Amarração e magia amorosa

Feitiços amorosos constam, historicamente, dentre os mais antigos e populares de que temos notícia. Eu arriscaria dizer que, ao lado das fórmulas para destruir inimigos e para conquistar riqueza, influência e poder, juntas estas funções compõem, fácil fácil, o top 3 dos feitiços mais procurados de todos os tempos. É o que observamos já no corpus dos Papiros Mágicos Gregos, por exemplo, e qualquer grimório posterior de respeito vai incluir alguma coisa que cubra essas principais preocupações humanas, do Sepher HaRazim aos livros de conjuração demoníaca da tradição salomônica — por algum motivo, também feitiços meio específicos para ganhar corridas de cavalo e descobrir tesouros enterrados são estranhamente populares. A Ars Goetia tem, pelo menos, quatro demônios de que eu lembre agora cujos poderes deviam fazer deles as opções óbvias do mago sexualmente frustrado, como Beleth, Sallos, Sitri e Zepar — e, no caso destes dois últimos, é curioso o fato de que o livro diz que Sitri faz as mulheres tirarem a roupa e Zepar as deixa inférteis, o que, neste contexto, é certamente para compensar o fato de que os métodos contraceptivos da época eram bastante precários.

O problema é que, quando lemos os termos em que estes feitiços mais tradicionais se dão, nota-se que a expressão “magia amorosa” é um eufemismo inadequadíssimo. Por exemplo:

A fórmula a ser escrita e recitada é: “Eu confio esta amarração a vocês, deuses ctônicos, (…) Atraiam-na, ______ , a quem ______ gerou e cujo material mágico vocês possuem. Que ela fique apaixonada por mim, ______ a quem ______ gerou. Que ela não seja possuída de forma promíscua, que ela não seja possuída no cu, nem que ela faça qualquer coisa com qualquer homem por prazer, apenas comigo sozinha, a ______, de modo que ela, ______, seja incapaz de comer ou beber, que ela, ______, não consiga dormir sem mim, ______, porque eu os adjuro pelo nome que causa medo e tremor (…) não deixem que ela coma nem beba e não permitam que ela, ______, aceite por prazer as tentativas de outro homem, nem o de seu próprio marido, apenas os meus, ______. Em vez disso, arrastem-na, ______ pelo cabelo, pelo coração, pela alma, a mim. (…)”

Este é um trecho retirado dos PGM (IV. 296-466). O ritual todo é muito longo para citar na íntegra, além de perigoso, e envolve criar uma efígie da vítima feita de cera ou argila sendo prostrada por uma figura de Marte, plenamente armada, então espetá-la e enterrá-la ao pôr do sol na tumba de alguém que tenha morrido antes da hora, junto com uma tabuleta de maldição, onde constam as palavras acima, e uma corda com 365 nós. As lacunas (_____) indicam a parte onde você diz o nome da vítima e o de sua mãe1. Há muito mais fórmulas e preces a serem recitadas, mas este trecho eu achei particularmente curioso pela parte que diz “que ela não seja possuída no cu”. Não, é isto mesmo que você está pensando, não estamos falando de possessão demoníaca. Qualquer um que esteja acostumado a lidar com espíritos ctônicos sabe que é necessário ser absurdamente preciso nestes casos, para realmente não dar margem para os espíritos cometerem erros, e acredito que este feitiço ilustre bem esse axioma. Não, não é para ela dar para mais ninguém, nem o cu.

Imagem de uma efígie para esse tipo de magia, atualmente no Louvre. Pela descrição da inserção das agulhas, parece ser esse mesmo feitiço dos PGM citado acima.

Quem tem algum conhecimento do assunto já vai reconhecer que o que temos aqui é, na verdade, a famosa amarração, do mesmo tipo que as pessoas oferecem em cartazes colados na rua por aí. “Amarração infalível”, “Trago seu amor de volta em 24 horas”, etc. Quem me acompanha no Twitter sabe a minha opinião e, apesar de eu não resistir a fazer alguma graça com o assunto, agora vale a pena ser um pouco mais sério e enfático: AMARRAÇÃO É COISA DE ARROMBADO.

Explico.

