Intervenção mágica e mudança interna

Vamos começar este texto com uma coisa que a gente não pode esquecer: todo mundo tem suas questões para trabalhar. Ninguém aqui nasceu perfeito e iluminado. Inclusive vou aproveitar a deixa e fazer um mea culpa logo de cara, porque os temas deste texto são coisas de que eu já devia ter tratado antes, mas justamente por ser um assunto meio complicado, eu acabei deixando para depois. E, assim como tudo que a gente deixa para depois, uma hora a água bate na bunda (isso vai ser um tema recorrente neste texto).

O que eu quero dizer com mudança interna? Você pode chamar de várias formas: purificação, refinamento ou construção da personalidade ou do caráter, aprimoramento, aperfeiçoamento, transformação ou desenvolvimento pessoal. Como quiser. Eu gosto de “mudança interna”, porque acho descritivo o suficiente. Conforme afirmamos, todo mundo tem suas questões. Podem ser coisas pequenas – às vezes a pessoa tem problemas de autoestima, problemas para se impor ou é muito carente, – e podem ser coisas maiores, como falhas sérias de caráter – nisso entram as pessoas cruéis, mentirosas, desonestas etc. Em todo caso, o processo de mudança interna envolve identificar essas questões e agir, a longo prazo e de forma contínua, de modo que esses problemas se tornem cada vez menos presentes na sua vida.

Em tese é simples, né? Eu nem achava que era algo que a gente precisasse chamar por um nome específico, porque é o tipo de coisa que se imagina que todo mundo faz ou devia fazer em algum grau. No entanto, as redes sociais deixam muito claro que não é o caso, que não é raro as pessoas não terem a menor capacidade de autorreflexão e, inclusive, teve um vídeo recente de um desses palhaços do Vale do Silício defendendo a falta de introspecção como um objetivo consciente. Então lá vamos nós.

Mudança interna e propósito de vida

Na medida em que, por “mudança interna”, estamos falando do que é possível fazer para identificar e tratar de certos aspectos de nossa psiquê, o ponto em que a questão se desvia da psicologia normal é quando, observando por um viés espiritual, a gente entende que diversas situações em nossa vida se manifestam como resultado desses aspectos, especialmente quando são padrões recorrentes. As pessoas às vezes querem tratar essas questões com magia e acabam se frustrando, porque, enquanto a raiz desses problemas não for abordada, os resultados serão insatisfatórios. Se a magia for bem feita, ela pode ajudar no processo, mas o processo precisa existir para começo de conversa e precisa partir de dentro.

Não por acaso, antes da emergência da psicologia como uma ciência à parte, sempre existiram escolas de prática mágica/espiritual que enfatizaram a importância desse trabalho, porque em algum momento alguém entendeu que não adianta nada fazer um monte de ritual se o indivíduo é incapaz de olhar para o próprio rabo. Não pretendo fazer uma lista de escolas que tratam de mudança interna, mas gosto do exemplo histórico da alquimia – que, ao mesmo tempo em que apresentava instruções literais de operações farmacológicas e metalúrgicas, aplicava esse mesmo vocabulário para tratar dos processos internos do alquimista, que refinava a si mesmo, trabalhando seu espírito enquanto trabalhava a matéria1.

Ilustração representando a etapa alquímica conhecida como Nigredo, ou Putrefação.

Assim, de novo eu preciso bater no pessoal do New Age, porque, mais uma vez, eles pegaram um conceito importante e o deturparam ao ponto de inviabilizarem a conversa (assim como fizeram com a questão da lei da atração, do karma, a palavra “gratidão” e afins). Não, quando eu digo que as coisas que acontecem podem ser resultado de quem somos num dado momento, de nossa psiquê e processos internos, por via de causalidade espiritual, eu não estou falando de culpabilizar a vítima. Quando acontece algo de ruim com uma pessoa, existem vários fatores envolvidos ali. Não é falta de “pensar positivo” – que é ao que esse pessoal reduz tudo (mais sobre o assunto, vocês podem ler no texto da Maíra sobre a lei da atração). O ponto é que, quando você para e olha para a sua vida, como uma narrativa, a tendência é que surjam certos padrões. E esses padrões tendem a apontar para os nossos principais problemas, os desafios que a gente tem que enfrentar.

