A responsabilidade individual no equilíbrio energético

Algumas semanas atrás, recebi no CuriousCat a seguinte pergunta:

Oi Maíra, tudo bom? Espero que sim. Tenho uma curiosidade: estava lendo os posts sobre como melhorar a energia e tentarei seguir, mas ao mesmo tempo fiquei incomodado: como você vê essa culpabilização do indivíduo como produtor do próprio desequilíbrio energético em um mundo capitalista, recheado de machismo, racismo e capacitismo? Dá pra falar pra uma pessoa com depressão simplesmente “parar de ter pensamentos negativos”?

Vou tentar responder aqui, pois acredito que aquele app não é o espaço apropriado pra esse tipo de discussão.

Precisamos definir algumas coisas antes de continuarmos. Eu sempre vou partir do modelo de ser humano como um ser biopsicossocial, assim tudo juntinho. Isso significa que somos afetados o tempo todo pelos aspectos biológicos, psicológicos e sociais da nossa existência. As condições biológicas são as da saúde do corpo físico e aí podemos incluir desde questões genéticas até o caso de quem se torna uma pessoa com deficiência após um acidente; as questões psicológicas tratam da subjetividade do sujeito, ou, grosseiramente falando, da sua personalidade, humor, questões de saúde mental, entre outras; as questões sociais estão, claro, ligadas à sociedade (ou grupo social) na qual o sujeito está inserido e vão desde códigos de conduta, religião, tradições até a posição socioeconômica. Isso é bem básico e não consigo entender qualquer tipo de tratamento, em qualquer nível, que não contemple o paciente dessa maneira.

Só que quando falamos da parte social, precisamos necessariamente entender como a nossa sociedade é estruturada. Essa estrutura exclui e dificulta a vida de um grande grupo de pessoas, baseada em cor da pele, gênero, orientação sexual, religião (muitas vezes ligando religião e cor de pele), classe social. E não bastando a sociedade (e a economia) ser estruturada em sistemas de opressão, ainda vivemos um momento crise econômica, no meio de uma pandemia, no qual a acumulação de capital pelos multimilionários e bilionários acontece cada vez mais rápido e, complementarmente, a mobilidade social da camada mais pobre está beirando o impossível. Metade da nossa população está hoje em insegurança alimentar.

“Tá, mas por que eu estou lendo sobre opressão num site de ocultismo?”

Spiritual Flow, arte de Fabian Lijtmaer (fonte).

Porque, enquanto pessoa encarnada no planeta Terra em 2021 depois de Cristo, essas questões vão atravessar sua vida e a de todas as outras pessoas igualmente encarnadas hoje neste planeta. Nós, todos nós, estamos inseridos numa sociedade/sistema em que economia e política são essenciais para a nossa sobrevivência. Literalmente. Precisamos sim ter essas questões em mente mesmo quando escolhermos seguir o caminho espiritual.

A grande questão não é o porquê de eu estar falando disso, mas sim o que a gente faz com isso.

Volta e meia ouço coisas como “se Deus existisse, não haveria fome no mundo/pessoas cruéis/injustiça”. Mas vejam só, quem cria essas coisas ruins somos nós, humanos encarnados. Quem tem que lidar com elas e arrumar a zona que nós fizemos somos nós mesmos. Nós aqui temos responsabilidade, no macro, com o grupo. Precisamos todos nos envolver com as questões das nossas comunidades, agindo sempre em prol de melhorar a vida de todos. Se queremos um mundo sem opressões, precisamos nos envolver nas lutas contra as mesmas. Inclusive é a maneira mais lógica a se agir, pois se a vida de todos melhora, a sua (minha, nossa) vida melhora junto.

O aspecto energético disso é que a gente é atravessado o tempo todo pelas vibrações da nuvem psíquica do lugar onde vivemos. Também vivemos na média energética, nossos chakras e corpos de energia são afetados pela média das pessoa que vivem no mesmo local que a gente (casa, condomínio, bairro, cidade, estado e até país). Se as pessoas ali viverem bem, a nuvem psíquica será de boa qualidade, a média dos chakras será boa e entramos num círculo virtuoso, com tendência para uma espiral positiva. Energia é contagiosa e cuidar da qualidade de energia da comunidade é, algum nível, também cuidar da sua energia. Ninguém vive completamente independente e isolado do resto da humanidade.