Como já comentei ao tratar de magia dos elementos, manipular emoções pelo astral é fácil, especialmente de forma momentânea (por exemplo, despertar ou apaziguar um ataque de raiva). Agora despertar sentimentos, ainda mais esse tipo de sentimento profundo como é o amor, não rola. Tem aspectos demais envolvidos aí, dentre os quais consta o livre arbítrio. É fácil manipular alguém para que a pessoa se comporte da maneira esperada (aliás, você nem precisa de magia para isso, e ameaças, chantagens e lisonja funcionam muito bem), mas obrigá-la a gostar de algo, a amar algo ou alguém de verdade, envolve um grau de lavagem cerebral mais profundo2. Assim sendo, uma amarração é nada menos que um ataque mágico, é você botar uma entidade para ficar, por assim dizer, o tempo todo socando um tição em brasa na bunda da pessoa “amada” quando estiver distante de você. A vítima pode muito bem nem gostar de você, mas vai se sentir compelida a pensar em você e a ficar perto por motivos que ela não vai nem saber explicar (porque, de fato, não há explicação mundana para isso). Ela opera na base da dor, da tortura, da coerção, da obsessão e da negatividade.

Temos aí dois motivos, portanto, logo de cara, para se desaconselhar amarrações. Primeiro que é um ataque — e, dentro do panorama geral dos ataques, é um dos menos justificáveis. Eu não recomendo magia maléfica de um modo geral, já disse, mas entendo que há casos que, por mais que eu não recomende, eu não ficaria triste se certas pessoas desprezíveis em cargos importantes tivessem um infarto súbito e fulminante depois que uma efígie delas fosse depositada num cemitério. Mas infernizar a vida de alguém só porque você quer transar com essa pessoa — ou, não sei o que é pior, manter um relacionamento de merda com ela— é de um egoísmo monstruoso. Depois tem o fato de que essa pessoa não vai amar você de verdade e o tempo todo que ela estiver ao seu lado é porque tem o equivalente astral de um agiota na sua cola. É, na melhor das hipóteses, coisa de gente burra, ignorante, que não sabe o que está fazendo. Quem está ciente de tudo envolvido nesses trabalhos e ainda insiste, ou é mau caráter — do nível que só não estupra por falta de oportunidade  e medo de ser descoberto— ou é tão carente e ruim da cabeça, uma pessoa que foi tão quebrada pela sua criação e experiências afetivas, que acha mesmo que ter esse comportamento com quem você supostamente ama é razoável ou que “vale tudo para não ficar só”. É triste demais.

Tristão e Isolda tomando a poção do amor (Bibliotheque National de France, Fr. 112, fol. 239r). Quem conhece, sabe que a história acaba mal. Mas tão bonita a ópera.

Por fim, temos os problemas de ordem mais prática. Já vi um jovem uma vez (sempre o jovem) ensinando uma amarração no TikTok (onde mais?) que envolve escrever o nome da vítima na sola do seu pé e recitar uma reza em nome do que é provavelmente um grupo de eguns que atende por “13 almas benditas” (isso que é rebranding). Nem preciso falar o tamanho da cagada. Depois sobra para as entidades do terreiro para limpar essa sujeira toda, que vai pairar tanto sobre a vítima quanto sobre quem fez. De resto, se alguém, profissional, fez a amarração por você, é bom que esta pessoa ensine como desfazer também, porque o efeito não vai cessar se, do nada, um dia você acordar e decidir que não quer mais brincar disso. Tentar terminar com uma pessoa amarrada é garantia de que ela vai ficar mais obcecada, a ponto de se tornar violenta contra você ou contra si mesma. Difícil ter pena de alguém que faz amarração, mesmo tendo sido avisado, e depois acaba tendo problemas por isso.

Nada do que eu digo aqui deve ser novidade para qualquer pessoa que estude um pouco, mas certamente não é de conhecimento geral, dada a popularidade dessas práticas. O fato de que encontramos tanto material de amarração em fontes antigas é um atestado de que o conhecimento da feitiçaria e os escrúpulos pessoais não necessariamente andam juntos… e temos aí também uma abertura para uma discussão mais longa e profunda sobre ética na Antiguidade, mas infelizmente aqui não é o lugar para isso. A quem tem curiosidade sobre o assunto, o professor Lindsay Watson, autor de Magic in Ancient Greece, tem um artigo muito interessante sobre a violência da magia da Antiguidade. Outra leitura que eu recomendo, com foco mais medieval, é o textinho Love Magic and Rape Drugs in Late Medieval Italy, de Marlisa den Hartog3.

Possibilidades mais legítimas

Mas será que não tem usos de magia amorosa que não sejam nocivos? Bem, claro que tem, só que para isso é preciso pensar um pouco.