No mais, tem uma outra coisa que é ainda mais complicada que é preciso mencionar: esses problemas são também, muitas vezes, o que pode atrapalhar o que a gente veio fazer nesta vida, espiritualmente falando. O conceito é elaborado em várias doutrinas: é o Svadharma no hinduísmo, o Plano de Alma no Pranic Healing, a Verdadeira Vontade na Thelema. Embora haja variações de uma escola para outra, a ideia básica é a de que nós chegamos a esta encarnação com um dado propósito a ser cumprido. Quando nos alinhamos a esse propósito, há realização e contentamento. Quando nos desviamos dele, nos sentimos insatisfeitos, vazios e tomados pelo desejo de viver uma outra vida. E assim, por exemplo, se alguém veio para esta vida para ser artista, mas sofre de um problema sério de desorganização que impede a pessoa de concretizar suas criações, então temos aí um caso de alguém cujos problemas internos estão atrapalhando a sua vida num nível ainda mais profundo do que ela imagina, porque ela está deixando de fazer o que veio fazer por causa desses problemas. Isso tem consequências posteriormente.

Um bom exemplo para ilustrar a relação entre nosso interior e as coisas que nos acontecem externamente é a questão das amizades. As pessoas que nós atraímos como amigos tendem a ser as que são mais compatíveis conosco, em todos os níveis – interesses, senso de humor, personalidade e, claro, também algo mais sutil, o que chamamos de energia. Às vezes a gente tem amizades de longa data com as quais a gente não se sente mais confortável, porque a pessoa que você era quando essa amizade foi firmada não existe mais. Às vezes também existe um desconforto causado por um desejo de mudar que não pode ser concretizado por conta da pressão do grupo, o que leva a uma insatisfação, igualmente. Uma coisa que é comum, inclusive, quando a gente começa a desenvolver a vida espiritual é uma mudança nos círculos de amizades: mesmo que você não demonstre nenhuma alteração dramática externamente, a mudança de energia é notável o bastante para fazer com que as velhas amizades naturalmente se afastem. “Semelhante atrai semelhante”, afinal, é um dos princípios básicos dos planos sutis.

Agora, o que acontece na magia, com uma frequência cansativa, é que as pessoas procuram algum profissional da espiritualidade por estarem descontentes com a própria vida. Elas esperam que a gente possa resolver a vida delas com uma meia dúzia de feitiços. Bom, com feitiços dá para fazer muita coisa, mas cada feitiço é para ser uma intervenção pontual, uma correção de rota. Ou seja, há limites.

Uma pessoa com uma vida amorosa infeliz, com um histórico de relacionamentos desastrosos e que reclama que não consegue conhecer ninguém que a satisfaça, geralmente não vai se beneficiar de um feitiço de amor. E eu vou explicar o porquê: o que determina as pessoas com quem a gente se relaciona é algo multifatorial. Existem aí alguns fatores que entram no balaio do que as pessoas chamam de “sorte” e também fatores que dependem de ações do indivíduo a nível mundano. Quanto menor for o número de pessoas com quem você interage, mais difícil vai ser conhecer alguém, e se você mora numa grande cidade e tem uma vida social agitada, você vai ter mais oportunidades do que alguém que mora no interior e é reclusa ou tem uma visão de mundo incompatível com a da média do lugar onde a pessoa mora. Isso é óbvio, e esses efeitos podem ser amplificados com magia prática, dentro dos limites das possibilidades – às vezes a vida social e amorosa da pessoa só vai melhorar mudando de cidade, por exemplo. No entanto, o cerne da coisa é a sua energia pessoal. Se você não gosta do que tem aparecido para você, a magia só vai conseguir lhe trazer mais do mesmo2.

