Um assunto que me deixava com a pulga atrás da orelha quando eu estava começando a minha jornada pela magia eram os chakras. Infelizmente, a maioria das fontes que a gente vai encontrar por aí ao começar a pesquisar vai ser do rolê New Age, que vocês sabem que é problemático, e eu mesmo desconfiava demais desse pessoal. Parte dessa desconfiança até dá para atribuir a algum mérito do meu pensamento crítico (e como eu apontei já, muito dessa espiritualidade é radicada num individualismo grosseiro de origem corporativa), mas uma parte também tinha a ver – momento de autocrítica aqui – com o excesso de arrogância que me acompanhava, enquanto alguém que vem da magia cerimonial, que eu espero já ter conseguido deixar para trás a essa altura da caminhada. Em todo caso, ficava essa tensão: eu sabia que era um assunto que eu devia estudar, porque havia um bebê perdido lá nessa água de banho, mas não tinha uma fonte confiável para começar. Depois os deuses, em algum momento, atenderam às minhas preces e me mandaram a Maíra e, junto com ela, a escola do Pranic Healing. O resto é história.
Então, antes de mais nada, se você quer aprender sobre chakras de uma forma simples e acessível, com ênfase prática, procure os livros do Mestre Choa Kok Sui. Em Ciência da cura prânica, o livro básico da escola, ele fala dos chakras e sua relação com a saúde do corpo físico; em Psicoterapia prânica, ele trata das funções mentais e emocionais dos chakras; Os chakras e suas funções é autoexplicativo; e em A essência espiritual do homem: os chakras e árvore invertida da vida, o Mestre associa cada um dos chakras principais a uma das sefiroth da Árvore da Vida cabalística, o que acompanha também uma meditação baseada nesse conceito. Recomendo ainda fazer os cursos – volta e meia, a Maíra abre turmas para o curso Nível Básico aqui no Instituto Pranaterapia São Paulo – mas para quem não tiver disponibilidade, os livros já são profundamente esclarecedores.
No entanto, o conceito dos chakras é milenar. E existe muita bibliografia antes de chegarmos ao Pranic Healing, que é uma corrente do século XX. Tendo me familiarizado com a escola, eu pude então lançar um olhar para o passado e começar a entender melhor como esse saber foi sendo constituído. Por isso o propósito aqui neste texto hoje é oferecer uma visão resumidíssima de como a ideia dos chakras é trabalhada ao longo do tempo, com referência a alguns dos principais textos e nomes das tradições. Este não vai ser um texto para explicar o que é cada chakra, o que eles fazem etc. Como falei, para isso vocês podem procurar as recomendações de leitura acima.

Primeiramente, o que é um chakra? Essa pergunta já é, em si, um problema. A palavra vem do sânscrito cakra (pronunciado algo como “tchakr”), que significa “roda” ou “círculo” – cognato de outras palavras em idiomas próximos de origem indo-europeia, como caxra em avestano e čarx em persa. No entendimento do Pranic Healing, os chakras são parte da nossa anatomia energética, centros de energia do corpo sutil, responsáveis por processarem e distribuírem a energia vital (prana), com funções em todos os níveis da existência – física, emocional/mental e espiritual. Em algumas fontes, no entanto, eles são apenas objetos de visualização projetados em pontos do corpo para certas práticas meditativas. Vocês vão ver por aí alguns yogues contemporâneos afirmando que os chakras não existem no corpo, que essa é uma invenção New Age, e… bem, esse é um dos problemas que eu gostaria de elucidar no texto de hoje, junto com uma outra questão, que é a da coexistência de diversos sistemas, já que a maioria das pessoas conhece um sistema de 7 chakras e costuma ficar surpresa ao descobrir que existem outros. O Pranic Healing mesmo trabalha com 11 principais e inúmeros secundários.
A minha referência inicial aqui, meu ponto de partida, é um yogue chamado Yogacharya Rakesh, do instituto Samyak Yoga, localizado em Mandya, na Índia, que trata do assunto num artigo chamado Are Chakras Ancient? The Real History of Chakras in Yoga and Sanskrit Texts. Recomendo vocês darem uma olhada, porque ele menciona alguns dos principais textos que tratam do assunto ao longo dos séculos, junto com citações no idioma original.
