje é sobre algo que foi, para mim, uma descoberta interessantíssima e que eu gostaria de trazer para vocês, porque esses nomes que eu menciono neste título – o ocultista Franz Bardon e o cabalista Chayim Vital – não são nomes que se costuma ver serem associados normalmente, mas que, como veremos, partilham de uma interconexão profunda em sua abordagem ao tema.

Primeiramente, acredito que todo mundo que tem algum contato com o ocultismo, a magia e o esoterismo está familiarizado com os quatro elementos: fogo, ar, água e terra (mais o quinto, chamado de quintessência, éter, espírito ou Akasha). Aliás, mesmo que você não tenha nenhuma leitura esotérica, você provavelmente conhece o conceito, dada a sua penetração na cultura, inclusive a cultura pop. Se você não sabe do que se trata ou se a cultura pop é o seu único contato com o conceito, temos uma série mais antiga de textos aqui em três partes detalhando as origens desse conceito, sua penetração no esoterismo e algumas de suas aplicações na prática. Vocês podem ir lá ler e voltar neste texto depois.

Os quatro elementos, arte digital baseada em Ulrich Ruosch, Das Alchemiehandbuch des Appenzeller Wundarztes. Fonte.

Um nome que é frequentemente mencionado aqui n’O Zigurate é o do ocultista tcheco Franz Bardon. Em termos dos elementos, o equilíbrio elemental em nossos corpos sutis é, para ele, uma parte crucial do desenvolvimento do adepto. Aliás, no título deste texto eu usei “alma”, porque é como aparece na obra de Bardon, Seele (embora eu mesmo prefira usar esse termo para descrever uma outra coisa1). Nesse caso, Bardon está trabalhando com os elementos em seu entendimento microcósmico, i.e. com os reflexos do fogo, do ar, da água e da terra no pequeno universo que é a nossa psiquê, a interioridade humana. Assim, resumidamente, o fogo remete à nossa vontade, o ar ao nosso intelecto e capacidade de comunicação, a água às emoções e a terra à nossa materialidade.

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Um dos primeiros exercícios que Bardon ensina ao seu neófito no primeiro livro de sua trilogia iniciática, Magia Prática: o caminho da adepto, é o chamado “espelho da alma”. Nesse exercício, você precisa fazer uma lista honesta com todas as suas fraquezas e qualidades. Depois, essas fraquezas e qualidades são enquadradas pela moldura teórica dos quatro elementos, e a partir daí é possível ter uma ideia da distribuição dos elementos em nós mesmos. Por exemplo, a criatividade é uma qualidade positiva referente ao fogo. Já a raiva e a impaciência são características também do fogo, mas na dita polaridade negativa. Ser uma pessoa prática e pragmática, pé no chão, são qualidades da terra, ao passo que a tendência ao pessimismo e à melancolia são os problemas que esse elemento pode trazer. Uma pessoa criativa e impaciente tem as características do fogo tanto positivas quanto negativas, mas não necessariamente toda pessoa criativa vai ser impaciente também. É perfeitamente possível ser criativo, pegando o lado positivo do fogo, sem as suas características negativas, mas manifestar, em vez disso, as características negativas da terra, por exemplo, de onde temos os artistas pessimistas e melancólicos. Dá para encontrar essas distribuições em todas combinações possíveis.

Tem muitas coisas interessantes que podemos apreender a partir de um espelho da alma feito com honestidade, sem disfarçar, nem enfatizar demais os nossos defeitos. Às vezes é possível observar que uma pessoa tem um excesso tanto de qualidades quanto de fraquezas referentes a um mesmo elemento, explicitando a sua presença avassaladora na constituição do indivíduo (o que pode também coincidir com as informações astrológicas reunidas a partir da sua carta natal). Às vezes as qualidades ficam limitadas a um ou outro elemento e as fraquezas ficam com os elementos opostos. E, claro, o mais importante é que esse mapa não é apenas para você olhar e ficar pensando “ai, nossa, eu tenho tanta presença do elemento fogo, eu sou muito especial“, mas sim usá-lo como uma ferramenta para o refinamento do caráter, para entender o que é preciso mudar.