Na magia astrológica, o planeta a quem recorremos para magia amorosa é principalmente Vênus4. Por esse motivo, esses rituais costumam ser feitos nas sextas-feiras e podem chamar forças como o arcanjo de Vênus, Anael ou Haniel, a inteligência venusiana Hagiel (conforme Agrippa), o espírito olimpiano Hagith (conforme o Arbatel) ou divindades como a própria Vênus/Afrodite ou Ishtar/Inana. Vênus é o planeta da harmonia e da beleza, e uma função, bastante lícita, de sua magia é a de harmonizar relacionamentos. Um casal que tenha brigado, por exemplo, pode recorrer a estas forças para buscar uma reconciliação e resolver seus perrengues — óbvio, não ao forçar o outro a aceitar a sua posição com intransigência, mas para que possam chegar juntos a um acordo que seja bom para ambos. Dentre as receitas tradicionais da magia medieval e renascentista, um talismã da estrela fixa Sirius, por exemplo, segundo material atribuído a Hermes Trismegisto, causa “paz e concórdia entre reis e outras potestades e entre maridos e esposas”, e também pode ser uma boa opção. É certo que é uma das receitas mais brandas da magia medieval.

Os sigilos dos 7 arcanjos planetários, incluindo o de Anael, de Vênus, segundo o Heptameron.

E, claro, se não for possível chegar a um compromisso, e uma ruptura for inevitável, esse tipo de magia também pode facilitar o término e garantir que seja o mais tranquilo possível para os dois lados.

O algo infame Ralph Tegtmeier, ou Frater U.D., em seu High Magic (um dos livros que eu consultei bastante quando era iniciante), conta uma anedota divertida de um erro que ele cometeu com o uso de magia venusiana. Um cliente um dia chegou para ele pedindo um talismã para “amor, relacionamentos, contatos e você sabe o resto”. Após uma longa conversa, ele decidiu criar um talismã de Vênus (que abrange todas estas coisas) incluindo também umas figuras geomânticas, a saber Puer (menino), Conjunctio (união) e Puella (menina) — mesmo que você não saiba nada de geomancia (e, neste caso, recomendo o meu texto sobre o assunto), dá para ter uma ideia do que essa combinação significa. Três anos e meio depois, o cliente pediu para ele desfazer o talismã, e aí que o Ralph entendeu o que aconteceu: seu cliente era comprometido, e o motivo de ele querer o talismã era para ter uns casinhos à parte sem que a outra pessoa soubesse — o que não foi revelado ao fazer o pedido. Porém, porque não foi feito com esta intenção específica, o efeito foi o oposto: não houve traição nenhuma e o relacionamento na verdade se tornou mais forte e mais amoroso. De quebra, o cliente era gay, e a combinação Puer + Conjunctio + Puella estava fazendo ele ter pesadelos heterossexuais, sendo este o motivo pelo qual ele pediu para o talismã ser desfeito. A combinação Puer + Conjunctio + Puer de novo teria sido mais recomendável neste caso, e talvez um ritual de Mercúrio ou, diz o Ralph, até mesmo Marte.

Nascimento de Vênus (1866), do pintor simbolista Gustave Moreau

Dá para entender o porquê de isso não ser o mesmo que amarração, né? Na amarração, você está forçando uma relação a existir na base da porrada, obrigando uma pessoa a se dobrar à sua vontade. Nesse outro tipo de magia, a relação já existe, e você está apenas aparando as arestas, o que envolve concessões dos dois lados. Desentendimentos acontecem, mas há modos e modos de lidar com eles — e uma discussão pode ser madura, catártica e produtiva ou levar apenas a gritarias e objetos sendo arremessados. Não é por acaso que existe também na Cura Prânica — uma escola que eu descreveria como extremamente Lawful Good, no geral — a aplicação de cura de relacionamentos, onde as técnicas de limpeza usadas no corpo energético individual nas sessões de cura são aplicadas para remover os obstáculos que dificultam o relacionamento. O problema acontece quando as pessoas acham que este tipo de ferramenta é um último recurso e só a procuram tarde demais, quando já, de fato, não existe mais relacionamento… o equivalente de tentar curar um defunto.

Mas… e magia para solteiros?

