Os vários tipos de seres espirituais – parte III

Hoje vamos encerrar esta série, que eu pensei a princípio em fazer em duas partes, mas acabou virando três. Na parte I, falamos de deidades, anjos, inteligências, egrégoras e dos espíritos dos mortos. Na parte II, descemos um pouco a escala dos seres para mais perto da matéria, com dáimones e seres “folclóricos”. Por fim, vamos falar agora de entidades-pensamento, demônios e parasitas.

Algo que eu quero que fique claro é que, quando eu proponho esse trabalho de elaborar uma tipologia desses seres, eu não quero ser excessivamente minucioso ou abstrato. Não acho produtivo ficar discutindo se um dado anjo é um arcanjo, um querubim ou serafim, nem ficar procurando distinções entre um duque e um presidente do inferno. Minha abordagem é pragmática: uma fada não é uma deidade, um dáimon não é um demônio, uma deidade não é uma forma-pensamento. O tratamento que a gente dá aos vários seres importa, e pode ser a diferença entre uma vida espiritual saudável e um completo afundamento. Aplicar a um dado ser uma abordagem que seja adequada à sua categoria é o beabá das práticas mágicas e poupa dor de cabeça.

É importante frisar que, conforme vamos descendo a escala dos seres, nós começamos a nos deparar não apenas com espíritos que nós buscamos ativamente, mas também com espíritos que podem vir atrás de nós com uma motivação própria e nem sempre benevolente. Mortos podem ser aliados, mas não é qualquer morto que cola em você que vai ser benéfico – existem muitos que são o que se chama de espíritos obsessores. Fadas, djinns, trolls e afins também podem nos fazer mal, se lhes der na telha. E assim os seres de que vamos falar nesta iteração do nosso catálogo também são do tipo que frequentemente levam as pessoas a buscar o contato de um magista experiente ou autoridade religiosa para que sejam retirados – que é o sentido da palavra exorcismo1.

O tormento de Santo Antão (ca. 1487), pintura atribuída a Michelangelo sobre as tentações do padre do deserto.

Dada a natureza do tema, é facílimo afundar no lodo do sensacionalismo, que não é o meu objetivo. Preciso, por esse motivo, deixar claro também que eu não quero que ninguém fique alarmado, nem caia no equivalente daquela armadilha de procurar sintoma de doença no Google e achar que tem todas as síndromes que existem. “Será que eu tenho um demônio comigo?” Muito provavelmente, não. Mas, se acontecer também, querendo resolver, para tudo dá-se um jeito.

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Entidades-pensamento

Como formulado pelos autores da teosofia e adotado por boa parte do ocultismo contemporâneo, os pensamentos que nós emitimos não ficam apenas limitados ao interior da nossa cabeça. Em vez disso, eles emanam pequenas formas, observadas em visão clarividente como balões geométricos, que aderem ao nosso sistema energético. Isso é o que se chama de “formas-pensamento” (thoughtforms em inglês) – e já dedicamos um texto aqui ao assunto também. Como a nossa energia vai para onde direcionamos nossa atenção, as formas-pensamento se tornam mais fortes quanto mais atenção/energia lhes for conferida. Quando nos esquecemos de um ou outro pensamento fugaz, ele simplesmente míngua até desaparecer. Mas, se forem suficientemente alimentados, podem chegar a desenvolver um tipo de semiconsciência – e com isso, um instinto de sobrevivência. E aí estamos falando de entidades-pensamento.

Há duas consequências que podemos tirar dessa constatação. A primeira é a de que é perfeitamente possível uma pessoa obsediar a si mesma com seus próprios pensamentos negativos cultivados a longo prazo – e isso, de fato, acontece com bastante frequência, infelizmente. Quando as pessoas falam que estão enfrentando “seus demônios”, no geral é a isso que elas aludem, mesmo que não saibam. Sobretudo na infância, nos vemos especialmente suscetíveis às formas-pensamento alheias de nossos familiares e professores: um adulto afirma algo muito enfaticamente sobre a criança, que ela é “terrível”, “burra”, “que não faz nada direito”. O tempo inteiro, nós estamos em contato com formas-pensamento alheias e, claro, não são todas que encontram um terreno fértil em nossos corpos sutis. Mas nosso sistema, de vez em quando, digamos, “pega uma dessas formas para criar” e aí está feito o estrago. No caso desse exemplo do adulto e da criança, como o sistema energético infantil é mais delicado, é muito fácil que o adulto implante na criança um desses pensamentos, que ela depois irá alimentar até que se torne impossível enxergar o mundo sem ser pelo seu viés.