Pois então, vamos começar do começo. As primeiras ocorrências da palavra cakra são em textos védicos, onde ela aparece com o sentido literal de roda mesmo, um símbolo que tem grande importância para a cosmologia hindu. Depois, nos Upanixades começamos a ter umas descrições mais interessantes para os nossos propósitos. Um dos textos elenca os principais chakras, seus nomes e sua localização: Ādhāra (ou Mūlādhāra) na base da coluna, Svādhiṣṭhāna na região púbica, Maṇipūra no umbigo, Anāhata no coração, Viśuddha na base da garganta e Ājñā entre as sobrancelhas. Já um outro texto nos oferece a descrição de um outro componente importante da anatomia energética, os nadis, ou canais de energia, sendo os chakras (chamados nesse material de “flores de lótus”, padma) os nodos onde os nadis se encontram1. Isso tudo é ali no comecinho da era cristã.
Depois, ao longo do período que chamam no Ocidente de medieval, há uma época extremamente fértil para a tradição tântrica, que vai começar a elaborar de forma mais profunda os conhecimentos que dizem respeito aos chakras e o que fazer com eles.
O Śāradā Tilaka Tantra, do século XIII, por exemplo, trabalha com um sistema de 7 chakras, contendo os 6 principais listados acima, mais o “sétimo”, Sahāsrara (a coroa) à parte, e prescreve mantras, elementos e deidades para você “colocar” em cada chakra, por assim dizer. E isso nos leva a um comentário de Christopher Wallis, pesquisador e praticante tântrico da tradição Xaiva Tantra, autor do volume O Tantra Iluminado (publicado em português pela editora Tilaka, leitura recomendadíssima). Wallis aponta, num texto intitulado “The real story on the Chakras”, que a principal função dos chakras é como um mapa prescritivo, não descritivo. Isso quer dizer que, nesse material, eles não são entendidos como o equivalente a órgãos no corpo sutil, mas como pontos para serem visualizados em meditação, numa prática chamada nyāsa.
No nyāsa, diz Wallis, você coloca mantras em cada chakra. Se você for pegar um site de yoga mais ocidentalizado, como o Yoga Journal, vai estar lá descrito o passo a passo de como fazer essa meditação colocando o mantra LAM na base da espinha, VAM no púbis, RAM no abdome, YAM no coração, HAM na garganta e OM no ajna. A questão é que, como explica Wallis, esses cinco primeiros mantras (OM não conta) não são mantras dos chakras em si, mas os mantras dos elementos terra, água, fogo, ar e espaço (Akasha), respectivamente. Logo a escolha de qual elemento vai em qual centro é uma decisão a ser tomada pelo guru que ensina a meditação – decisão esta, inclusive, que podia ser influenciada por questões da época em que eles ensinaram, e assim seria perfeitamente possível elaborar outros sistemas de distribuição elemental. Eu falo um pouco mais disso no texto aqui sobre o ritual do Pilar Médio da Golden Dawn.

Com a emergência da tradição Vajrayana, que é o budismo influenciado pelo Tantra, nós também vamos ver os chakras em contexto budista, embora me pareça que os textos budistas mais antigos não tenham nada a dizer sobre o assunto. Uma fonte importante aqui é o na ro’i chos drug, traduzido comumente como Os Seis Yogas de Naropa ou, mais corretamente, Seis Dharmas de Naropa. Esse é um volume composto pelos sábios Tilopa e Naropa, no século XI, com a intenção de transmitir instruções para a aceleração do processo de Iluminação. Sua prática é, claro, destinada apenas a iniciados, sob orientação do guru. Tilopa e Naropa trabalham com um sistema de apenas 4 chakras: cabeça, garganta, coração e umbigo. Os nomes dos chakras que esse sistema utiliza, por sua vez, são derivados de outro material, um pouco mais antigo, o Hevajra Tantra, composto entre os séculos VIII e X, que distribui esses chakras e os nomeia conforme os kāya, ou os Corpos do Buda:
- Nirmānacakra na região do umbigo – o centro da Manifestação (Nirmāṇa, também traduzido às vezes como Transformação ou Emanação) associado ao Nirmāṇakāya;
- Dharmacakra na região do coração – o centro da Verdade (Dharma, também traduzido como “Natureza Essencial”), associado ao Dharmakāya;
- Saṃbhogacakra na região da garganta – o centro do Desfrute (Saṃbhoga), associado ao Saṃbhogakāya;
Essa estrutura (trikāya) é um dos elementos cruciais da teologia do budismo Mahayana, e cada um desses corpos descreve uma faceta diferente do Buda e da realidade definitiva, explicando como os seres iluminados se manifestam neste mundo. Aqui eu admito a minha ignorância e não vou fingir que sei o suficiente do assunto para poder explicar com qualquer clareza, mas por ora basta a gente saber que é importante. Essa estrutura também aparece num mantra basilar do budismo tibetano como OM AH HUM, em que a sílaba OM corresponde ao Dharmakāya; AH ao Saṃbhogakāya; e HUM ao Nirmāṇakāya.
