O que é o hermetismo?

Nunca escondi que uma das minhas principais referências desde que eu comecei a escrever aqui n’O Zigurate era (e ainda é) o grande Sam Block, que há 15 anos toca o seu blog The Digital Ambler. Arrisco dizer que Sam é o maior dos hermetistas contemporâneos, e não conheço ninguém que possa rivalizar com ele em termos da combinação de conhecimento da literatura hermética clássica e vivência do hermetismo enquanto caminho espiritual. Quem acompanha o blog dele já deve ter visto seus vários posts sobre o tema. Considerando que, como eu costumo dizer, a base do “sistema operacional” da minha espiritualidade é também o hermetismo, acho que já passou da hora de eu oferecer, pelo menos, uma introduçãozinha ao assunto por aqui em português.

* * *

Só interrompendo aqui o post rapidinho para avisar que, para quem quiser começar a ter essa vivência da vida espiritual na prática, temos vagas abertas, pela primeira vez desde 2023, para o curso de Desenvolvimento Espiritual e Poder Pessoal. Informações e inscrição aqui. Pronto, agora pode continuar a leitura.

* * *

Antes de mais nada, o que é o hermetismo? Resumidamente, acho que o rótulo “doutrina espiritual” é a melhor definição. Em sua encarnação original na antiguidade, parece que nunca chegou a constituir o que poderíamos chamar de uma religião propriamente, apesar que, claro, definições de religião podem variar de autor para autor. Quando eu penso no termo, tenho em mente algo como uma religião organizada, com templos, sacerdotes e coisas assim. Porém, enquanto doutrina, o hermetismo inspirou vários movimentos espirituais de comunidades de praticantes, e podemos, inclusive, falar de vários hermetismos no plural, em suas variantes pagã, cristã e islâmica – daí a minha metáfora do hermetismo como um sistema operacional.

Historicamente, o hermetismo tem as suas origens no caldo cultural do helenismo. Como se sabe, nesse período, a conquista alexandrina de todo o território que vai do Egito até a Índia teve o efeito colateral de botar em diálogo diversas culturas que até podiam já ter algum contato, mas que então se torna mais intenso. As principais influências que alimentam o hermetismo são greco-egípcias, mas há também alguma coisa do Oriente Próximo, e não seria surpreendente se tivesse chegado algo da Índia também, haja vista certas semelhanças em alguns conceitos.

Gravura em cobre de Hermes Trismegisto, obra de Johann Theodor de Bry para o Tractatus posthumus de divinatione & magicis præstigiis, de Jean-Jacques Boissard (1615). Infelizmente, toda vez que eu passo por essa imagem eu vejo Hermes girando uma bola de basquete na mão.

Como o próprio nome indica, o hermetismo gira em torno de um sábio conhecido como Hermes Trismegisto, grego para “triplamente grande”. Essa versão de Hermes é complexa, porque não é exatamente o mesmo Hermes da religião e mitologia gregas, o mensageiro dos deuses, trickster, psicopompo e arauto de seu pai, Zeus, o chefe do panteão1. É, na verdade, uma figura sincrética entre Hermes e o egípcio Thoth/Djehuty, o deus escriba com cabeça de Íbis. Ao mesmo tempo, Hermes Trismegisto não é exatamente um deus em si, mas um sábio semidivino, embora às vezes apareça plenamente divinizado. É meio complexo, mas não é estranho se você aplicar a lógica do pensamento do período. Como explica Roelof van den Broek no verbete sobre Hermes Trismegisto em Dictionary of Gnosis & Western Esotericism: “Hermes Trismegisto se originou como a interpretação grega do deus Thoth (interpretatio graeca), assim como, do lado judaico, Thoth foi identificado com Moisés (interpretatio judaica)” (p. 474). Em tradução, não é raro as identidades entre humanos e deuses se tornarem fluidas2. Na minha interpretação enquanto praticante, que não é uma leitura acadêmica, mas essencialmente gnóstica, Hermes Trismegisto é um tipo de professor espiritual, um guru, um mestre sagrado que poderíamos comparar, em certo grau, a alguém que ocupa um lugar como o de Padmasambhawa no budismo tibetano.