Tem uma anedota bastante ilustrativa num dos livros do Phil Hine de uma moça que fez magia para arranjar um namorado. Como Hine reconta, ela é extremamente específica em sua petição e descreve o sujeito que ela gostaria que aparecesse em sua vida nos mínimos detalhes, incluindo até o modelo de carro que ele deveria dirigir. Mas ela esquece de incluir qualquer menção sobre a personalidade do carinha, e o que vem, claro, é alguém burro e chato que nem uma porta, para a frustração da moça. Hine, no entanto, me parece ter tirado a conclusão errada da história: ele comenta que ela não foi específica o suficiente, que ela deixou algo como uma “lacuna jurídica” aí. Bom, primeiramente, problemas de lacuna jurídica só ocorrem na magia quando você está lidando com forças muito burras ou malevolentes. Em segundo lugar, não ia fazer a menor diferença ela ter sido mais específica, porque o que veio era o que era compatível com ela, e o fato de ela incluir o modelo de carro e não falar nada da personalidade dele é, por si só, indicativo da própria personalidade dela.

Hmmm, esse texto é ilustrado com uma imagem de espelhos. O que será que isso quer dizer?

Vamos a mais um exemplo, de novo tratando da questão de vida social e amorosa.

Muitas pessoas têm me procurado perguntando sobre remediação astrológica. Eu escrevi um texto, um tempo atrás, sobre o assunto (link aqui), tratando de seus aspectos mais técnicos. Em resumo, a remediação envolve analisar o mapa natal da pessoa para entender o que tem de difícil ali e então tratar dessas questões. Geralmente, vai ser um ou outro planeta que a gente entende que está debilitado e por isso traz uma série de problemas. Aí é possível recorrer a práticas como talismãs, rituais ou doações específicas para ajudar o planeta no seu mapa, de modo que ele possa se expressar de uma forma mais saudável. O ponto que eu omiti – e aqui de novo entra o mea culpa – é que a remediação não tem como ser bem-sucedida se for tratada apenas como uma solução externa. O que isso quer dizer?

Imagine uma pessoa que tem, em seu mapa natal, o planeta Vênus exilado no signo de Virgem como regente de sua casa 73. Uma de suas principais queixas, como era de se esperar, diz respeito à vida amorosa. Um talismã de remediação pode ajudar, mas é preciso que essa pessoa também faça o trabalho interno de entender quais são as suas atitudes e posturas mentais que a impedem de ter um relacionamento feliz. Esse é um ponto em que eu mesmo fico desconfortável na hora de conversar com as pessoas, porque, se alguém me procura para tratar de uma questão, a parte que eu posso fazer é o aspecto mais técnico dos talismãs, rituais e recomendações mágicas. Não acho que me caiba jogar na cara da pessoa as suas próprias fraquezas, até porque, para isso eu preciso sondar a fundo a vida e a psiquê delas, o que é desagradável também. O que eu posso fazer é indicar a necessidade de fazer o trabalho interno, mas o resto cabe à introspecção de cada um.

