Os vários tipos de seres espirituais – parte II

Este texto integra uma série do que seriam duas partes, mas acabou que serão três, sobre os vários tipos de seres espirituais com os quais podemos nos deparar em nosso caminho mágico. Na primeira parte, começamos a explorar esse tema a partir do topo da escala dos seres: os primeiros nomes da lista foram deidades e anjos, que eu entendo como pertencentes aos planos superiores, depois descemos ao plano mental, com inteligências e egrégoras. Por fim, encerramos falando de alguns tipos de trabalho com as almas dos mortos, que também têm acesso a áreas diferentes dos planos invisíveis, de acordo com o caráter de cada espírito.

Os próximos itens da lista são: dáimones, seres “folclóricos”, entidades-pensamento, demônios e parasitas. A princípio eu pretendia tratar de todos os cinco aqui, mas o texto ficou grande demais e achei melhor dividir: dáimones e seres “folclóricos” ficaram para a parte II agora, e os demais para a parte III.

Hoje vamos “descer” um pouco mais, portanto. Quando eu digo “descer”, claro, não estou querendo dizer necessariamente que vamos tratar de seres “piores” ou “menos evoluídos” (um termo que vocês nunca vão me ver usando). Por “alto” e “baixo”, “superior” e “inferior” temos em mente, via de regra, apenas a metáfora clássica do céu e da terra, do espiritual transcendente e do material.

Detalhe de Jerônimo Bosch – O jardim das delícias terrenas

Essa é uma distinção relevante, não é apenas um preciosismo ou reflexo de algum tipo de sistema de moralidade, mas uma questão prática. Tanto pela minha experiência quanto por relatos de terceiros, a posição que um ser ocupa na hierarquia determina a relação que vamos estabelecer e a natureza dos perigos envolvidos – pois algum grau de perigo sempre tem. A única magia inofensiva é a que não faz nada.

Para seres ditos superiores, existe o perigo de não estarmos prontos para esse trabalho – dependendo da “voltagem”, por assim dizer, do sistema usado, um contato mais intenso sem o devido preparo, em termos de purificação e maturidade mental, pode fazer o magista fritar. Mas é improvável que um anjo, por exemplo, lhe passe a perna ou lhe pregue peças: ele está numa camada tão distante do plano físico que simplesmente não tem interesse nesse tipo de coisa.

Com frequência as pessoas evitam trabalhar com seres superiores por conta disso, preferindo chamar quem está mais embaixo na escala. E aí, de fato, esse pessoal é mais acessível. Contatar morto, por exemplo, não é nada difícil. Mas essas pessoas foram encarnadas, são gente. E com exceção dos santos, lidar com gente é dor de cabeça. Daí para baixo é mais do mesmo: estamos lidando com seres dotados de ego e com seus próprios objetivos e desejos que não necessariamente tem o nosso bem-estar como prioridade, com um bônus, no caso de alguns deles, de operarem segundo uma lógica estranha ao pensamento humano. Se a gente não se cuidar, eles podem nos enganar e nos fazer mal ou até mesmo se ofenderem por algum motivo incompreensível. Não digo isso para difamar os espíritos, mas porque tem que ficar esperto mesmo. Muitas pessoas já arruinaram a própria vida com magia mal feita, seja por chamarem, sem o devido cuidado, seres parasíticos, caóticos ou destrutivos, seja por prometerem algo, ficarem devendo e depois receberem a visita do agiota astral1.

Sem mais delongas, vamos falar de duas categorias que podem parecer muito próximas: dáimones e o que chamamos de fadas, djinns ou, mais genericamente, seres “folclóricos”.

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Dáimones

Aqui temos uma outra categoria de seres intermediários. Se os anjos fazem a ponte entre o Divino e a matéria, o que eu estou chamando de dáimones são os espíritos que agem na manutenção da realidade material, mas não de lá de cima, na diretoria, e sim diretamente no chão de fábrica, por assim dizer, nos planos que estão mais próximos da matéria, embora ainda não sejam matéria de fato. Para ilustrar com uma analogia: assim como as abelhas são cruciais para a vida das plantas por causa da polinização que elas promovem por meio de suas atividades, a atividade dos dáimones, de acordo com a qualidade de energia em que eles operam (tanto a palavra “atividade” quanto “energia” são traduções do grego energeia), vai se traduzir no funcionamento das coisas, que pode ser mais ou menos intenso, mais ou menos fluido. Nos sistemas de inspiração hermética, temos dáimones ligados às energias dos elementos e dos planetas, e assim os dáimones mercuriais vão atuar na esfera da comunicação, por exemplo, que é um dos temas planetários de Mercúrio, dáimones venusianos vão atuar na esfera das relações, da harmonia, da beleza e do amor, e assim por diante.