Essa tirinha do Lafa é muito ilustrativa desses processos.

Por sorte, há técnicas de cura energética para lidar com isso sem maiores problemas2. Mas, mesmo dentro de um repertório mais puramente mundano, a terapia de fala, com uma terapeuta capaz e um paciente com alguma autoconsciência, é capaz de ajudar a pessoa a enxergar além da forma-pensamento que a engloba e a reconhecer sua influência, alterando seus hábitos de comportamento e pensamento até que a forma deixe de exercer poder sobre ela. Idealmente, é interessante combinar as duas coisas, a terapia psicológica e a energética (contanto que realizada por dois profissionais diferentes3), porque assim a influência energética é enfraquecida e o processo de mudança se torna mais fácil.

É possível ainda que essas formas acabem parasitadas, o que é mais grave. Mas vamos falar disso quando chegarmos no assunto dos parasitas.

Atores e escritores também criam entidades-pensamento quando trabalham seus personagens, considerando toda a atenção que eles aplicam para suas criações4. A relação dos atores é mais intensa, no entanto, porque eles “incorporam” esses seres no palco e a intensidade emocional da atuação com a atenção da plateia pode lhes dar força o suficiente para que persistam durante muito tempo após o fim da temporada de uma peça. Às vezes é preciso dissolvê-las intencionalmente.

A segunda conclusão é a de que há uma aplicação mágica para essas criações, se feitas deliberadamente com intenção e foco, o que é verdade. Para um magista com um pouco de experiência em manipulação energética, é fácil criar, energizar e projetar uma forma-pensamento de maneira deliberada para realizar uma ou outra intenção e então se dissolver na sequência, e a implantação em objetos de formas-pensamento duradouras com uma dada energia é uma das técnicas possíveis para se criar talismãs. Mas mesmo um leigo, sem treinamento mágico, pode sentir uma melhora na qualidade de vida se for capaz de se cercar de formas-pensamento positivas (o que, no entanto, dado o estado atual da humanidade, só é viável se a pessoa for muito sábia ou muito alienada). Com um pouco mais de esforço e energia, essa forma-pensamento pode ser transformada numa entidade-pensamento, para a condução de um trabalho mais a longo prazo.

A respeito disso, um outro conceito adjacente relevante, que se popularizou muito nos últimos anos é o da “tulpa”. O termo se origina nos escritos da exploradora Alexandra David-Néel (1868–1969). Em seus relatos de viagem pelo Tibete e convivência entre monges budistas, ela descreve as tulpas como “formações mágicas geradas por uma concentração poderosa do pensamento” e conta um causo em que ela mesma teria criado uma tulpa, que ela foi obrigada a destruir depois de começar a dar problemas. No entanto, o termo, tal como ela o concebe, não existe originalmente em tibetano e parece ter sido algum tipo de mal-entendido (ou completa invenção)5.

Em todo caso, é como o conceito se popularizou no Ocidente e a prática recreativa da “tulpamancia” é comum atualmente, nos moldes descritos por David-Néel, mesmo entre indivíduos que não têm outras práticas esotéricas6. Uma “tulpa” não passa de uma entidade-pensamento, concebida e fortalecida pela energia mental concentrada de seu criador. No geral, elas não têm maiores funções, exceto entretenimento, mas são alimentadas com tanta energia e atenção durante períodos tão longos de tempo que desenvolvem um grau elevado de autonomia e capacidade de interação sensorial. Esses exercícios, embora possam ser divertidos, apresentam pouco interesse para a maioria dos magistas preocupados com obter resultados de verdade, além de representarem um certo perigo para a saúde mental de quem os pratica.

Gravura do século XIX, aparentemente representando a cena do homúnculo na parte II do Fausto de Goethe.

Agora, quando se cria uma entidade-pensamento deliberadamente para uma função específica, então tem-se o que se chama de um servidor. O termo, servitor em latim/inglês, vem da magia do caos dos anos 1980 e 1990, mas já tinha um antecessor no ocultismo ocidental7. Há diversos métodos para a criação de um servidor: via de regra, um ser desses vai ter um nome e uma função, pelo menos, e é comum também que ele tenha uma descrição “física” e uma “personalidade”, um sigilo e às vezes uma base material para ancorá-lo. Ele pode ser concebido e alimentado pela sua atenção (geralmente em estados alterados de consciência), como quem dá corda num relógio, para depois “ganhar vida”, ou então ser criado, avivado e depois alimentado periodicamente. Uma vez ativo, ele pode começar a trabalhar contínua e imediatamente ou então ficar em modo de espera até ser convocado por algum tipo de comando embutido em sua programação.