Da forma como eu entendo, há duas frentes em que os solteiros podem trabalhar. Tem um lado que depende do “acaso” ou da “sorte” e outro que depende de você. A parte do “acaso” é o começo de tudo, você sair e conhecer pessoas. Pense nas condições sob as quais você conheceu as últimas pessoas com quem se envolveu. Às vezes é alguém que você cruzou num bar ou balada, alguém com quem estudou ou trabalhou, ou em quem esbarrou nas redes sociais. Às vezes é até alguém que você encontrou no ônibus, talvez a possibilidade mais aleatória de todas. Há diversas formas de se conhecer pessoas e, considerando como isto fica em aberto e que há bilhões de pessoas no mundo, uma aplicação bem feita de magia aqui pode ser muito produtiva. A magia opera pela lei do menor esforço, e às vezes só precisa de um empurrãozinho para que o seu caminho cruze com o de uma pessoa compatível. De novo, boas soluções podem envolver magia de Vênus, mas também Mercúrio (ou até mesmo uma combinação dos dois); o combo geomântico Puer/Puella + Conjunctio + Puer/Puella, dependendo do que você estiver procurando; e a conjuração de arcanos do tarô como a Imperatriz (tradicionalmente a carta de Vênus), os Amantes e/ou o 2 e o 3 de copas5. Conheço também alguns casos de gente que conheceu pessoas legais via a promessa de São José, que é uma ótima alternativa para quem não tem experiência fazendo magia.

No entanto, preciso frisar que você vai receber o que pedir, por isso preste atenção nos seus termos exatos. Se pedir qualquer coisa, vai receber qualquer coisa. Se você fez magia para este propósito e só apareceu para você o refugo do refugo, então tem que ver isso aí, pois ou algum erro sério foi cometido ou há questões mais profundas clamando para serem resolvidas. Se você quer sexo casual sem compromisso, então faça esta afirmação sem meias palavras, seja na formulação do seu sigilo, talismã ou ao pedir para o anjo ou outra entidade. É, eu sei, dá vergonha falar para uma inteligência incorpórea extradimensional que você está com fogo no rabo, mas ser honesto com os próprios desejos é uma parte importante do trabalho. Se você só quer sexo e aparece um monte de gente querendo casar, as chances são de que alguém vai sair frustrado, e vice-versa.

De resto, é possível trabalhar a sua própria atratividade. O que isso quer dizer, é claro, varia muito. O que é atraente para uma pessoa pode deixar outra broxada, por isso a parte anterior, de seleção, é tão importante. Mas todo mundo gosta de pessoas interessantes no geral, com personalidade e carisma (além de boa higiene pessoal…), e a magia pode ajudar neste propósito. Ainda dentro do esquema astrológico (que eu gosto de usar como base porque é o mais open source de todos), o trabalho com Vênus pode ser útil para potencializar os efeitos de tratamentos de beleza (e Marte pode ajudar para quem é do rolê mais maromba), mas o magnetismo pessoal é domínio solar — não por acaso usa-se tanta canela nesse tipo de magia também. Rocky Patel, autor de um livro sobre aromaterapia pelo viés da Cura Prânica, recomenda o uso de óleos essenciais6 de jasmim, rosa e/ou sândalo, pingados no peito e nos pulsos, que ajudam a ativar o chakra cardíaco e a banhar a aura com uma energia rosada, o que deixa a pessoa mais atraente no geral e é útil não apenas no âmbito amoroso, mas para qualquer relação, inclusive de negócios. Banhos de ervas são úteis também, e se você quiser dicas de banho, recomendo conversar com a mãe Rachel, que foi quem escreveu aqui para nós o nosso guest-post sobre a promessa de São José, e que é a minha referência em termos de banhos.

Este trabalho pode ser tanto como preparação antes de sair com alguém quanto parte de um projeto de longo prazo combinado com idas à academia, skincare e todas estas coisas com que as pessoas começam a se preocupar depois que terminam com alguém. Você também pode conferir mais dicas sobre o assunto de modo geral no livro do Jason Miller, The Sorcerer’s Secrets, reeditado no ano passado sob o título Real Sorcery7.

A Poção do Amor (1903), de Evelyn de Morgan.

De novo, vale lembrar que, assim como não adianta fazer magia financeira e sentar no sofá esperando dinheiro do cair do céu, você pode fazer o ritual que for e cobrir o seu corpo inteiro de óleo essencial de rosas (não faça isso) que não vai servir de nada se não cuidar nem da higiene básica e for uma pessoa completamente desagradável.

“Mas, Frater, e se eu quero uma pessoa específica? Qual o limite da magia lícita nesse sentido?”

