O que é essa tal dessa Lei da Atração

E porque (apenas) pensar positivo não é a solução

Volta e meia uma das muitas trends de místicas que estão sempre circulando no TikTok vaza pro finado Twitter (não, não vou nunca chamar pelo nome atual) e esses dias vazou uma moça toda hipponga good vibes cantando a seguinte canção:

I’m well aware that I attract what I allow in
I am a vibration people can tune in
I broadcast I am love, I am abundance
I am an armor made of golden light I trust in
My spirit guides they help me land upon the best path
I’m learning how to navigate being an empath
Sometimes the red flags look green, I forget that I’m me
Then I remember I’m the farmer that’s been planting all the seeds
I meditate full circle, 999, I feel free
Ho’oponopono, please forgive me ‘cause I’m sorry
Yes, I forgive and I let go because I love you
Yes, I forgive and I let go because I love me


(Tradução livre:
Estou bem ciente de que eu atraio o que eu permito
Sou uma vibração na qual as pessoas podem se sintonizar
Eu dissemino que eu sou amor, eu sou abundância
Sou uma armadura feita de luz dourada na qual eu confio
Meus guias espirituais me ajudam a aterrissar no melhor caminho
Estou aprendendo a navegar sendo empata
Às vezes as bandeiras vermelhas me parecem verdes, eu esqueço que eu sou eu
Depois lembro que sou a fazendeira que plantou todas as sementes
Medito num círculo completo, 999, sinto-me livre
Ho’oponopono, por favor me perdoa eu sinto muito
Sim, eu perdoo e deixo para lá, porque eu amo você
Sim, eu perdoo e deixo para lá, porque eu amo a mim)

Ai esse primeiro verso, ah se fosse simples assim…

O TikTok funciona com trends, nas quais um assunto ou um modelo de vídeo ou uma música é repetido à exaustão. É a rede do “nada se cria, tudo se repete” e é na repetição que os conteúdos viralizam e atingem milhões de views. Quando um desses vídeos virais vaza para outras redes sociais e viraliza novamente, é muito provável (quase certo) que haja uma trend sobre o assunto, e essas trends geralmente são bem fáceis de encontrar.

Então eu fui lá na rede dos jovens e estraguei meu algoritmo que só me entregava receitas e gatinhos pra ver como está a coisa… e aparentemente a moda é fazer uma mistura louca de lei da atração com “manifestação”. Em linhas gerais o roteiro é o seguinte: agradeça ao Universo pelas coisas que você já tem e agradeça por aquelas coisas que você quer como se você já as tivesse, e o Universo vai te dar aquilo que você quer. Numa passada de olho rápida, pode até parecer que faz sentido, afinal, gratidão é uma força poderosíssima e magia de manifestação real oficial tem sim isso de agradecer pelo que você quer como se já tivesse alcançado. A questão é que isso é só um pedaço pequeno da coisa e não ela inteira.

Vou começar dizendo que o uso do termo Universo como provedor do que quer que seja já me dá uma canseirinha braba. O que essa galera chama de Universo é um entendimento raso e ruim de algumas das leis naturais do mundo oculto. E as leis naturais do mundo oculto são apenas isso, leis naturais, que com conhecimento a gente pode usar a nosso favor. Mas esse uso não é receber nada, nem é uma colheita, na real. É no máximo usar a correnteza a nosso favor, ao invés de ir contra ela.

Uma dessas leis naturais é a famosíssima Lei da Atração. Sim, ela existe, ela é real e ela funciona. Mas muito provavelmente funciona diferente do que você imagina – com certeza é muito diferente do que vejo constantemente em redes sociais.

Meia noite eu vou te contar um segredo

Nos idos de 2006 foi lançado um filme (que se pretende documentário) chamado O Segredo. No ano seguinte, foi lançado mundialmente o best seller O Segredo – The Secret e, bem… quem viveu sabe. Esse livro foi um sucesso absoluto, e numa era pré-rede social e quando ainda havia vida offline, estava todo mundo fazendo os exercícios de atração pra se tornar milionário. Não vou dizer que ninguém conseguiu, porque né, a autora conseguiu.

Eu já estava na escola da Cura Prânica nessa época e lembro que chegou a rolar um zumzumzum no grupo por causa desse livro. Mas, como uma das coisas que a gente mais estuda na escola é justamente o funcionamento das leis naturais do mundo oculto, rapidinho o assunto morreu e por isso mesmo eu nunca tinha me dado o trabalho de ler esse livro. Li por esses dias pra escrever este texto – olha só como eu gosto de vocês – eu li e ninguém mais precisa passar por essa tortura.