A essa tríade, o Vajrayana soma um quarto componente, Mahāsukha, “grande êxtase”, com o correspondente Mahāsukha cakra localizado no topo da cabeça.2 Minha fonte aqui para essas informações, além das fontes primárias que eu fui conferir, em tradução, é o livro Religion and the Subtle Body in Asia and the West: Between Mind and Body, organizado pelo pesquisador Geoffrey Samuel, que eu também recomendo imensamente.
Esse é, até onde eu sei, o sistema mais antigo de chakras no budismo, mas existem outros. Zasep Rinpoche, numa explicação sobre cura com a prática do Buda da Medicina (link com o vídeo aqui), trabalha com um sistema de cinco chakras, que inclui o “chakra secreto” (região pubiana) e Chögyal Namkhai Norbu explica que, no sistema de 6 chakras, inclui-se esse chakra e o da base da espinha. Diz o guru em seu Yantra Yoga: The Tibetan Yoga of Movement:
Os cakras não são algo imaginário, mas são pontos onde a energia surge e se concentra. Assim, embora não se possa dizer que os canais e os cakras existem no nível físico, eles têm a sua própria realidade; caso contrário, não haveria explicação da eficácia de terapias médicas como acupuntura e moxabustão. A questão é que eles não têm uma estrutura material rígida. Às vezes, os textos dizem que o canal central deve ser visualizado com uma polegada de espessura, às vezes da espessura de uma flecha e, outras vezes, muito mais delgado. Se tivessem um tamanho definitivo, sempre seria visualizado da mesma maneira. Similarmente, os cakras são visualizados de acordo com instruções específicas, e não com base no número real. As visualizações são sempre feitas em pontos específicos, porque prana ou energia vital se concentra onde concentramos a nossa mente. (fonte aqui)
Essa flexibilidade de sistemas aponta, como podemos ver, não para uma ideia fechada de anatomia energética, mas uma preocupação iniciática: trabalhar com um sistema de somente quatro chakras não implica negar a existência de outros centros energéticos, nem a sua possível realidade como estruturas independentes. É uma questão de ênfase, em vez disso. Como eles são usados em técnicas meditativas, entende-se que não faria sentido incluir os chakras que não são imediatamente relevantes às preocupações budistas, conforme a etapa em que se encontra o praticante. O objetivo do budismo, afinal, é a cessação definitiva do sofrimento, e tudo que desvie desse caminho é uma distração.
Geoffrey Samuel, em seu trabalho de mapear as várias fontes antigas e identificar os sistemas de chakras usados em cada uma, nos dá uma ideia da variação de sistemas. Há um texto do século XI intitulado Kubjikāmatatantra, associado ao culto da deusa Kubjikā, que trabalha com o sistema pañcacakra, isto é, de 5 chakras (púbis, barriga, coração, garganta e acima da cabeça), em que cada centro está ligado a um dos elementos3. Outro texto, o Netra Tantra, do século IX, trabalha com 6 chakras (púbis, umbigo, coração, palato, o ajna entre as sobrancelhas e coroa). E temos ainda, no século XI, o Kaulajñānanirṇaya, com 8, e o Gorakṣaśataka, da linhagem Nath, um dos principais textos do Hatha Yoga, que trabalha com 9.
E assim por diante. Existem ainda muitos outros textos e outros sistemas, mas não convém nos demorarmos mais em cima disso. A questão é: por que é que o sistema de 7 chakras se tornou tão popular no Ocidente?
A fonte disso parece ser o Śaṭ-Cakra-Nirūpaṇa, do Swami Pūrṇānanda Yati, de 1577. Seu texto, que é um capítulo de uma obra maior, oferece um sistema de 7 chakras, assim como o Śāradā Tilaka Tantra, no esquema 6+1, junto com os elementos e seus mantras. O orientalista Arthur Avalon (pseudônimo de John Woodroffe), britânico nascido na Índia, vai fazer uma tradução desse texto, do sânscrito para o inglês (e, segundo Wallis, uma tradução bem falha), no volume intitulado The Serpent Power, de 1918, que apresentou o Tantra a um público ocidental mais amplo pela primeira vez. Depois, Charles W. Leadbeater, em The Chakras, de 1927, vai dar continuidade a esse trabalho, também com um sistema de 7. Só que, antes disso, no entanto, precisamos tratar do bode na sala que é a Madame Blavatsky.