Beleza, então, mas se a pessoa precisa fazer o trabalho interno pessoalmente, como que a magia vai ajudar? É isso, ela vai ajudar. No caso da pessoa com a Vênus em Virgem, o talismã não vai reformatar toda a subjetividade dela para que possa ter relacionamentos felizes. Nenhum talismã é capaz disso. Magia não é mágica. Mas ele pode fazer pequenas intervenções, pode atrair pessoas que vão conseguir ajudá-la a melhorar (e não piorar) essas questões, situações que vão ajudá-la a botar a mão na consciência, oferecer um pouco de coragem para enxergar essas coisas difíceis em si mesma ou para verbalizá-las com seus parceiros ou até mesmo com a terapeuta. Dependendo de como está a situação, ele pode até mesmo desencadear uma crise que vai ser importante para passar tudo a limpo. Se o processo já estiver em andamento, a magia é muito eficaz em transferir as coisas do nível mental para o emocional. Vocês sabem quando você entende uma coisa racionalmente, mas a ficha não caiu ainda? Como quando você fica com raiva de alguém por algum motivo, depois pensa um pouco e consegue entender a perspectiva da pessoa, mas continua sentindo a raiva? Práticas mágicas, espirituais e energéticas são muito eficazes nesse caso. Mas se a pessoa encomenda o talismã e começa a usá-lo achando que ela mesma é perfeita e que não tem nada para mudar, que a culpa pelos seus próprios fracassos é sempre dos outros ou “do sistema”, aí o que o talismã pode fazer por ela é muito pouco.

Como começar o processo

Resumindo, portanto, o que vimos até então: de uma perspectiva espiritual, quem nós somos num determinado momento influencia fortemente as situações que vão aparecer para nós, e os padrões que se repetem devem ser compreendidos como indicadores dos principais problemas a serem tratados em nossa psiquê. A mudança interna não é algo que a gente faz para se adequar a uma dada realidade – não se trata de um processo para limar o indivíduo a fim de que ele seja mais funcional dentro de uma sociedade que pode muito bem estar ela mesma profundamente doente. É algo que a gente faz para ajudar a realizarmos nosso propósito nesta vida – para quem não tem uma vida espiritual mais intensa, isso vai ajudar a pessoa a ser mais feliz e realizada. Para quem pretende trabalhar com espiritualidade e magia, no entanto, é meio que obrigatório. Por sorte, existem diversas ferramentas para isso.

Eu gostaria agora de oferecer algumas diretrizes para quem pretende realizar esse processo dentro de uma visão esotérica. A ideia não é ser dogmático e determinar, tipo, “tem que ser desse jeito aqui ó, senão não funciona”, mas sim dar uma sugestão do que é possível fazer. Antes disso, no entanto, acho que é importante delinearmos alguns princípios básicos.

O primeiro princípio, nós já vimos, determina que o que está fora é consoante ao que está dentro (meio como “o que está em cima é como o que está embaixo”). Nossa energia pessoal, que é a soma de tudo que nós somos num dado momento, tem um forte papel em determinar as coisas que nos acontecem. Depois é importante entendermos o princípio de que tudo que a gente faz tem consequências, em vários níveis. Nossas ações, o que a gente faz e diz, nossos sentimentos e pensamentos influenciam os nossos corpos sutis, para bem e para mal. Nós nos tornamos aquilo que contemplamos e aquilo que adotamos como hábito. Por fim, o terceiro e último princípio é o da retroalimentação: o que nós fazemos nos afeta internamente e o estado de nossa interioridade determina o que vamos sentir e pensar, o que influencia (embora não determine) as nossas ações.

Sendo assim, vamos a um outro exemplo. Pense numa pessoa cruel. É possível que ela tivesse uma certa inclinação a ser cruel, identificável no mapa astral, mas com certeza foi estimulada pelas suas condições, talvez pela criação em casa ou até mesmo no trabalho. Cada ato de crueldade reforça esse padrão nos seus corpos sutis – em termos de chakras, a gente entende que ela está sujando e debilitando o seu chakra cardíaco, o que, por sua vez, traz uma série de repercussões negativas. Quanto mais cruel ela é, mais incapaz também ela se torna de receber ou dar amor, logo mais infeliz. Estando infeliz, fica cada vez mais difícil romper esses padrões, porque ela se torna condicionada a ter pensamentos e sentimentos negativos em relação às outras pessoas, meio que automaticamente. E, ao agir com crueldade com base nesses sentimentos, ela reforça os padrões de novo e piora a própria situação.