O nome eu tomei do grego: daimon (δαίμων), como se sabe, é um daqueles termos meio complicados, por ter um milhão de acepções, frequentemente mal-compreendidas2. Sua origem vem do verbo daíomai, “cortar” ou “repartir”, uma palavra usada no contexto da repartição de recursos, o que era uma das tarefas de um governante. Uma das definições de dáimon é a de “personificação”, conceitos abstratos que remetem alegoricamente a emoções, à condição humana, qualidades, valores morais, formas retóricas, ações e estados da sociedade, sem que necessariamente sejam deuses com um culto e uma mitologia mais desenvolvida. Eufeme (a personificação do elogio), Dike (a justiça), Nike (a vitória) são exemplos típicos de dáimones, bem como Deimos & Fobos (medo & terror), Ate (confusão), Ananke (necessidade), Hypnos (sono), Penia (pobreza), Nomos (lei), Kratos (poder) e assim por diante. Magicamente, dá para entender a lógica de amarrar esses conceitos a uma figura personificada, na medida em que é possível, dessa forma, desenvolver técnicas para atrair os dáimones desejáveis, como a vitória, e afastar os indesejáveis, como a pobreza.

Mosaico de Phobos, em Halicarnasso (séc. IV d.C.)

Mas alguns desses nomes são deuses também e o termo às vezes aparece de forma intercambiável com theos (“deus”) em textos antigos. Em Platão, dáimones são seres intermediários entre o mortal e o divino – o Amor, no Banquete, segundo a fala de Sócrates, seria um dáimon, porque ele busca o belo e o bom. Se ele busca o belo e bom, logo, raciocina Sócrates, ele não possui o belo e o bom, porque não o buscaria se o possuísse, mas o Amor também não é o seu oposto, feio e mau, por isso é preciso recorrer a uma outra terminologia para explicá-lo. Dáimones são mencionados igualmente na cosmologia do Corpus Hermeticum: “Ao redor do sol, há muitas tropas de dáimones como batalhões em formações móveis. Não estão distantes dos imortais, embora habitem com os mortais. (…) fazer o bem é o afazer dos deuses; reverenciar, o da humanidade; prestar assistência, o dos dáimones” (CH XVI). Na hierarquia dos seres de Jâmblico, em De Mysteriis (livro II), dáimones estão acima dos ditos heróis, mas abaixo de deuses, arcanjos e anjos.

Em termos mágicos, sempre que estamos mexendo com energia (o que eu defino como a substância sutil que ocupa os planos invisíveis e que recebe padrões tanto das forças do destino quanto de nossa própria vontade), estamos interagindo com um ecossistema espiritual constituído por dáimones – “Pois a energeia3 é a essência de um dáimon”, CH XVI. Não é preciso procurar essa interação direta, nominalmente, para que ela aconteça. Porém, quando trabalhamos com nomes e formas personificadas, essa interação se torna mais fácil. A identidade dos dáimones também é bastante fluida, plástica e modular, o que pode ser meio confuso para a gente, que estamos acostumados a identidades mais rígidas porque é assim que as coisas funcionam na matéria. Mas isso faz sentido quando entendemos que dáimones são seres do astral, o plano sutil que, entre muitas outras coisas, é o plano dos sonhos. E quer coisa mais plástica e fluida do que a matéria dos sonhos?

