Um dos temas mais fundamentais do hermetismo clássico é o da ascensão espiritual rumo à comunhão com o Divino, um processo que é intermediado, mítica e misticamente, pelo conceito das sete esferas planetárias da astrologia clássica. O teurgista começa subindo do mundo sublunar, elevando a sua alma até a esfera da Lua. De lá ele vai então, de planeta em planeta, até chegar à esfera de Saturno, o mais distante dos sete planetas clássicos, para enfim alçar-se à oitava esfera (das estrelas fixas) e além, chegando nos limites da realidade.
É óbvio que essa ascensão não é literal – estamos falando de místicos, não de astronautas. O esquema das sete esferas da cosmologia clássica é usado como um mapa simbólico. Entre praticantes contemporâneos, esse conceito foi importado pela Golden Dawn e é um dos poucos elementos herméticos de fato na Cabala hermética, com a diferença de que lá as esferas planetárias são misturadas com as sefiroth da Árvore da Vida cabalística, que é um outro mapa cosmológico, de origem obviamente cabalística. Também podemos observar esse mesmo conceito, livre do peso da Cabala hermética, na magia angelical de Rufus Opus, com o seu curso Red Work e livro Seven Spheres (embora Rufus Opus não siga a sequência clássica), bem como na obra de Franz Bardon, em Prática da Evocação Mágica, que determina que o magista precisa se familiarizar com os espíritos de cada esfera planetária, em ordem, para progredir em seu desenvolvimento. Mais bizarramente, esse processo de ascensão é traçado no grimório lovecraftiano conhecido como o Simon Necronomicon, da década de 1970.

No entanto, eu nunca tinha chegado a encontrar material antigo que tratasse de rituais para esse tipo de trabalho de ascensão. No tratado “Poemandro” do Corpus Hermeticum, há menção aos males que são deixados para trás a cada etapa do caminho: ao conquistar a esfera da Lua, o teurgista abandona a inconstância, a “energia de aumento e diminuição”, que é uma característica astrológica típica da Lua. Ao conquistar a esfera de Mercúrio, deixa-se para trás a “maquinação maléfica” e a “ilusão dos anseios” na esfera de Vênus, que descreve os efeitos negativos desses planetas. E assim por diante. Presume-se que deveria haver alguma coisa no sentido de práticas, não acham? Tem algo no “Discurso Sobre a Oitava e a Nona”, encontrado em Nag Hammadi, que inclui um tipo de ritual iniciático com voces magicae e trata justamente da oitava e nona esferas, que ficam além dos sete planetas… mas é um material meio enigmático, além de, claro, ser mais avançado, já que você teria que passar pelas sete esferas antes. Esse silêncio da antiguidade em torno de um assunto que deveria ser mais evidente sempre me incomodou.
Aí eis que eu esbarrei, por acaso, na obra de Fakhr al-Din al-Razi (1149/1150 – 1209), cujo nome é também aportuguesado como Facradim Arrazi1. Um polímata persa apelidado de “O Sultão dos Teólogos”, al-Razi nasceu na cidade conhecida como Shahr-e-Ray, Rages ou Arsácia, no Império Seljúcida, localizada perto de onde hoje fica Teerã, no Irã, e deixou uma vasta obra de uma centena de livros, que abrange os campos da medicina, química, física, literatura, filosofia, teologia etc. O principal pensador com quem al-Razi dialoga é Abu ʿAli ibn Sina, conhecido no Ocidente como Avicena, responsável por introduzir o pensamento peripatético das escolas aristotélicas no mundo islâmico. A filosofia grega é chamada em árabe de falsafa (um óbvio calque do grego) e o pensamento de ibn Sina, enquanto filósofo, contrastava com os ensinamentos da teologia islâmica (ilm al-kalam) e seus estudiosos, os mutakallimun, por isso era um tanto problemático. Nosso caro al-Razi foi um desses teólogos, da escola alaxarita, fundada por Abu al-Ash’ari. No entanto, ele se distingue de outros mutakallimun por adotar criticamente parte do pensamento de ibn Sena, produzindo uma obra filosófica um tanto experimental pelo seu hibridismo.
