Meus seis demônios favoritos do Dicionário dos Demônios

Como vocês devem saber, a editora Darkside, já conhecida pelo seu catálogo de livros no gênero de horror, suspense e capirotagens no geral, recentemente inaugurou seu selo Magicae, dedicado a livros de magia e que já conta com obras de destaque como Bruxa Natural: Guia Completo, de Arin Murphy-Hiscock, e o Grimório Oculto, de John Michael Greer. Eu não tenho certeza se este livro em questão se encaixa nesse selo especificamente, mas é certo que faz parte desse movimento mais amplo de interesse em ocultismo, que me parece bastante benéfico. Em todo caso, um tempo atrás eu tive a honra de ter sido convidado para traduzir um volume da Michelle Belanger chamado The Dictionary of Demons: Names of the Damned — com o bônus ainda que foi o privilégio de trabalhar ao lado da célebre Ju Ponzi, que aqui contribuiu como preparadora de texto. É com muita alegria que eu posso anunciar que ele recentemente foi publicado!

Para variar, os caras capricharam no acabamento

Trata-se de uma obra titânica, e a edição brasileira, intitulada Dicionário dos Demônios, ficou com mais de 500 páginas, contendo centenas e centenas de nomes de espíritos malignos. A premissa do livro é esta mesmo: reunir num volume só todos os nomes de entidades espirituais que a autora conseguiu encontrar e que se encaixam, pelo menos segundo certas obras, dentro da categoria mais ou menos ampla de demônio, anjo caído e afins. O trabalho de pesquisa da autora é impressionante e vai muito além das figurinhas mais clássicas. Sim, temos lá os nomes célebres já esperados como Satã, Lúcifer, Belial, Mefistófeles e toda a turminha da Ars Goetia. Mas Bellanger também revirou diversos outros grimórios e obras variadas, incluindo a Ars Theurgia, o Abramelin, o Livro Jurado de Honório, o Livro de Oberon, o Testamento de Salomão, além de obras mais obscuras como o chamado Manual de Munique, o Livro dos Encantamentos, Janua Magica Reserata, o Livre des Esperitz, entre tantos outros. Se você já conhece esses títulos, então sabe que tem coisa boa aqui. Se não conhece, então é ainda mais um motivo para ir atrás desse trabalho e ampliar seu repertório demonológico.

Apesar de ter me dado bastante trabalho, como vocês podem imaginar, eu me diverti horrores com essa tradução e achei que seria interessante compartilhar alguns dos nomes desse livro com vocês.

Decidi pelo número 6, por motivos óbvios, porém friso que, quando eu me refiro a eles como meus favoritos, é apenas conceitualmente, porque a descrição ou história deles me diverte. Com frequência, tem algo que me fez rir ou que eu acredito que seria criativamente interessante para um romancista ou até mesmo alguém envolvido em criação de jogos ou coisas do tipo. Aviso desde já, para quem não me conhece muito bem, que meu senso de humor é meio idiota, mas, bem, acho que é bom fazer um texto mais leve para ver se eu me animo e volto a publicar aqui com alguma regularidade.

No entanto, no meu trabalho mágico pessoalmente eu não tenho experiência com demônios ainda, por isso peço que tratem este texto como sendo apenas para fins de entretenimento. E, apesar de incluir um ou outro nome famoso aqui, eu preferi valorizar o pessoal mais desconhecido, mais lado B ou… underground (eu diria com perdão do trocadilho, mas todo trocadilho é por definição imperdoável, então paciência).

Sem mais delongas, vamos à lista!