Na literatura hermética, Hermes Trismegisto tem um papel central como professor, repassando os ensinamentos sobre a natureza definitiva da realidade. Não raro, esses textos se apresentam como diálogos filosóficos, à moda da obra de Platão. A maior parte deles foi escrita em grego koiné na antiguidade tardia e alguns foram traduzidos para o latim bem cedo, como é o caso do tratado conhecido como Asclépio ou o “Discurso Perfeito” (Logos teleios), que circulou pela Europa já na Idade Média em latim e chegou a influenciar figuras importantes do pensamento cristão como Pedro Abelardo e Alberto Magno. Outros textos, como os que compõem o Corpus Hermeticum, ganham tração bem mais tarde (já vamos tratar disso). O termo acadêmico para esse material é hermetica e geralmente é feita uma distinção entre a hermetica filosófica, como o Corpus Hermeticum e o Asclépio, e a hermetica prática, i.e. manuais de magia propriamente. Esse material é, importante frisar, meio bagunçado. Olhando em retrospecto, o que temos são partes de um todo que não deixam claro se estamos olhando para as partes que sobreviveram de um todo coerente ou se havia diversos grupos herméticos na antiguidade que disputavam entre si. Evidentemente, se houve um Hermes Trismegisto em carne e osso, pela datação, não foi ele quem escreveu esses textos – mas, de novo, enquanto praticante e não acadêmico, eu mesmo trabalho com a possibilidade da inspiração espiritual para a composição dessas obras. É um material poderoso, que não é qualquer farsante que pode ir lá e simplesmente inventar.

Então, se a gente for resumir o que é o hermetismo a uma fórmula simples, diríamos que é uma doutrina espiritual centrada em torno dos ensinamentos do mestre semidivino Hermes Trismegisto e da literatura que ele inspirou. Van de Broek, de novo, nos oferece um resumo quanto à base do pensamento hermético: “Seu traço mais característico é a ideia de um interrelacionamento indissolúvel entre Deus, o cosmos e o ser humano, o que implica a unidade do universo. Seu objetivo final é levar os seus adeptos a venerarem o Deus supremo como fonte do ser e, uma hora, unirem-se a ele. Porém, os escritos herméticos revelam uma grande divergência no que diz respeito às ideias filosóficas e religiosas que eram usadas para defender esses princípios fundamentais” (p. 559). Vamos explorar essa questão agora, então.

Compreendendo a natureza de Deus

A noção hermética de Deus é fundamental aqui. Deus não é uma deidade específica3, não é um velho barbudo que cuida do universo, não é uma figura pessoal, mas simplesmente a base da realidade que não apenas existe, como pré-existe, e permeia todas as coisas (eu, pessoalmente, por uma questão de evitar o ruído das pregações que se ouve por aí a respeito de Deus, prefiro usar o termo “o Divino”, mas em grego diz-se Théos mesmo, “Deus”, como se vê na gravura). Nos textos do Corpus Hermeticum, podemos ler que Deus “não é nous [a mente ou consciência], mas é o causador do ser nous; nem do pneuma [espírito], mas o causador do ser pneuma; nem luz, mas o causador do ser luz”. Donde é necessário reverenciar Deus por esses dois títulos, os quais têm sido aplicados somente a ele e a nenhum outro” (CH. II). Em outro momento, Hermes Trismegisto oferece uma explicação mais detalhada:

E também veja isto, ó filho, que cada um dos viventes visita frequentemente uma parte do mundo: com efeito, de fato, os aquáticos, a água; e os terrestres, a terra; e os voláteis, o ar; e o homem tem relações com todos esses, com a terra, com a água, com ar, com fogo; e deus também está ao redor de todas as coisas e através de todas as coisas; pois é a energia e potência; e também nada difícil há para compreender Deus, ó filho. E se quiseres também o contemplar, veja a ordem do mundo e o bom ornamento da ordem; veja a necessidade das coisas manifestas e a providência das coisas que têm vindo a ser e as que estão vindo a ser; veja a matéria mui plena de vida; veja esse tão grande deus sendo movido com todas as coisas boas e belas, com os deuses e os daimones, e com os homens.

— Mas essas, ó pai, são energias.

— Portanto, se são energias totalmente, ó filho, por quem são energizadas? Por outro deus? Ou desconheces que céu e água e terra e ar são como partes do cosmo, do mesmo modo a vida e a imortalidade e o sangue e a necessidade e a providência e a natureza e a alma e o nous são membros de Deus, e a permanência de todos esses é o que é chamado Bem? Também ainda não há nenhuma das coisas que vêm a ser ou das que têm vindo a ser onde Deus não esteja.