O que importa para nós, enquanto interessados em magia hermética, é um livro de al-Razi intitulado al-Sirr al-maktūm fī asrār al-nujūm, ou O segredo oculto a respeito dos segredos das estrelas, como consta num manuscrito da biblioteca Süleymaniye, o Carullah MS 1482, de Istambul. Escrito na data terminus ante quem de 1179, al-Sirr é um livro dedicado à ciência da magia astrológica dos sabeus. Eu já falei dos sabeus aqui anteriormente: em resumo, o termo costuma se referir ao povo da cidade de Harran (no território que hoje pertence à Turquia) que conseguiu manter uma prática devocional pagã, centrada nos deuses dos sete planetas, mesmo durante a ascensão da religião islâmica. Eles identificavam como o profeta de sua religião ninguém menos que Hermes Trismegisto, entendido no islã como o profeta Idris ou Enoque. O termo, no entanto, é misterioso: ninguém sabe o que “sabeus” significava no contexto do Corão (de onde os sabeus de Harran tiraram o termo “sabeus” como autoidentificação) e posteriormente é aplicado também para pessoas de outros lugares. Haveria, inclusive, “sabeus indianos”. Em todo caso, ele costuma estar associado a praticantes de algum tipo de magia astrológica.
A minha referência aqui para falar desse assunto é um livro intitulado Philosophising the Occult: Avicennan Psychology and ‘The Hidden Secret’ of Fakhr al-Dīn al-Rāzī, do pesquisador Michael-Sebastian Noble. O volume se baseia na tese de doutoramento de Noble, no Warburg Institute, e foi publicado pela De Gruyter em 2021 como parte da série Studies in the History and Culture of the Middle East. Para além dos trechos que Noble comenta e traduz em seu volume, o al-Sirr nunca foi traduzido no Ocidente, para a nossa tristeza. Pelo que eu pude entender, parte do al-Sirr trata de magia talismânica, entendendo o talismã como, cita Noble, o “mesclar de forças celestiais ativas com forças elementais passivas de modo que ele seja empoderado a manifestar aquilo que é contrário ao normal ou evitar que ocorra algo que lhe é consoante”. Essa é uma definição impecável. No entendimento de al-Razi, portanto, o processo de ascensão planetária seria análogo ao de talismanização, porém direcionado ao próprio corpo do praticante. Cito Noble:
Durante o ritual de ascensão planetária, as forças elementais que recebem passivamente as forças celestiais dinamicamente ativas são as faculdades internas da alma do aspirante; a força psíquica terrena ativa que se vê envolvida no processo é a alma racional do aspirante, que se submite de bom grado à transformação. É nesse sentido que ele se torna, ele mesmo, um “talismã”. Com a conclusão do ritual, por meio do qual ele é iniciado pela sua natureza perfeita, ele obtém conhecimento de e poder sobre tudo que é influenciado pelas esferas celestiais. É um processo de “autotalismanização”. (p. 42)
Não sei vocês, mas eu acho isso fascinante. E, o que é melhor, ainda no final do primeiro capítulo, seção 1.9, Noble resume para nós em que consistiam esses rituais registrados no al-Sirr. Eu vou falar disso agora com mais detalhes.

Primeiramente, você precisa estabelecer uma conexão com a sua Natureza Perfeita (al-ṭibāʿ al-tāmm). Esse é um outro trabalho ritualístico anterior. Diz Noble, “Os sabeus do al-Sirr compreendiam a Natureza Perfeita como um espírito celestial (rūḥ falakī) que era a origem ontológica de um grupo discreto de almas humanas. Os céus eram habitados por uma multiplicidade desses espíritos, cujo número é proporcional com o número de grupos de almas discretos, que constituíam, segundo os sabeus, a humanidade” (p. 18). Entre outras fontes, temos rituais para comunhão com a sua Natureza Perfeita no célebre Ghayat al-Hakim, ou Picatrix. Tanto o Sam Block, em seu blog (textos Communion of Perfect Nature e Genius in the Picatrix: The Spiritual Nature(s) of Perfect Nature), quanto o Christopher Warnock (em seu site e no livro The Celestial Way) comentam essa prática2.