O quanto o servidor é ou não uma entidade artificial é motivo de debate. Segundo a teoria em que o conceito emerge, um servidor é uma parte de você, e alguns autores recomendam, inclusive, que ele seja reabsorvido após sua desativação8. Porém, como vimos anteriormente, quando falamos das formas de se trabalhar com dáimones, existe a possibilidade de criação de um molde para a interação com essas entidades com base em sigilos também, o que representa um método de trabalho bastante parecido. A diferença principal, a meu ver, é que na criação de um servidor há um elemento muito forte da imposição dos desejos arbitrários do criador, ao passo que o trabalho com dáimones, tal como eu o delineei, oferece uma interface com apenas o mínimo necessário para a interação, deixando que a própria consciência do dáimon exprima sua personalidade e assuma a forma que desejar. É uma diferença sutil, mas crucial.

O grande problema com servidores é que eles podem ser facilmente parasitados. Se o magista que os cria não tiver bons hábitos de higiene energética, suas criações serão comprometidas logo de cara, um problema que é multiplicado com a prática de compartilhamento de servidores, que é quando uma pessoa cria um servidor e compartilha o seu sigilo para outras pessoas usarem também, o que é uma péssima ideia para todo mundo. Nas últimas décadas do ocultismo brasileiro, esse hábito se tornou comum, por conta da sua facilidade de uso entre iniciantes. Essa facilidade, no entanto, vem com os efeitos colaterais de 1) você ficar vulnerável às intenções do criador do servidor, que pode ser mau caráter e/ou não saber o que está fazendo e 2) acontecer o compartilhamento de parasitas e sujeira energética entre os usuários de um mesmo servidor. Por esses motivos, nós fortemente recomendamos que se evite essa prática9.

Demônios

Há quem considere redundante incluir os termos “dáimones” e “demônios” numa mesma lista, dada sua associação etimológica, mas eu sou da opinião de que a categoria “demônio” é importante, porque descreve uma gama específica de seres que não são contemplados pelo termo “dáimon”. Por conta de polêmicas na evolução das religiões e do mau uso retórico do adjetivo “demoníaco”, muitas pessoas acreditam que demônios não existem ou que o termo é aplicado apenas como um pejorativo a seres de outras categorias. Porém, como eu quero demonstrar, a gente não deve perder esses seres de vista. Segundo a minha definição, um demônio é: um 1) ser predatório; que 2) habita as esferas inferiores da existência; e 3) é dotado de uma energia obscura, tóxica, com o efeito de enfraquecer a nossa espiritualidade quando somos expostos à sua presença10.

No imaginário popular, por conta de filmes como O Exorcista, a possessão demoníaca é concebida como uma coisa espetacular, com o possuído falando em latim ou aramaico (demônios só podem ser cristãos, afinal), levitando e vomitando verde11. Na realidade, embora uma possessão ou obsessão demoníaca possa, sim, acontecer, é um evento raro. Quando acontece, o espírito prefere gastar menos energia com pirotecnia desnecessária e mais levando adiante seus objetivos de destruição em larga escala. Sobre isso, cito: “Uma possessão demoníaca tem maior probabilidade de estar envolvida em assassinatos em massa, na destruição de um grupo, local ou estrutura e em grandes interferências a nível da sociedade e cultura. Seres demoníacos mais profundos são rarissimamente vistos. Quando emergem, são imensos e operam por meio de grandes estruturas de poder ou padrões geográficos e tendem a causar vastas mudanças culturais”12.