Podemos procurar a interação deliberada com dáimones em grimórios e outras obras de literatura ocultista, como em Agrippa, com os reis dos quatro elementos (os quais são, por sua vez, a consciência coletiva das salamandras, silfos, ondinas e gnomos, seres do fogo, ar, água e terra na cosmologia paracelsiana). Os espíritos de Júpiter4 e dos outros planetas listados no Picatrix são dáimones igualmente. Também é possível forjarmos nossas próprias formas de contato, por exemplo, criando um talismã planetário e obtendo um nome a partir do mapa astral da sua criação, o que nos permite formular um sigilo por meio dos quadradinhos mágicos (kameot) e usá-lo num ritual de conjuração5. Nesse esquema hermético, Ficino faz um comentário muito interessante sobre a natureza dos dáimones planetários e o sistema de correspondências:

Por meio de um sistema semelhante, entende-se que uma cadeia de seres desce, de nível em nível, de qualquer astro do firmamento por meio de qualquer planeta sob o seu domínio. Se, portanto, como eu disse, tu combinares no momento certo todas as coisas solares por meio de qualquer nível dessa ordem, i.e., homens de natureza solar ou qualquer coisa que pertença a um tal homem, animais igualmente, plantas, metais, pedras ou qualquer coisa que diga respeito a essas coisas, tu beberás incondicionalmente do poder do Sol e, em algum grau, dos poderes naturais dos dáimones solares.6

Já outros sistemas mágicos, de origens diferentes, que operem pelo mapa de simbologias cosmológicas outras vão oferecer outras vias de contato. Mas esses contatos não estão restritos a magias de livro: um espírito da terra, o dito genius locii, também é um exemplo de um dáimon, cuja função e existência estão vinculadas a um espaço natural e sua preservação. Quando alguém fala em trabalhar com espíritos de conceitos mais abstratos, como o de uma empresa ou organização, esse é também um trabalho daimônico.

É importante frisar que o dáimon grego deu no daemon latino do qual se origina o termo “demônio” em muitas línguas europeias (algumas traduções de textos antigos inclusive optam estilisticamente por verter o dáimon/daemon como “demônio”). Sob o viés cristão, no entanto, muitos espíritos acabaram sendo tachados com esse termo, com toda a carga negativa que ele traz, sem que fossem de fato espíritos infernais, ou mesmo ctônicos – o que, como quero demonstrar na parte III da série, também não significa que espíritos infernais não existam. Separar quais espíritos são o que nas tradições grimoriais é um trabalho árduo.

Ao se interagir com dáimones, é importante ter em mente a natureza da energia a que eles estão conectados, já que isso determina o comportamento e a, digamos, “psicologia” desses espíritos, as oferendas que podem ser feitas, bem como os seres superiores aos quais eles obedecem. É bem conhecido na tradição que os dáimones de um dado planeta obedecem aos anjos e inteligências daquele planeta, motivo pelo qual essas conjurações costumam começar do topo de hierarquia.

Seres “folclóricos”

O termo “folclore” é problemático (por isso eu o uso aqui entre aspas), mas acredito que seja a forma mais amplamente compreensível de se referir a essa categoria de seres sem adotar o viés de uma cultura específica. Poderíamos chamá-los de “elementais”, que é uma categoria corrente no ocultismo (e que eu mesmo uso no dia a dia), mas não vou usar esse termo aqui para não criar confusão com os dáimones dos quatro elementos, que também são chamados, por vezes, de elementais. Em cada cultura esses seres aparecem com um nome e uma apresentação variada: temos as fadas, elfos e duendes das tradições célticas, germânicas e eslavas (fey, pixies, brownies, pookas, kobolds, (hob)goblins, domovoy etc), os trolls escandinavos, os djinn do mundo árabe, os nagas tibetanos, yokai japoneses, e, claro, alguns dos encantados brasileiros, que incluem o saci, o boitatá, a caipora, o curupira e outros seres conhecidos dos nossos povos indígenas.

Cena de Sonho de uma Noite de Verão, Titânia e Bottom, de Edwin Landseer (1802 – 1873) . Fadas e seus caprichos são famosamente uma presença marcante nessa peça de Shakespeare.

Apesar da diversidade de nomes e aparências, há muitas características em comum, por isso eu os agrupo como variações locais do que seria um mesmo princípio global. Esses seres tendem a ser misteriosos e a habitar espaços de natureza – a vida moderna e grandes cidades lhes são estranhos, mas todo povoado mais isolado vai ter, em sua memória coletiva, relatos abundantes desses encontros. Quem é urbano e escolarizado geralmente ridiculariza esse tipo de história (junto com as pessoas que as contam), mas quem já teve a experiência de morar na roça sabe que tem algo real aí – embora, claro, as narrativas possam ser distorcidas para efeito dramático. Em suas interações com o ser humano, a única constante é que esses seres são imprevisíveis. Achar que eles são benevolentes, assim de graça, é pedir para ser enganado e talvez correr risco de vida. Mas eles podem nos ajudar se tratados com o devido respeito… ainda que não sem antes, talvez, pregarem alguma peça ou pedirem algo em troca.

