O conceito (e as limitações) da Cabala hermética

Eu já falei um tanto de Cabala aqui no site. No fim do ano passado, escrevi um textinho breve para apresentar, da forma mais didática que eu consegui, o conceito da Árvore da Vida cabalística. Eu mesmo cheguei ao ocultismo tendo me familiarizado antes com conceitos da Cabala judaica, lendo Scholem e Aryeh Kaplan, por isso estranhei muito quando me deparei com ideias tão diferentes ao ver autores como Crowley e Regardie falarem do que era supostamente a “mesma” coisa. Assim sendo, acho que vale agora termos uma conversa sobre a Cabala hermética, como ela emerge a partir da Cabala judaica e, em muitos pontos, se desvia dela. De certa forma, ela acaba constituindo uma outra tradição, e nisso há certas vantagens e desvantagens.

Imagino que este texto venha a irritar algumas pessoas, mas paciência. Tem coisas que precisam ser ditas, porque, do contrário, os iniciantes acham que o único tipo de magia que existe é a Cabala hermética da Golden Dawn e derivados, e não dá para ter essa visão limitada.

Primeiramente, acho que eu já falei disso antes, mas vale reiterar: quando a gente fala em Cabala judaica, não estamos tratando de nada fixo, unívoco ou monolítico. Quanto mais você estuda, mais claro fica que não existe “A Cabala”, é muito difícil fazer com qualquer grau de confiança uma afirmação como “a Cabala diz que…”, porque o que existem são vários mestres cabalistas e seus discípulos, formando tradições e linhagens diversas ao longo do tempo e do espaço, que nem sempre convergem, nem concordam. Recomendo o post do Jacobus Swart sobre as várias distribuições dos quatro arcanjos para vocês terem uma ideia das possibilidades de variação, por exemplo, mesmo dentro de um tema bastante específico. Ou então o vídeo do Dr. Justin Sledge sobre as qlipot, o problema do mal e as divergências de tradições cabalísticas a respeito disso.

No entanto, há vários temas e conceitos que são partilhados entre cabalistas – do contrário, seria difícil sequer delimitar o que é Cabala, claro. Eu só acho importante manter em mente essa possibilidade de abertura e variação. A gente quando é apresentado a algum tema, naturalmente, espera encontrar algo coeso e fechado. Deparar-se com tanta variação e complexidade deixa a gente desnorteado e aí a tendência é querer xingar e achar tudo uma bobagem. É importante resistir a essa inclinação. A mesma coisa acontece quando você tenta estudar qualquer coisa sobre as várias tradições budistas pela Ásia, sobretudo quando a sua única referência sobre o assunto é um budismo diluído para ocidentais1.

A Cabala que poderíamos chamar de “ocidental”, em contrapartida, também é uma coisa um tanto distinta. Vou passar por um breve resumo histórico, porque vocês podem encontrar isso com maiores detalhes em outros lugares (de novo, tem um vídeo do Dr. Justin Sledge sobre o tema). Acontece que houve um furor durante a Renascença, em parte motivado por figuras como Marsilio Ficino e Pico Della Mirandola, de encontrar sabedorias antigas em fontes não cristãs: no hermetismo, no orfismo, no pitagorismo, no zoroastrismo e, claro, na Cabala judaica. A essa doutrina chamam de prisca theologia. A ideia era que, na raiz de todas as religiões, haveria certas “verdades atemporais” que, no entanto, teriam “se corrompido” com o tempo e resultado no que era entendido como “a degradação” vista nos cultos pagãos, mas certos vislumbres dessas verdades teriam sido guardados, de forma fragmentada, por essas tradições diversas. Nesse sentido, o cristianismo seria não uma proposta revolucionária, mas sim uma retomada pura dessa “verdade eterna e universal”, que teria sido ignorada pelos judeus basicamente por teimosia, na visão dos caras.

No que diz respeito ao interesse pela Cabala em específico, existia uma intenção bem menos nobre embutida aí. Um dos objetivos da Cabala cristã era justamente dominar o repertório cabalístico para provar a veracidade do cristianismo aos judeus com sua própria lógica – e assim convertê-los. O que é a Europa cristão sendo a Europa cristã, né. A gente não espera outra coisa.