Beleza, muito lindo se a humanidade pensasse assim, se as pessoas de modo geral soubessem disso e agissem de acordo, mas não é a realidade. O egocentrismo e a competitividade são valores fortes na contemporaneidade, as pessoas só pensam em si, passam por cima dos outros sem nem titubear e o capitalismo está vivo e forte usando as opressões estruturais pra explorar ao máximo, principalmente os mais fracos. O que a gente faz individualmente com isso?

Quando não conseguimos ser agentes de mudança, a gente, na medida do possível, se defende, cuida da gente. A nossa responsabilidade não é apenas para com o outro ou para com a comunidade, mas primeiramente para conosco. E do mesmo jeito que Deus não vai vir limpar a zona que a humanidade fez, coletivamente, ninguém, nem do mundo oculto nem do mundo material, vai vir nos salvar se nós não nos cuidarmos. E a contribuição do bem-estar individual no coletivo se encontra no fato de que só conseguimos cuidar do coletivo ou do outro se estivermos bem.

Quando falamos de saúde e principalmente quando falamos de saúde mental, precisamos sempre olhar pro modelo biopsicossocial de que falei ali em cima. E, mesmo considerando todos os aspectos que atravessam o indivíduo e por mais duros que eles possam ser, se ele não decidir assumir sua responsabilidade para com si, não há nada que o terapeuta (ou qualquer outra pessoa) possa fazer pra ajudar. Nada.

Isso está longe de querer dizer que basta falar “pense positivo” pra quem está em depressão ou que é só pensar positivo que tudo passa. “Pensar positivo” apenas não resolve nada. Só que se a pessoa com depressão, ou qualquer outra questão, não vai melhorar se não engajar no tratamento. Se quem precisa de qualquer tipo de ajuda externa não procurar ou não aceitar essa ajuda (por orgulho, por exemplo), não adianta qualquer pessoa querer ajudar. E eu nem acho que pensar positivo seja possível sempre, pessoas que estejam vivendo em situações extremas nem devem conseguir mesmo. Mas também não acredito que esse seja o público desse site.

Por mais que a gente tente negar isso em alguns momentos da vida, somos sim dotados de livre-arbítrio. Na maior parte do tempo, podemos escolher como agir, como reagir – e essas escolhas têm consequências energéticas, kármicas e no mundo material também. Quando eu posto no Instagram algumas dicas do que fazer para melhorar sua vibração, é no campo das suas escolhas que estou pensando em atuar. Quando falo que precisa entender o que te irrita pra poder resolver um problema e parar de explodir de raiva, por exemplo, também é nesse sentido. Nossa energia segue a nossa atenção – e se damos atenção demais para aquilo que nos faz mal, adoecemos emocional, mental e fisicamente. E se pudermos evitar adoecer, melhor. A ênfase não é apenas em “pensamentos positivos”, mas mais evitar focar e passar tanto tempo nos negativos.

Cinco de Copas do tarô Rider-Waite-Smith. A figura olha inconsolável para as três taças que caíram e derramaram o vinho, ignorando atrás dele as duas taças que ainda estão de pé. Com essa atitude ele corre o risco de perder as cinco taças, ao invés de perder três.

Nós, individualmente, podemos até não ser os produtores de todo o nosso desequilíbrio energético num mundo recheado de opressões sistêmicas e exploração capitalista. Mas só nós, individualmente, somos capazes de quebrar essa espiral descendente de desequilíbrio e transformá-la numa espiral ascendente de melhores vibrações e equilíbrio energético, apesar de o mundo ser como é. Essa é a escolha que ninguém pode fazer pela gente. Esse é o ponto em que a responsabilidade é individual, pessoal e intransferível.

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