Blavatsky, a mãe da Teosofia, alude pela primeira vez ao conceito dos chakras, ainda que não ao termo, na edição de agosto de 1882 da revista The Theosophist: “a série de seis centros de força no corpo humano (alimentado pela fonte inexaurível do sétimo, ou a Unidade, como a soma de tudo)”. Depois, no mesmo periódico, edição de março de 1888, saiu um artigo de autoria do médico e major indiano Baman Das Basu (1867 – 1930) que vai introduzir uma inovação curiosa na história dos chakras, associando cada um desses “centros de força” a um grupo de nervos do corpo, fundindo os entendimentos anatômicos do corpo sutil com o corpo físico. Abaixo segue a lista do sistema de chakras que ele usava e a lógica dessas correspondências:
- Mūlādhāra (básico ou raiz) – plexo sacral
- Svādhiṣṭhāna (sexual) – plexo prostático
- Maṇipūra (umbilical ou plexo solar) – plexo epigástrico (solar)
- Anāhata (cardíaco) – plexo cardíaco
- Viśuddha (garganta) – plexo faríngeo ou laríngeo
- Ājñā (ajna, entre as sobrancelhas, às vezes chamado de “frontal”) – plexo cavernoso4
- Sahāsrara (coroa) – medula oblonga
Esse costuma ser o arranjo conhecido no sistema ocidental – o qual, assim como a Cabala hermética é um desdobramento ocidental da Cabala judaica, também passa a constituir um sistema à parte. Existem algumas variações: em vez da sequência inferior plexo solar-sexual-básico, há sistemas ocidentais que vão separar o plexo solar do umbilical, mas fundir sexual e básico, mantendo ainda a contagem em 7. Leadbeater inclui o básico e o umbilical, mas omite sexual e plexo solar, ao mesmo tempo em que menciona um chakra mais raro na literatura, que é o do baço, ou esplênico.

Por fim, Blavatsky viria a falar mais de chakras numa publicação póstuma. Dentro da sua Escola Esotérica de Teosofia, na Inglaterra, havia grupos de estudo que se reuniam semanalmente. Os resultados de suas discussões e apontamentos eram depois editados para circular entre membros internacionais da Escola, sob o título de “Instruções Esotéricas”. Duas dessas Instruções saíram enquanto ela ainda estava viva, mais uma terceira em 1891, depois que ela morreu. Em 1897, Annie Besant tomou a decisão controversa de publicar as três Instruções, mais anotações de ensinamentos orais como parte de um terceiro volume d’A Doutrina Secreta. Os dois volumes d’A Doutrina Secreta foram publicados em 1888, e Blavatsky havia prometido um terceiro e quarto volumes. Como esses rascunhos não existiam, Besant teve que se virar nos trinta. Na terceira das Instruções, publicada no apanhadão que constitui esse terceiro volume póstumo, constam os apontamentos de Blavatsky sobre os chakras. Para quem quiser saber mais sobre o sistema dela, suas inovações e o processo de transmissão da Índia para o Ocidente, recomendo o livro Rainbow Body: A History of the Western Chakra System from Blavatsky to Brennan, de Kurt Leland, que me serviu aqui de referência5.
Em todo caso, para o Ocidente, o sistema de 7 chakras pareceu cair como uma luva. O número 7 aqui é um número de completude e suas associações com os 7 planetas da astrologia clássica, as 7 cores do arco-íris e outras correspondências se insinuam naturalmente. Apesar disso, é um pouco engraçado observar como existe uma tendência a um efeito bola de neve. A partir do material teosófico dessa virada do século e influenciado tanto pelo ocultismo quanto pela psicologia de Jung, o New Age vai associar cada vez mais coisas aos chakras, sem qualquer critério, nem reverência por fontes tradicionais, ou mesmo sequer consciência de estar inovando e inventando coisas.
E assim, quando chegamos a um livro como Wheels of Life, de Anodea Judith, publicado pela Llewellyn em 1987, vamos nos deparar com um monte de bizarrice. Nos textos mais antigos, o chakra básico ou Mūlādhāra costuma ser o recipiente de mantras e visualizações do elemento terra e da deidade Ganesha. No livro de Judith, lemos que as correspondências do chakra básico incluem ainda o naipe de ouros no tarô, o planeta Saturno, o metal chumbo, incenso de cedro, pedras como granada e rubi, animais como o elefante e o touro, além de outras deidades variadas como Gaia, Deméter, Perséfone, Geb, Hades, Tammuz e Ereshkigal e o arcanjo Uriel6. É basicamente o método do 777 aplicado aos chakras. Wallis e outros autores parecem especialmente irritados com esse livro, e dá para entender por quê – uma irritação que só é agravada pela sua popularidade, tendo vendido mais de 300.000 exemplares.