Para ilustrar essa questão, cito aqui o próprio Bardon na seção “Instrução Mágica do Espírito” no Grau VII de Magia Prática:

As pessoas que têm uma grande força de vontade, e com isso não queremos dizer que são só teimosas, mas que realmente têm uma força de vontade muito intensa, têm como elemento predominante o fogo. Se no espírito do mago predominarem o intelecto ou a razão, em todos os seus aspectos, então concluiremos que o elemento mais representativo é o ar. Se ele for uma pessoa sensível, então o elemento água é o que representa o papel mais importante em seu espírito, e se ele tiver uma memória fraca, então é porque a sua consciência é influenciada de várias maneiras, e podemos dizer com certeza que o elemento terra assumiu a supremacia.
Essa distribuição serve para constatar o efeito dos elementos no espírito e organizar a evolução de forma a obter o equilíbrio dos elementos mais fracos através de exercícios adequados de concentração e de meditação profunda. O mago não deve permitir que um dos elementos predomine, como o princípio do fogo, o do ar, da água ou da terra, e deve distribuir seus exercícios para equilibrar os elementos em questão através de um trabalho intensivo. Apresentaremos um exemplo para que isso fique mais claro.
Suponhamos que o mago tenha um intelecto muito desenvolvido, mas uma vontade fraca, que não corresponde à maturidade desse seu intelecto. Nesse caso ele deverá empenhar-se em fortalecer a vontade através de exercícios de concentração adequados (…). O mago deverá desenvolver seu espírito de forma totalmente harmônica em relação aos elementos.

Bardon é enfático quanto à importância de manter o equilíbrio e a harmonia dos elementos para o magista em desenvolvimento. Sem esse cuidado, a tendência é que nossas falhas sejam amplificadas, aprofundando ainda mais essa desarmonia. E a desarmonia traz consequências. Na introdução do livro, em que explica o conceito básico dos elementos, ele afirma: “Não há nem mesmo a necessidade da predominância de uma desarmonia muito grande dos elementos para que o efeito se torne visível sob a forma de algo que chamamos de doença. A desarmonia em forma de doença já é uma perturbação importante nas regiões do corpo em que operam os elementos”. E, conforme avançamos na leitura, fica evidente que o conceito de doença a que Bardon alude não se resume às doenças do corpo físico. Já falamos aqui anteriormente do problema do magista desequilibrado que perde os parafusos todos no processo de explorar a magia, em Quando magistas enlouquecem.

É interessante que Bardon insista nessa questão do refinamento elemental, mas ele não inventou nada disso. Aliás, eu não acho que seja possível dizer com certeza quem inventou a ideia do equilíbrio interno dos quatro elementos na magia – seria preciso fazer uma pesquisa profunda na bibliografia do ocultismo para chegarmos a essa informação. Em algum ponto do caminho, pelo menos, um nome que eu descobri recentemente que faz parte da história desse desenvolvimento (e que me pegou de surpresa, porque eu não sabia desse envolvimento) é o do cabalista Chayim Vital.

O túmulo de Chayim Vital em Damasco, na Síria.

Chayim ben Joseph Vital (1542 – 1620) foi um rabino de Safed/Tzfat, na província da Galileia, e discípulo do Arizal, o grande mestre Isaac Luria (1534 – 1572). É um nome importante da vertente luriânica da Cabala, porque Luria, que morre aos 38 anos, não deixou quase nada por escrito. Vital, por outro lado, foi o autor de vários volumes e assumiu a liderança como representante da escola. Para os propósitos do que estamos discutindo aqui, vamos falar de um de seus livros, o Shaarei Kedusha – “Portais da Santidade”, em hebraico. Como muitas outras obras cabalísticas, esse livro não é exatamente acessível. A edição a que eu tive acesso é de 2006, numa versão para o inglês traduzida por Fabrizio Lanza, Shaarei Kedusha: Gates of Holiness, para a editora da Providence University sob o título Shaarei Kedusha: Gates of Holiness.

Logo nas primeiras páginas da introdução desse volume, Vital diz o seguinte:

Já sabemos que o bem e o mal se misturaram em todos os mundos e por isso também no Nefesh humano. Pois o Nefesh foi derivado dos quatro elementos espirituais, as quatro letras do nome de D’us, do qual todas as criaturas superiores foram feitas, como está escrito (Ezequiel 37:9): ‘Vem dos quatro ventos, ó espírito’. (p. 7).