Num contexto mesopotâmico, demônios (udug hul ou uttuku lemnutu) eram vistos como seres do caos, subprodutos da Criação, derivados de uma etapa anterior e embrionária do universo, que até o momento não foram integrados a essa ordem posterior, determinada pelos deuses que emergem vitoriosos da embate com o caos primordial. Enquanto “párias cósmicos”, sem lugar na Criação, eles enxergam o acesso ao nosso mundo como uma oportunidade para a ação destrutiva, visando retornar a existência a essa etapa anterior. Por isso, por pertencerem a esse reino da inexistência, eles não possuem forma e costumam ser descritos em termos negativos e antipodais: são “não-seres incorpóreos, sem boca, membros, rosto, audição ou visão; ficam ocultos, invisíveis à luz do dia; seus nomes não existem nem no Céu, nem na Terra; e não são contados no censo universal”13. No entanto, existe uma vasta gama de seres destrutivos na cosmologia mesopotâmica, e os utukku eram apenas uma única espécie deles. Os rituais exorcísticos mencionam também etemmu (fantasmas), os rabiṣu (“espreitadores”, seres que causavam doença, talvez convulsões) e outros que podem ou não estar integrados à ordem cósmica e que podem ou não ser variações ou subespécies de demônios. O assunto é complexo e nem sempre apresenta uma visão unívoca.

O arranjo da chamada “Árvore da Morte”, uma tentativa de organizar as qliphoth ou kelipot e lhes dar uma forma inteligível como uma paródia da Árvore da Vida cabalista.

Curiosamente, essa noção mesopotâmica da origem dos demônios numa dimensão prévia e instável da existência e sua ameaça ao estado atual das coisas, tem ressonância com o que vemos na mitologia de um povo que era contemporâneo aos mesopotâmicos, os egípcios, para quem a serpente demoníaca Apep, que habita no submundo, se opõe ao deus Rá e à manutenção da Ordem divina (Ma’at). Mas há também ressonâncias com certas visões cabalísticas desenvolvidas mais tarde na história do esoterismo. Cito:

Segundo a Cabala, que é a filosofia central na magia do Ocidente, os poderes demoníacos são entidades sobreviventes de um universo que existiu antes deste. Desse universo anterior, pouco se sabe, mas dizem que teria sido um reino de forças desequilibradas que destruiu a si mesmo após um período de existência relativamente breve. Os poderes demoníacos do cosmos atual, em termos cabalísticos, são chamados de Qlippoth — “cascas” em hebraico. São poderes fragmentados e desequilibrados de um universo anterior que se tornaram parte do tecido do universo conhecido, como pedras de uma ruína antiga na arquitetura de uma nova edificação. Sua presença aqui não é acidental; suas energias são, em certo sentido, necessárias ao cosmos e, cedo ou tarde, serão levadas a uma síntese final. “Cedo ou tarde”, no entanto, é um período de tempo muito longo, mensurado em ciclos cósmicos de duração quase inconcebível. Nesse ínterim, embora as Qlippoth tenham um lugar e propósito no universo, são tão alienígenas e destrutivas para a humanidade quanto um buraco negro ou o coração de uma estrela. Eles interagem conosco, segundo a tradição, apenas por conta de certos equívocos imensos na princípio da evolução humana. Até certo ponto, é possível que essa seja apenas mais uma visão teórica sobre os demônios, como as de outras tradições místicas ou religiosas. Ainda assim, ela tem certas implicações práticas nos planos mágicos14.

A razão de os demônios às vezes virem parar aqui ainda é motivo de especulação: há quem diga que foi por conta de experimentos mágicos mal conduzidos, há quem diga que foi por “acidente”. A minha perspectiva é a de que as atrocidades que a própria humanidade cometeu ao longo das eras – entre escravidão, genocídios, etnocídios e a destruição do sagrado e do mundo natural – abriram as portas para esses seres, e eles nos infernizam desde então.

Apesar de tudo, demônios podem, em tese, ser redimidos. Esse é o sentido tradicional das qlippoth, afinal – são as cascas que cobrem as fagulhas de luz que o cabalista resgata em sua busca para reparar o mundo. Na mitologia babilônica, Marduk converte um dos monstros primordiais de Tiamat, o dragão Mušḫuššu, que se torna um dos símbolos do deus. No budismo, se ousarmos inferir uma identificação entre esses demônios do ocidente e oriente médio com os demônios do leste asiático, há muitas narrativas de demônios (bdud, em tibetano) atormentando as pessoas até serem convertidos por sábios como Padmasambhava, quando então se tornam guardiões do dharma (dharmapalas), protegendo a egrégora da religião budista contra as energias que possam querer desvirtuá-la. Por meio de um ato de compaixão, portanto, esses párias cósmicos, que até então só querem saber de destruir, acabam integrados. Mas – enfatizo – é preciso um indivíduo extraordinário para isso. Qualquer pessoa comum que tente uma coisa dessas vai sofrer um destino terrível, como tentar dialogar com um hipopótamo.