(CH. XII. Discurso de Hermes Trismegisto a Tat, tradução de David Pessoa de Lira)

O Divino é essa força que pré-existe, que é a causa do ser e do devir de todas as coisas, que permeia todas as coisas, que pode ser contemplado na ordem do mundo se purificarmos o suficiente a nossa percepção.

Essa noção segue exercendo uma influência profunda em todo o ocultismo e misticismo contemporâneos. Quando Lon Milo Duquette fala sobre “Deus com maiúscula” (the Great G) em seu capítulo sobre invocação no livro Low Magick, ele está basicamente aludindo a esse conceito hermético de Deus, e o mesmo vale para o curso Quareia ,quando a Josephine McCarthy traça a distinção entre o Divino [Divinity] e as deidades [deities] (módulo 6 de aprendiz). Quem tem referências de outras escolas espirituais, como o Tantra4, há de encontrar certos ecos também, embora nesse caso é difícil postular a possibilidade de influência textual direta com qualquer grau de confiança.

Ao mesmo tempo, o hermetismo clássico não exclui a presença de outros seres celestes, incluindo deidades diversas (a Hermes é atribuída, inclusive, a arte de dar vida às estátuas dos deuses), anjos e dáimons – uma hierarquia espiritual que observamos também em neoplatônicos como Jâmblico. A estrutura do cosmos, que é regido por esses vários seres, é outro elemento importante do pensamento hermético. Na antiguidade, entendia-se o universo como uma série de esferas concêntricas, onde cada uma dessas esferas continha a órbita dos sete planetas clássicos, em ordem: a Lua, Mercúrio, Vênus, o Sol, Marte, Júpiter e Saturno. Embora esse entendimento do universo não corresponda fisicamente com o que sabemos de cosmologia ainda hoje, ele retém ainda sua função simbólica – e mágica, portanto, na medida em que continua sendo um mapa da realidade metafísica, embora não corresponda com a realidade material. Acima das esferas planetárias, além de Saturno, fica a dimensão das estrelas fixas, lar das constelações e signos do zodíaco. Abaixo da esfera da Lua, há o mundo dito sublunar, i.e. o mundo que nós habitamos, governado pelas vicissitudes dos quatro elementos, fogo, ar, água e terra5. O ser humano, hermeticamente, é uma alma criada à imagem de Deus e manifestada nos elementos.

Representação clássica da mecânica cósmica ptolomaica, contendo o mundo sublunar com os quatro elementos e as esferas celestiais acima.

Essa estrutura cosmológica orientada pelos números 4, 7 e 12 (quatro elementos, sete planetas, doze signos zodiacais) tem um papel importante em todo o pensamento hermético e depois acaba também influenciando muito da literatura esotérica. Há sete desafios a serem superados pelo hermetista, associados às energias negativas dos planetas, e doze algozes da matéria, associados às energias negativas do zodíaco6. Conforme o praticante se dedica em sua devoção ao Divino e busca a sua purificação interior, sua alma ascende pelas esferas planetárias, de modo que ele poderá, uma hora, unir-se ao Divino.

Agora, sobre a natureza do universo, havia controvérsias. Num dos textos mais influentes do hermetismo, conhecido como “Poemandro”, que foi escolhido para ser o primeiro texto do CH, há um mito de criação belíssimo, segundo o qual o ser humano é criado à imagem de Deus para receber as dádivas dos sete governantes dos céus (i.e. os planetas). Esse ser humano primordial então se apaixona pela Natureza e é por isso que ele encarna. Rufus Opus, em seu manual de teurgia astrológica angelical Seven Spheres, faz a seguinte leitura desse mito:

No mito de criação hermético, nós vimos que a encarnação do espírito da humanidade não foi uma queda, nem algo além de nosso controle. Os hermetistas enxergam o reino material como um local de beleza, uma imagem física de nosso lar espiritual. Sua criação não foi como uma prisão, nem um acidente, nem um castigo. Foi criado com amor, concebido como um tributo material do céu do qual ele é um reflexo. Foi criado como uma obra do amor e povoado com os espíritos naturais e materiais do mesmo modo como os reinos celestes foram povoados com divindades e inteligências celestiais. (…) Antes de assumir forma na carne, ele [o ser humano] recebeu uma porção de cada uma das esferas planetárias e o poder de usar essas forças na criação. Entenda a diferença: não somos criações involuntárias, nós estamos aqui de propósito.