Dylan Lundsten – Introspection

E isso nos leva à primeira conclusão e indicação prática: se você quer facilitar o processo de mudança, é preciso não se identificar nem com seus pensamentos, nem com seus sentimentos. Eu já falei disso num texto anterior sobre os corpos sutis. Se você se identifica com essas coisas, fica difícil mudar, porque a mudança parece um ataque à sua identidade. A pessoa cruel do exemplo acima não vai querer mudar, porque ela se identifica com a sua crueldade e, por isso, vai encontrar formas de defendê-la, seja como uma desculpa (“ai, é porque eu sofri demais na vida”), seja como uma tentativa de enquadrá-la como uma virtude (“eu sou uma pessoa muito sincera e dou a real”).

Por sorte, existe um exercício para ajudar a quebrar essa identificação. No Pranic Healing, temos uma afirmação chamada de “afirmação da alma” (link aqui) que envolve certas frases, incluindo: “eu não sou o corpo, eu não sou as emoções, eu não sou a mente…”. Repetir essa afirmação todos os dias tem o efeito de água mole em pedra dura. Mesmo que, ao dizer essas palavras, elas não sejam exatamente verdadeiras no momento em que você as diz, porque no fundo você se identifica sim com suas emoções e pensamentos, essa identificação vai sendo dissolvida aos poucos a cada repetição, o que ajuda demais o processo.

Tendo isso tudo em mente, podemos prosseguir agora com algo como um esquema que talvez seja útil para orientar a mudança interna. Eu gosto pensar que esse processo conta com três etapas: 1) o reconhecimento, 2) a vontade de mudar e 3) as ações concretas.

O primeiro passo é o reconhecimento, óbvio, porque não tem como a gente tratar daquilo que a gente nem sabe que está lá. Há muitas formas de se fazer isso. Se a sua mente for suficientemente afiada, pode ser que a pura introspecção lhe revele o que é preciso fazer. Mas esse não é o caso da maioria das pessoas. Quem tem uma boa terapeuta, pode ter um insight durante uma sessão de terapia. Mas também existem métodos mais esotéricos. Franz Bardon recomenda o exercício que ele chama de “O espelho da alma” em seu Magia Prática, que consiste em elencar suas qualidades e defeitos, atribuindo um elemento, dos quatro elementos clássicos, a cada item. É possível identificar os problemas a partir de uma boa interpretação do seu mapa natal também ou como feedback da leitura dos seus chakras numa sessão de Pranic Healing. E, para quem é de terreiro, às vezes tudo que a gente precisa é da bronca de um morto.

Mas o reconhecimento não diz respeito apenas a obter a informação friamente, tipo “o problema é que você bebe demais” ou “você está infeliz porque permitiu que seus pais determinassem a vida que você leva em vez de tomar as rédeas da própria existência”. A capacidade de entender o problema e a humildade para reconhecer as próprias falhas também são parte integral disso tudo. Como eu falei acima, é comum que a pessoa encontre desculpas ou tente defender seus maus hábitos, especialmente se confrontada de forma direta (é aí que a gente fica reativo mesmo). E então o processo já acaba interrompido antes de começar. Não tem como dar continuidade.

E isso nos leva ao segundo item, que é a vontade de mudar.

Aqui que é dado o salto de fé, aqui que ocorre a mudança de chave. Mesmo que você faça o exercício de autoconhecimento, sem esse componente o autoconhecimento vira uma armadilha, porque se torna um fim em si mesmo. O autoconhecimento é válido quando é uma ferramenta para desencadear o processo de mudança. Mas pode igualmente virar um mero exercício narcisista: “eu sou uma pessoa agressiva, mas é por causa da posição do meu Marte no meu mapa”4. O que eu mais vejo é as pessoas meio que se encantarem pelo próprio mapa quando estão tendo um primeiro contato com a astrologia, até porque são muitas informações de uma vez só que, somadas, pintam um retrato complexo, e é fácil se confundir e pensar que essa complexidade é o mesmo que uma personalidade profunda. É uma fase, a meu ver, mas é importante que essa fase passe o quanto antes.

