O Treinamento da Quareia

Eu tive contato pela primeira vez com as ideias da Josephine McCarthy ao ouvir uma entrevista no podcast Glitch Bottle, onde ela aparece com alguma frequência — e com bom motivo, pois é uma figura divertidíssima, com um grande senso de humor, profundamente experiente e tem umas histórias maravilhosas. Mais recentemente, em Unweaving Magical Patterns & Thinking Sideways, ela responde a perguntas dos ouvintes num episódio de 4 horas. Magista e cartomante inglesa, Josephine está na ativa desde 1993, quando começou a dar aulas em grupos mágicos nos EUA e no Reino Unido, e é a autora de diversos livros, incluindo The Exorcist’s Handbook e Tarot Skills for the 21st Century: Mundane and Magical Divination.

Ao ler um livro como o The Exorcist’s Handbook, a primeira coisa que você percebe é que não é um livro de fórmulas e rituais prontos ou coisa do tipo. Pelo contrário, a abordagem de Josephine é oferecer um mapa dos planos esotéricos, entender como funcionam essas entidades que se convencionou chamar de “demônios”, suas funções no mundo e os motivos pelos quais eles agem de forma nociva, bem como a diferença entre um demônio propriamente dito e outras entidades com as quais eles costumam ser confundidos como parasitas e espíritos da natureza (que também podem causar muito estrago quando contrariados). A partir daí, é possível entender como diagnosticar os casos e como agir… se você for doido o suficiente para querer essa vida de exorcista (não é fácil, nem divertido). Caso contrário, só pela descrição de como as coisas funcionam e pelas anedotas, já vale muito a pena ler.

Boa parte do trabalho mágico de exorcismo, pelo método de Josephine, se dá em visão, i.e. no plano astral, um método bastante próximo do que entendemos como xamânico. Para algumas dessas visões, há um roteiro pré-determinado, como o caso da visão para ajudar a encaminhar uma pessoa que morreu recentemente, mas com frequência é preciso que você domine o suficiente a técnica para estar confortável no astral sem estar seguindo um roteiro — apenas recebendo as informações, com os sentidos astrais já bem desenvolvidos, e reagindo a elas, pois é assim que se dão os embates com os demônios em si. Esse domínio, na minha opinião, é o que define um adepto de fato, talvez não por acaso é também o método que o Franz Bardon pretende ensinar a seus leitores em seu Magia Prática: o Caminho do Adepto.

Eu diria que há uma filosofia mágica em comum entre o programa do Bardon e o que a Josephine oferece na Quareia, o site que ela administra junto com o Frater Acher, que também toca o blog Theomagica. A diferença é que ela é mais minuciosa, acessível e amigável com o leitor de um jeito que é possível no século XXI e que ainda não dava em meados do século XX, quando Bardon viveu e escreveu (não por acaso, tem tantos autores dedicados a explicar a sua obra). Mas a base é a mesma: em vez de ensinar rituais e fórmulas prontas para o iniciante, quando ele não sabe ainda nem controlar a própria respiração direito, há uma ênfase em dominar técnicas básicas, que se combinam e sobre as quais as técnicas mais complexas se constroem.

Esse, aliás, é o sentido do nome Quareia: do latim medieval (quareia, quarrea ou quareria), literalmente “local onde se faz a quadratura das pedras” que é a etimologia do inglês quarry, “pedreira”. Aí se observa bem essa ideia de construção, de criação de blocos que se somam a partir de uma base.

O que é especialmente interessante no site da Quareia é que ele oferece uma infinidade de .pdfs que constituem um curso inteiramente gratuito para o praticante solitário, em três níveis: Aprendiz, Iniciado e Adepto. Cada nível tem 10 módulos — e cada módulo, 8 lições. O primeiro módulo do Aprendiz inclui uma lição sobre técnicas de meditação, o básico do tarô, o básico da magia visionária, técnicas rituais, o desenvolvimento dos sentidos astrais (“interiores”), o uso de línguas sagradas e escritas mágicas, proteção mágica e astrologia. É bastante coisa já e é apenas o começo do começo! Um dos módulos trata só dos vários tipos de seres mágicos (como divindades, anjos e demônios), há outro sobre os poderes planetários e os elementos. No nível de Iniciado, rola a introdução ao exorcismo, à cura mágica, ao trabalho com espíritos locais, e assim por diante, e cada etapa vai aprofundando o que é visto anteriormente. No nível de Adepto, há um módulo só sobre o Arbatel, um grimório muitíssimo enigmático de magia astrológica, com o qual o Frater Acher vem desenvolvendo também um trabalho interessante (que você pode acompanhar neste post e em outros da Arbatel Experience).