Eu pessoalmente gosto bastante dessa interpretação e me alinho com a visão mais benevolente do cosmos. O Divino permeia todas as coisas. Se a sua visão se abrir o suficiente, se as portas da percepção forem purificadas, como diria Blake, é possível enxergá-lo. Porém, é compreensível que haja uma confusão quando apresentamos o mundo como um lugar positivo, ao mesmo tempo em que o objetivo final do caminho espiritual seria a transcendência, deixando esse mundo para trás. E, sim, há textos também que promovem uma visão mais negativa da matéria e do corpo, como CH 4, “Discurso de Hermes a Tat”. Não por acaso, a linha que separa o hermetismo antigo dos ditos gnósticos7 é, muitas vezes, tênue, e há inclusive um texto hermético que foi encontrado na famosa Biblioteca de Nag Hammadi, intitulado O discurso sobre a oitava e a nona (NHC VI, 6).

Há diferentes explicações para essa contradição, o que inclui a possibilidade de terem existido grupos diferentes de hermetistas na antiguidade com doutrinas divergentes, ou então a ideia de que os textos mais body-positive seriam indicados a neófitos, enquanto os outros, mais pessimistas, seriam apenas para os iniciados. Sobre essa questão e formas de lidar com ela, eu acho que vale a pena ler esse outro texto, de viés mais teológico, do Sam Block. O Sam faz uma comparação do cosmos com uma festa, de modo que devemos “nos esforçar para aproveitar essa experiência da encarnação conforme for certo e adequado para nós”… mas também é importante ter noção de nossos limites e saber que uma hora a festa vai acabar e a gente tem que ir para casa. Nessa mesma linha, Franz Bardon, assim como o grupo Só Para Contrariar, diz que a “vida é uma escola”, onde o ser humano vem para ser “desafiado a aprender, a se desenvolver, a se aperfeiçoar. Ele pode aproveitar o que é bom e deve aprender a partir do que é mau”8. Nossa experiência no mundo físico é importante, mas ficar preso nele, apegado, é como ser um inimigo do fim ou repetente na escola.

A literatura hermética

Como dito, os acadêmicos distinguem entre dois tipos de hermetica, a filosófica e a prática/técnica. Essa distinção, embora útil, cada vez mais se entende que é artificial e as duas coisas se cruzavam com frequência no mundo antigo. Por exemplo, os Papiros Gregos Mágicos (PGM) são um dos maiores exemplo de hermetica prática. Uma técnica recorrente nesse material é a de cantar vogais (muitas vezes associadas aos planetas) e voces magicae. No supracitado Discurso sobre a oitava e a nona, encontrado em Nag Hammadi, embora o texto seja primariamente filosófico, apresentando as visões de Hermes sobre a ascensão espiritual, ele se conclui com um ritual iniciático que inclui o uso de vogais cantadas e voces magicae.

Agora, para quem quiser começar a estudar o hermetismo, o Corpus Hermeticum representa um excelente ponto de partida. Como dito, os 23 textos que compõem esse material foram escritos em grego no começo da era cristã, depois traduzidos para o latim por Marsilio Ficino e Lodovico Lazzarelli na Renascença, quando essa seleta ganha esse título (na verdade, 17 textos foram traduzidos a princípio, e os últimos seis acrescentados posteriormente). O Asclépio também é importantíssimo, e ambos estão presentes na edição em inglês do pesquisador e tradutor Brian Copenhaver, intitulada Hermetica (Cambridge University Press).

Existe ainda um volume do pesquisador M. David Litwa intitulado Hermetica II, que contém uma série de corpora de fragmentos, um dos mais importantes sendo os de Estobeu, um mercador da antiguidade que aparentemente escreve um livro para a educação do seu filho, onde aparecem diversas lições sobre vários assuntos, inclusive espiritualidade herméticas. A leitura do CH, Asclépio, Discurso sobre a oitava e a nona e dos fragmentos herméticos coletados por Litwa, junto com os PGM, representa uma bela introdução ao hermetismo mais clássico do contexto greco-egípcio. Para quem tiver interesse na exegese desse material, recomendo demais a série de posts do Sam Block intitulados Reading the Hermetica. Para quem busca um acompanhamento mais acadêmico, não posso não citar a obra de Wouter Hanegraaff, que é uma sumidade na área, especialmente o seu Hermetic Spirituality and the Historical Imagination: Altered States of Knowledge in Late Antiquity.