Mas, antes de falar do livro propriamente dito, é bom deixar claro que, mesmo sendo ele um best seller que muito provavelmente é a fonte de propagação dessas ideias que a gente vê tão difundidas por aí hoje, ele não tem nada de original. E não é porque, como alega o livro, Da Vinci e Einstein “conheciam O Segredo”, mas principalmente porque ele reproduz ideias desenvolvidas pelo movimento New Thought, que acontece no século XIX, nos EUA. Mas o que é o New Thought?

Para explicar de modo muito resumido, trata-se de um movimento espiritual que promove o conceito da primazia do poder do pensamento sobre a realidade. Seu principal pensador foi um relojoeiro norte-americano chamado Phineas Quimby (1802 – 1866), estudante do mesmerismo, as práticas de “magnetismo animal” desenvolvidas no século anterior por Franz Mesmer que também inspiraram as práticas de hipnotismo que viriam a ficar muito populares entre meados do século XIX e começo do XX. O New Thought bebe de inúmeras fontes e está majoritariamente preocupado a princípio com a questão da cura do corpo físico por meios não físicos (i.e. energéticos), mas não demora para começarem a aplicar seus conceitos na área de prosperidade. O impacto do New Thought sobre a espiritualidade moderna é imenso: William Walker Atkinson, por exemplo, o provável autor do Kybalion, era adepto dessa corrente, e muito do New Age dos anos 60 se inspirou nesse movimento.

Para termos uma ideia do quanto O Segredo não inventou nada, meramente reciclando ideias mais antigas do New Thought (de modo ainda mais diluído e confuso), basta darmos uma olhada num livro do começo do século passado. Creative Mind and Success, de 1919, de Ernest Holmes, compila uma série de palestras do autor ministradas no Metaphysical Institute de Los Angeles no ano anterior. E um dos capítulos intitulado “What we will attract” (O que atrairemos), começa com o seguinte parágrafo:

Sempre atrairemos para nós, em nossas vidas e condições, conforme nosso pensamento. As coisas são senão manifestações externas de conceitos mentais internos. O pensamento não é apenas poder; é também a forma de todas as coisas. As condições que atrairemos corresponderão de forma exata a nossas imagens mentais. É bastante necessário, então, que o empresário de sucesso mantenha sua mente voltada para pensamentos de alegria, que produzem entusiasmo em vez de depressão; ele deve irradiar alegria e estar repleto de fé, esperança e expectativa. Essas atitudes alegres e esperançosas da mente são indispensáveis para aquele que quiser, de verdade, fazer alguma coisa da vida.

(fonte aqui)

Pois é. Para piorar, não são não nem bobagens novas.

Mas, voltando ao O Segredo – The Secret, pra mim a coisa mais difícil da leitura desse livro, além da quantidade assombrosa de bobagens que estão escritas ali, foi o tanto que distorceram coisas que de fato existem pra caber numa lógica simplista, numa técnica que não se sustenta e não funciona. Nos primeiros capítulos ainda temos alguma coisa que é como uma meia verdade, uma parte correta, uma parte mais ou menos certa, que depois vira algo totalmente equivocado na frase seguinte. E essa fórmula se repete por páginas e páginas, além da repetição exaustiva do conteúdo – as mesmas ideias são escritas e reescritas de maneiras diferentes várias vezes. Podemos tomar como exemplo o seguinte parágrafo: 

A lei da atração é a lei da natureza. É impessoal e não distingue as coisas boas das más. Recebe seus pensamentos e os reflete de volta a você como sua experiência de vida. A lei da atração simplesmente lhe dá seja lá o que for que esteja em seu pensamento.”

“A lei da atração é a lei da natureza. É impessoal e não distingue as coisas boas das más.” Sim, ela é uma das leis naturais e não distingue as coisas boas das más. “Recebe seus pensamentos e os reflete de volta a você como sua experiência de vida.” Não exatamente, não são só os pensamentos, e também não é a definidora da sua experiência de vida, mas pode alterar sim essa experiência em algum nível. “A lei da atração simplesmente lhe dá seja lá o que for que esteja em seu pensamento.” Mas não funciona assim MESMO.

Lá pelas tantas a coisa descamba ainda mais, quando começam a misturar conceitos loucamente e cada hora tem uma coisa que é a mais importante. Num capítulo o amor se torna a força de atração mais importante (antes era o pensamento). Alguns capítulos depois, a gratidão é a mais forte. Lá pelas tantas, o rolê é a visualização. Durante boa parte do livro, a repetição dos pensamentos é a chave para o sucesso. Mas quando ela dá a fórmula do “Processo Criativo” (eu juro, grafado em maiúsculas) Peça, Acredite e Receba, o pedido deve ser feito uma única vez. E claro, se não recebeu é porque não acreditou. Ainda temos o nome de Einstein invocado várias vezes, pra dizer coisas como “tempo não passa de uma ilusão” para a resposta da pergunta quanto tempo demora pro Universo te dar aquilo que você pediu. Num breve capítulo dedicado ao corpo, ou melhor, à obsessão por magreza como sinônimo de saúde (olá anos 00), a autora tem a pachorra de afirmar que: “Os alimentos não são responsáveis pelo aumento do peso. Seu pensamento de que a comida é responsável pelo aumento do peso é que, na verdade, faz com que a comida engorde. Lembre-se, os pensamentos são a causa primária de tudo, todo o resto é efeito desses pensamentos”. Sim, isso é uma citação direta do livro. E teve muita gente levando esse texto a sério. 