Eu ainda não tive um contato mais profundo com o curso da Quareia, dada a vastidão desse material e o fato de que eu também tenho outras coisas com as quais eu mexo e é preciso fazer escolhas ao se determinar uma rotina mágica. Mas gostei do que eu li até o momento e a perspectiva da Josephine é bastante sensata e, por vezes, iconoclasta. Ela não tem medo de atacar algumas “vacas sagradas” do esoterismo ocidental como o conteúdo dos grimórios (que muitas vezes eram uma forma que magos de outrora acharam para tirar dinheiro de aristocratas) e a ideia de que a época dos romanos seria uma “era de ouro” da magia — quando, na verdade, ela defende que, dada a obsessão desse povo com controle e categorização, essa época foi é o princípio da decadência. Por esse motivo, é possível que a gente nem sempre concorde com as ideias dela, mas há um valor na provocação que não é apenas gratuita, mas parte de uma mudança de perspectiva, rompendo com esse acúmulo de mal entendidos que forma a história da magia ocidental e procurando algo de fundamental perdido aí no meio.

Para quem gosta dessa perspectiva e está procurando um programa de treinamento mágico que não seja o do Bardon ou do Echols, a Quareia me parece bastante recomendável. Infelizmente para quem não lê em inglês, o site está todo nesse idioma e os livros também ainda não foram traduzidos para o português – há links por lá para versões do curso em russo, holandês e francês, mas o projeto para a publicação em português é um projeto em andamento, pelo que a própria Josephine me falou.

Quem olhou O Zigurate aqui nos últimos dois meses viu que nós havíamos oferecido traduções para as lições 1 e 2 do primeiro módulo de Aprendiz, feitas pelo Leandro, ou “Frater Ribonucleico”, que é o nome com o qual ele apareceu no podcast Martelada de Hermes. No entanto, esse material foi removido aqui sob pedido da própria Josephine, já que, como dito, ela está desenvolvendo esse projeto de oferecer, num futuro próximo, uma tradução oficial das lições da Quareia em português. O que já existe no site da Quareia, publicado recentemente na seção Free Books, é uma tradução do Handbook for the Quareia Magicians Deck – Uma Guia Para o Significado das Cartas. A Josephine elaborou um baralho que não é exatamente um tarô, apesar de ter algumas alusões ao tarô, mas um oráculo com uma estrutura mais livre. Você pode conferir algumas das cartas (com belíssimas ilustrações) e uma explicação da ideia por trás dele neste link. Ele se baseia “em reinos interiores reais, contatos interiores reais, seres e forças com os quais é provável que o praticante de magia se envolva” e foi desenvolvido especificamente para uso dos estudantes do sistema Quareia. A fim de explicar o funcionamento desse baralho e como usá-lo, ela produziu um volume considerável (o arquivo tem mais de 100 páginas!) traduzido por J. D. Oliveira e publicado no site. Você pode conferi-lo clicando neste link aqui. E agora é ficar de olho no aguardo das próximas publicações!

(Este texto foi publicado originalmente no dia 7 de junho de 2021. Esta é sua versão atualizada no dia 24 de agosto)

4 comentários Adicione o seu

  1. Márcio Vicente disse:

    O Leandro esta disponibilizando as traduções de alguma forma? Onde?

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    1. fraterabstru disse:

      Márcio, o que ele já tem feito e disponibilizado é o que está ali nos links que eu coloquei no final do texto.

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  2. Frater Romântico disse:

    Fala, Frater!

    Talvez por ser sagitariano, eu me identifico bastante com essas posições “extremas” da Josephine, mas uma dessas afirmações eu achei bem ousada. Ela critica de forma bastante contundente o RmP e propõe um ritual totalmente interno pras finalidades relacionadas ao principal ritual da GD. Eu tenho pouca prática com o RmP e ainda não realizei o ritual que ela propõe. Se fosse possível, você poderia opinar sobre a visão dela? Achei bastante interessante, mas não tenho experiência suficiente pra ter uma opinião.

    Acho que esse trecho está no módulo 1, lição 7.

    Valeu!

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  3. Elvis Sampaio disse:

    O treinamento da Quareia parece bastante completo, tenho complementado o treino do Franz Bardon com alguns exercícios que Josephine ensina

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