Depois, os alquimistas, magos e astrólogos do mundo árabe expandiram a literatura hermética durante os séculos que se seguiram. Inúmeras obras nascem a partir desse furor da civilização islâmica em sondar a sabedoria dos antigos, e autores como Al-Kindi, por exemplo, que tinham uma visão mais científica do mundo, inclusive do mundo oculto, encontraram um antecessor em Hermes. Exemplos desse material hermético medieval incluem, em termos de hermetica técnica, o famoso Picatrix (título latino, originalmente chamado Ghayat al-Hakim, “o objetivo do sábio”) e o material atribuído aos sabeus, bem como o De Quindecim Stellis (também uma obra árabe mais conhecida pelo título latino) e a célebre “Tábua de Esmeralda”, na hermetica mais filosófica (uma tradução direta do árabe consta em Hermetica II).

Heinrich Khunrath – Tabula Smaragdina

A “Tábua de Esmeralda”, datada de mais ou menos 1000 d.C., é a obra mais tardia que o Sam Block considera genuinamente hermética. Já a história da recepção do hermetismo na Europa é meio bagunçada. Como dito, houve a circulação de textos como o Asclépio em tradução latina ainda durante o medievo e aos poucos também foi chegando o material do hermetismo islamizado pelo contato com os árabes em lugares como Toledo. Um grande furor se dá, no entanto, com a descoberta dos manuscritos do CH, sobretudo porque 1) o CH é uma obra mais mística e consonante com o misticismo cristão, em oposição à literatura de um viés mais mágico, e 2) porque se atribuía a esse material uma origem muito mais antiga do que ela tinha de fato. Assim o CH serviu de munição para os pensadores da chamada prisca theologia, a ideia de que alguns conceitos-chave do cristianismo teriam aparecido anteriormente em doutrinas cabalísticas, órficas, pitagóricas e herméticas, um argumento usado para legitimar a religião com base nessa defesa da sua antiguidade ao mesmo tempo em que condena os judeus e pagãos por terem sido ignorantes demais para enxergarem a “verdadeira luz”.

Ao mesmo tempo em que existe essa grande empolgação pelo hermetismo na Europa, ocorre também uma diluição, e o termo “hermético” vira meio que sinônimo de “mágico”, “esotérico”, “misterioso”, na medida em que essa literatura vai cada vez mais se misturar com obras de alquimia e de magia salomônica. Por esse motivo, em inglês é comum usar-se dois termos para falar em hermetismo: Hermeticism para esse hermetismo europeu mais diluído e Hermetism para o hermetismo tal como ele era praticado na antiguidade. Sobre esse processo de recepção e transformação do conhecimento hermético, recomendo mais uma vez o Dictionary of Gnosis & Western Esotericism. O furor hermético da Europa, no entanto, perde muita força no começo do século XVII, graças a Isaac Casaubon, que faz uma datação mais correta dos textos herméticos e enterra a ideia de que Hermes seria equivalente, contemporâneo ou mais antigo do que Moisés.

É bom frisar que, no meio desse processo todo, nasce também a chamada Cabala hermética a partir da mistura desse hermetismo difuso com a Cabala cristã de Agrippa, Reuchlin e companhia. Por trás das práticas de uma ordem como a Golden Dawn no século XIX (que se descreve como hermética já no nome) estão os conceitos da Cabala hermética, mas demoraria um tempo ainda para praticantes de magia e ocultismo terem acesso a uma visão mais panorâmica da literatura hermética genuína. Nesse balaio do que poderíamos chamar de um certo neo-hermetismo, eu diria que também entra a obra de Franz Bardon, uma figura por quem eu tenho profunda admiração. Embora, a meu ver, haja uma consonância entre a doutrina hermética mais clássica e as coisas que Bardon afirma, ele também viveu antes da redescoberta a sério da literatura hermética e muito do que ele ensina tem uma viés mais sincrético, com raízes no Tantra.