O bodhisattva Kṣitigarbha, Dìzàng ou Jizo, descendo aos infernos sobre um trono de lótus para trazer sua compaixão aos seus habitantes.

Observa-se algo semelhante também na tradição salomônica, embora o sucesso de sua execução pareça ter sido apenas parcial. Nas lendas judaicas, Salomão (outra figura extraordinária) controla e comanda os demônios para construírem o Templo, dando assim uma função produtiva a essa energia demoníaca de destruição. É por isso que, na tradição ocidental, a magia salomônica vai atribuir funções aos seus demônios: há seres na Ars Goetia, na Hygromanteia e outros grimórios que podem, segundo consta lá, ser úteis para trabalhos de prosperidade, luxúria, vitória etc. No entanto, como dito, esse trabalho de redenção foi apenas parcialmente bem-sucedido.

Diferente da tradição budista, em que a conversão se baseia na compaixão e mantêm em mente uma visão de não dualidade, a magia salomônica se baseia na dominação e na perpetuação de uma perspectiva dualista (céu x inferno, Deus x Satã, anjos x demônios). Por isso, mesmo quando a Goetia dá os resultados desejados a nível material, há muitos perigos envolvidos, e esses seres ainda expressam desejos de nos destruir de alguma forma15. Em alguns sistemas, como no enoquiano, inclusive, não há qualquer utilidade para os seus seres demoníacos, que só são capazes de espalhar caos e destruição sem direcionamento algum. Ao contrário do que pensam alguns praticantes mais ingênuos, esses perigos não desaparecem de todo quando tratamos os demônios com gentileza ou reverência16. A dimensão predatória é parte da natureza desses seres e segue embutida no sistema mágico usado para contatá-los, por isso qualquer interação com eles tem altíssimas chances de consequências negativas17.

Felizmente, é provável que a maioria das pessoas leigas – pelo menos as que não se envolvem com praticantes de magia, nem convivem com gente influente e poderosa, nem nunca cometeram nenhuma grande atrocidade – consigam viver a vida inteira sem cruzar com esses seres. É fácil topar com espíritos da terra e seres folclóricos, espíritos de mortos e parasitas, mas demônios pertencem a uma outra ordem.

Cena de Lekce Faust, de Jan Švankmajer

Parasitas

São criaturas com graus variados de consciência, mas definidas por um único propósito que é sobreviver alimentando-se às custas da energia de outros seres sencientes. Como eu já disse antes num outro texto sobre o assunto: “assim como parasitas do mundo físico buscam se alimentar de nós, seja do nosso sangue ou outra fonte de nutrientes em nosso corpo, os parasitas incorpóreos se alimentam das substâncias sutis de nossos corpos energéticos”. São conhecidos também como larvas etéricas/astrais ou elementais negativos.

O grau de consciência dos parasitas varia. Alguns são apenas semiconscientes, demonstrando impulsos animais de buscar alimento e fugir de possíveis agressores, enquanto outros chegam a elaborar esquemas sofisticados para enganar seus hospedeiros. Por conta da analogia com os parasitas do mundo físico, eles tendem a aparecer em visões clarividentes como larvas e vermes, lesmas e seres insetoides, mas também como um tipo de mofo e até mesmo como algo que parece uma sacola plástica.

Alex Grey – Despair

Por conta da natureza do mundo energético, dado que a nossa energia vai aonde direcionamos nossa atenção e que nós nos vemos o tempo inteiro trocando energia com o ambiente, existem muitos seres que se aproveitam para cometer pequenos atos de vampirismo, roubos eventuais de energia alheia para algum propósito específico, sem que sejam necessariamente parasitas. Até pessoas fazem isso, consciente ou inconscientemente, tanto vivas quanto mortas. A questão do parasita é que esse vampirismo é cometido apenas com essa intenção de sobrevivência, que eles dependem de seus hospedeiros e lhes fazem mal no processo de se alimentarem.

O porquê da existência desses seres é desconhecido. Talvez sejam parte do “processo evolutivo” dos seres espirituais, talvez tenham algum outro propósito. Eu gosto de pensar na hipótese de uma parte deles, pelo menos, ter sido gerada a partir da corrupção de seres daimônicos da natureza.