O nome divino a que ele se refere, claro, é o Tetragrama, as letras yud, hê, vav e hê ou YHWH – já falamos disso anteriormente também. Cada uma dessas letras está associada a um elemento na Cabala luriânica: yud, a letra mais sutil (praticamente um pingo), é a letra do fogo, o elemento mais sutil, e então vamos seguindo com um elemento mais denso a cada letra, ar no primeiro hê, água no vav e terra no segundo hê. No mais, o que é traduzido do hebraico pelo termo “elementos” é yesodot, o plural de yesod, que significa “base”, “fundação”, e é também o nome da 2ª sefirah mais baixa na Árvore da Vida, situada logo acima de Malkut. Em todo caso, são obviamente os nossos quatro elementos, mas é interessante observar que 1) em hebraico, esses elementos são fundações, alicerces e 2) fica essa sugestão da conexão com a sefirah de Yesod, que é cabalisticamente onde as almas são geradas, enquanto equivalente dos genitais no corpo humano.

Vital traça, então, um esquema interessante a partir do qual os quatro elementos emanam das quatro letras do Tetragrama para então formarem a nefesh humana. Nefesh é, claro, uma das palavras em hebraico para “alma”. Mais especificamente, ela descreve a parte da alma ligada à nossa energia vital. Sobre o tema, Geoffrey Dennis a descreve nos seguintes termos na Encyclopedia of Jewish Myth, Magic and Mysticism:

Alma animal/Energia vital. A nefesh é a vitalidade fundamental que anima toda vida senciente. É a parte mais baixa da estrutura triádica da alma humana, sendo as partes mais elevadas ruach e neshama. Após a morte, a nefesh é a parte da alma que permanece no mundo, capaz de comungar com os vivos (Zohar I:224b; III:70b).

Traduzindo para o esquema do arranjo teosófico, eu diria que há uma equivalência entre a nefesh e o corpo etérico (que é o nosso reservatório de prana, energia vital), com alguma sobreposição com o corpo astral também, talvez o dito “astral inferior”. Chayim Vital em Shaarei Kedusha vai falar longamente da nefesh: há uma equivalência desta com o corpo físico e diz ele que a nefesh também tem órgãos, que são nutridos pela energia do alimento espiritual obtido com o cumprimento das mitzvot, os deveres religiosos e espirituais do judeu. A nefesh é constituída dos quatro elementos, como vimos, que encontram sua origem nas letras hebraicas do Nome divino. Então, na medida em que o bem e o mal estão “misturados em todos os mundos” (um tema cabalístico recorrente), dos elementos partem igualmente características positivas (de origem divina) e negativas (de origem klipótica).

Sobre o lado negativo dos elementos, Chayim Vital diz o seguinte:

O elemento do fogo é o mais leve e elevado dos elementos. É a fonte da arrogância, chamada vulgaridade. Ela inclui a raiva, pois um homem arrogante se enraivece quando seu desejo é ignorado. (…) Essa característica de caráter é a origem de três outras: a mente destemperada, que é o resultado da arrogância enquanto raiva, o desejo pelo poder e honra, e o ódio por alguém mais elevado do que a própria pessoa.

O elemento do ar é a fonte do discurso vazio, do discurso sobre coisas imprestáveis ao espírito e ao corpo. É a fonte de quatro falhas de caráter: lisonja, mentira, calúnia e fanfarronice.

O elemento da água é a fonte da luxúria e aproveitamento dos prazeres físicos, pois a água é a fonte de todos os tipos de deleite. É a fonte de duas falhas de caráter: o desejo de roubar a propriedade e esposa de um amigo e se aproveitar dela e a inveja de um amigo que possui muita propriedade, com o desejo de derivar prazer dela.