Ilustrando o que está no parágrafo abaixo: o nome YHWH (acima), YH-Sh-WH (o Tetragrama com o shin no meio), o nome Yehoshua (Josué) e o nome Yeshua (Jesus, que é derivado de nome Josué), em caracteres hebraicos. Notem o quanto a barra foi forçada aí. O caractere final em Yehoshua e Yeshua é um ayin, uma outra letra totalmente.

Para dar um exemplo de que já falamos antes: há uma equivalência cabalística entre o nome inefável YHWH (chamado Tetragrama) e os quatro elementos, com um elemento para cada letra. Um argumento dos cabalistas cristãos é o de que falta nessa fórmula um quinto elemento, o espírito ou quintessência, que seria representado pela letra shin (ש‎). Colocando um shin no meio, YHShWH você teria, em tese o nome Yeshua, ou Jesus. Esse é um exemplo de um argumento safado da parte dos cristãos, porque utiliza uma lógica judaica com propósitos de demonstrar que a religião judaica havia sido ultrapassada pelo cristianismo, já que o nome de Jesus supostamente complementa o nome inefável de Deus, que teria ficado incompleto. Na realidade, porém, embora pareça funcionar à primeira vista, esse argumento ignora o fato de que Yeshua é grafado de uma forma totalmente em caracteres hebraicos/aramaicos.

No entanto, nem tudo é preto no branco e existem situações complexas. Johann Reuchlin (1455 – 1522), um alemão católico e estudioso de Cabala, autor de De Verbo Mirifico, famosamente defendeu os judeus à ocasião de uma campanha para queimar o Talmude e outros escritos judaicos, liderada por um judeu convertido, de nome Johann Pfefferkorn. Sua contribuição na disputa foi crucial para convencer o imperador a não queimar livro nenhum e o levou até a comprar briga com os dominicanos. Por isso, é recomendável manter sempre uma perspectiva mais nuançada das coisas. Não podemos perder de vista, claro, o fato evidente de que projeto da Cabala cristã era colonialista, imperialista e pérfido, mas isso não quer dizer que todo cabalista cristão era o diabo. É porque vivemos agora uma época de contrastes muito intensos e comportamentos caricatos que às vezes fica difícil não projetar nossa perspectiva no passado, só que esse é um esforço que precisa ser feito.

E isso nos leva àqueles que foram não apenas estudiosos e teóricos contemplativos, mas de fato magos e praticantes, um pessoal que enxergou ali o potencial prático dos ensinamentos cabalísticos contidos no cânone dos clássicos da tradição – o Sefer Yetzirah, o Bahir, o Zohar, – ao mesmo tempo em que não tiveram qualquer convivência com a cultura e cotidiano judaicos, que os teria familiarizado com a magia popular da tradição. Daí a obra de Agrippa e seus pares. O problema é que esse material cabalístico original é muito pouco acessível. Primeiro tem a dificuldade do acesso físico mesmo aos textos. Hoje até tem muita coisa online em sites como o Sefaria, mas é só porque temos aí praticamente um século de esforços (nos quais Gershom Scholem foi pioneiro) para que a Cabala fosse levada a sério e não considerada mera superstição de camponês ignorante (que era uma postura comum inclusive entre os judeus assimilados, dada a necessidade de se encaixarem num contexto protestante europeu em que esse tipo de coisa era muito mal vista). Depois tem a barreira linguística, já que é preciso ler não só em hebraico, mas também em aramaico, que é o idioma do Zohar (e um aramaico especialmente rebuscado, segundo o Dr. Justin Sledge). Por fim, mesmo que você seja fluente e tenha acesso aos livros, o material é denso e difícil, até em tradução.

Samuel Mathers, um dos fundadores da Golden Dawn, bem que se esforçou. Ele traduziu para o inglês o Cabala Denudata, de Christian Knorr Rosenroth, por exemplo, e o Livro de Abramelin2. Éliphas Lévi parece que teve algum acesso ao Sefer Yetzirah, ou a seus conceitos, pelo menos, só não sei em qual versão, nem em que tradução. Nenhum deles, até onde eu tenha notícia, sabia hebraico para além do alfabeto e meia dúzia de palavras3. E assim eles foram construindo esse sistema, a partir desses fragmentos, complementados sincreticamente com conhecimentos de outras tradições ocultas, até ser constituída uma nova tradição – meio como em Jurassic Park, quando eles usam DNA de sapo para cobrir as lacunas no DNA recuperado dos dinossauros. E essa tradição que surge é a chamada Cabala hermética.