Um dos tipos de energia favorita para um parasita é a energia sexual, haja vista que é uma energia altamente “nutritiva” (é usada para manifestar coisas neste mundo, afinal, incluindo crianças), mas há parasitas que sugam todo tipo de energia, contanto que esteja suja, mal qualificada – preocupação, raiva, desespero, medo, compulsão, tristeza, culpa18. Onde quer que haja um grande acúmulo dessas energias, você vai encontrar esses seres, por isso há lugares como escolas e hospitais (ou qualquer outro onde haja uma forte impregnação psíquica), que são um prato cheio para eles. Depois, quando não há mais alimento, eles desencanam e vão embora, à procura de um espaço que seja mais interessante.

Por sorte, a maioria das pessoas tem certas defesas que normalmente impedem que eles se acoplem na gente. No entanto, uma combinação de cultivo de maus hábitos e certos acontecimentos que comprometem a nossa imunidade faz com que eles consigam entrar em nossos chakras, onde podem estimular os comportamentos nocivos que geram o tipo de energia de que eles gostam e assim causar muito estrago. A boa notícia é que há técnicas simples para remoção desses parasitas19, mas para elas apresentarem resultados definitivos é preciso um esforço ativo da parte da pessoa parasitada para mudar seus hábitos.

Como dito, é possível uma pessoa obsediar a si mesma com suas formas e entidades-pensamento. A diferença é que, numa parasitose, os efeitos são mais graves. O comportamento da pessoa é afetado de maneira intensa e a sua saúde sofre também, tanto a nível físico quanto mental. Geralmente formas-pensamento negativas tendem a atrair parasitas, pela afinidade da energia. Até certo ponto, os sintomas podem ser parecidos com o de uma obsessão pelo espírito de um morto, mas a maneira de lidar com eles é diferente.

Praticantes de magia precisam tomar mais cuidado, porque são pessoas que movimentam muita energia e assim representam alvos especialmente interessantes. Práticas inadequadas abrem as portas para esses bichos, e se eles forem suficientemente desenvolvidos, existe a possibilidade de assumirem vários tipos de disfarces. Podem se apresentar como personagens de filmes ou videogames, como celebridades vivas ou mortas, como deidades e “seres de luz” etc. Um modus operandi comum é aparecerem como uma figura importante para apelar ao ego e vaidade da vítima. Então, ela baixa a guarda e deixa o bicho se aproximar. E como a gente sabe que ela contraiu um parasita e não um contato com um aliado espiritual legítimo? Porque a vida da pessoa vai pro buraco. O corpo físico, a saúde mental, as relações interpessoais, as condições materiais – tudo isso tende a se deteriorar.

Zdzisław Beksiński – Sem título (1984)

É preciso tomar todo um cuidado especial com viagens astrais. Tem pessoas com facilidades naturais para viagem astral que podem aprender a fazer isso intuitivamente ou após algum curso ou livro sem antes dominarem técnicas básicas de defesa e proteção, e aí vão parar em lugares estranhos, de onde podem acabar trazendo esses seres consigo. Pessoas que mexem com oráculos, especialmente com atendimento ao público, também precisam prestar atenção.

Como tudo que esses seres querem é se alimentar de energia, não é difícil um magista baixo-nível trabalhar com parasitas, remunerando-os com seu próprio prana pelo seu serviço – o difícil é fazer isso sem acabar parasitado. A tendência é que pessoas muito desequilibradas com práticas mal feitas (especialmente quando saem por aí fazendo demanda) já estejam parasitadas e o tipo de ataque que elas fazem é basicamente jogar esses bichos em cima de seus alvos. Por sorte, não é difícil se defender dessa nojeira. No mais, no meu texto sobre o tema eu já tratei mais longamente do tema, com a bibliografia sobre o assunto e recomendações mais específicas..

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E é isso, gente, concluímos agora o nosso breve catálogo. Por fim, três coisas para falar.

A primeira é que essa lista não se pretende exaustiva, claro. Há seres que eu ainda não sei ao certo como classificar – a misteriosa figura de Abraxas, por exemplo, ou os 7 espíritos olímpicos. Ou espíritos de alienígenas.