6 — Paimon

Começamos com o grande Paimon, porque é um dos nomes mais famosos — tendo sido catapultado ao estrelato hollywoodiano com o filme Hereditário. Além disso, ele é praticamente onipresente na literatura da demonologia. Ele aparece na Goécia, onde é o demônio número 9, coibido pelo anjo Haziel, do Shem HaMephorash na Goécia de Dr. Rudd; mas também consta na Descoberta da Bruxaria, de Scot, e na Pseudomonarchia Daemonum, de Weyer (dois volumes que têm elos genéticos curiosos com a Goécia), no Dictionnaire Infernal, de Collin de Plancy, no Livre des Esperitz, no Abramelin, no Livro de Oberon, na Clavis Inferni e no Livro dos Encantamentos (um grimório galês que nada mais é que as anotações de um cunningman do século XIX). Em várias fontes, consta que ele é leal a Lúcifer, este sendo seu superior direto. Alguns livros também o chamam de Parmon e segundo Mathers e Agrippa ele seria o equivalente ao anjo caído Azazel na tradição rabínica.

Na tradição ocidental, Paimon é compreendido como o rei do oeste, ao lado de Oriens (leste), Ariton ou Egin (norte) e Amaimon (sul), tendo domínio sobre toda a vasta multidão de espíritos associados a essa direção cardeal — aliás, sobre a ideia de demônios regentes das quatro direções, saiu recentemente um episódio do podcast Glitch Bottle com o Dr. Al Cummins sobre o assunto, que eu recomendo muito ir conferir (link aqui). No design clássico do triângulo da arte atribuído a Tritêmio, são esses os nomes que aparecem, a fim de controlar os espíritos ali conjurados.

Em nenhum desses grimórios você aprende a (spoilers para quem não viu Hereditário) entregar seu filho como oferenda para que Paimon possa encarnar nele, mas ele sabe uma série de coisas interessantes que pode repassar como os mistérios da natureza da Terra, a localização do Abismo e fatos do passado, presente e futuro, além de ser capaz de dobrar a vontade de qualquer ser humano à sua, tornar os peixes do mar obedientes (para realizar seu sonho de ser o Aquaman, imagino), causar visões, evocar os espíritos dos mortos, conferir espíritos familiares e fazer o magista voar.

Porém o motivo de eu colocá-lo aqui em destaque nesta lista é um detalhe besta, mas que faz rir um tanto, que é mais de um livro comenta que ELE FALA GRITANDO: “o volume de sua voz é sobrenaturalmente alto, e ele não parará de falar em um tom de voz ensurdecedor, de modo que o conjurador não conseguirá compreendê-lo, a não ser que o comande para que altere seu modo de falar”. A ideia de o mago conjurando um dos grandes reis infernais, mas não conseguir se comunicar com ele porque o bicho fala gritando é demais pra mim, mas a solução do Livro de Oberon é ainda melhor: entregar-lhe um pedaço de papel e pedir para que ele passe suas mensagens por escrito. Tenta assistir Hereditário a sério agora.

5 — Xaphan

Um demônio sem lá grandes carreiras nas esferas mais mágicas, ausente de qualquer grimório, mas presente no Dictionnaire Infernal de Collin de Plancy. Esse dicionário francês é um clássico da demonologia, publicado pela primeira vez em 1818, mas que se tornou célebre na reedição de 1863 onde foram incluídas várias gravuras pitorescas, incluindo o que provavelmente são as representações mais famosas de vários demônios. Segundo o texto, “Xaphan era mais ou menos como um inventor enquanto ainda residia na esfera celeste. Foi recrutado para a rebelião e elaborou um plano para explodir o reino celestial. É claro que seu plano nunca foi levado a cabo porque Xaphan e todos os seus compatriotas foram vencidos e atirados no abismo”.

Esse fragmento de narrativa aqui é fascinante para mim por, pelo menos, dois motivos: 1) quando Milton narra a Guerra nos Céus no seu Paraíso Perdido, há um momento em que Lúcifer inventa a pólvora e a utiliza para construir canhões usados contra os anjos de Deus (numa cena de combate que é deliberadamente ridícula), e essa descrição de Xaphan me lembra muito esse episódio literário; 2) a ideia de explodir os céus me faz pensar também no infame Gunpowder Plot da história inglesa. Uma vez expulso dos céus, Xaphan desde então trabalha na forja do inferno e não tem feito lá muita coisa, mas sua história praticamente pede uma narrativa mais elaborada.