Feito isso, o praticante começa, de fato, a subjugar os planetas (taskhīr al-kawākib). O primeiro planeta, claro, é a Lua, que fornece sua ajuda para subjugar o próximo, Mercúrio, e assim por diante, até Saturno. A prática inclui a repetição de orações planetárias e o cultivo de um estado mental e emocional adequado, além da observação do céu, a fim de aproveitar os momentos astrológicos mais propícios. Vamos falar longamente agora da Lua, porque é o planeta mais importante, cujo processo de subjugação demora um ano, mas que serve também para apresentar o magista a todos os outros planetas, já que a Lua é rápida e faz aspectos com todo mundo ao longo de seu trajeto. Ao término do processo, ela lhe confere uma série de benesses, além de poderes: uma certa configuração da Lua na casa 8 permite fazer um feitiço para causar a morte de um inimigo (que vai sofrer uma morte consoante com o outro planeta envolvido na eletiva em questão), ao passo que aspectos entre a Lua, Júpiter e certas estrelas fixas fornecem uma vida longa.
Curiosamente, o começo do trabalho lunar exige que a Lua esteja debilitada (Noble não diz, mas provavelmente deve ser no signo de Escorpião ou Capricórnio). O aspirante faz um jejum de três dias antes de começar a operação, reduzindo sua alimentação até estar consumindo uma dieta puramente de alimentos com correspondência lunar, sem carne. Ele não deve matar nenhum animal, nem ter contato, nem mesmo visual, com cadáveres; deve evitar “substâncias impuras”, deve raspar a cabeça e morar no mato, perto de um rio, e buscar a companhia de governantes ou estudiosos. Repete-se uma oração (que Noble não transcreveu para nós, infelizmente) todas as noites.

Por volta do sexto mês, o aspirante atinge um tamanho grau de fascínio pela Lua que ele fica aflito e choroso quando não a vê – “ele se torna, literalmente, um lunático”. Durante o sétimo e o oitavo mês, sua sombra aumenta de tamanho! Al-Razi comenta que Abu Ma‘shar al-Balkhi, o maior astrólogo da corte abássida em Bagdá, teria feito essa prática e relatado que sua sombra cresceu um total de mil côvados (mais ou menos 450 metros) no processo3. Nesse período então a luz da Lua excede a do Sol, para o aspirante, e ele deve evitar olhar direto para ela para não ficar cego. No 11º mês da prática, ele passa a ver o Sol, a Lua e as estrelas todas as noites em sonho, que lhe relatam questões do mundo invisível (para uma explicação sobre as funções ocultas do sonho, favor conferir nosso texto anterior). Para encerrar, chegam os meses finais: no 12º mês, seu coração é tomado de alegria e paz, ele se torna indiferente aos poderosos e enxerga portentos e visões do futuro. Enfim ele pode realizar um ritual no 13º mês, vestindo um traje específico, e a Lua vai lhe revelar uma miríade de segredos ocultos e conhecimentos que vão desde religião a aritmética e agricultura. Ele também deve passar a se vestir e utilizar acessórios conforme os outros planetas com os quais a Lua fizer aspectos: um osso (Saturno), uma espada (Marte), um rosário (Júpiter), um cetro de ouro (Mercúrio), joias e perfumes (Vênus).
Sobre o processo de subjugação dos outros planetas, Noble é mais lacônico, mas o padrão é esse, sempre com certos hábitos e orações que são adequados para cada um. Antes de trabalhar com Mercúrio e com Vênus, o aspirante deve abordar a Lua pedindo coisas que dizem respeito a esses planetas. Quando ela não puder cumprir esses pedidos (porque não estão dentro do seu domínio), então você obtém a permissão para prosseguir. O trabalho de Vênus inclui três dias e três noites de bacanal – passando-se esse período inteiro tomando vinho e praticando sexo, tanto hetero quanto homossexual. Você saberá que Vênus está sob seu poder quando “mulheres e homens imberbes o aproximarem com interesse sexual de livre e espontânea vontade”. O Sol inclui jejuns e doações para alimentar animais solares, como leões e tigres, e seis meses de preces, começando quando o Sol entra em Áries. Marte é mais hardcore: além de um timing específico (Marte exaltado em Capricórnio, com muitas restrições de aspectos), é preciso andar por aí com certos itens de vestimenta e uma CABEÇA DECEPADA, junto com uma espada manchada com o sangue da cabeça (a cabeça não pode ser de um turco, bom frisar). Júpiter exige, além do traje específico, apenas jejum e o estudo do Corão, preces islâmicas e Nomes Divinos, e o processo demora não mais que um mês. Saturno, por fim, exige dois anos e meio de serviço (o tempo que demora para Saturno passar de um signo para outro) com doações específicas.