Mas chega desse show de horrores. Ele já vendeu mais de 35M de cópias mundo afora, a autora ainda escreveu uma série de livros na mesma temática e, bem, cada um com seus talentos. Mas muitas das ideias que estão ali continuam reverberando, infelizmente. E essa corrente de pensamento tem, ao meu ver, duas pegadinhas principais. A primeira é reduzir todo o campo vibracional a uma das partes mais sutis dele, que é o pensamento. A segunda é confundir atração com materialização.

Arte de Alex Grey

Semelhante atrai Semelhante

Quando estamos falando de energia, do mundo oculto, da espiritualidade, essa é a máxima mais verdadeira: semelhante atrai semelhante. Ou seja, energias semelhantes se atraem e energias opostas se repelem. Essa máxima está presente em tudo quanto é post, texto, videozinho sobre lei da atração que vemos por aí e esse pedaço, realmente, não há o que corrigir. A questão não é que a atração existe, mas o que essa palavra, “energia”, significa nesse contexto.

O conceito que ficou popularizado foi que essa “energia” se resume aos pensamentos e isso é um equívoco. Os pensamentos são sim energia e eles criam formas, as famosas forma-pensamento que já foram discutidas nesse outro texto aqui. A grande questão aqui é que essa força absurda materializadora e transformadora de realidades e vidas não é atingida apenas com a força do pensamento do indivíduo

Todas as nossas ações, emoções, escolhas e também pensamentos têm influência direta nos nossos corpos energéticos. Absolutamente tudo o que fazemos, desde aquilo que comemos, o que assistimos na TV, como nos relacionamos, como tratamos as outras pessoas, como reagimos às mais diversas situações, etc., tudo vai refletir na qualidade da nossa “energia”. Além disso, onde nós estamos também influencia – trocamos energia com o ambiente o tempo todo, ao ponto de muitas vezes acontecer uma espécie de osmose entre o que está na nossa aura e no ambiente. A energia ambiente de um templo é muito diferente da de um cemitério, e viver num prédio de 20 andares no centro de uma cidade populosa é muito diferente de morar num sítio, quase sem vizinhos (de novo, esse texto fala sobre isso). Algumas coisas vão ter impacto maior, outras impacto menor, mas no fim das contas, tudo1 vai influenciar.

Então o que a gente vai atrair, em termos energéticos, vai ter muito a ver com como vivemos a nossa vida. E essa atração vai solidificando os padrões energéticos que, com o passar dos anos, acabam por influenciar também os nossos padrões de comportamento e escolhas. É tudo um grande ciclo, que pode ser vicioso ou virtuoso, de acordo com o tipo de vida que levamos. E a gente acaba atraindo formas-pensamento, sentimentos, elementais, encostos, entidades, divindades… dependendo da nossa vibração.

A nossa vibração, com o passar do tempo, vai se comportar como uma espiral que pode ser ascendente ou descendente. Se começamos um trabalho de purificação energética, ela vai subindo e afinando e melhorando e, mesmo o caminho ainda tendo altos e baixos, os altos são cada vez mais altos e os baixos cada vez menos baixos. Mas se a gente vai na direção oposta, os baixos se tornam cada vez mais baixos e os altos, cada vez menos altos.

Esses padrões energéticos também acabam influenciando os nossos relacionamentos interpessoais2. Sabe aquilo que a gente às vezes gosta ou desgosta de uma pessoa assim, sem grandes motivos, sem uma convivência prévia? Essa sensação geralmente se dá pela compatibilidade ou incompatibilidade entre as energias da sua aura e da aura da outra pessoa. Quando elas são opostas, nem a pessoa menos sensível ao mundo energético escapa de sentir o choque dessa repulsão.

E essa atração não é necessariamente a tal da materialização. A Lei da Atração, na prática, pode e deve ser usada como um facilitador de demais processos de saúde energética. A gente começa com limpeza energética, tenta mudar a chave pra pensamentos melhores, melhora as nossas ações, aí atrai formas-pensamentos de melhor vibração, pessoas mais legais, melhora nossa saúde, acalma nossa mente, atrai energias melhores e repele as ruins… e por aí vai. Essa mudança de vibração traz necessariamente uma mudança de perspectiva e viés, enfrentar os desafios da vida acaba ficando mais fácil. E é desse modo que a gente usa essa Lei a nosso favor.  