Agora, para encerrar eu gostaria de retomar a questão que eu apontei no começo do texto: os chakras “existem” no corpo de fato ou essa é uma invenção New Age?
Bem, é complicado. Não posso falar em nome de todas as fontes antigas, claro, e é evidente que, para vários dos mestres que nos deixaram material sobre o assunto, a principal ênfase era com práticas meditativas. Mas ênfase não significa negação daquilo que não foi enfatizado. Pelo entendimento do Pranic Healing, ao qual eu mesmo me alinho, os chakras existem, sim, e a eficácia das técnicas, se não comprova essa existência de forma incontornável (o que é sempre difícil quando tratamos do oculto), pelo menos oferece fortes indícios a favor dessa noção. Em termos bibliográficos, temos evidência da visão a favor da existência dos chakras como um fato da anatomia energética muito antes do século XX, muito antes do Pranic Healing, da Teosofia ou do New Age.
Um desses casos é o texto intitulado Śiva Saṁhitā, um dos textos fundamentais do Hatha Yoga, composto como uma coletânea de ensinamentos do deus Shiva para sua consorte Parvati. Seu tradutor para a edição inglesa, o pesquisador James Mallinson, de Oxford, um dos maiores especialistas em Hatha Yoga, localiza a data de sua composição entre 1300 e 1500. A edição que eu consultei, que ele mesmo preparou, tem o título The Shiva Samhita: a Critical Edition and an English Translation (ed. YogaVidya.com). Embora a principal preocupação do Śiva Saṁhitā seja com os nadis, há algumas menções pontuais aos chakras. Cito, traduzindo da tradução inglesa de Mallinson para o português:
Acima dele, na raiz do palato, fica a lótus Sahāsrara, na qual se situa a abertura onde começa a Suṣumnā [o canal central].
Na raiz do palato está a Suṣumnā. Ela aponta para baixo. Todos os nādī passam pela via do Mūlādhāra e terminam na yoni. São nascidos das sílabas-semente [bija], extremamente delicados e mostram o caminho até o Brahman. No bulbo da lótus na raiz do palato, que já foi ensinado que é a localização da Sahāsrara, entende-se que há uma única yoni virada para trás.
No meio dela, está situada a abertura onde começa a Suṣumnā. Chama-se a abertura de Brahman e desce até a lótus Mūlādhāra e na abertura desse caule estreito, sua shakti, Kundalini, está constantemente adormecida.
Vocês vão observar que, como vimos anteriormente, num outro texto, os chakras também são chamados de “lótus”. Eu identifico ainda o que parecem ser menções a algum tipo de conceito de sujeira energética, chamada no texto de “veneno”, viṣa: “No bulbo do Mūlādhāra, que é a lótus de quatro pétalas, há uma yoni, em que é situado o sol. Do orbe do sol, um veneno terrível pinga constantemente. O sol oferece o veneno ao Pingala ali. O canal que constantemente transporta ali o veneno na forma de um fluxo vai até a narina direita”. Pelo grau de detalhamento da descrição e pelo modo como a descrição é feita, não parece que estamos apenas diante de instruções para visualização, mas de uma explicação por trás da prática da respiração das narinas alternadas, que é uma forma de limpeza dos canais.
No mais, podemos identificar nesse volume ainda alusões ao poder curativo das práticas tântricas: “O fogo prolonga a vida, revigora e nutre. Também aviva o corpo e suscita a destruição das doenças. Portanto o yogue sábio deve aquecer devidamente o fogo Vaishvanara e sacrificar-lhe alimentos todos os dias, conforme as instruções do guru.” Há várias outras menções à destruição de doenças por meio das técnicas ensinadas ao longo de todo o tratado.

Devo ainda citar mais uma vez Geoffrey Samuel, que faz essa pergunta em seu livro: “A questão de até onde esses centros são vistos como dotados de existência física em pontos específicos do corpo é difícil de responder. Provavelmente eram, sim, em textos antigos, embora fontes diferentes ofereçam diferentes listas de cakra e também diferentes arranjos de nādī em torno deles”. Samuel conclui que a existência “material” dos chakras não era um problema para os praticantes tântricos, mas se torna objeto de interesse profundo para os estudiosos da medicina tibetana, que muito provavelmente vão beber também de fontes chinesas – haja vista que é observada uma preocupação com anatomia esotérica e com o cultivo da energia vital em textos chineses desde antes da era cristã.