Tanto as fadas europeias quanto os djinn do mundo árabe partilham da característica comum que é serem conhecidos por uma população praticante de uma fé anterior à conversão a uma grande religião proselitista. Os djinn eram temidos e venerados na sociedade pré-islâmica, depois passaram a integrar a cosmologia da religião. No Corão, assim como os seres humanos são feitos de argila, os djinn são feitos de “fogo que não produz fumaça”. Eles são capazes de poderes admiráveis de invisibilidade, transformação e de voar pelos ares, mas, assim como seres humanos, eles têm um ciclo de vida, nascem, se reproduzem e morrem, embora seu tempo de vida seja mais longo do que a vida humana, e estão sujeitos ao julgamento de Allah no fim dos tempos. O conceito de fadas, na Europa, pertence igualmente a um imaginário anterior ao cristianismo, e muitos autores cristãos não só reconheciam sua existência, como também elaboraram teorias para encaixá-lo na sua cosmologia: segundo uma das visões correntes entre os antigos, fadas seriam anjos “neutros”, que ficaram em cima do muro durante a rebelião de Satã7. Tanto fadas quanto djinns tendem a habitar lugares ermos, com a diferença de que o ermo europeu é floresta e banhado, enquanto o árabe é deserto8, tanto fadas quanto djinns podem se vingar do ser humano se sentirem que foram feridos ou desrespeitados, e tanto fadas quanto djinns têm medo de ferro.

Uma explicação para esse fenômeno insere esses seres como pertencentes ao nível etérico da realidade. O corpo mais denso do ser humano, que é o corpo ao qual ele está acostumado em termos de sentidos, é o físico. O etérico é o plano sutil mais próximo, o plano da energia vital (prana/qi) e que interage mais fortemente com o nosso. Cito:

Dos habitantes do nível etérico, os seres que chamamos de fadas ocupam mais ou menos a mesma posição que os seres humanos detêm no mundo físico. Eles, assim como nós, fazem uso da linguagem e de ferramentas, são capazes de pensamento abstrato e moldam seu comportamento com base em ideias culturais adquiridas, em vez de instintos puramente herdados. Por outro lado, tudo isso é moldado a nível etérico, não físico. As ferramentas etéricas são diferentes das físicas; a linguagem exprimida por meio da projeção de padrões de pensamento pelo éter difere de modos profundos da linguagem exprimida por vibrações de som no ar ou marcas coloridas em papel sólido; um ambiente de energias etéricas mutáveis exige tipos diferentes de inteligência em comparação com um ambiente de sólidos, líquidos e gases físicos. (…)

A relação desigual entre os sentidos físicos humanos e os sentidos etéricos feéricos está na raiz do glamour. Nossas mentes estão acostumadas à percepção de coisas físicas, não etéricas. Quando fadas desejam interagir com seres humanos, elas normalmente precisam criar a imagem de uma forma física e projetá-la naquilo que os magistas chamam de Esfera de Sensação, o aspecto do corpo etérico que reflete percepções e sensações até os níveis mais elevados do eu. Como possuem pouco conhecimento do mundo físico, suas imagens tipicamente derivam da fonte mais próxima: nossos próprios pensamentos e imaginações, presentes também na Esfera de Sensação.

É por isso que ideias humanas a respeito de fadas (ou “alienígenas”) costumam ser refletidas de volta para nós na forma de experiências reais: as fadas são de verdade, mas as formas que elas assumem quando aparecem para nós são tomadas de empréstimo de nossas próprias imaginações. Essas formas são meras ferramentas que elas usam para interagir conosco e nada têm a ver com suas formas reais; em seu próprio reino, percebidas com sentidos etéricos, elas parecem com esferas ou ovoides cintilantes de luz multicolorida.9

É por isso também que, nos relatos “folclóricos”, esses seres abominam ferro. Uma das propriedades energéticas bem conhecidas do ferro é a de que ele perturba padrões etéricos, por isso seu contato é desagradável para qualquer ser constituído dessas forças. Água corrente e vinagre10 possuem essas características igualmente.