Um dos cadernos do poeta W. B. Yeats, contendo suas anotações dos estudos da Golden Dawn. Acima temos um diagrama com as 10 sefiroth, com as cores que elas têm num dos sistemas de cores da CH.

Em inglês, costuma-se distinguir os tipos de Cabala conforme a grafia da palavra. Para as tradições judaicas, o nome costuma ser grafado com K: Kabbalah. A tradição cristã de Reuchlin, Athanasius Kircher e outros é escrita com C: Cabala. E a tradição dos magos da Cabala hermética é grafada com Q: Qabbalah. Não é uma regra fixa, mas meio que se convencionou assim. Aqui, pelo bem da brevidade, vou passar a me referir à Cabala hermética pela sigla CH.

Ao contrário do que se pensa, a CH não é simplesmente a mistura de conceitos da Cabala com o hermetismo. Não pretendo me demorar aqui na história do hermetismo, mas aconteceu que a obra atribuída a Hermes Trismegisto, traduzida para o latim por Ficino na Renascença, acabou entrando também no balaio do esoterismo ocidental, mas se diluiu tanto que “hermético” durante muito tempo meio que não significava nada – era apenas mais um sinônimo para “mágico”, “esotérico”. Algumas ideias herméticas de fato são encontradas aqui, como a cosmologia de 4 elementos, 7 planetas e 12 signos (que não é uma exclusividade hermética) e a ideia de ascensão pelas esferas planetárias, mas pouco mais do que isso.

Por ser a obra de um grupo menor de pessoas (principalmente os vitorianos da Golden Dawn, seus associados e descendentes), trabalhando em cima de uma quantidade também menor de material disponível, a CH é mais coesa e exibe uma menor variação de fonte para fonte. Isso é uma vantagem para o iniciante, pois qualquer um pode pegar um livro introdutório, como o Chicken Qabbalah do Lon Milo Duquette, que é a introdução mais acessível para iniciantes, e já aprender ali mesmo numa sentada tudo que você precisa para começar a incorporar essas práticas. É bem mais simples.

A Árvore da Vida na versão de Kircher. O que a distingue de outras versões é o fato de que ela tem três caminhos para Malkut, não apenas partindo de Yesod, mas também de Netzach e Hod, além de organizar os caminhos conforme a ordem alfabética.

A Árvore da Vida ocupa um espaço central no pensamento místico da CH. O arranjo usado é o de Athanasius Kircher, que difere do de Luria, e – o mais importante – há uma forte ênfase na questão das correspondências entre as sefiroth e os planetas. Isso não quer dizer que essa correspondência não exista nas tradições judaicas, mas ela tem um papel mínimo, no geral, e vai ter variações de sistemas de atribuição, como eu falei. Na CH, essa correspondência é central para o entendimento do próprio conceito das sefiroth.

A distribuição usada é a seguinte:

  • Malkut, o Reino, descreve o plano físico e é o domínio dos quatro elementos
  • Yesod, a Fundação, é o domínio da Lua
  • Hod, Esplendor, é o domínio de Mercúrio
  • Netzach, Eternidade, é o domínio de Vênus
  • Tiffereth, Beleza, é o domínio do Sol
  • Geburah, Severidade, é o domínio de Marte
  • Chesed, Bondade-amorosa, é o domínio de Júpiter
  • Binah, Entendimento, é o domínio de Saturno
  • Chokhmah, Sabedoria, é o domínio do zodíaco e das estrelas fixas. Em algumas versões, Netuno
  • Daath, Conhecimento, é o abismo e em algumas versões Urano
  • Keter, a Coroa, varia: às vezes é o Primo Mobile, às vezes é Plutão

Na prática, há diversas maneiras pelas quais a CH se vale desse arranjo. Se um magista pretende trabalhar com magia planetária, por exemplo, ele só precisa observar a equivalência do planeta com o qual se quer trabalhar e a sefirah dele. Para cada sefirah, há uma série de correspondências de cor, nomes divinos e materia magica, que ditam os elementos do ritual, por isso basta consultar uma tabela que você sabe como proceder. Se eu for trabalhar com Júpiter, a sefirah é Chesed, as cores são violeta e azul, o nome divino é EL, o número é 4, e assim por diante.

A nível teúrgico, existe a ideia de um caminho de ascensão pela Árvore da Vida, em que cada praticante começa em Malkut e então vai subindo, de sefirah em sefirah e planeta em planeta, passando por iniciações no processo. Não por acaso, os títulos da ordem original da Golden Dawn equivaliam às sefiroth. Zelator (1=10), o primeiro título após a iniciação do Neófito (0=0), era o título de Malkut, Theoricus (2=9), o título de Yesod, e assim por diante.