E o que o praticante ganha com isso, completando o processo inteiro? Como comenta Noble, existe na obra de ibn Sena o conceito do “ser humano aperfeiçoado”, de que haveria seres humanos – normalmente, mas não exclusivamente profetas – capazes de expandir sua força oculta sobre todo o mundo sublunar, exercendo sua autoridade sobre os fenômenos físicos. A inovação do processo descrito no al-Sirr é:
…estender a lógica da psicologia aviceniana para sugerir que a conexão noética com as almas celestiais tem o potencial não apenas de transmitir conhecimento do invisível, mas também desenvolver poderes ocultos numa alma que, do contrário, não teria essa disposição naturalmente. Assim, quem completar com sucesso o árduo ritual de ascensão planetária descrito no al-Sirr, a cujo comando os próprios planetas se submetem humildemente, se torna o análogo sabeu do ser humano aperfeiçoado de Avicena (p. 241).
No mais, considerando o que a gente sabe da soteriologia hermética e suas noções de pós-vida (vide este outro texto aqui no site), não acho que seria absurdo pressupor certas consequências positivas após a morte também.
Isso, enfim, é o que eu tenho para compartilhar por hoje. Infelizmente, fica claro que não tem como seguirmos à risca as instruções de al-Razi, em parte porque não temos o livro inteiro e o que Noble nos oferece são fragmentos, mas principalmente porque tem coisas ali que fazem o Abramelin parecer moleza e algumas até que, como vimos, dão cadeia. Apesar disso, esse material é interessantíssimo e pode servir de inspiração para praticantes experientes montarem os seus próprios currículos para esse trabalho de ascensão hermética – de preferência com orientação de outros espíritos.
Para se entender melhor o pensamento de al-Razi e dos sabeus, eu recomendo demais o livro de Michael-Sebastian Noble, apesar que é claro que a maior parte da sua obra vai ser de interesse apenas para quem gosta de estudar teologia árabe medieval4. Em todo caso, acredito que é um privilégio a gente ter acesso a esse tipo de coisa, mesmo nesse estado fragmentado, e é por isso que eu compartilho também com vocês.
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- Citando aqui só para garantir que ninguém vai se confundir: existe um outro al-Razi célebre, Abū Bakr al-Rāzī (864/865 – 925/935), ou Rasis, também, persa e também polímata, que fez grandes contribuições para a medicina, considerado o pai da psicologia e da psicoterapia. Embora este outro al-Razi também possa ser de interesse para nós pelos seus escritos sobre alquimia, até onde eu sei ele não falava de magia (pelo menos não positivamente). ↩︎
- Curiosamente, o Picatrix, ao falar da Natureza Perfeita, menciona Aristóteles… ou, melhor dizendo, o autor que se acreditava que fosse Aristóteles. Ao filósofo grego era atribuída a autoria do hermético Kitāb al-Istamātīs, conhecido na Europa pelo título latino Liber Antimaquis. ↩︎
- Gosto dessa menção a Abu Ma‘shar, porque nos permite ter uma ideia para localizar esse material no tempo. O al-Sirr é de 1179. Abu Ma‘shar nasce em 787 e morre em 886. Se o conhecimento desse ritual dos sabeus estava disponível a ele em seu tempo, é possível que seja ainda mais antigo. ↩︎
- Em termos de livros do próprio al-Razi, eu encontrei na Amazon dois volumes em tradução inglesa: The Great Exegesis: al-Tafsir al-Kabir – Volume I: The Fatiha, tradução de Sohaib Saeed, e The Prophetic Jewels of al-Shaykh Fakhr al-Din al-Razi: A Quranic Exegesis on the Prophet’s Virtues, uma seleta editada pelo pensador e poeta palestino al-Shaykh Yusuf ibn Isma’il al-Nabhani (1849 – 1932), tradução de Muhammad Zulhikam Jamil. ↩︎