Depois que você entende o que é preciso mudar e demonstra a vontade disso, aí é possível começar a dar pequenos passos na direção de causar essa mudança, i.e. as ações concretas. Essa parte é a mais simples, por um lado, porque o esforço mental prévio já foi feito, mas é complicada, porque não existe uma solução direta para todos os problemas. Em vez disso, é preciso tratar das situações caso a caso. Uma pessoa suscetível a ataques de raiva e uma pessoa rancorosa vão precisar de abordagens bem diferentes, por exemplo.

O que eu posso fazer para facilitar as coisas é dividir os tipos de ações entre interiores e exteriores. Exemplos de ações exteriores para uma pessoa raivosa seriam se afastar ao sentir a explosão de raiva chegar, para evitar descontar a raiva em outras pessoas e assim fazer mal às suas relações, ou então, se você tem tendência a quebrar coisas, separar objetos “sacrificiais”, que possam ser quebrados sem prejuízo e assim evitar que você destrua móveis e eletrodomésticos. Ações interiores são reorientações dos padrões de pensamento: em vez de se identificar com a raiva e pensar que as pessoas são todas umas idiotas e o mundo é uma merda, entender que você está com raiva, que a raiva está colorindo a sua visão de mundo naquele momento e que isso vai passar. Não é para se obrigar a parar de sentir raiva na hora, nem negar o sentimento, mas sim reconhecê-lo e deixar passar. Com o tempo, a tendência é que essas padrões de ação e pensamento comecem a melhorar.

Mas, claro, existem também aí as técnicas mágicas e energéticas que ajudam a acelerar a mudança interna. O segredo é que essas técnicas não são técnicas de magia cerimonial e grandes rituais – há quem faça isso, mas eu não acho tão indicado, porque para efeitos duradouros, é preciso recorrer à repetição de práticas que se estendem ao longo do tempo. Como a Maíra sempre diz, não é um evento, mas um processo.

Eu já falei do Pranic Healing e da afirmação da alma, mas existem outras ferramentas dentro da escola. Se você se trata com um terapeuta de Pranic Healing, – e eu sempre vou indicar a Maíra, obviamente, – você pode pedir para que o seu tratamento seja orientado para tratar de questões específicas, ou então também procurar essas questões em práticas de autocura, se já tiver feito pelo menos até o nível III dos cursos. A prática da Meditação dos Corações Gêmeos, feita com regularidade também promove esse efeito de mudança interna. A egrégora tem alguns valores específicos, as chamadas cinco virtudes, e a prática vai alinhar o praticante a essas virtudes.

Arte de Kwan-Yin, figura adorada como bodhisattva da compaixão e emanação de Avalokiteshvara, mas também como uma deidade chinesa à parte.

Ter um sistema de valores pelo qual se orientar é muito útil também no geral, sobretudo se ele tiver consigo os símbolos e técnicas para o desenvolvimento desses valores. Por exemplo, o bodhisattva Kuan Yin é conhecido como a deidade e bodhisattva da misericórdia e da compaixão. Ao cantar repetidamente o seu mantra OM MANI PADME HUM, você vai invocar essa força e trazê-la para dentro do seu sistema, o que vai causar mudanças a longo prazo. Dentro do sufismo, algo semelhante é possível com as repetições dos nomes de Allah, numa prática chamada dhikr: o Dr. Ali Olomi indica cantar a invocação do nome de Allah que significa “O mais misericordioso”, Ya-Rahim, 33 vezes ao amanhecer e ao anoitecer, para suavizar e purificar o coração contra a crueldade, a dureza e a inveja. Técnicas semelhantes podem ser adaptadas dentro de outros sistemas – no panteão babilônico, por exemplo, Marduk é descrito como “deus da misericórdia”, e eu mesmo já usei a invocação ilu rēmēnû, que é um de seus epítetos, como um tipo de mantra para esse efeito.