Por fim, não posso deixar de falar do Kybalion, já que é o que a maioria das pessoas leigas têm em mente quando se usa o termo “hermético”. Apresentado como obra dos tais Três Iniciados e publicado pela Yogi Publication Society em 1908, o Kybalion foi escrito, na verdade, por William Atkinson, um dos grandes nomes de uma outra corrente, que é o New Thought, uma das maiores influências sobre os desenvolvimentos posteriores do New Age. O livro se pretende parte da corrente hermética, inclusive citando a famosa máxima de que “O que está em cima é como o que está embaixo”, da Tábua de Esmeralda, e se propõe a explicar o que seriam 7 leis herméticas que governam o universo. O quanto essas leis encontram base na doutrina hermética, de fato, é discutível – num texto da Mary K. Greer, ela mapeia a origem dessas leis na obra de Anna Kingsford e Edward Maitland, dois teosofistas do século XIX (aqui). E assim existe toda uma discussão sobre se o Kybalion é ou não hermético. O grande problema, claro, é que, na medida em que “hermético” virou um conceito difuso, a gente precisa definir melhor o que o termo significa para responder a essa pergunta. Afinal, até um pote pode ser hermético, não é mesmo?

Como demonstram o Sam Block e o Erik Arneson, quando a gente define o hermetismo como a doutrina de Hermes Trismegisto baseada em tudo que vimos do material clássico, então não, o Kybalion não é hermético. Pelo contrário, inclusive: muito do que se vê nele é antitético ao hermetismo clássico. Um resumo dos argumentos do Sam Block pode ser lido neste texto aqui (recomendo ainda a leitura do artigo de Nicholas Chapel, “The Kybalion’s New Clothes”). Eu mesmo, porém, não tenho vontade de comprar essa briga, porque é um buraco muito fundo e eu conheço pessoas que eu respeito que fazem bom uso desse material. Em todo caso, não recomendo de forma alguma ler o Kybalion como introdução ao hermetismo (ele é antes uma introdução ao New Thought) nem como representante da corrente hermética. Nessa mesma toada, outra obra famosa que é pseudo-hermética (e pseudo-histórica) é o fantasioso The Emerald Tablets of Thoth the Atlantean, do esquisotérico Maurice Doreal. Um pulo na página dele na Wikipédia dá uma ideia da profundidade do delírio. Aí esse eu realmente acho irredimível.

Em resumo, é isso que eu teria a dizer do hermetismo para apresentá-lo a quem não conhece. Se você se interessou em aprender sobre o assunto em primeira mão, temos duas boas edições do CH em português: o Corpus Hermeticum Græcum, de David Pessoa de Lira (publicado pela Cultrix/Pensamento, edição bilíngue grego/português) e o Corpus Hermeticum, de Américo Sommerman (Polar Editorial).

Por que o hermetismo?

E enfim chegamos à grande pergunta. Considerando os vários caminhos espirituais possíveis, por que alguém iria querer seguir logo pelo hermetismo?

Ser um hermetista no século XXI é uma experiência complexa. Estamos em posse de fragmentos fascinantes de uma sabedoria profunda, mas nada que chegou até nós chegou inteiro, pronto, mastigado, e muitas dessas descobertas são recentes – a primeira publicação dos PGM de Preisendanz é de 1928 e a Nag Hammadi só foi descoberta em 1945. Não é possível decidir se tornar um hermetista e ler um livro em que está tudo bem delineado, em termos de teologia, cosmologia e práticas. Pelo menos não ainda.

Ao mesmo tempo, essas partes que chegaram a nós me parecem bastante compreensíveis. Diversas ideias herméticas já estão em circulação desde sempre, por isso muitas vezes ter um contato mais profundo com esse material passa uma sensação de “ah, então é daí que vem”, mais do que a de se deparar com uma completa novidade. Para astrólogos, por exemplo, o hermetismo é a doutrina espiritual por excelência que fornece a base metafísica da prática astrológica e indica por onde fazer dela uma entrada para o caminho espiritual. E, pessoalmente, eu gosto do potencial sincrético do hermetismo – daí que tenha existido um hermetismo pagão, cristão e islâmico, para não falar nada das versões mais hinduizadas – e há grande compatibilidade com outros sistemas mágicos e espirituais, o que eu vejo como uma forma de validação.

Tornar-se um hermetista é se orientar pela doutrina de Hermes Trismegisto, tê-lo como mestre e se inspirar nas suas palavras; é, a meu ver, buscar enxergar o Divino na medida em que ele permeia o cosmos inteiro e conectar-se com esse Divino, almejando a elevação da sua própria alma. Ainda estamos explorando qual o melhor modo de se fazer isso em termos de nosso repertório de práticas espirituais, o que para mim é bastante emocionante, pois é uma oportunidade de observarmos e participarmos de uma tradição em construção, com um pé no passado e outro no futuro.