Venha a nós o vosso reino

Tá, a Lei da Atração existe e pode ser usada a nosso favor. Mas e aí, quando que eu vou atrair o cara rico pra casar? Aí mora a segunda pegadinha: atração no mundo oculto não vai se traduzir nesse tipo de coisa espalhafatosa no mundo material.

Quando a gente trabalha magicamente para facilitar a nossa vida em questões como achar emprego, ter um fluxo constante de clientes, atrair bons parceiros amorosos, encontrar os melhores profissionais para resolver nossos problemas, entre outras possibilidades, geralmente vamos mobilizar forças para além das nossas, outras instâncias, outras criaturas, para nos ajudar. E quando fazemos isso, temos a noção de que a ajuda vai vir na medida que nossas ações aqui no mundo material estiverem de acordo. Adianta nada acender vela pra pedir emprego sem mandar nem um currículo pra nenhuma empresa.

Da mesma forma, a gente vai sim atrair coisas mais legais, pessoas mais legais e situações mais interessantes para a nossa vida se estivermos com a energia em dia. Mas primeiro que atingir esse estado não acontece do dia pra noite, é um processo; segundo, não é apenas com pensamento positivo que a gente chega nesse lugar. Terceiro e mais importante: estar com a energia em dia não vai se traduzir em termos nossos problemas resolvidos magicamente ou nossos desejos atendidos como se Papai Noel existisse. A vida até fica mais fácil em alguns sentidos, mas a gente, no máximo, vai colher exatamente aquilo que plantou.

Algumas pessoas que estão nesse caminho de desenvolvimento energético e espiritual e já apresentam um sistema energético limpo e forte, conquistado através de práticas consistentes, muitas vezes conseguem “materializar” coisas apenas com a palavra ou com o pensamento. Mas isso não tem relação nem com a lei da atração (eles não atraíram nada), nem com a benevolência do Universo. Isso tem a ver com a força do magista, com a conexão que ele tem com as forças com as quais ele trabalha, seus guias, suas entidades e o quão presentes essas forças todas estão no seu dia a dia. Aí aquilo que um dia precisou de vela, incenso, jejum e ritual pra conseguir, agora só precisa da intenção. Mas isso leva muito tempo e muito esforço… e, mais uma vez, não é com meia dúzia de afirmações que a gente chega nesse ponto. 

A representação da colheita.

Quando o assunto é espiritualidade, magia, mundo oculto, algumas coisas é sempre bom ter em mente. A primeira é que nada é dado de bandeja, a gente precisa sempre plantar antes de colher qualquer coisa. A segunda é que são sempre processos e não eventos. A gente até pode conseguir resultados com pedidos pontuais feitos em rituais, mas pra sustentar uma vida de bênçãos, a gente precisa necessariamente trabalhar com muita constância e persistência. Esse caminho não é uma linha reta ascendente, vai ter altos e baixos, o objetivo é deixar os altos cada vez mais altos e os baixos cada vez menos baixos. E, por fim, muita atenção com as modinhas. Essa da manifestação nem me parece perigosa, a princípio, mas tem um alto poder de gerar frustração. Afinal, a realidade se impõe, e o momento que vivemos, econômico e social, não dá pra ser ignorado. 

  1. Quando pensamos na força dessas influências, uma regrinha que é quase universal pode ajudar: ação, palavra, pensamento. As ações são mais fortes que as palavras; as palavras são mais fortes que os pensamentos. O que você de fato faz é mais forte do que o que você fala que é mais forte do que o que você pensa. Adianta nada se achar generoso, se dizer generoso, mas na hora de, de fato, ser generoso, você age com mesquinharia. ↩︎
  2. Por esse motivo é comum que pessoas que começam uma prática espiritual troquem completamente de círculo de amigos, se afastem da família e até terminem relacionamentos caso o parceiro não comece a prática espiritual junto. Não confundir isso com a cooptação por seitas: a diferença é que em seitas as pessoas são isoladas de seus grupos de forma forçada, muitas vezes têm seu dinheiro roubado e são submetidas a trabalho escravizado. Já o afastamento das energias pela repulsão acontece de forma gradual e muitas vezes indolor, sem briga. Só acontece de os hábitos anteriores deixarem de fazer sentido e por isso, as companhias mudam. ↩︎

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  1. Avatar de CroW CroW disse:

    Texto muito bom, bem fundamentado e articulado, não cabe aqui nesse comentário minhas inumeráveis observações. Mas cabe congrats.

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