Bem, aí você me complica. O que você pode fazer seria, hipoteticamente, antes de mais nada, conferir com um oráculo, como o tarô, se existe algum interesse ou atração da outra parte. Se sim, então convém entender por que diabos, apesar disso, a coisa não engrena, se é porque esta pessoa é tímida, está com o coração fechado para balanço ou outro motivo. Se não houver interesse algum ou se o motivo pelo qual a situação não avança for incontornável, então paciência… não vai ter muito o que fazer. É, é frustrante, eu sei. Do contrário, você pode tentar dar um jeito nas coisas que atrapalham enquanto realça a própria atratividade, mas eu acredito que talvez fosse mais interessante botar a mão na consciência e perguntar por que é que você tem essa obsessão por tal pessoa.

E já que estamos falando de botar a mão na consciência…

O trabalho interno

As suas relações são um reflexo de quem você é no momento. Isto é ponto pacífico, creio. Pior, é óbvio e vale tanto em termos mundanos quanto energéticos/espirituais. Ter pelo menos alguns interesses em comum é o tipo de coisa que, com frequência, permite que casais novos se formem, ao passo que pessoas que se casam jovens podem muito bem acabar divorciadas por se transformarem em pessoas radicalmente distintas com os anos.

Agora, voltando para o lado mais esotérico, como eu disse num texto anterior, é clássico o caso da pessoa casada há anos que começa a sério uma prática espiritual e de repente se divorcia. E não é porque a outra pessoa não goste de ocultismo, ache ridículo, ou algo do tipo. Casais que estão juntos por muito tempo acabam criando tolerância para fases e hobbies ridículos. O que acontece é que a mudança de energia acaba sendo tão forte que chega a gerar um incômodo na vida do casal — um incômodo semelhante às forças de repulsão de um ímã, ainda que o mundo psíquico opere por leis opostas às que regem o magnetismo físico (os opostos se repelem). Apesar disso, por mais desagradável que possa ser — e sempre é —, a separação acaba sendo melhor para a pessoa em questão. O curioso é que raramente há sinais disso antes e ela sempre se dá de modo tão súbito que todos saem surpreendidos.

É certo que todo mundo já ouviu aquela frase polêmica de que “você atrai o que você vibra”. Muita gente pode torcer o nariz, com razão, ao ler isso, porque, de fato, na cultura de positividade tóxica fomentada pela espiritualidade New Age, esse tipo de declaração é usada para dizer o equivalente good vibes de “bem feito” quando acontece algo de ruim com alguém… o que é, claro, execrável. Mas vale a pena refletirmos aqui sobre a questão, a fim de separar o joio do trigo na ideia por trás dessa frase.

Aryeh Kaplan, em seu comentário do Sepher Yetzirah, oferece uma descrição interessante do mundo espiritual, pautada pela Cabala. Diz ele que, nos planos superiores, não existe espaço, mas as coisas ainda assim se encontram próximas ou distantes umas das outras, abstratamente, de acordo com suas qualidades. Assim sendo, coisas afins se aproximam e díspares se afastam, de modo que estas acabam nunca conseguindo se encontrar. O lugar onde o que é díspar pode sim coexistir é no mundo material, a culminação dos processos dos mundos espirituais, onde existe o espaço, pelo qual é possível se deslocar a seu bel-prazer. O mundo material não existe à parte do espiritual — o que há aqui tem ligações com esses conceitos superiores, e é deste modo, por exemplo, que o bem e o mal, o belo e o feio, etc., podem coexistir e de fato coexistem não apenas em seres próximos, mas num mesmo ser. Porém, esses princípios de afinidade continuam agindo nos planos superiores até que lentamente se cristalizam neste plano. O processo não é direto e existem inúmeras influências, materiais e sutis, envolvidas. A Maíra fala longamente disso no seu próprio texto sobre a Lei da Atração.

A grande questão que faz com que uma frase como “você atrai o que você vibra” seja tão problematizável é porque, no caso de mulheres que se envolvem em relacionamentos abusivos, por exemplo, ela serve para culpar a vítima. Por isso é importante lembrar que há inúmeras influências que determinam o que acontece no mundo material. Para citar dados, sabemos que uma a cada três mulheres nos EUA se envolve em relações abusivas, o que inclui stalking, violência física e sexual. Os motivos para a situação estar assim são também inúmeros e complexos: é certo que há elementos espirituais (o espiritual não é uma coisa separada de tudo), mas os elementos mundanos, biopsicossociais são mais evidentes e rastreáveis. É uma estatística apavorante, em todo caso, e, como tudo no mundo material, difícil de contornar. Este risco em potencial existe a partir do momento em que você decide se relacionar com outra pessoa, e é o tipo de coisa que, óbvio, a sociedade como um todo precisa se mobilizar para modificar.