A segunda é que existe a possibilidade de hibridismo. Já falei na parte II dos seres folclóricos que também podem ser daemônicos, mas esse fenômeno é especialmente comum entre deidades – acredito que por conta do envolvimento humano na criação das suas formas. Existem deidades que foram demonizadas, como o deus levantino Ba’al (que resultou no demônio goético Bael), e existem figuras como Pazuzu que eram entendidas já na antiguidade como seres ambíguos, entre um deus e um demônio. Por conta do acúmulo de funções, da riqueza de mitologia e abundância de devotos, eu não acharia estranho falarmos ainda em termos de deidades angelicais quando lidamos com grandes anjos, como Miguel, Rafael e Gabriel. E existem mortos tanto daimonizados quanto deificados. Alguns ocultistas contemporâneos falam de “híbridos planetários”, espíritos parcialmente daimônicos em sua atuação astral e parcialmente angelicais, porém limitados a uma única função20. Na cultura islâmica, djinns demoníacos são chamados de shaytans, e talvez seja possível pensar em figuras do folclore de fadas, como Oberon e Titânia, como deidades feéricas. A realidade é sempre mais complexa do que o mapa, mas precisamos partir de algum lugar.

A terceira coisa é que, mais uma vez, esse trabalho de classificação foi feito pelo meu viés pessoal, seguindo meus critérios e pelas minhas referências. Geralmente acontece de eu ter uma noção inicial sobre uma categoria de seres formada por alguns autores de confiança, relatos alheios e intuição, para depois a experiência pessoal servir para confirmar essa noção, negá-la ou lhe conferir maior nuance. Não é para ser uma coisa rígida e dogmática, escrita em pedra, mas apenas a versão mais recente de uma obra em progresso, uma tese que pode ser repensada conforme novas experiências se apresentarem. Não quero convencer ninguém de que a minha visão é a correta ou a única possível, mas imagino que, para os meus alunos, é útil ter essa descrição, tanto como uma forma de entender a minha perspectiva enquanto professor quanto para servir de introdução ao assunto. Como dito, estudar as diferentes categorias de seres ajuda a entender o que esperar de cada um e como abordá-los, o que é importante para qualquer praticante de magia.