Xaphan, em ilustração do Dicionário Infernal francês

4 — Alleborith

Apesar do nome digno de livro de fantasia, Alleborith, como veremos, tem poderes um tanto… prosaicos. Ele é um dos demônios dos decanos, as 36 divisões de 10º da eclíptica, elemento importante da astrologia e magia do Egito posteriormente incorporado à astrologia helenística. Na magia hermética, há usos específicos dos decanos como se pode observar no Liber Hermetis, no Picatrix e em Agrippa, mas existe também uma tradição clássica segundo a qual os decanos estão associados a espíritos causadores de doenças e outros tipos de mal-estar (o que também remete à demonologia mesopotâmica). É nessa tradição que se insere um livro apócrifo dos anos pouco antes à virada da era cristã chamado Testamento de Salomão. No Testamento, o rei bíblico a quem é atribuída a origem da tradição de conjuração demoníaca que leva o seu nome interroga uma série de espíritos, descobre os seus poderes e a forma de afastá-los — o que geralmente envolve a invocação de anjos e nomes divinos.

O primeiro demônio do primeiro decano, por exemplo é Ruax, que causa danos à inteligência das pessoas, tornando-as lentas e confusas. Quem o expulsa é o arcanjo Miguel. Já o demônio Akton é o do 24º decano, o último de Escorpião, e ataca causando dores nas costelas e na lombar, mas pode ser expulso pela invocação dos nomes Marmaraôth e Sabaôth. No caso de Alleborith (também chamado de Aleureth na edição mais recente e precisa do Testamento de autoria de McCown), seu poder é… fazer as pessoas se engasgarem em espinhas de peixe. E o pior é que ele não é nem o demônio de um dos decanos do signo de Peixes, mas pertence ao 30º decano, o primeiro de Capricórnio (não sei se dá para tentar traçar muita conexão entre as associações zodiacais e esses demônios, imagino que não, as atribuições não são sistemáticas, mas se alguém quiser tentar, boa sorte!). Ele também é especial pelo fato de não ter nenhum nome divino capaz de expulsá-lo. Basta tomar cuidado na hora de comer peixe e mastigar direito. Dominar a manobra de Heimlich também ajuda.

3 — Romulon

Mais um demônio meio anônimo, desta vez do grimório conhecido como o Livro de Oberon, que se destaca por ensinar métodos para dominar não apenas espíritos infernais, mas fadas também — seres que durante uma época eram entendidos como nem anjos, nem demônios, mas anjos que acabaram meio que caindo por terem ficado neutros durante a Guerra nos Céus. O principal nome aí é o de Oberon ou Oberyon, que dá título ao livro, famoso pela sua aparição como rei das fadas na comédia Sonhos de uma noite de verão, de Shakespeare.

Já Romulon está aqui não por conta de sua aparição ou função, que são bastante comuns — ele aparece como um soldado armado com espada e lança e pode ser chamado para ajudar a encontrar tesouros roubados. O divertido é que, diz o texto, “consta que está sob o poder de todos os outros espíritos, o que insere este pobre diabo absolutamente na última posição de uma extensa hierarquia”. Pobre Romulon! Se ainda não recebeu uma promoção desde aquela época (e sua ausência de outros grimórios nos faz imaginar que isso seria bem difícil), ele deve estar é muito fudido.

2 — Belzebu

Um dos demônios mais famosos, com uma história interessante: seu nome vem de Baal-Zebub, um dos muitos deuses chamados baalim (senhores) venerados pelos povos vizinhos a Israel (e pelos próprios israelitas, em diversas ocasiões), descrito no livro de Reis, na Bíblia. É possível que fosse uma divindade espantadora de moscas, como é o epíteto Zeus Myiagros atribuído ao deus grego Zeus, pois seu nome é traduzido como “senhor das moscas” (Baal Muyon no grego da Septuaginta), que nos soa sinistro, mas revela na verdade um contexto bastante mundano. Qual seria o sentido real desse nome, no entanto, é ainda difícil de determinar.