Um único relacionamento não é régua para determinar o que é preciso mudar em si mesmo, mas, se você repetidamente se envolve em relacionamentos infelizes e insatisfatórios, quando surge um padrão recorrente, aí sim temos um indicativo relevante de que algo precisa ser feito. O maior problema é que, na maioria das vezes, arrisco dizer, a pessoa sequer se dá conta de que existe um problema e se considera apenas azarada. É o caso de precisar levar o famoso esporro da entidade no terreiro, mas também a consulta a oráculos e outros métodos espirituais podem ajudar bastante. Ao mesmo tempo, não se deve subestimar a importância dos métodos mais mundanos, como terapia. O desafio é que, embora seja possível comprar banhos prontos e poções ou contratar alguém para construir um talismã para você, essa parte do trabalho não pode ser terceirizada. Você vai ter mesmo que conseguir olhar no fundo da sua alma… e a gente raramente gosta do que vê lá, pelo menos no princípio do processo.

E aqui quem estiver me lendo vai perceber, mais uma vez, que eu enganei vocês: você chega ao texto esperando dicas de magia amorosa e termina com esse balde d’água fria. É possível, sim, obter bons resultados nessa área com a aplicação bem feita de rituais, porém vale a mesma regra de magia financeira, que se torna mais fácil se existir um caminho para o dinheiro se manifestar e muitas vezes exige mudanças de comportamento (e, sim, vocês devem lembrar que eu dei esse mesmo golpe com os dois textos de magia de prosperidade). É irônico chegar à conclusão de que, não, nem a magia oferece uma “solução mágica”, mas, por mais difícil que seja, o que a gente aprende nesse meio quando estuda a sério (e não simplesmente copia receitas de amarração) é que há uma série de truques que facilitam demais o processo de autotransformação.

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  1. Como comentam alguns autores, dentre os quais creio que Versnel, se me lembro bem, as fórmulas antigas invertem as lógicas normais do funcionamento do mundo. Entre os gregos e hebreus, a identificação se dava pelo nome do pai, como Aquiles Pelida (filho de Peleu) ou Joshua ben Nun (Josué, filho de Nun)… ou Aragorn, filho de Arathorn, na Terra Média. Na magia, porém, tanto nos PGM quanto na magia judaica do Sepher HaRazim, usa-se o nome da mãe, em vez disso. ↩︎
  2. Para traçar um paralelo literário, é por isso que o final do livro 1984 (ATENÇÃO PRO SPOILER!) é tão dramático e deprimente, quando a vontade de Winston é tão esmigalhada pela tortura que ele passa a amar o Grande Irmão. ↩︎
  3. Para ser um pouco menos severo em meu julgamento do uso de amarrações amorosas, pelo menos num contexto histórico, é possível pensar que, sim, talvez no caso de uma mulher que dependesse do marido e que ficaria na miséria se ele a deixasse por outra mulher, poderia ser justificável ela querer amarrá-lo por motivos materiais. Mas não é o que se observa na maioria dos casos. ↩︎
  4. Quando este texto foi redigido, em 2021, Vênus estava exaltada em Peixes. No momento em que eu o estou atualizando, em 2025, ela está domiciliada em Touro, o que também é um bom momento para esse tipo de magia. ↩︎
  5. Quem me perguntar sobre usar servidor compartilhado para isso vai levar pedrada. ↩︎
  6. O livro de Patel se chama Golden Aromatherapy: A Symphony of Colored Energy and Aromatic Scents e é uma obra muito útil para quem tem interesse em qualquer um dos assuntos. Os experimentos que deram origem ao livro foram conduzidos com a supervisão do próprio fundador da Cura Prânica, o Mestre Choa Kok Sui. Sempre importante ressaltar ainda que aromaterapia não é brincadeira e óleos essenciais devem ser usados com todo o cuidado do mundo. ↩︎
  7. Minha única ressalva com este livro é que, neste capítulo que fala de questões amorosas, algumas fontes que ele cita têm origens na infame comunidade de Pick-Up Artists. Numa entrevista depois ao podcast Glitch Bottle, Miller comenta que a princípio esses espaços eram para pessoas que queriam pegar prática com habilidades sociais, do tipo “como chegar em alguém?” ou “como lidar com foras?”, mas logo a cena foi tomada pela misoginia violenta que a caracteriza desde então. Se não me engano, ele trata desse problema na reedição do livro, em Real Sorcery. ↩︎

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