Por conta desse seu comportamento complexo e característico, esses seres e os dáimones constituem duas categorias diferentes, mas isso não quer dizer que não possa haver uma certa sobreposição entre elas em alguns casos. Na tradição da magia árabe de contextos culturais islamizados, fala-se em djinns dos sete planetas11, por exemplo. Eu entendo que, quando um ser “folclórico” ou espírito da natureza está ligado à preservação de uma dada região, como no caso de guardiões de florestas, então podemos dizer que ele exerce também uma função daimônica – imagino que os sátiros e ninfas da mitologia grega pudessem ser algo nessa linha.

Para quem mora perto de bosques ou florestas e possui uma clarividência ativa (ou tem crianças em casa, que muitas vezes são mais sensíveis), pode acontecer até mesmo de você se deparar com esses seres na sua casa. Suas formas costumam ser estranhas e selvagens, mas eles não são necessariamente hostis. Embora eu não recomende ativamente trabalhar com esses seres se você não for um magista experiente, propiciá-los com pequenas oferendas12 deixadas do lado de fora da casa é uma ótima política de boa vizinhança. Mas é importante também impor limites.

Meu Amigo Totoro (1988), dir. Hayao Miyazaki. Recomendo assistir o filme tendo em mente o que a gente viu sobre essas últimas duas categorias.

Em termos de trabalho ativo com esses seres, para quem é corajoso ou inconsequente o bastante para isso, temos o que parece ser uma constante: em cada cultura, tende a existirem sim tradições de longa data nessa linha, mas costuma ser algo relegado à tradição oral. Sobre fadas no contexto britânico:

Trabalhos com fadas poderiam ser considerados de magia natural ou demoníaca durante a idade média. Fadas podiam ser vistas como espíritos que operam dentro da natureza sob a direção do plano divino, mas também como espíritos que ensinam aos humanos poderes mágicos fora da vontade de Deus, de modo semelhante a demônios e diabos. Essa característica posterior aparece em outras fontes que tratam de bruxas. Acreditava-se que bruxas tinham familiares feéricos, que lhes eram dados pelo Diabo, como no caso de Isobel Gowdie, ou eram simplesmente espíritos que abordavam a bruxa por conta própria. Em ambos os casos, a fada ensinava magia à bruxa.13

No entanto, magia feérica em grimórios antigos é, ainda que não de todo ausente, meio fragmentada, ocasional e frequentemente mal-ajambrada. Trolls, seus equivalentes na Escandinávia, têm uma conexão muito forte com a magia e a bruxaria também – em sueco, “magia” é trolldom, o verbo trolla significa “fazer magia” e “mago” se diz trollkarl. Por isso, encontramos trolls em certas fórmulas mágicas de origem popular escandinava14… mas infelizmente desconheço a cena ocultista da região, por isso não posso dizer se livros de magia com trolls são ou não comuns hoje. Desconfio que não, todavia. Aqui no Brasil temos a tradição da Encantaria, que é uma prática afro-indígena, em que predomina a transmissão oral, assim como na Umbanda, o que nos relega, enquanto curiosos olhando de fora, a ter que nos contentarmos com as descrições antropológicas15. Acredito que a tradição mágica que lida com esse tipo de seres que nos deixou uma maior quantidade de material por escrito sobre o tema, íntegro e coeso, seja a islâmica: o célebre Shams al-Marif, por exemplo, lá do século XIII, já lista quais são os versos do Corão e quais os protocolos a se seguir para a conjuração de um djinn. Dá para achar alguns livros de autores contemporâneos também, mas sua procedência é difícil de determinar. E, embora houvesse, já no medievo, práticas mágicas consideradas lícitas dentro de um contexto islâmico, como magia natural e a invocação dos nomes de Allah, magia com djinns sempre foi haram… o que, de novo, os aproxima das fadas europeias e sua suposta conexão com o Diabo.

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Como dito, se na primeira parte desta série de textos falamos de seres muito ligados a práticas teúrgicas, com os dáimones e seres “folclóricos” estamos mais próximos da matéria e da natureza. Por conta disso, o trabalho nessa linha tem um potencial de ser bastante produtivo, porque essa proximidade se traduz numa maior facilidade para manifestar resultados no plano físico, mas exige, em contrapartida, mais experiência da parte do magista, porque há um maior elemento de perigo aí – tanto que a maior parte do material “folclórico” que diz respeito a fadas, djinns, trolls e afins tende a mencionar mais as formas de afastá-los do que atraí-los.