O ponto onde eu quero chegar quando afirmo que a correspondência é central para o entendimento que a CH faz do próprio conceito das sefiroth é algo que podemos entender quando analisamos o significado de certas sefiroth em especial – saber, de Netzach e Hod, vitória e esplendor. E acho que isso vai ilustrar alguns dos problemas que eu tenho com a CH.

Outra imagem do caderno de Yeats com as suas anotações da Golden Dawn, aqui representando o conceito da serpente e da espada flamejante. A foto eu encontrei via Google, num perfil no Flickr. Essas belas unhas não são minhas.

Nas tradições judaicas, essas duas sefiroth são chatas de elucidar, porque o nome não é autoexplicativo e há relativamente pouca literatura a seu respeito. O conceito que elas exprimem é, resumidamente, de persistência (Netzach) e submissão (Hod). Como explica o Rabbi Zev Reichman, em Flames of Faith, de uma forma bastante didática:

São duas formas de lidar com a adversidade, a luta ou a fuga. Por exemplo, se um homem estiver caminhando rumo a seu destino e de repente sofrer o ataque devastador de uma borrasca: se ele continuar avançando, destemido, enfrentando os elementos, sobrepujando o inimigo, ele incorpora Netzach – dominação ou vitória. Se ele parar ou agachar e esperar a tempestade passar antes de continuar, ele age com Hod – sobrevivência por meio da submissão. Quando a tempestade sopra e uma árvore poderosa permanece ereta, procurando vencer os ventos, é uma imagem de Netzach. Já a relva que dobra com o vento, esperando a oportunidade de se erguer de novo quando a tempestade passar é um paradigma de Hod (fonte).

Ou seja, Netzach é a persistência, a resistência, o triunfo, a vitória a qualquer custo. Hod é flexibilidade, é a espera paciente, é o abaixar a cabeça. Diante dos desafios que a vida nos apresenta, ora precisamos incorporar uma dessas qualidades, ora precisamos incorporar a outra – e a ideia é que a prática espiritual pode nos ajudar não apenas a invocar essas qualidades, mas também a ter a sabedoria de não dar murro em ponta de faca. Na literatura esotérica da CH não se vê nenhum desses temas, e inclusive eu diria até que o que eles apresentam é completamente incompatível: seus autores vão equivaler Netzach com o planeta Vênus e Hod com Mercúrio.

Diz Dion Fortune, em A Cabala Mística, sem meias palavras:

Netzach é Vênus, o Raio Verde da Natureza, força elemental, a iniciação das emoções. Hod é Mercúrio, Hermes, a iniciação do conhecimento. Netzach é instinto e emoção, força cinética; Hod é intelecto, pensamento concreto, redução à forma do conhecimento intuitivo.

Netzach “é” Vênus. Hod “é” Mercúrio.

Como se pode ver, não tem nada a ver uma coisa com a outra. Não é apenas um caso de as sefiroth terem certas características e uma analogia astrológica se insinuar meio que naturalmente, mas uma forma radicalmente distinta de encarar como as sefiroth são constituídas. Pergunte a um rabbi cabalista o que são as sefiroth e ele vai poder te explicar os conceitos delas. Consulte algum autor ligado à CH e o que ele vai te explicar é o conceito dos planetas correspondentes.

E isso é uma coisa que eu quero que fique clara em minha crítica. Não é que eu discorde do fato de haver essas correspondências, nem que eu discorde do arranjo dessas correspondências (“ah que absurdo a sefirah x ser o planeta y”). Não é isso. O problema é que, nesse processo, o mago cai no erro de confundir o mapa com o território, o que não necessariamente vai ser ruim logo de cara, mas pode levar a equívocos muito absurdos.

Vocês me conhecem já. É claro que agora eu preciso dar um exemplo desses absurdos. Não quero passar raiva sozinho.