Isso nos leva a concluir que há, sim, fortes evidências para identificarmos a ideia da existência “objetiva”, por assim dizer, dos chakras no corpo sutil e a sua associação com cura ou boa saúde desde muito antes de o conceito vir para o Ocidente. E vocês não precisam confiar na minha palavra. Ao longo desse texto, eu citei várias fontes, e vocês podem conferir pessoalmente.
Há quem diga com veemência que não, que os chakras “não existem no corpo” e que quem afirma o contrário é charlatão – eu infelizmente fui obrigado a deixar de seguir alguns perfis de yoga nas redes sociais por falarem asneiras do tipo, sempre dessa forma inflamada. Sobre essas pessoas eu diria que foram vítimas do famoso adágio de “um pouco de conhecimento é uma coisa perigosa”, ao que se soma uma dose considerável de arrogância nessa tentativa de promover a sua prática diminuindo a dos outros. Isso não deve ser entendido como uma defesa do New Age, mas sim como uma exortação a olhar um pouco para o lado de vez em quando, porque a ausência de uma prática numa dada tradição (ou no que você conhece da tradição) não quer dizer que ela simplesmente não exista, ainda mais quando estamos tratando de um material com tanta história e tão difícil de acessarmos por aqui. No mínimo, há de se admitir um pouco de nuance e o entendimento de que as coisas não são sempre preto no branco.
Resumindo, então: 1) existem diversos sistemas de chakras, entre o Tantra hindu e budista, que trabalham com um número variável de centros energéticos; 2) dentre esses sistemas, alguns se valem do conceito dos chakras apenas como instrumentos de visualização para práticas meditativas, enquanto outros os identificam como estruturas do corpo sutil propriamente; 3) uma parte desse material foi transmitida para o Ocidente por via da Teosofia, mas foi uma transmissão acidentada e enviesada, sendo a partir disso que surgiu o entendimento contemporâneo comum dos chakras fora da Ásia, a ponto de constituir um sistema à parte. E, o mais importante, como eu descobri na prática, confirmando as minhas suspeitas de iniciante, 4) entender de anatomia energética e dos chakras é um conhecimento valioso para magistas e qualquer um que trabalhe com espiritualidade. Sem isso, muita coisa fica incompleta.
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- Este texto é o Yoga Tattva Upaniṣad (de 150 a.C.). O outro, a fonte que eu conferi aponta para o nome Yoga Bindu Upaniṣad, mas eu não consegui identificar ao certo qual texto seria esse, porque parece que o nome descreve um grupo de textos. ↩︎
- Há um resumo interessante no site Buddha Weekly, aqui. ↩︎
- Para quem quiser se aprofundar, recomendo conferir o System Of Five Chakras In Kubjikamata Tantra, de Dory Heilijgers Seelen, disponível aqui. ↩︎
- Importante frisar que alguns desses termos são parte do jargão médico da época e hoje se encontram desatualizados. ↩︎
- Uma coisa que eu queria muito saber, mas que vai ter que ficar para outro momento, foi como a prática do nyasa chegou na Golden Dawn, porque sabemos que eles beberam das fontes teosóficas e é muito evidente como o ritual do Pilar Médio se apresenta como um análogo à prática tântrica, colocando os elementos e mantras (na forma de nomes divinos cabalísticos) nos centros energéticos da coroa, garganta, plexo, sexual e básico, mapeados conforme a Árvore da Vida. ↩︎
- Só para frisar que o problema aqui não é a autora associar o chakra com deidades que não são as deidades tradicionalmente colocadas no chakra nas meditações tântricas. O problema é que ela está fazendo afirmações categóricas a partir de uma técnica experimental. É perfeitamente possível fazer uma meditação em que o praticante coloca Perséfone ou Hades no seu básico. É provável que isso tenha algum efeito. Se é um efeito benéfico para o seu corpo energético, eu não sei, mas duvido que a autora tenha testado extensivamente para conferir, porque ela oferece uma lista de deidades longa demais para cada chakra. Seria material para anos de teste. Transmitir esse tipo de ensinamento perigoso é de uma profunda irresponsabilidade, com sérias consequências espirituais para quem faz isso. ↩︎