O elemento da terra é a fonte da tristeza e todas as suas particularidades. É a origem de uma falha de caráter: ociosidade, ociosidade em observar a Torá e as Mitzvot. É a tristeza de um homem que não se satisfaz com o que tem e sempre quer mais, a tristeza causada pelas posses imprestáveis deste mundo. (p. 13)

Ilustração do místico Johann Georg Gichtel (1638 – 1710) com um esquema para a presença dos quatro elementos e sete planetas no corpo humano

E isso, para mim, é fascinante. Vital viveu 300 anos antes de Bardon, e não contente em estarem separados pelo tempo e pelo espaço, há também uma barreira linguística e cultural. Muito provavelmente seus escritos eram de difícil acesso no começo do século XX – e até hoje, né? O seu Shaarei Kedusha não saiu por uma Weiser ou Llewellyn da vida. Se foi um caso de transmissão direta ou indireta, se Bardon está bebendo de Vital por ter tido acesso a algum exemplar dessa obra ou da obra de alguém que o leu e comentou ou se apropriou dele, eu não sei. Como também não sei dizer se os dois não estariam bebendo de uma fonte em comum ou se – o que seria mais impressionante – foi o caso de terem chegado a algo como a mesma ideia de forma independente. Embora a dita tradição esotérica ocidental, na qual Bardon se insere, tenha bebido muito da Cabala judaica, é bom frisar que raramente isso se deu pela via da Cabala luriânica – um conceito chave como o de tzimtzum, por exemplo, você vai encontrar com mais frequência na obra de Harold Bloom do que na de Crowley ou Regardie.

Só sei que a gente observa, tanto em Vital quanto em Bardon, algumas aproximações cruciais: 1) a ideia de que uma parte dos corpos sutis do ser humano é constituída da energia dos quatro elementos; 2) que a presença desses elementos está conectada a certas características positivas e negativas; e 3) que é preciso purificá-los e equilibrá-los para a correção do caráter do indivíduo.

Quanto ao modo como isso é feito, claro, os autores vão divergir: Bardon está preocupado com questões de caráter num sentido mais amplo, e com exercícios de concentração, enquanto Vital, como um bom místico judeu, alinhado a essa tradição religiosa, enfatiza a importância de cumprir as mitzvot e seguir a Torá. Mas não deixa de ser incrível que essa conexão exista e, pior, que eu tenha esbarrado nisso por acaso, haja vista que nunca observei ninguém (ocultista, cabalista ou acadêmico) traçar essa aproximação. Não quer dizer que ninguém tenha comentado isso de fato, mas eu mesmo nunca vi e olha que eu não entrei nesta vida ontem.

Para quem tem interesse no assunto, recomendo a leitura comparativa dos trechos do Magia Prática com o Shaarei Kedusha. A tradução inglesa que eu li e citei acima está esgotada, saindo a 1400 dólares o exemplar usado, mas é possível encontrá-la caída do caminhão da internet, se você souber procurar… e tem outras traduções, como a do rabbi Aharon Samekhov, mais acessíveis também. Infelizmente não temos uma tradução em português que eu possa recomendar. Para quem tem interesse em entender a magia elemental mais a fundo num contexto da magia contemporânea, para além das receitas mais básicas, o melhor livro recente sobre o tema, na minha humilde opinião, foi escrito por Ivo Dominguez Jr., sob o título Four Elements of the Wise.

E, no que diz respeito a práticas de fato, eu mesmo tenho experimentado com técnicas de magia elemental nesse sentido de equilíbrio e purificação. Porém, claro, práticas que envolvem os corpos sutis um tema delicado e é preciso testar muito esse tipo de técnica antes de divulgá-la para que não façam mais mal do que bem. Uma vez feito esse trabalho, em algum momento no futuro próximo, veremos algo sobre isso aqui no site e nos nossos cursos. Enquanto isso, deixo vocês com essa questão teórica interessantíssima.

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E, por fim, lembramos que nós aqui d’O Zigurate, neste segundo turno, somos LULA 13. No Instagram, eu soltei um textão falando um pouco disso. Não dá para falar de espiritualidade, de refinamento de caráter, e ser omisso nessas horas, né.

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  1. Bardon utiliza “alma” (Seele) e “espírito” (Geist) para falar de partes de nossa anatomia sutil, mas como eu me oriento, espiritualmente, mais pela terminologia da escola do Pranic Healing, eu prefiro falar em alma para me referir à parte superior e imortal de nosso ser. ↩︎

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