Existe um livro que eu acho que é um dos piores livros de esoterismo que eu já li na vida – e essa concorrência é acirrada, viu?4 Se chama The Qabalah Workbook for Magicians, de Anita Kraft. Como tantos thelemitas, ela bebe da obra de Crowley, incluindo o livro de tabelões que é o seu 777. Esse volume trabalha com correspondências, o que não é nenhuma novidade dentro da magia. Qualquer praticante de magia astrológica sabe que, ao trabalhar com um dado planeta, o recomendável é você usar ervas e pedras que possuem a assinatura energética daquele planeta, por isso correspondem a ele. O que está em cima é como o que está embaixo. Como os planetas aqui correspondem às sefiroth, então a ideia é que uma pedra como a ametista não é apenas uma pedra do planeta Júpiter, mas, por consequência, também uma pedra da sefirah de Chesed. A lógica é meio invertida, na verdade.

A capa desse desperdício de papel

Até certo ponto esse pensamento é inofensivo, mas começa a ficar absurdo quando nos aproximamos das sefiroth superiores. Para Keter, a Coroa, o 777 vai dizer que a correspondência em pedra é o diamante. Fazer uma atribuição material para aquela que é a sefirah mais elevada, mais distante da matéria e próxima do Divino inefável… bom, isso eu já acho um equívoco tremendo, mas o livro da Anita vai pegar isso e ir além. O Qabalah Workbook for Magicians propõe algo como uma jornada pela Árvore da Vida, em que o praticante constrói um altar com as correspondências materiais das sefiroth e medita em cima dele. Até aí, normal. O problema é que ela começa com Keter, o que significa que, logo de cara, você vai ter que arranjar um diamante para conduzir esse trabalho. Isso não sou eu concluindo coisas, ela mesma diz com todas as letras. E tem que ser um diamante natural e lapidado! Mas, espere, tem mais: o perfume de Keter seria âmbar-gris… o que, para quem não sabe, é um condimento e incenso derivado de um tipo de vômito de baleia, que também é raro, caríssimo e, em alguns países, sua aquisição é ilegal5.

Portanto, se você quiser seguir o programa dela, vai ter que esvaziar a sua poupança… e sabe o que é o pior? Vai ser completamente ineficaz. É um dinheiro gasto à toa. O iniciante não vai arranjar um diamante, sentar pelado (o trabalho de Keter, diz ela, você tem que fazer sem roupa) e chegar a uma contemplação de Keter só de ficar olhando para a pedra bonita, envolvido na fumaça de vômito de baleia. Não é assim que funciona. Para se chegar a uma contemplação de Keter é preciso ali um bom tempo de prática espiritual. A pessoa comum, que nunca passou por qualquer processo de purificação, que não tem experiência com meditação, que não tem grande conexão com o Divino, simplesmente não alcança esse nível. Ela pode olhar para o diamante, lamber o diamante, enfiar diamantes em todos os seus orifícios, que não vai rolar.

Depois, quem consegue alcançar a contemplação de Keter vai conseguir fazer isso com um diamante, sim, mas vai também enxergar Keter em todas as coisas, num diamante, numa flor, num toco de madeira, num carro, numa cortina, num rio, num pastel de feira. Porque é assim que a prática mística opera. Se a autora começasse o trabalho com Malkut ainda OK, vai lá, mas logo Keter é uma piada de mau gosto. O máximo que dá para fazer é se chegar a uma compreensão intelectual de Keter, mas ninguém precisa de um diamante para isso.

Ou seja, de cara o livro te joga uma barreira dessas: se quiser começar, vai ter que tirar o escorpião do bolso… e isso para cada uma das 10 sefiroth! Tem 9 outros altares! E pior que isso é pra nada, porque não é assim que as coisas funcionam. Isso me pega muito, porque Anita Kraft não é uma qualquer, mas uma praticante com 20 anos de experiência, segundo a sinopse da editora, iniciada na O.T.O. e bispa thelêmica da Ecclessia Gnostica Catholica. Quem assina o prólogo dela é o Lon Milo Duquette. E, no entanto, aqui está essa tremenda bobagem, que é apenas a mais marcante de várias outras bobagens desse livro. É evidente que esse tipo de coisa só é aceitável porque tem uns erros conceituais graves no cerne da CH que só vão sendo amplificados a cada geração.

O modelo da Árvore da Vida usado pela Cabala hermética, com a distribuição dos planetas nas sefiroth e das letras hebraicas nos caminhos. Essa distribuição das letras, por sua vez, é usada para determinar as correspondências com o tarô.