Dentro do hermetismo, temos, como dito, as práticas de remediação astrológica, que devem ser combinadas com momentos de reflexão para terem um efeito pleno. No caso do talismã de Vênus que mencionamos anteriormente, a pessoa pode adotar o hábito de rotina de meditar com o talismã e refletir sobre a sua vida amorosa e suas próprias ações e noções, sobretudo pensando nos atos típicos desse posicionamento astrológico que ela já observou em sua própria vida (para isso, claro, estudar astrologia é importante). A magia dos quatro elementos também é útil. Na medida em que nossas características positivas e negativas estão associadas ao fogo, ao ar, à água e à terra, por meio de meditações e visualizações com a intenção de purificar esses elementos é possível obter esse resultado transformativo (se vocês quiserem, eu posso compartilhar algo nesse sentido com vocês num texto futuro). E assim por diante.

E isso conclui a minha introdução ao tema. Tudo que pudermos fazer em termos de mudança interna é sempre produtivo, na medida em que assim é possível removermos os obstáculos que atrapalham o nosso propósito. Porém, quanto mais a gente fizer uso de magia, mais urgente se torna essa questão – e, como já falei em outros momentos, para quem pretende trabalhar com magia e espiritualidade, esse refinamento é crucial para evitar que as práticas amplifiquem os aspectos mais grosseiros da sua personalidade. E é um trabalho para ser feito para o resto da vida.

Antes de me despedir, eu preciso lembrar quem estiver me lendo que cada pequeno passo que a gente dá nessa direção conta, mas deixo ainda o aviso de que a moderação, a não excessividade, é uma virtude (especialmente dentro do Pranic Healing, mas não apenas). Obcecar-se com a transformação interna, ao ponto de se tornar um transtorno – assim como a ortorexia também é um transtorno alimentar, tanto quanto a compulsão – também não é saudável, e esse trabalho precisa ser conduzido com sabedoria e parcimônia.

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  1. Jung popularizou uma visão da alquimia que é puramente alegórica, o que não é bem correto, porque a literatura é clara quanto ao fato de trabalhar com instruções práticas para manusear os metais e substâncias. Mas também não era só isso e havia, sim, um componente de transformação interna e espiritual. É as duas coisas. Para uma introdução à pesquisa da alquimia, recomendo essa palestra do Dr. Justin Sledge, “Introduction to Alchemy (FIA Lecture)“. ↩︎
  2. Estamos aqui descontando a possibilidade de fazer magia de amarração, porque amarração não é magia de amor e sim um ataque espiritual. ↩︎
  3. Decifrando o astrologuês: Vênus é o planeta que cuida, entre outras coisas, de relacionamentos amorosos. Vênus fica debilitada no signo de Virgem (eu explico o que são debilidades no texto sobre remediação). Os mapas sempre são repartidos em 12 casas astrológicas, determinadas pelo ascendente, cada uma das quais trata de vários aspectos da vida da pessoa, e a 7 é a casa das relações. Ter a casa 7 em Libra ou Touro faz com que ela seja regida por Vênus, o que seria adequado, mas com uma Vênus debilitada, a situação muda de figura (é pior ainda se a casa 7 for em Libra, nesse caso, porque aí Vênus estará na casa 6). É como ter a pessoa certa para o trabalho, mas ela não ter os recursos necessários. ↩︎
  4. Como dito em outros momentos, um mapa astral é isso, um mapa. E uma coisa que mapas fazem muito bem é mostrar caminhos. Por meio da astrologia, a gente consegue ter uma ideia das coisas que viemos fazer nesta vida, os desafios que teremos que lidar e os recursos que estão à nossa disposição. Olhar para o próprio mapa com síndrome de Gabriela (“nasci assim, cresci assim”) é fazer mau uso da ferramenta. ↩︎

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