Belzebu como um moscão no Dicionário Infernal, fazendo jus a seu nome

Na literatura posterior, Belzebu aparece demonizado já no Novo Testamento como “príncipe dos demônios” em Mateus 12:24 e também no apócrifo Testamento de Salomão. Nessa obra do começo da era cristã, nós o vemos sob o nome Beelzeboul, onde alega orgulhosamente ser não apenas um mero filho bastardo de um anjo, como é o caso de diversos demônios, mas um anjo caído de fato. Em grimórios mais recentes, como o Armadel, ele faz parte de uma tríade suprema infernal, ao lado de Lúcifer e Astarote, sendo chamado para ensinar o conjurador tudo sobre a rebelião e queda dos anjos. Nós o vemos também no Abramelin, no Grande Grimório, na Janua Magica Reserata e nas Verdadeiras Chaves de Salomão.

Mas o motivo de eu incluir Belzebu aqui nesta lista é, de novo, um pouco mais pitoresco, e diz respeito a uma figura chamada Charles Berbiguier, um autoproclamado especialista em demonologia do começo do século XIX (e que muito provavelmente era só meio doido mesmo, coitado). Berbiguier foi o autor de Les Farfadets (1821), obra na qual expõe tudo que ele aprendeu a partir do demônio Rhotomago, seu algoz pessoal, enviado pelo próprio Belzebu. Parte desses conhecimentos inclui a hierarquia bizarra que não aparece em nenhuma outra obra, onde se observa cargos como Senhor dos Cassinos (óbvio que tem cassino no Inferno), Grande Despenseiro e Chefe da Polícia Secreta… mas o mais fascinante para mim é que teria ocorrido um golpe de Estado no inferno e Lúcifer teria sido deposto. Quem assumiu o cargo de governante do inferno (seu título, mais especificamente é Chefe Supremo do Império Infernal) foi ninguém menos que… Belzebu! Pronto, já tem muito material aqui para um Paraíso Perdido 2: O Inimigo Agora É Outro.

1 — Ornias

O ladrão de marmita dos pedreiros. Sério.

A história de Ornias é a melhor de todas, ponto. É mais um dos demônios que aparecem no Testamento de Salomão (eu me esforcei aqui para não exagerar na hiper-representação dessa obra, mas ela é de longe a minha favorita). Cito o Dicionário:

“Nesse texto extrabíblico, a Rei Salomão é supostamente dado, pelo Senhor Deus, o poder de compelir e controlar demônios. Salomão rezou para obter essa habilidade, porque um jovem construtor que trabalhava nas obras do seu templo estava sendo vitimizado por um demônio que, todos os dias, comia metade da sua comida — esse demônio era Ornias. É o primeiro demônio dominado por Salomão e que, subsequentemente, leva Salomão aos outros demônios mencionados nesse antigo texto.”

Pois imagine que você é um pobre pedreiro trabalhando em construir o Templo, porém todos os dias você abre a sua marmita e, puta merda, levaram metade da comida (incluindo o bifão e o ovo). É um problema comum em firmas por todo o país, mas se já é complicado quando o ladrão é humano, fica mil vezes pior se for um demônio. E o fato de que ele foi o primeiro dos demônios que Salomão controlou só melhora a situação. Se fossem fazer um Solomon Origins, à moda da trilogia do Nolan do Batman, Ornias seria o principal vilão. Ele não apenas rouba comida, como ainda também é cagueta, porque uma vez aprisionado, ele leva Salomão aos outros demônios, sendo aprisionados também um por um. De quebra, diz ele que é filho de ninguém menos que o arcanjo Uriel… o que é um tanto escandaloso, porque os anjos que fizeram filhos com mortais na tradição enoquiana são anjos caídos (e, bem, na Ars Theurgia aparece sim um demônio com o mesmo nome do quarto dos principais arcanjos. Bizarro). A autora ainda especula se ele não seria o mesmo que o demônio Orias ou Oriax, o 59º demônio da Goécia.

O Dicionário de Demônios, de M. Bellanger, em minha tradução, está disponível direto no site da Darkside (clicando neste link aqui).

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