Enfim, existem muitas outras divergências que a CH faz em contraste com as tradições judaicas: tem a questão do tarô (irrelevante para o judaísmo, mas crucial para a CH), o sincretismo com religiões pagãs e outros sistemas, o problema de Da’ath e outras pequenas variações. Mas, a meu ver, são coisas menores. O grande problema, que marca não apenas uma divergência, mas um desvio e um equívoco, é esse entendimento falho da Árvore da Vida radicado na lógica das correspondências, que acaba sendo um problema imenso justamente por conta da centralidade que a Árvore da Vida tem aqui. No mais, eu sei que muita gente tem críticas também à CH derivadas de preocupações mais éticas e políticas. Essa discussão é válida, mas eu não pretendo entrar nesse assunto neste momento.

Agora para ninguém dizer que eu sou um hater e que eu estou descendo o pau na CH por inveja ou recalque ou qualquer coisa assim: eu tenho minhas críticas a essa tradição, obviamente, e não acho que a gente deva ignorar os pontos em que há, sim, evidentes pontos fracos, mas sou contra também jogar fora o bebê com a água do banho. Querendo ou não, a CH é popular e está na base do sistema da Golden Dawn e derivados, assim como na Thelema e escritos do Crowley no geral, e também é parte crucial do desenvolvimento do tarô, especialmente o RWS e o Thoth. Trata-se de um sistema acessível para iniciantes, contanto que se tenha o tempo e a dedicação para se familiarizar com essas informações todas (que parecem mais complicadas do que são de fato, a bem da verdade) e repetir à exaustão rituais como o RmP e afins. Mas não há nenhuma bibliografia inicial assustadora, como é a bibliografia mínima para se estudar Cabala judaica, e boa parte do trabalho de base já está feito. Eu mesmo tenho aqui um texto com um roteiro para rituais nos moldes da Golden Dawn, que qualquer um pode ler e ir atrás de botar em prática, e tem muito material no blogue do Ananael.

O problema mesmo começa quando as pessoas atribuem à CH uma profundidade que o sistema não tem. Não podemos pensar nela como um desdobramento da Cabala judaica, porque qualquer tentativa de complementar as falhas do sistema com a literatura cabalística mais fundamental vai quebrá-lo inteiro (seus alicerces são pouquíssimo flexíveis). Mas, enquanto uma tradição à parte, com menos de 200 anos, seus conceitos foram também parcamente desenvolvidos nesse tempo, e há uma séria tendência à repetição em sua literatura. Com certeza, não tem nada da beleza e sabedoria que se encontra na literatura da tradição judaica propriamente, no misticismo islâmico, no Vedanta, no budismo ou no taoismo.

Pode ser que, no futuro, a CH venha a desenvolver algo próximo disso, especialmente nos meios da Thelema, que vão oferecer material simbólico o suficiente para a sua expansão, mas isso vai depender da qualidade dos místicos que serão atraídos à tradição. Nesse ínterim, a CH e as práticas mágicas que derivam dela podem representar uma boa maneira de começar um trabalho razoavelmente estruturado. Só precisa ter discernimento para não acabar gastando dinheiro à toa com pedras preciosas para práticas sem propósito.

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  1. Sobre o processo de apresentação do budismo ao público ocidental e como ele acabou incorporando influências inclusive do idealismo alemão(!) no processo, recomendo o livro The Making of Buddhist Modernism, de David L. McMahan. Sobre as muitas variedades de budismo, recomendo o Buddhisms: an introduction, de John S. Strong. ↩︎
  2. Se o Abramelin contém conceitos cabalísticos de fato ou se o sua moldura judaica é apenas um floreio literário é uma questão que ainda não foi resolvida e é motivo de disputas no meio acadêmico. ↩︎
  3. Aliás, eu suspeito fortemente de um erro gramatical no conceito de Ain Soph Aur na CH. Ain Soph ou Ein Sof é um conceito cabalístico, de fato, e significa “sem fim”. Agora Ain Soph Aur quer dizer literalmente “sem fim luz” e eu suspeito que seja derivado da tentativa de aplicação da sintaxe inglesa, que coloca o adjetivo na frente dos substantivos, no hebraico. Em contrapartida, o conceito de “luz infinita”, que eu entendo que era o que eles queriam dizer, existe na Cabala judaica sob o nome Ohr Ein Sof. Acho que essa questão é bastante ilustrativa. ↩︎
  4. O único livro que o rivaliza em absurdo é o livro de Cabala e tarô do Samael Aun Weor. ↩︎
  5. De quebra, âmbar-gris sequer é kosher! ↩︎

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