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  1. Do latim exorcizō, a partir do grego, ἐξορκίζω, ek + horkizo. Ek, assim como o e(x) latino indica um movimento para fora, de afastamento. Horkizo significa “fazer jurar”, obrigar alguém sob um juramento. Daí que a palavra tenha o sentido de adjurar ou esconjurar, de obrigar alguém por juramento a sair de algum lugar. ↩︎
  2. No Pranic Healing (nível III, Psicoterapia Prânica), por exemplo, é possível identificar formas e entidades-pensamento com energias de uma certa qualidade e dissolvê-las facilmente. Mas mesmo na magia da Golden Dawn há maneiras de lidar com formas-pensamento obsessivas. Regardie menciona um uso do RmP para isso no tijolão, inclusive: “Como uma proteção contra o magnetismo impuro, o RmP pode ser usado para se livrar de pensamentos obsessivos ou perturbadores. Dê uma imagem mental à sua obsessão e a imagine formulada diante de você. Projete-a para fora de sua aura com o Sinal de Saudação do Neófito e então, quando estiver a um metro de distância, evite que ela retorne com o Sinal de Silêncio. Agora imagine essa forma no leste diante de você e realize o RmP para desintegrá-la, vendo-a, no olho de sua mente, dissolvendo-se além do seu anel de fogo” (p. 54). ↩︎
  3. Uma formação em psicologia pode fazer de qualquer oraculista ou terapeuta energético um profissional melhor e mais capaz de entender os seus clientes. No entanto, vale lembrar que psicólogos que atendam seus pacientes também com tarô ou outras coisas do tipo estão em violação do código de ética da profissão. ↩︎
  4. Powell, em O corpo mental, se não me engano, comenta que às vezes outros seres podem enxergar essas criações e interagir com elas. Nesses momentos, os escritores têm a impressão de que a obra está “se escrevendo sozinha”. ↩︎
  5. O termo em tibetano do qual “tulpa” deriva, sprul pa, “emanação”, tem uma outra conotação totalmente diferente (fonte). ↩︎
  6. Diz a FAQ do subreddit /tulpa: “A maior parte da comunidade enxerga isso como uma técnica inteiramente psicológica”. O que, a meu ver, é uma tremenda burrice. ↩︎
  7. Franz Bardon ensina a criar elementais artificiais no grau 8 do seu Magia Prática. Mas, antes disso ainda, temos a lenda judaica do golem, um homem artificial feito de barro por um mestre cabalista, e o homúnculo descrito na obra de Paracelso . ↩︎
  8. Muitos autores recomendam fortemente que o tempo de vida de uma entidade artificial seja estipulado desde a sua criação e que ela não seja mantida ativa durante um período de tempo indeterminado. ↩︎
  9. Se você quer muito trabalhar com servidores, o melhor método que eu encontrei é o descrito por Mars Martin Neumann, autor de The Adventures of a Magus (magick.companion no instagram), que ele batizou de “método da espada flamejante”, orientado pelo arranjo da Árvore da Vida cabalística (link aqui). ↩︎
  10. O modo como isso se dá é diminuindo e sujando o chakra da coroa, que é o nosso centro energético de conexão com o Divino. Eu não quero soar alarmista, mas, falando por experiência, o mero ato de se ler atentamente ou trabalhar editorialmente em cima de um livro sobre demônios, sobretudo da tradição mágica ocidental, que os mencione por nome e sigilo, já tem o efeito de poluir o chakra da coroa se não houver aí o uso de alguma ferramenta de proteção. Isso se comunica também com o que é o objetivo a longo prazo desses seres, comentado aqui na nota 17. ↩︎
  11. Segundo a Josephine McCarthy, possessões muito espalhafatosas, se não forem encenações, claro, costumam ser parasitas e não demônios. ↩︎
  12. A citação é de Josephine McCarthy, The Exorcist’s Handbook. ↩︎
  13. Franz Wiggerman, “The Mesopotamian Pandemonium”. ↩︎
  14. John Michael Greer, Monsters (p. 182). O que Greer fala dos mundos anteriores que teriam sido criados e destruídos por conta de um desequilíbrio de forças é um elemento bem conhecido da cosmologia cabalística, que interpreta a alusão bíblica aos “reis de Edom” como uma referência a esse evento. Sobre o assunto, cf. Moshe Hallamish, An Introduction to the Kabbalah (cap. 9, p. 166). ↩︎
  15. Em termos de Goetia, eu discordo respeitosamente da conclusão da Josephine. Para ela, esses espíritos são apenas parasitas e não demônios verdadeiros. Acho que ela exagera um pouco às vezes no uso do rótulo “parasita”. ↩︎
  16. Existe também a noção de que há graus entre esses vários espíritos: Orobas, o 55º espírito da Goetia, é famoso por ser tranquilo, enquanto Andras, que dizem que tenta matar o conjurador, se encontra no oposto extremo. Sabe-se que tanto a Ars Goetia quanto o Grimorium Verum incluem, em seus catálogos de espíritos, seres que não são necessariamente demônios, entre espíritos da natureza e até deidades demonizadas. No entanto, isso não quer dizer que esse trabalho seja seguro, por eles “não serem demônios de verdade”. Na medida em que esses sistemas conferem a esse trabalho um trato demoníaco, esses perigos acabam embutidos no próprio método. Invocar Baal como deus pagão, com os seus hinos antigos, não é a mesma coisa que conjurar o demônio goético Bael, embora haja, até certo ponto, uma mesma assinatura energética. ↩︎
  17. Essas consequências são de três ordens: elas podem ser operacionais, derivar de uma formulação inadequada ou, na pior das hipóteses, levar à corrupção do espírito do praticante. O primeiro caso é o que acontece quando você corta caminho ou não faz as devidas proteções. É aí que um cara como Andras te pega. Um pedido mal formulado é o que aconteceu no caso famoso de Rufus Opus e seu trabalho com Bune, que botou fogo na casa dele. O que eu chamei de corrupção do espírito diz respeito às consequências no pós-vida. Recomendo dois vídeos do Wellington, do canal De Monge a Mago, que é alguém que tem experiência em trabalhos de Goetia: num vídeo curto, ele relata o que lhe disse Belial em resposta à pergunta “o que vocês (demônios) ganham doando energia aos nossos intentos?”; em outro, um de seus causos de scrying, ele relata a exploração dos túneis de Set por conta de um cliente que arruinou a própria vida com um pacto. Esses relatos são coerentes com o que admoesta Bardon em A prática da evocação mágica. ↩︎
  18. Se eles se dividem em “espécies” diferentes de antemão, de acordo com essas energias, ou se a energia de um dado parasita é definida conforme a energia que ele consome (meio como um flamingo, que é rosado por conta da sua dieta), aí eu não sei dizer. ↩︎
  19. De novo, as técnicas de Psicoterapia Prânica de Pranic Healing são muito poderosas para isso ↩︎
  20. O termo “híbridos planetários”, se não me engano, foi cunhado pelo Dalton, do Covil do Eremita (vide este vídeo) ↩︎

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