Todas as tradições tiveram que passar por isso em algum momento, de modo mais ou menos intenso, e o material que temos à nossa disposição é vasto em quantidade e poderoso em termos de eficácia. Para quem quer começar, eu recomendo a leitura dos textos indicados e buscar o desenvolvimento das virtudes herméticas, mas há também práticas simples que podem ser incorporadas à rotina tranquilamente, como a prece hermética do Poemandro, o trabalho com as vogais planetárias e até mesmo o uso de imagens de Hermes como ponto de contato9.

Por fim, temos outros textos mais antigos aqui n’O Zigurate em que tratamos já de assuntos herméticos, que eu vou linkar abaixo:

* * *

(Obrigado pela visita e pela leitura! Se você veio parar aqui n’O Zigurate e gostou do que viu, não se esqueça de se inscrever em nosso canal no Telegram neste link aqui. Anunciamos lá toda vez que sair um post novo, toda vez que abrirmos turmas para nossos cursos e todo tipo de notícia que considerarmos interessante para quem tem interesse em espiritualidade, magia e ocultismo. E é só clicar aqui se quiser agendar um atendimento comigo, ou então neste link para procurar um atendimento com a Maíra. Também estamos no Instagram (@ozigurate e @pranichealermaira) e Blue Sky (ozigurate.bsky.social e pranichealer.bsky.social).)

  1. Como se pode ver na arte, Hermes também costuma ser chamado de Mercúrio, e o Discurso sobre a oitava e a nona inclui associações astrológicas com o planeta Mercúrio, com a indicação de que o ritual de iniciação delineado no texto deva ser feito durante o período de Mercúrio exaltado no signo de Virgem. ↩︎
  2. Por exemplo, na interação entre a mitologia grega e a Bíblia hebraica, houve quem enxergasse aproximações entre certas figuras com base em seus nomes, como o filho de Noé, Jafé, que foi identificado com o titã Jápeto, o pai de Prometeu. ↩︎
  3. Sobre isso, recomendo ler o texto do Sam Block, “God is not a god”. Uma questão importante é que, para Hermes, deidades aceitam oferendas, mas nenhuma oferenda material é adequada para o Divino. ↩︎
  4. Diz Christopher Wallis em O Tantra Iluminado, p. 38: “O TŚND [Tantra Shaiva Não Dual] afirma que só uma coisa existe: o Divino, em várias permutações”. O parágrafo inteiro, que é longo demais para eu citar aqui, é profundamente iluminador (rá) a respeito do conceito do Divino segundo a escola. ↩︎
  5. A respeito do conceito dos elementos, nós já falamos disso anteriormente numa série de posts. A ideia dos quatro elementos clássicos não nasce no hermetismo, mas ganha um papel importante na doutrina. ↩︎
  6. Esses desafios são: o crescer e decrescer (Lua), a maquinação maléfica (Mercúrio), a ilusão do desejo (Vênus), a arrogância dos governantes (Sol), a presunção blasfema e imprudência ousada (Marte), os impulsos maléficos que derivam da riqueza (Júpiter) e o engodo da emboscada (Saturno). Os doze algozes irracionais são: Ignorância, Tristeza, Intemperança, Luxúria, Injustiça, Avareza, Erro, Inveja, Perfídia, Raiva, Imprudência e Malícia. Fontes aqui. ↩︎
  7. O termo “gnóstico” frequentemente é usado como um guarda-chuvão para abranger uma série de grupos do começo da era cristã, como os valentinos, os cainitas, os setianistas, os ofitas, etc. Por vezes até mesmo o maniqueísmo é considerado uma religião gnóstica. Existe uma visão simplificada do gnosticismo como uma doutrina segundo a qual o universo material é a criação perversa de um demiurgo maligno ou estúpido, mas cada grupo considerado gnóstico tinha uma teologia e mitologia próprias, algumas das quais eram extremamente complexas. ↩︎
  8. Essa afirmação está no epílogo de A chave para a verdadeira Cabala. ↩︎
  9. Christopher Warnock um tempo atrás estava vendendo uns talismãs com a imagem de Hermes Trismegisto para esse propósito (link aqui e aqui o vídeo em que ele fala sobre o assunto). Mas é claro que ninguém precisa gastar centenas de dólares num talismã de metal, e há outras opções mais adequadas a um orçamento limitado. ↩︎

Deixe um comentário