Na semana que vem, daremos continuidade a esse tema da dualidade entre perigo e utilidade, quando encerraremos a nossa série com a parte III, sobre entidades-pensamento, demônios e parasitas.

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  1. Desnecessário dizer, né, que eu não subscrevo à visão solipsista ou antropocêntrica de que seres espirituais são apenas “aspectos da nossa psiquê” ou qualquer coisa assim. ↩︎
  2. Um hábito que me incomoda demais no ocultismo contemporâneo brasileiro é quando falam “os dáimon(e)s” para se referir a seres historicamente chamados de demônios dos grimórios goéticos da tradição salomônica, da tradição do Verum etc. Isso não é só porque eu prefiro separar dáimones de demônios na minha categorização, mas porque, mesmo que esses espíritos fossem dáimones (ou possam ser também dáimones), usar o termo “os dáimones” para falar deles é como falar “música” para se referir a apenas um único gênero musical. ↩︎
  3. Energeia é o termo que aparece no CH, que pode ser traduzido tanto como energia, no seu sentido esotérico, quanto por “atividade”. ↩︎
  4. Seus nomes são Demuez, Armez, Ceylez, Mahaz, Erdaz, Tamyz, Feruz, Dyndez, Afrayuz, Tayhaciedez (fonte). Posteriormente, o autor cita os nomes dos espíritos dos outros planetas também. ↩︎
  5. Pelo meu entendimento, quando fazemos isso, estamos agindo a partir do plano mental (em que os sigilos, enquanto padrões abstratos, operam), o que cria algo como um molde que é aplicado sobre o astral. Quando trabalhamos com visualizações também estamos moldando o astral, mas aí é agindo diretamente nesse plano, enquanto no outro método isso vem de cima e possibilita que as formas pelas quais o ser será percebido clarividentemente variem. Via de regra, no entanto, essas formas tendem a ser reflexos da natureza das energias envolvidas, por isso que dáimones de Marte tendem a ser vermelhos e a aparecer como se armados, dáimones solares são dourados, radiantes e de aspectos régios etc. ↩︎
  6. Marsilio Ficino, De Vita, Livro III, cap. 14. ↩︎
  7. Num exemplo específico da magia cerimonial, aliás, fadas aparecem inseridas dentro da mesma tecnologia mágica para conjuração de demônios no manuscrito conhecido como The Book of Oberon. ↩︎
  8. Recomendo demais a leitura desse artigo da revista Pacific Standard sobre djinns em Bahla, Omã. ↩︎
  9. John Michael Greer, Monsters (p. 109). ↩︎
  10. Vinagre frequentemente é usado em práticas de exorcismo contra djinns. ↩︎
  11. Seus nomes, segundo Nineveh Shadrach (Magic that Works), são: Al-Abeyadh Abba Al-Nur (Lua),Burqan Abbu Al-A‘aja’eb (Mercúrio), Zawba‘ah Abba Al-Hhasan (Vênus), Al-Mazhab Abba Deebaj (Sol), Zawba‘ah Abba Al-Hhasan (Marte), Shemhuresh Abbu Al-Waleed (Júpiter) e Maymon Abba Nuch (Saturno). O fato de o djinn de Saturno se chamar Maymon me faz pensar se, por um acaso, a tradição dos tais quatro reis demoníacos das direções na magia europeia não deriva dos djinn dessa tradição. ↩︎
  12. O que exatamente ofertar varia. É comum se fazer oferendas de água pura, bebidas alcoólicas, mel, frutas e tabaco. Evite sangue. Na dúvida, vale oracular. Para mais informações sobre a interação com seres da natureza, recomendo o livro Consorting with Spirits, do Jason Miller. ↩︎
  13. BJ Swain, Living Spirits (cap. XVIII – Fairies). ↩︎
  14. Cf. Carl Nordblom, Historiola: The Power of Narrative Charms. ↩︎
  15. Sobre o assunto, cf. J. Reginaldo Prandi. Encantaria brasileira: o livro dos mestres, caboclos e encantados. ↩︎

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